Romance, erotização, violência, relações de poder e personagens controversos. Esses são alguns dos elementos que podem aparecer nas histórias de “dark romance”, ou “romance sombrio” em tradução livre. O gênero literário tem ganhado força entre leitores, principalmente o público jovem, passando a ocupar cada vez mais as prateleiras das livrarias e grandes eventos literários.
Na Bienal do Livro de São Paulo, realizada no início de setembro, o dark romance esteve entre os assuntos de maior visibilidade nesta edição que foi recorde de público. Vídeos publicados nas redes sociais mostraram um homem usando uma máscara semelhante à do Ghostface, personagem da franquia Pânico, interagindo com visitantes no estande da editora Fruto Proibido.
Em algumas imagens, o homem aparece beijando uma mulher, posando de maneira obscena com leitores e realizando simulações de agressão. Os registros viralizaram e levaram a organização da Bienal a notificar a editora e emitir nota afirmando que o episódio não fazia parte da programação, nem de qualquer ação oficial promovida ou autorizada pela organização.
Após a repercussão, a editora afirmou que não contratou, convidou ou solicitou a presença do homem mascarado. Segundo a empresa, a participação ocorreu espontaneamente e, inicialmente, foi recebida pela equipe e pelos visitantes como uma interação descontraída.
O episódio colocou o dark romance no centro das conversas sobre a presença de conteúdos adultos em grandes eventos públicos, como a Bienal. No entanto, o crescimento do gênero levanta uma preocupação sobre a influência do gênero literário não apenas ao mercado editorial, mas também aos pais, educadores e aos próprios leitores.
Para a psicóloga clínica Elaine Cruz, especialista em Terapia Familiar, mestre em Educação e Teologia e autora de dez livros, o fenômeno pela busca desse tipo de literatura não surgiu de maneira isolada. Na avaliação da especialista, o mercado editorial também reflete uma sociedade que já vem sendo exposta a conteúdos envolvendo erotização e violência em diferentes formas de entretenimento.
“Na realidade, o mercado editorial reflete a sociedade que está ali clamando por algum tipo de produto para que ela possa consumir, ao mesmo tempo que a sociedade reflete aquilo que o mercado editorial está produzindo”, avalia.
Para Elaine, existe um ciclo em que os hábitos de consumo da sociedade alimentam o mercado e, ao mesmo tempo, os produtos oferecidos passam a influenciar aquilo que o público procura.
A preocupação aumenta quando determinados comportamentos deixam de aparecer apenas como elementos de conflito e passam a ser apresentados como parte do próprio romance. Na avaliação da psicóloga, a exposição a conteúdos que associam sexualidade, agressividade, violência ou relações de submissão pode influenciar a maneira como determinadas situações são percebidas.
Segundo Elaine, o cérebro não identifica necessariamente como diferentes as informações provenientes de experiências vividas, histórias lidas ou situações imaginadas. Por isso, na avaliação dela, conteúdos absorvidos por meio da ficção podem permanecer como referências utilizadas posteriormente para influenciar emoções, pensamentos e relacionamentos.
“Uma pessoa que lê livros com agressão, com violência, com a sexualidade exacerbada, com questões de passividade, de agressividade, de sexualidade distorcida, ela lê livros, ela vê imagens, ela vê um filme. Quando o cérebro dela absorve essa informação, seja na forma de imagem, seja na forma de leitura, ou seja, imaginando aquilo que está sendo visto ou aquilo que está sendo lido, o cérebro guarda como se aquilo fosse real. O cérebro não identifica o que é real do que é imaginário”, explica.
Outro ponto destacado pela especialista é a possibilidade de normalização de determinados comportamentos. Para Elaine, quando situações de controle, manipulação, agressividade ou abuso são apresentadas repetidamente como desejáveis, isso pode interferir na construção de referências sobre amor, respeito, limites e relacionamentos.
“Essa normatização forçada de situações de agressão, de sadomasoquismo, de manipulação emocional, como se ser bandido, ser agressivo, ser violento fosse algo que as meninas pudessem admirar, isso sem dúvida alguma deturpa a noção de respeito, deturpa a noção de cuidado corporal, deturpa a noção de relacionamento, de família e do que é que eu vou procurar ”, afirma ela.
A preocupação não se restringe aos adolescentes. Jovens e adultos também podem estabelecer relações problemáticas com determinados conteúdos. Segundo Elaine, a frequência e a intensidade do consumo são fatores que merecem atenção, principalmente quando aquilo que começa como uma preferência passa a ocupar espaço crescente na vida da pessoa.
Na avaliação da psicóloga, hábitos repetitivos podem evoluir para comportamentos compulsivos. Um dos sinais de alerta seria quando o conteúdo deixa de ser apenas algo consumido na ficção e passa a ser buscado ou reproduzido na vida real.
Elaine também relaciona a literatura erótica à exposição a conteúdos pornográficos. “Pornografia é tudo aquilo que vai exacerbar a questão da sexualidade, que vai deturpar uma sexualidade sadia”, alerta a especialista.
Um relato publicado nas redes sociais ajuda a ilustrar essa discussão. Uma leitora contou que começou a ler literatura erótica aos 18 anos e, depois de consumir algumas obras, passou a procurar histórias progressivamente mais explícitas. Segundo seu relato, durante cerca de três anos ela leu praticamente apenas esse tipo de conteúdo e chegou a perceber uma relação que considerava semelhante a um vício em pornografia. Ela conta que, posteriormente, decidiu retomar outros gêneros, como clássicos, suspense e mangás, e conseguiu modificar gradualmente seus hábitos de leitura.
A psicóloga afirma que o cuidado com os adolescentes deve ser relação ao acesso a qualquer conteúdos inadequados para a idade, como livros, redes sociais, vídeos, jogos ou amizades. Ela ressalta que os pais devem conhecer aquilo que os filhos leem, assistem e acessam, mas também devem se preocupar em serem exemplos.
“A gente precisa lembrar sempre que os valores cristãos a gente passa pelo exemplo dentro de casa. Então não adianta nada pai e mãe estarem gerindo o que os filhos lêem. Se eles são os primeiros a ver séries pornográficas, a ver novela que fala de adultério, a ver filmes violentos, a assistir seriados sobre sadomasoquismo, ver filme pornográfico”, afirma Elaine.
Em uma época em que tendências literárias chegam rapidamente às telas dos celulares e novos títulos podem viralizar em poucos dias, conhecer aquilo que está fazendo sucesso também é uma forma de compreender a cultura ao nosso redor. No entanto, a questão não envolve apenas saber se determinado livro ou gênero literário está fazendo sucesso, e sim, se o conteúdo é compatível com os valores e princípios que orientam a própria vida.
Por Daiene Cardoso


