Colunistas

Pr. Silas Daniel

Pr. Silas Daniel

Uma análise sobre a crise espiritual da igreja evangélica nos Estados Unidos (Parte 1)

Ter, 25/05/2021 por

De 1990 para cá, enquanto o evangelho tem experimentado um verdadeiro “boom” de crescimento nas Américas Central e Sul, no continente africano e na Ásia, o que se vê nos Estados Unidos é uma queda vertiginosa. E essa queda, frise-se, não é só em relação aos evangélicos: é uma queda do cristianismo ali de forma geral, de 1990 para cá, e de forma impressionante. Vejamos primeiro o caso específico dos evangélicos, que é o que mais nos toca.
 
Em 1990, os evangélicos eram 60% da nação. Em 2007, eles eram 51%; em 2012, 48%; em 2014, 47%; em 2018, 43%; e em 2021, 40%. Veja: de 1990 a 2021, em apenas 31 anos, os evangélicos nos EUA caíram de 60% da população para, segundo o levantamento do Instituto Gallup publicado em março deste ano, apenas 40% (sic). Isso é uma queda de um terço em apenas três décadas! Isso é maior, por exemplo, do que a queda do catolicismo no Brasil.
 
Em 1970, os católicos eram 91,8% da população brasileira; e em 2010, 64,6% – ou seja, uma queda de 29,6% em quatro décadas, enquanto nos EUA os evangélicos caíram 33,3% em apenas três décadas. Outra coisa: os católicos no Brasil caíram percentualmente, mas continuam crescendo numericamente, enquanto os evangélicos nos EUA, nas três últimas décadas, caíram percentual e numericamente.
 
Em 1776, ano da independência dos EUA, os evangélicos eram 97,6% da população norte-americana; no ano de 1900, eram 90% – ou seja, após 124 anos, houve uma queda irrisória percentualmente falando, sem falar que, em contrapartida, houve enorme crescimento numérico dos evangélicos nesse período. É apenas durante o século 20 que haverá a primeira queda percentual realmente significativa dos evangélicos nos EUA, mas, mesmo nesse caso, há ainda ressalvas importantes. É verdade que de 1900 a 1990 os evangélicos nos EUA caíram de 90% para 60% da população, uma queda também de 33,3%; mas, além de essa queda ter se dado em 90 anos e não em 30 anos (ou seja, durou três vezes mais tempo), há sobretudo o fato de que, nesse período, os evangélicos continuaram crescendo numericamente de forma muito significativa, o que não ocorreria de 1990 em diante. A queda percentual de 1900 a 1990 se devia não a uma falta de crescimento dos evangélicos, mas ao crescimento exponencial da imigração para os EUA de latinos, italianos e irlandeses durante o século 20, o que fez aumentar imensamente o número de católicos no país.
 
Ou seja, em termos percentuais, a única diferença do cristianismo nos EUA no século 20 (pelo menos até 1990) em relação ao dos primeiros 124 anos da história daquele país é que, por questões meramente imigratórias, a massa geral de cristãos norte-americanos passou a ser mais heterogênea no século 20, com grande porcentagem de católicos. No mais, os cristãos em geral continuavam sendo a esmagadora maioria da população, permanecendo em torno dos 90%.
 
Por outro lado, quando olhamos para o período subsequente, de 1990 a 2021, vemos exatamente o contrário:
 
(1) Houve uma queda abrupta do número de evangélicos, da ordem de 33,3%, em apenas 31 anos!
 
(2) Essa queda não foi apenas percentual, mas numérica. A população dos EUA em 1990 era de 250 milhões de pessoas, o que significa dizer que, se 60% da população era evangélica nessa época, havia 150 milhões de evangélicos no país naquele tempo. Já em 2021, quando a população dos EUA é de 330 milhões de pessoas, apenas 40% da população é evangélica, o que significa que há atualmente 132 milhões de evangélicos naquele país – isto é, 18 milhões a menos do que 31 anos atrás. Isso é mais do que a população da Holanda, mais do que a população do estado do Rio de Janeiro. Em outras palavras, nem o crescimento vegetativo foi suficiente para cobrir o buraco crescente de evasão dos anos que se seguiram.
 
(3) Trata-se também de uma queda dos cristãos no país de forma geral, ou seja, os católicos inclusos. Estes caíram de 30% para 20% em 31 anos. Segundo o Gallup, se somarmos católicos e evangélicos hoje nos EUA, eles representam juntos 60% do país, a mesma porcentagem que os evangélicos representavam sozinhos naquele país até 1990, isto é, um dia desses. Se considerarmos de 2007 para cá, isto é, apenas os últimos 14 anos, a queda do número de cristãos nos EUA foi de incríveis 15% – de 75% de cristãos em 2007 para 60% em 2021. Em 2007, havia 225 milhões de cristãos nos EUA, enquanto em 2021 há apenas 198 milhões – 27 milhões a menos, ou seja, quase 2 milhões a menos por ano. Isso significa que não está ocorrendo nos EUA uma forte migração de cristãos de um segmento para outro do cristianismo (como ocorre no Brasil) sem afetar o número geral de cristãos no país, mas uma queda mesmo do número de cristãos de forma geral, sejam eles evangélicos ou católicos.
 
Aqui, um parênteses para uma curiosidade: segundo pesquisa Datafolha de 2016, 48% dos evangélicos no Brasil nasceram em lares evangélicos e sempre foram a vida toda de uma única denominação; 44% são católicos que se tornaram evangélicos; 4% são evangélicos que migraram de denominações tradicionais para igrejas pentecostais; 2% vieram do espiritismo para a igreja; 1% é de pentecostais que migraram para igrejas tradicionais; e o 1% restante veio da umbanda, do candomblé e de outras religiões para a igreja. Isso significa dizer que 48% é fruto de crescimento vegetativo, 47% é fruto de evangelização e 5% é de crentes que migraram entre denominações, com a migração sendo 4 vezes maior de tradicionais se tornando pentecostais e não o contrário. 
 
Mas, voltemos aos Estados Unidos.
 
A pesquisa nos EUA supracitada, de março deste ano, feita pelo Instituto Gallup, também revelou que, pela primeira vez na história, menos da metade dos norte-americanos – sejam eles católicos, evangélicos, ortodoxos, judeus ou islâmicos – pertencem a alguma igreja, sinagoga ou mesquita. Mais precisamente, apenas 47% dos norte-americanos se declaram membrados a alguma casa de culto, seja igreja, sinagoga ou mesquita. Desde 1937, o Gallup faz levantamentos sobre a religiosidade nos EUA e, segundo esses levantamentos, de 1937 a 2000, o número de norte-americanos que se declaravam filiados a alguma casa de culto oscilou de 76% a 68%, sendo que no ano 2000 era de 70%. Porém, de 2000 a 2020, foi só ladeira abaixo: em 2005, eram 64%; em 2010, 61%; em 2015, 55%; e em 2020, 47%. Isso significa uma queda de 23 pontos percentuais em 20 anos, enquanto de 1937 a 2000 – isto é, em 63 anos – foram apenas 6 pontos percentuais de queda.
 
Enquanto isso, o número de pessoas que se declaram sem nenhuma religião nos EUA chegou a 21% em 2021, segundo o Gallup, mas pode ser pior, já que, segundo outros censos divulgados também em março deste ano, esse número já seria de 30%. Os cristãos em geral (católicos, ortodoxos e protestantes) caíram para 63% em 2019, segundo o Pew Research, e para 60% em 2021, segundo o Gallup. Lembrando que apenas um terço dos evangélicos nos EUA frequentam a igreja toda semana – ou seja, a grande maioria não o faz.
 
Portanto, hoje temos 30% da população norte-americana de pessoas sem religião e apenas 40% de evangélicos, mas com só um terço deles indo à igreja; e cristãos ao todo são apenas 60% da população e caindo (há apenas 30 anos, eram cerca de 90%). Traduzindo: os sem-religião já são METADE do tamanho dos cristãos no país e só 25% menor que a quantidade de evangélicos nos EUA – e se você comparar apenas com os evangélicos praticantes, os sem-religião JÁ SÃO o maior grupo no país. Sem dúvida alguma, a igreja está perdendo terreno nos Estados Unidos.
 
Bem, há pelo menos algum sinal à vista hoje de que isso pode mudar? Infelizmente, não. Segundo outro levantamento feito, cresce a cada ano o número de crentes nos EUA que não compartilham a sua fé como deveriam – inclusive o número daqueles que nem fazem mais isso.
 
O Instituto Barna fez três levantamentos sobre isso nos EUA – um em 1993, outro em 2018 e um mais recente em 2019, os dois últimos com resultados assustadores. Na pesquisa de 1993, 89% dos crentes entrevistados afirmavam que todo cristão tem a responsabilidade de compartilhar a sua fé, o que nada mais é do que cumprir a Grande Comissão instituída pelo Senhor Jesus em Mateus 28.19,20 e Marcos 16.15. Porém, em 2018, apenas 64% afirmaram concordar com isso – uma queda de 25 pontos percentuais em 25 anos. Para piorar, uma pesquisa do Barna realizada ano passado revelaria ainda que 47% dos cristãos nos Estados Unidos situados na “Geração Y” ou “Millennial” (nascidos entre os anos de 1980 e 2000 – ou seja, pessoas com a idade hoje entre 39/40 e 19/20 anos) simplesmente afirmavam considerar errado evangelizar, numa demonstração de que a cultura pós-moderna do “politicamente correto” e do relativismo cultural, que absurdamente considera o evangelismo algo “ofensivo”, já contaminou praticamente metade da juventude evangélica norte-americana de nossos dias.
 
O esfriamento evangelístico tem afetado as igrejas evangélicas nos EUA de forma geral, de maneira que, se não se cuidarem, elas poderão ter o mesmo fim do protestantismo europeu. Em 2018, segundo pesquisa do Pew Research Center, não obstante 64% da população europeia ainda se dizer cristã, 70% destes eram não-praticantes. Isso significa dizer que somente 30% dos cristãos europeus (o equivalente a 18% da população da Europa) eram cristãos praticantes, que não apenas professavam a fé, mas também frequentavam suas igrejas.
 
Ora, com menos cristãos engajados, menos evangelização; e com menos evangelização, a igreja não cresce. Essa é a realidade da Europa já há algum tempo e é a dos EUA também hoje.
 
Como os EUA chegaram a isso? No próximo artigo, pretendo tratar das principais razões desse declínio.

9 comentários

RANIERI ALMEIDA DO NASCIMENTO

A Paz pastor Silas Daniel, aguandando a segunda parte ansiosamente

Silas Daniel

Irmão Joares, a Paz do Senhor! Esses fatores podem estar contribuindo, mas vejo um problema ainda maior do qual alguns desses fatores podem ser apenas os sintomas e não a causa direta. Pretendo trabalhar isso na parte 2.

Silas Daniel

Amém, irmão Reginaldo. Oremos pela igreja nos EUA

Silas Daniel

A Paz, irmão Josué! Nesta semana sai a parte 2.

Silas Daniel

Sérgio Luís, a Paz do Senhor! Sim, há vários fatores que podem ser elencados para explicar o fenômeno, mas eu acho que nenhum deles responde perfeitamente qual a razão, porque todos são fatores vistos em outros lugares também, e simultaneamente, mas com resultados diferentes. No próximo artigo, direi o que acho.

Joares Reis Junior

A Paz pastor. Muito bom o artigo. Os dados são preocupantes. Tenho uma pergunta: - o quanto tem aumentado a participação nos partidos democrata e republicano? Estão substituindo a "evangelização" por participação política? Com relação às causas, uma é fácil: liberalismo teológico que entrou nos seminários americanos na década de 1960 e, agora colhe o fruto. Pastores mais preocupados com a política do que com o Reino de Deus. Isso para igrejas de todas as comunidades, mesmo na negra.

Reginaldo Conceição do Nascimento

Muito esclarecedor brilhante pesquisa feita pelo nosso querido pastor Silas Daniel este artigo nos faz refletir a respeito em que está focado as nossas orações

Josué de Souza Abolaro

A paz do Senhor Ansioso pelo próximo artigo. Josué Abolaro

Sérgio Luís

A paz do Senhor meu irmão. As explicações para esse "fenômeno" são as mais variadas; e cada um tem seu próprio conceito. Eu acredito que em relação aos EUA, a fé evangélica me parece mais "declarada" do que "praticante." Em relação a América do Sul,especialmente,o Brasil,o crescimento das "igrejas" não demonstra um avivamento. Mas, é só a minha opinião. Deus nos abençoe

Deixe seu comentário







Perfil

Silas Daniel é pastor, jornalista, chefe de Jornalismo da CPAD e escritor. Autor dos livros “Reflexão sobre a alma e o tempo”, “Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos”, “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, “Como vencer a frustração espiritual” e “A Sedução das Novas Teologias”, todos títulos da CPAD, tendo este último conquistado o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra de Apologética Cristã no Brasil em 2008.

COLUNISTAS