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Pr. Silas Daniel

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Elias Letwaba (1870-1959) – O maior evangelista das primeiras décadas do pentecostalismo na África do Sul

Ter, 04/05/2021 por

O evangelista pentecostal Elias Letwaba, muito pouco conhecido hoje, foi o maior evangelista pentecostal das primeiras décadas do pentecostalismo na África do Sul. O canadense-americano John G. Lake (1870-1935), sabemos, foi o grande pioneiro do pentecostalismo naquele país, mas não foi o principal instrumento de disseminação da mensagem pentecostal ali. A igreja fundada por Lake e o pentecostalismo naquele país só ganhariam o tamanho e alcance que ganharam nos anos seguintes por causa do trabalho incansável de Letwaba, que é reconhecido pelos historiadores como o mais influente pregador pentecostal da história da África do Sul. 
 
Letwaba era filho de pais luteranos, convertidos pelo trabalho da Missão Luterana de Berlim na África do Sul. Sua família vivia em Middlesburg, Transvaal, Ndebele. Seu pai foi o primeiro a se converter a Cristo. Sua mãe, que após a conversão do marido passou a ser inicialmente apenas uma cristã nominal, viria a se converter de fato logo depois de uma visão que teve quando estava moendo trigo seis meses antes do nascimento de Letwaba. Conta ela que, enquanto estava envolvida nessa atividade, lhe apareceu um homem vestido de branco, parado na frente dela, o qual lhe disse: “Em breve você terá um menino forte. Ele será um mensageiro para mim, para levar minha mensagem do Evangelho a muitos lugares. Ele sofrerá muita perseguição e cansaço, mas estarei com ele e o protegerei até sua morte, tornando-o um meio de bênção para milhares e um instrumento em minhas mãos para estabelecer muitas igrejas cristãs”. 
 
Na casa de Letwaba, era frequente a visita de professores, missionários e professoras visitantes, de maneira que seus pais, ele e seus irmãos foram educados pelos missionários luteranos, que, inclusive, lhes ensinaram o holandês para terem acesso a livros. Porém, de todos da família, o mais aplicado era o jovem Letwaba, que, devido à sua dedicação, passou a dominar sete idiomas: holandês, inglês e alemão, e as línguas nativas tonga, zulu, suto e xosa. O interesse do rapaz pelas coisas de Deus também era notório. Então, por ocasião da visita de um pregador à sua família, Letwaba criou coragem de falar a seus pais que se sentia chamado por Deus para se dedicar totalmente à pregação do Evangelho. 
 
Aos 19 anos, Letwaba visitava as aldeias sul-africanas com seu irmão Wilfred, de 12 anos, para pregar a Palavra de Deus a quem quisesse ouvir. Foi nessa época que ele passou a usar o nome Elias. Sua fé naquilo que afirma a Palavra de Deus era marcante. Conta-se, por exemplo, que, certo dia, ao ler as Escrituras, sentiu Deus falar-lhe ao coração através do texto de Mateus 8.16-17, que diz: “E, chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados, e ele com a sua palavra expulsou deles os espíritos, e curou todos os que estavam enfermos; para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças”. Após essa leitura, Letwaba resolveu orar com fé pela cura das enfermidades. Quando isso aconteceu pela primeira vez, ele estava em Heidelberg. Ali, ele conheceu uma mulher cuja filha tinha 14 anos de idade e era paralítica de nascença. Logo, sentiu de orar pela garota e o fez, indo em seguida embora. Cinco anos depois, Letwaba ficaria sabendo que imediatamente após a sua saída, a menina se levantou completamente curada. Anos depois, ele contaria que, todas as vezes que orava por um doente, ele sabia quando o enfermo estava sendo curado quando ele sentia um formigamento nas suas mãos e em seu coração enquanto orava pela pessoa – algo que tinha acontecido no dia da cura da garota. Claro que isso não deve servir de padrão para todo mundo; apenas, no caso dele, era a forma como Deus sinalizava para Letwaba que estava agindo através de sua intercessão. 
 
Após frequentar uma escola missionária, Letwaba foi, aos 20 anos de idade, ordenado evangelista pela Missão Luterana de Berlim, que o encaminhou para Lydenburg, para pregar ao povo da etnia-linguística Bapedi. Ali, ele permaneceu por 17 anos, ou seja, até o ano de 1907. O que fez Letwaba sair dali foi o fato de que ele passou a achar a Missão Luterana de Berlim fria espiritualmente e um pouco relaxada em relação ao pecado. Ele também sentia que havia ausência de poder espiritual em seu ministério. Se ele começara sua vida de pregação com muito fervor, inclusive vendo Deus curar uma moça através de sua oração, agora a sensação era de impotência. O seu ensino, dizia ele, “se concentrava nas tradições dos homens em vez da Palavra de Deus”. 
 
O coração de Letwaba estava ardendo por mais santidade, por mais consagração a Deus. Além disso, ele estava lutando contra um pecado pessoal. Nesse período de angústia espiritual, Letwaba adoeceu fisicamente, chegando a ficar à beira da morte. Foi quando Jesus apareceu a ele em um sonho e disse que Letwaba deveria confessar seus pecados e seria curado da enfermidade que sofria. O jovem obreiro teve inicialmente medo de perder sua reputação, mas logo depois foi até aqueles contra quem havia pecado, pediu perdão ​​e depois foi à sua esposa e aos missionários da Missão Luterana de Berlim com quem trabalhava para expor tudo. Como Jesus lhe prometera, ele foi completamente restabelecido. Então, Letwaba deixou os luteranos de Bepedi e passou a visitar outros grupos que pudessem lhe mostrar mais de Deus. Ele sentia que havia algo mais e começou a clamar a Deus para que o poder divino se manifestasse em sua vida enquanto visitava outras igrejas. Foram quase dois anos visitando denominações diferentes, sendo que apenas três delas foram realmente importantes para ele. 
 
A primeira foi a evangélica Igreja Católica Etíope em Rand, liderada pelo Rev. Samuel Jacobus Brander, que saíra da Igreja Episcopal Metodista na África do Sul. Letwaba passaria algum tempo ali, inclusive ajudando na liderança da igreja. Depois, ele frequentaria a renovacionista Igreja Apostólica de Zion, em Joanesburgo, fundada por crentes vindos dos EUA que eram ex-seguidores do excêntrico pastor congregacional norte-americano John Alexander Dowie (1847-1907), que se notabilizou por um ministério de cura divina no século 19, mas que, devido aos radicalismos e ao personalismo que foi desenvolvendo com o passar do tempo, teve um péssimo final em seu ministério. O nome da igreja era inspirado no mesmo nome da igreja fundada por Dowie nos EUA e, assim como aquela, ela era uma igreja não-pentecostal, mas renovacionista. Mesmo ali, o coração de Letwaba continuava faminto por mais, de maneira que ele disse a um dos anciãos da igreja: “Jejuei e chorei muitas lágrimas amargas. Fico acordado à noite, desejando santidade e o poder de Deus, mas os missionários com quem trabalhei e os pregadores nativos com quem eu me associei apenas me consideram um excêntrico e riem de minhas dores. Oh, diga-me: onde posso encontrar o que preciso?”. 
 
O ancião então disse-lhe que John Graham Lake (1870-1935) e Thomas Hezmalhalch (1847-1934), os quais havia conhecido na Igreja Apostólica Zion nos EUA, de Dowie, da qual haviam saído para abraçar o Movimento Pentecostal (John G. Lake, via Charles Parham; e Thomas Hezmalhalch, via Seymour em Azusa), estavam pregando na antiga missão Zulu e que Letwaba deveria ir lá ouvi-los. Conta-se que as reuniões realizadas por Lake e Hezmellhalch em Doorfontein em abril de 1908 foram “como se um ciclone espiritual tivesse atingido a cidade, com centenas de pessoas sendo curadas e milhares sendo salvas”. 
 
Ao conhecer John G. Lake, este convidou Letwaba para subir ao palco onde ele estava pregando, atitude que irritou muitos dos participantes brancos que estavam na reunião. Lake, no entanto, recusou-se a ser intimidado e beijou o rosto de Letwaba, dando-lhe boas-vindas à reunião. Diante desse ato, algumas pessoas se revoltaram e passaram a ameaçar expulsar Letwaba do culto, logo Lake disse: “Se vocês o expulsarem, eu também irei sair”. Então, “o coração de Letwaba se fundiu com o de Lake a partir desse ponto. Letwaba seguiu Lake até sua casa, onde Lake compartilhou o que estava no seu coração com ele”. Tornaram-se grandes amigos. Em maio de 1908, Lake e Hezmellhalch fundam a Missão de Fé Apostólica na África do Sul. Meses depois, quando eles estavam se preparando para ir a Bloemfontein, convidaram Letwaba para acompanhá-los, e ele foi. Ali, em 9 de fevereiro de 1909, Letwaba seria batizado no Espírito Santo com evidência de falar em outras línguas. Após ser batizado no Espírito Santo, ele voltou para sua casa e compartilhou a experiência que tivera com o seu pai. Este creu, recebeu a oração com imposição de mãos do filho e imediatamente começou a falar em línguas. 
 
Após a experiência pentecostal, Letwaba passou a viajar constantemente com Lake e Hezmellhalch pregando a Palavra de Deus na África do Sul. Mas, não demorou muito para que ele iniciasse seu próprio ministério itinerante. Inicialmente, Letwaba convidou Lake e Hezmellhalch para ir à sua região natal, Potgietersrus. Eles vieram, cada um pregando alguns dias em épocas diferentes. Letwaba ministrava com eles e muitos eram salvos e alguns enfermos eram curados. Então, Letwaba falou-lhes que sentia fortemente em seu coração que eles deveriam ir evangelizar Zoutpansberg, no norte do país. Eles atenderam à orientação, mas, chegando lá, além das conversões, alguns membros da equipe contraíram malária, com dois deles morrendo, dentre eles a esposa de Lake, o que abateu muito o pioneiro. Logo, Letwaba passou a fazer as viagens evangelísticas sozinho. 
 
Um dos relatos sobre seu ministério nesse período afirma que “ele foi espancado, apedrejado, chutado e abusado verbal e fisicamente, mas continuou porque havia um incêndio em seus ossos. Letwaba começou seu ministério fazendo caminhadas de centenas de quilômetros para visitar vilarejos remotos. Onde quer que fosse, ele orava pelos enfermos e pregava o evangelho”. 
 
Conta-se que certa vez ele chegou em uma aldeia que estava vivendo um longo período de seca, de maneira que todos os animais estavam morrendo, e as pessoas não queriam saber do evangelho. Então, Letwaba, cheio do Espírito Santo, inspirado por Deus, disse aos moradores daquela aldeia: “Eu declaro a vocês hoje, pela Palavra de Deus, que amanhã a esta hora vocês terão a chuva de que precisam. Seus campos e seu gado serão salvos, e vocês saberão que Deus ainda vive para responder às orações daqueles que acreditam nEle”. Letwaba passou aquela noite inteira em oração e pela manhã a chuva caiu sobre a aldeia. Como resultado, a aldeia se abriu para o evangelho e centenas de vidas vieram a Cristo. 
 
Conta-se também que Letwaba era um homem de muita oração, chegando a passar horas e horas em oração diante de Deus todos os dias. Fala-se que, certa feita, ele estava orando em um prédio que estava sendo pintado por descrentes e estes, vendo-o orando, começaram a zombar dele, quando, de repente, o prédio começou a estremecer, de maneira que os homens fugiram e se recusaram a trabalhar novamente no lugar até que Letwaba terminasse seu tempo de oração. 
 
À medida que o tempo passava, várias igrejas da Missão de Fé Apostólica eram abertas pelo trabalho evangelístico de Letwaba, que recebeu a direção das igrejas nativas em Zoutpansberg, Waterberg e Middleberg. Percebendo que a seara era grande, mas os obreiros eram poucos (Lake e Hezmellhalch haviam deixado a África do Sul em 1913 e 1912 respectivamente), Letwaba sentiu a necessidade de fundar uma escola para preparar obreiros e treiná-los para a liderança de igrejas. Ademais, ele também percebia que muitos dos novos crentes tinham pouco conhecimento bíblico e por isso eram presas fáceis ao erro. Logo, a escola serviria para esses dois fins. Então, em 1924, ele abre a Escola Bíblica de Patmos, em Potgietersrus. Ela incluía dormitórios para os alunos e uma escola para as crianças. O curso era de três anos. Letwaba alimentava os alunos da sua própria renda e com um pequeno salário da Missão de Fé Apostólica. Ele era o principal professor (nos primeiros anos, o único), treinando extensivamente seus alunos na Bíblia, mas também incluindo em suas aulas “habilidades práticas de fala e comportamento, bem como o ensino dos idiomas inglês e holandês”. 
 
Como fruto do seu trabalho evangelístico, Letwaba cuidava agora de 37 igrejas, algumas com mais de mil membros. Como fazer, então, para estar em todas elas, já que ele não tinha tantos obreiros no início para ajudar? Ele fazia o seguinte: cada domingo, ele dirigia cultos em 5 ou 6 igrejas, começando a primeira reunião às 5h30 da manhã e a última às 9h da noite. E mais: “Durante a semana, ele ensinava seis horas por dia na escola bíblica. Ele continuou na escola até 1935, quando tinha 65 anos. Suas congregações eram tribais e muitas vezes seus sermões tinham que ser proferidos por meio de dois ou três intérpretes. Ele tinha um coração voltado para a santidade. Ele era um pregador fervoroso e via curas e milagres em seu ministério. É relatado que ele viu cerca de 10.000 curas em sua vida”, dentre elas até “ressurreição de mortos”.
 
Letwaba morreu muito respeitado, em 1959, aos 89 anos. Apesar de desejar muito, ele e a esposa não tiveram filhos naturais, mas eles tiveram dezenas de milhares de filhos espirituais, filhos na fé. A vida de Letwaba pode ser encontrada nas obras John G. Lake – Apóstolo para a África, de Gordon Lindsey; e When God Makes a Pastor, de W. F. P. Burton, publicada originalmente em 1934. 

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Perfil

Silas Daniel é pastor, jornalista, chefe de Jornalismo da CPAD e escritor. Autor dos livros “Reflexão sobre a alma e o tempo”, “Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos”, “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, “Como vencer a frustração espiritual” e “A Sedução das Novas Teologias”, todos títulos da CPAD, tendo este último conquistado o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra de Apologética Cristã no Brasil em 2008.

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