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Pr. Silas Daniel

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Celso Lopes dos Santos (1942-1981) – Um dos maiores evangelistas pentecostais brasileiros de sua geração

Seg, 26/04/2021 por

Não há sombra de dúvida de que as Assembleias de Deus no Brasil têm sido agraciadas com grandes evangelistas em sua história. Porém, seguindo a proposta desta série de artigos semanais nesta coluna, que é lembrar grandes evangelistas pentecostais do passado que são pouco lembrados em nossos dias, quero falar hoje de um que foi um dos maiores de sua geração, mas que acabou sendo esquecido nas gerações seguintes por certas circunstâncias históricas que serão tratadas aqui. Refiro-me ao evangelista Celso Lopes dos Santos (1942-1981). Uma das razões de seu esquecimento é que seu ministério foi extremamente curto: ele faleceu com 39 anos de idade, quando contava com apenas 13 anos de crente e 9 anos de ministério. Entretanto, o que Deus fez através desse curto espaço de tempo foi extraordinário.
 
Celso nasceu em 28 de janeiro de 1942, em Guareí, um pequenina cidade no interior paulista e que fica a pouco mais de 180km da capital São Paulo. Desde muito criança, ele foi impactado pela realidade do sofrimento humano. Ao ver tanta gente sofrendo e morrendo pelos mais diversos motivos, o menino Celso, então com 7 anos de idade, preocupou-se com a vida após a morte e desejou ser padre. Porém, quando ele cresceu, esse desejo desvaneceu e deu lugar a um vazio espiritual cada vez maior em sua alma, o que o fez voltar-se para o esoterismo. Entretanto, as ciências esotéricas não foram suficientes para preencher o vazio em seu coração. Logo, resolveu direcionar sua vida para uma paixão de infância: o futebol. Celso dedicou-se ao projeto de ser um jogador profissional de futebol, tentando a sorte no Corínthians. Passou um ano no clube, mas o vazio e o peso no seu coração continuavam. Até que, andando pela capital paulista, encontrou uma congregação da Assembleia de Deus do Brás, a congregação de Moinho Velho. Ali ele entrou e ali Deus falou poderosamente com ele através da instrumentalidade do pastor que pregava naquela noite. Celso sentia que a pregação era toda voltada para sua vida. Sem o pregador o conhecer, descreveu praticamente sua vida inteira. Então, convicto de que era Deus falando com ele, entregou-se a Cristo naquela noite. Era maio de 1968. Celso tinha 26 anos.
 
Ao aceitar a Cristo, Celso abandonou imediatamente o futebol. Com dois meses de crente, foi batizado nas águas; e poucos dias depois de descer às águas batismais, foi batizado no Espírito Santo, experiência esta que, como ele mesmo descreveria, provocou uma “explosão” no seu coração: uma explosão de desejo de servir ao próximo, de sair em busca das pessoas vitimadas pela vida, ao encontro dos mais sofridos e desesperançados, levando-lhes a esperança e o poder transformador e curador do Evangelho de Cristo. Nessa época, ele estava trabalhando na empresa Fixoforja. Porém, Deus falou ao seu coração para deixar o emprego e se dedicar apenas à pregação. Celso relutou no início, ainda mais que a empresa, quando ele fez menção de sair, propôs dobrar seu salário. Contava ele que por sete vezes, de formas diferentes, Deus falou fortemente para que se dedicasse integralmente à Sua Obra, até que Celso – contrariando familiares e amigos, que tentaram dissuadi-lo da ideia – largou tudo para servir exclusivamente a Deus.
 
Mesmo sem ter quem o sustentasse (com o passar do tempo, Deus foi providenciando pessoas que o ajudassem), ele se dirigiu, guiado pelo Espírito Santo, ao Sul do país. Nessa época, fevereiro de 1969, ele ainda não era um ministro ordenado. Suas primeiras campanhas evangelísticas em Porto Alegre começaram pequenas e foram aumentando de número, uma vez que, além de trazer uma mensagem muito cativante e ungida, embora simples, sua pregação era acompanhada de curas e milagres. Depois de Porto Alegre, Celso visitou várias outras capitais do país e em todas elas os sinais se repetiam: além das muitas conversões, batismos no Espírito Santo e curas milagrosas. Foram três anos percorrendo o país com suas campanhas.
 
A última campanha de Celso nesse périplo evangelístico inaugural de 1969 a 1972 foi em São Paulo. Após sua maratona de três anos viajando pelo país, ele voltou para o ponto de partida – o Estado de São Paulo –, onde seria realizada a mais impactante cruzada desse primeiro período de campanhas. Ela se deu na cidade de Guarulhos, durou 22 dias e resultou em 4 mil vidas rendidas a Cristo, numa média de quase 200 vidas para Cristo por dia. Cerca de 100 crentes foram batizados no Espírito Santo e uma grande quantidade de curas ocorreram, inclusive de pessoas cegas, chamando a atenção até da imprensa local.
 
Ao final daquela campanha maravilhosa, Celso foi ordenado evangelista e convidado para assumir a vice-liderança da Assembleia de Deus em Guarulhos, Ministério de Madureira, que tinha como presidente na época o pastor Antônio Grutkowsky. Ele aceitou e, pouco tempo depois, em 18 de abril de 1972, pastor Grutkowsky faleceria, fazendo com que o jovem evangelista Celso Lopes, com 30 anos de idade, quatro anos de crente e alguns meses de ministro ordenado, assumisse a presidência da igreja pelo período de um mês, até que o pastor João Nunes, designado pelo Ministério de Madureira, viesse a assumir a liderança da igreja, tendo Celso como seu vice-presidente. Assim, tudo parecia levar Celso a se dedicar agora apenas ao ministério local, até que um acidente mudou seu rumo, fazendo voltar-se novamente para as campanhas evangelísticas, que eram o seu chamado.
 
Na noite de 3 de julho de 1973, após a transmissão de um programa radiofônico na Rádio de Guarulhos, o evangelista Celso Lopes estava dirigindo um veículo, acompanhado do seu pastor João Nunes, com destino ao Rio de Janeiro para participar da reunião geral de obreiros da Assembleia de Deus de Madureira que se daria na manhã seguinte, quando, na altura da cidade de Resende, o carro derrapou e capotou devido à pista molhada de óleo. O pastor João Nunes morreu e Celso ficou gravemente ferido, com fraturas na base do crânio e no frontal.
 
Após ser atendido no Rio de Janeiro, Celso foi levado para um hospital em São Paulo, onde ficou 30 dias internado. Os médicos o desenganaram. Porém, quando o quadro era irreversível, ele recebeu a visita do pastor Paulo Leivas Macalão, acompanhado do pastor Raimundo Linhares. Nessa visita, Macalão leu o Salmo 13, que diz: “Até quando te esquecerás de mim, Senhor? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto? Até quando consultarei com a minha alma, tendo tristeza no meu coração cada dia? Até quando se exaltará sobre mim o meu inimigo? Atende-me, ouve-me, ó Senhor meu Deus; ilumina os meus olhos para que eu não adormeça na morte; Para que o meu inimigo não diga: Prevaleci contra ele; e os meus adversários não se alegrem, vindo eu a vacilar. Mas eu confio na tua benignidade; na tua salvação se alegrará o meu coração. Cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem”.
 
Após a leitura do texto bíblico supracitado, Macalão orou por Celso com imposição de mãos pedindo a sua cura e ele foi completamente curado. O evangelista então assumiria interinamente a AD em Guarulhos até a vinda do pastor Eduardo Modesto. Depois, ainda em 1973, no final daquele ano, o pastor Macalão o chamaria para cooperar com ele na sede no Rio de Janeiro, mas não para pastorear igrejas. Em 5 de maio de 1974, Celso seria designado por Macalão pelo título de “missionário” e passaria a se dedicar exclusivamente ao ministério da pregação, pois este era o seu chamado. Ele viajaria o Brasil e o exterior pregando o Evangelho. Começava então a segunda fase do ministério evangelístico de Celso Lopes dos Santos, marcada por milhares de conversões a Cristo, milhares de batismos no Espírito Santo e curas divinas em profusão. Não à toa, os três temas principais de suas mensagens eram: a salvação em Cristo, o batismo no Espírito Santo e a cura divina.
 
De 1974 a 1976, ele esteve viajando pelo Brasil pregando a Palavra de Deus. Em 1976, um brevíssimo parênteses: durante um período muito curto de tempo, assumiu interinamente a liderança da Assembleia de Deus em Campinas (SP), Ministério de Madureira, sendo substituído pelo pastor Manoel Ferreira, hoje líder da Convenção Nacional das ADs de Madureira – Conamad (Muitos anos depois, em 1989, como sabemos, o Ministério de Madureira saiu da CGADB). De 1976 a 1977, Celso se dedicou a pregar no exterior, passando por Israel, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Suíça, Suécia, Noruega, Itália, França e Turquia. Ele volta ao Brasil em 1977 para uma série de campanhas evangelísticas nos moldes das suas primeiras de 1969 a 1972. Inclusive, ele começaria pelo Rio Grande do Sul novamente. Essas últimas campanhas, que passariam sobretudo pelo Sul, Sudeste e Norte do país, se estenderiam até a sua morte em 1981. Mais uma vez, milhares de conversões e batismos no Espírito Santo, e centenas de milagres: cegos, surdos e paralíticos curados, dentre tantas outras enfermidades. Há histórias até de ressurreição. Aliás, não é difícil encontrar na internet, nos espaços para comentários em postagens fortuitas aqui e acolá que falam do evangelista Celso Lopes dos Santos, a publicação de testemunhos de irmãos que foram salvos ou curados por Deus – ou conheceram alguém que foi curado por Deus – em uma campanha de Celso Lopes nesse período.
 
Apesar de muitos milagres, conta-se que Celso permanecia um homem muito simples. Outro detalhe da vida dele é que nunca casou. Ele dedicou sua vida literal e integralmente à Obra de Deus, até o último dia de sua vida, abreviada prematuramente em 14 de abril de 1981. Nesse dia, após pregar na Assembleia de Deus em Belém do Pará, liderada na época pelo pastor Firmino da Anunciação Gouveia, quando estava em um táxi aéreo de prefixo PT-MGB, da empresa Kovacs, a caminho de Soure, na Ilha de Marajó, onde iria pregar, o avião sofreu uma pane, caindo na Baía de Guajará apenas 12 minutos depois de levantar voo. Havia seis pessoas no avião. Celso e mais três morreram, escapando apenas o piloto e um funcionário das Centrais Elétricas do Pará. O corpo de Celso foi encontrado dias depois, sendo identificado por causa do relógio em seu pulso, que carregava o seu nome. Seu corpo foi velado no templo-sede da AD em Belém do Pará antes de ser levado para São Paulo, onde foi enterrado. A notícia de sua morte causou uma comoção entre os crentes e as igrejas pelo país. Celso Lopes dos Santos tinha apenas 39 anos.
 
As razões pelas quais sua história é desconhecida pela maioria hoje, sendo lembrada apenas pelos mais antigos que o conheceram, se deve a pelo menos dois fatores: primeiro, sua morte prematura, muito cedo, o que fez com que as gerações seguintes não o conhecessem; e segundo, o fato de que quando ele morreu ainda não era comum a prática de se gravar mensagens em fitas cassete, algo que só se popularizaria nos anos de 1980. Por sua vez, gravações de mensagens e cultos em VHS, CDs e DVDs só surgiriam nos anos de 1990 e 2000 respectivamente. Hoje, porém, qualquer um pode usar seu celular para gravar momentos especiais. Dessa forma, o que ficou do ministério do evangelista Celso Lopes dos Santos foi apenas a lembrança de quem viu e ouviu, e foi abençoado por seu ministério, e as histórias passadas adiante por estes. Essa é a maior riqueza, sem dúvida.
 
(P.S.: As informações aqui contidas são extraídas de depoimentos e do resumo da vida de Celso Lopes dos Santos registrada no Dicionário do Movimento Pentecostal, 2007, de Isael de Araújo, publicado pela CPAD, pp. 762 e 763, e que se baseia, por sua vez, no conhecimento pessoal do autor do ministério dele e sobretudo em registros sobre o ministério do referenciado em edições do jornal Mensageiro da Paz [CPAD] dos anos de 1976, 1977, 1978, 1979, 1980 e 1981, e também em edições de 1977 e 1981 da revista Seara [CPAD]).

6 comentários

CELSO CARDOSO BORGES

Continuando a mensagem anterior, de um lado do disco tinha músicas de Eliel Rosa e do outro tinha uma mensagem de pregação do Missionário Celso Lopes, precisamos resgatar essa memória. se alguem possúi esse Compact Disc um LP em miniatura, por favor comunica conosco. sei que essa gravação existe.

CELSO CARDOSO BORGES

Paz do Senhor a todos, gostaria de mencionar algo que é bem vivo na minha lembrança ainda criança e adolescente, fui com meus pais em algumas cruzadas do Missionário Celso Lopes em Goiás e vi muitos milagres, mudos falarem, cegos verem, surdos ouvires, coxos andarem, possessos serem libertos e centanas de almas aceitarem Jesus como salvador. mas me recordo tambem que minha mãe adquiriu um compact disc que era um LP de tamanho menor e nela de um lado tinha músicas do Eliel Rosa. continua a segui

Daniel Ferreira

Leia a biografia do Missionário Celso Lopes em https://clubedeautores.com.br/livro/a-vida-extraordinaria-do-missionario-celso-lopes A história da vida de um dos maiores evangelistas da Humanidade, que abalou o mundo evangélico pentecostal de seus dias — mas que é completamente desconhecido nos dias atuais. Através de seu ministério ungido pela poderosa atuação do Espirito Santo — cegos viam, mortos eram ressuscitados, paralíticos andavam, mudos falavam, surdos ouviam, multidões eram salvas!

Eraldo Clementino

Que currículo exemplar de perseverança, dedicação, humildade,etc. Que os jovens saibam e procurem imitar ao ilustre abençoado e abençoador servo de Deus. Parabéns por essa publicação

Reginaldo Conceição do Nascimento

Oh glória!! sabermos que houve homens de Deus complometidodos com a sua palavra e com o evangelismo Deus seja louvado pois sua vontade é perfeita e agradável!!

Cicero Ramos

Lendo aqui e meditando no mistério da vontade e do propósito divino: um servo que estava fazendo a obra integralmente e no vigor de sua juventude ao qual o Senhor resolve recolhê-lo para Si, isso só compreenderemos na eternidade.....

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Perfil

Silas Daniel é pastor, jornalista, chefe de Jornalismo da CPAD e escritor. Autor dos livros “Reflexão sobre a alma e o tempo”, “Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos”, “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, “Como vencer a frustração espiritual” e “A Sedução das Novas Teologias”, todos títulos da CPAD, tendo este último conquistado o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra de Apologética Cristã no Brasil em 2008.

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