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Pr. Silas Daniel

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George Jeffreys (1889-1962) - O maior evangelista pentecostal da Europa e o maior evangelista britânico desde John Wesley e George Whitefield

Seg, 19/04/2021 por

Nascido em 28 de fevereiro de 1889, George Jeffreys era o sexto de oito filhos do casal Thomas e Kezia Jeffreys. Sua família pertencia à Igreja Galesa Independente (congregacional), porém, mesmo crescendo em uma família cristã, George e seu irmão Stephen não eram cristãos. Ele e o irmão trabalhavam na área de mineração de carvão nas plagas galesas e eram desinteressados em relação à vida religiosa. Até que veio o famoso Avivamento Galês (1904-1905), que teve como seu grande expoente Evan Roberts (1878-1951). No auge do avivamento, os dois irmãos foram tocados por Deus e se entregaram a Cristo na Capela Independente Siló (também congregacional), na cidade de Nantyfyllon, em 20 de novembro de 1904. George tinha 15 anos na época.
 
Após a conversão, George e Stephen se sentiram chamados para pregar o evangelho. Ele e seu irmão chegaram a pregar em algumas pequenas igrejas de Gales. Porém, pouco tempo depois, sua família sofreu uma série de perdas que esfriaram seus planos: quatro irmãos de George e uma irmã morreram, bem como seu pai Thomas; e, para piorar, o próprio George caiu em uma enfermidade que o deixou com a saúde muito debilitada, uma paralisia facial e muita dificuldade para falar. Nessa situação, em 1910, resolveu se mudar para a Inglaterra, para Sunderland, onde passou a congregar na igreja anglicana da cidade – a Igreja de Todos os Santos, liderada pelo célebre bispo Alexander Alfred Boddy (1854-1930), que se tornaria um dos fundadores do Movimento Pentecostal na Grã-Bretanha.
 
O bispo Boddy era de uma família tradicional no anglicanismo. Seu pai fora um respeitado vigário da igreja anglicana. O próprio Boddy também era muito respeitado, até mesmo para além de suas atividades como clérigo, tendo recebido prêmios da Sociedade Geográfica Real da Inglaterra e da Sociedade Geográfica Imperial da Rússia pelos seus livros publicados após uma série de viagens para o Canadá, Egito, África e Rússia. Inicialmente, o objetivo de Boddy era ser um advogado e ele estudou para isso, porém foi tocado por Deus em uma reunião do “Movimento de Vida Superior”, um movimento renovacionista na Inglaterra do século 19 o qual seria conhecido também como “Movimento de Keswick” e é considerado um dos antecedentes do Movimento Pentecostal moderno. Após Keswick, Boddy resolveu dedicar a sua vida totalmente à obra de Deus e, pouco tempo depois, foi ordenado bispo pela igreja anglicana, assumindo, de 1884 a 1922, o pastorado da igreja em Sunderland.
 
Ansioso por um avivamento para sua igreja, o bispo Boddy visitou o Avivamento de Gales em 1904, vindo a conhecer Evan Roberts; e em 1907, esteve em Oslo, Noruega, para conhecer o Avivamento Pentecostal naquele país, liderado por T. B. Barratt, um pastor metodista que fora batizado com Espírito Santo (cantando em línguas) em 1906 em Nova York (EUA). Barratt viajara aos EUA para levantar fundos para sua igreja na Noruega e então ouviu falar sobre o Avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles, e orou a Deus pedindo o batismo no Espírito, recebendo-o. Pelo ministério de Barratt, Boddy abraçou o pentecostalismo. Ainda em 1907, o ministro norueguês visitou a igreja em Sunderland e várias pessoas receberam o batismo no Espírito Santo, começando pelo reverendo Boddy e sua esposa. Assim, a Igreja de Todos os Santos em Sunderland se tornaria o centro do nascente Movimento Pentecostal na Grã Bretanha. O célebre evangelista pentecostal Smith Wigglesworth (1859-1947), por exemplo, seria batizado no Espírito Santo em 1907 através da oração com imposição de mãos de Mary Boddy, esposa do bispo Alexander Boddy.
 
Foi na igreja de Boddy que George Jeffreys conheceu o Movimento Pentecostal. No início, ele se opôs ao movimento, devido ao seu preconceito em relação à manifestação das línguas. Sua visão sobre o assunto, porém, mudaria, ao constatar que seu sobrinho Edward recebera também o batismo no Espírito Santo com a evidência de falar em outras línguas e nitidamente mudara para melhor após a experiência. Então, em 1911, George resolveu buscar a experiência para si e, como resultado de sua busca, não só foi batizado no Espírito com a evidência de línguas como também foi completamente curado. Logo, ele uniu-se aos pentecostais e começou um ministério de pregação. Paralelamente, sem George saber, seu irmão Stephen também abraçou a mensagem pentecostal e recebeu o batismo no Espírito, iniciando também um ministério de pregação. Ao saber do ocorrido, George convidou seu irmão para trabalharem juntos e os dois deram início a um ministério conjunto de pregação, ministrando em igrejas, congressos, tendas e reuniões campais nas ilhas britânicas, levando muitas vidas a Cristo e testemunhando várias curas milagrosas e prodígios em suas campanhas. Eles montaram uma equipe de evangelistas que passou a ser conhecida como “Grupo Evangelístico Elim”.
 
O nome Elim foi extraído do texto de Êxodo 15.27, que fala do oásis que o povo hebreu encontrou no deserto dias após a abertura do Mar Vermelho. Nesse período, George sintetizou a sua mensagem em quatro pontos, os quais ele chamava de “Mensagem Quádrupla” ou “Mensagem Quadrangular”: “Jesus é o Salvador, o Curador, o Batizador no Espírito Santo e o Rei que breve vem”. Como fruto do intenso trabalho evangelístico dos dois irmãos, eles fundaram sua primeira igreja em Belfast, em 1914, e a segunda em Monaghan, em 1915, e batizaram a nova denominação que estavam criando de Aliança Evangélica Quadrangular Elim, que posteriormente seria chamada apenas de Igreja Pentecostal Elim. Em 1924, dez anos depois da fundação da Igreja Elim, o pastor Donald Gee (1891-1966) e outros pastores de pequenas igrejas pentecostais independentes que estavam surgindo fundariam as Assembleias de Deus na Grã-Bretanha e na Irlanda. Quando isso aconteceu, a Igreja Elim já tinha centenas de igrejas, sendo a maior igreja pentecostal do Reino Unido.
 
A Igreja Pentecostal Elim crescia vertiginosamente, atraindo multidões, por causa da pregação poderosa da Palavra de Deus acompanhada por sinais e maravilhas. Eram milagres em profusão, ao ponto de o historiador Doug Bonner chegar a afirmar que provavelmente mais milagres foram vistos durante o ministério dos irmãos Jeffreys do que durante a vida dos Doze Apóstolos de Jesus Cristo. As campanhas e os milagres ganhavam as manchetes nos jornais seculares da época. Um dos bordões da igreja era uma célebre frase de George: “A era dos milagres não passou”. O The New International Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements” (2002), editado por Stanley M. Burgess e Eduard M. Van der Maas, vai ressaltar que, depois de John Wesley e George Whitefield, nenhum evangelista conseguiu atrair tantas multidões em sequência por tantos anos nas ilhas britânicas como George Jeffreys. Stephen não pegaria essa fase áurea do ministério do seu irmão, pois tomaria outro rumo ministerial. Em 1926, devido a divergências entre eles quanto à direção dos trabalhos, ele se desligou da Igreja Elim e ingressou nas Assembleias de Deus da Grã-Bretanha e Irlanda, tendo ajudado muito no crescimento da AD britânica no final dos anos de 1920. Na época em que se separaram, a Igreja Pentecostal Elim, com apenas 12 anos de existência, já tinha impressionantes 330 congregações, sendo que 60 delas ingressaram nas Assembleias de Deus juntamente com Stephen e as outras 270 continuariam com George. Hoje, a Igreja Pentecostal Elim conta com mais de 5 mil igrejas presentes em 35 países e mais de meio milhão de membros.
 
Quando Stephen separou-se de seu irmão em 1926, havia um ano que George começara uma série de campanhas evangelísticas que impactariam o Reino Unido entre 1925 e 1934, sendo esta a já mencionada fase áurea de seu ministério. Em março de 1926, uma dessas campanhas contou com a presença de Aimee Semple McPherson (1890-1944), fundadora da Igreja do Evangelho Quadrangular, que, dez anos depois de George Jeffreys, também concebera a síntese da mensagem pentecostal em uma “mensagem quadrangular” (Jeffreys a concebera em 1911), fundando a sua denominação nos EUA em 1921 também com o título de “quadrangular”. Jeffreys e Aimee se tornaram amigos, de maneira que ele chegou até mesmo a ser convidado para assumir a liderança da Igreja Quadrangular nos EUA quando a evangelista norte-americana começou a manifestar problemas em seu comportamento, mas ele não aceitou.
 
As multidões afluíam em todo o Reino Unido às campanhas de George Jeffreys. Essas reuniões arrastavam no mínimo 2 mil pessoas por culto, chegando ao máximo de dezenas de milhares por culto em alguns lugares. Em Brigthon, 300 pessoas entregaram suas vidas a Cristo; em Plymouth, foram 1.500 conversões; em Liverpool, 800 conversões; em Bournemouth, outras centenas aos pés de Cristo; depois foram 1.500 conversões em Leeds; 3.000 conversões em Cardiff; 5.000 vidas para Cristo em Swansea e simplesmente 10.000 conversões em Birmingham, onde as concentrações chegaram a atrair 30 mil pessoas por culto. Em todos esses lugares e em muitos outros onde ele pregaria (dezenas de cidades), igrejas foram abertas como fruto dessas campanhas.

Em Londres, George precisou alugar o Royal Albert Hall, com capacidade na época para 10 mil pessoas sentadas, para realizar suas campanhas na capital inglesa. De 1926 até 1939, pelo menos uma vez por ano, ele lotava o Royal Albert Hall com suas cruzadas; e em 1936, ele chegou a alugar o colossal The Crystal Palace, uma imensa estrutura de ferro fundido e vidro para exposições no sul da capital inglesa, em uma campanha que reuniu 20 mil pessoas por culto. Milhares de vidas vieram a Cristo em Londres nesse período.

Em alguns cidades onde George ia pregar, as filas de pessoas para receberem oração vazavam para o lado de fora dos prédios, chegando a mais de 500 pessoas só do lado de fora. As cruzadas mais extraordinárias, como já dito, foram em Birmingham, com assistências que chegavam a 30 mil e com um total de 10 mil conversões a Cristo ao final, mas suas campanhas fora do Reino Unido, realizadas na Holanda (1922), Suécia (1939) e Suíça (1934-1936), também foram impressionantes, levando dezenas de milhares de vidas a Cristo, sendo 14 mil conversões só na Suíça. Na Suécia, ele foi o principal pregador da Conferência Pentecostal da Europa, realizada em Estocolmo em 1939.
 
Entretanto, em 1940, no auge de seu ministério, George Jeffreys teve que renunciar à liderança da Igreja Elim por divergências em relação à condução da igreja (em linhas gerais, ele era a favor de descentralizar o trabalho, como já acontecia na AD britânica, que nessa época estava em franco crescimento, enquanto a maioria dos pastores era a favor da continuidade da centralização) e por sua adesão a uma bobagem chamada “israelismo britânico”, que é uma crença pseudoarqueológica, já há muito contestada, que supunha que os povos britânicos teriam uma ligação genética e linguística com o povo hebreu. A verdade é que George nunca impôs essa sua crença pessoal à Igreja Elim ou pregou sermões sobre isso. Ele adotou essa teoria apenas pessoalmente (por influência do advogado da igreja, que era adepto dessa teoria) e mais de vinte anos depois de ter começado seu bem-sucedido ministério. Em 1934, ele chegou até a colocar em discussão e votação uma apreciação sobre o assunto, com um orador contra e um outro a favor apresentando suas posições, e a maioria dos pastores de Elim votou contra essa teoria e George sempre respeitou essa posição. Porém, devido aos desgastes na sua tentativa de mudar o sistema de governo eclesiástico da igreja, vez ou outra a oposição lembrava essa sua posição excêntrica. Ele, então, pediu para sair em 1940. A maioria esmagadora da liderança da igreja pediu para que ele permanecesse, e ele até voltou por um tempo; entretanto, ainda em 1940, resolveu sair em definitivo.
 
Ao sair da Igreja Elim, algumas dezenas de igrejas saíram com ele, fazendo com que fundasse a Associação de Igrejas do Padrão Bíblico, com sede em Nottingham e que teria um grande templo em Londres, o chamado Templo de Kensington. O trabalho acabou não prosperando, devido aos bombardeios de Londres em 1940 e 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, que impediam grandes reuniões na cidade, e ao declínio da saúde de George Jeffreys, que chegou a pedir o auxílio de seu irmão Stephen em uma tentativa de fazer aquela obra continuar, mas este, por mais que estivesse disposto a ajudar seu irmão, não pôde fazê-lo, por causa de seus problemas de saúde ainda maiores e que o levariam à morte em 1943.
 
George teve um breve ressurgimento de sua influência após o fim da Segunda Guerra, devido a suas campanhas na Suíça e na França entre 1946 e 1950, levando milhares a Cristo. Entretanto, sua saúde depois degringolou e ele foi ficando cada vez mais recluso. Seus últimos anos foram praticamente em completa reclusão. Um evento marcante, porém, ocorreu em 1962, quando George recebeu a visita do jovem Reinhard Bonnke, 21 anos. Bonnke havia lido sobre George Jeffreys e o admirava, mas nunca o tinha visto. Também sentia uma chamada ardente para evangelizar a África, mas não se via com capacidade para tal trabalho. Então, quando estava estudando na Escola de Teologia de Gales, na cidade de Swansea, resolveu visitar Londres e comprar um bilhete promocional que lhe dava o direito de pegar vários ônibus, com o objetivo de percorrer a capital londrina, já que não tinha dinheiro para pagar uma excursão turística pela cidade. No percurso, orava, pensando na sua vida. Depois de horas andando de ônibus cruzando a cidade de ponta a ponta, resolveu descer aleatoriamente em um bairro residencial (Clapham) para andar um pouco, esticar as pernas. Foi quando se deparou com uma casa cujo letreiro dizia que ali morava “George Jeffreys”. Ele pensou: “Não é possível. Será que é ele? Ninguém nunca mais o viu”. Bonnke chegou a pensar que Jeffreys já havia até morrido. Então tocou a campainha para tirar a dúvida.
 
Quem atendeu foi uma senhora, e ele perguntou-lhe se o George Jeffreys que morava ali era o mesmo evangelista famoso do passado, que impactara as ilhas britânicas com a mensagem do evangelho. Ela disse que sim; logo, Bonnke pensou: "Que chance haveria de, andando aleatoriamente em uma cidade que eu não conheço e com milhões de habitantes, eu encontrar justamente a casa do célebre evangelista George Jeffreys!". Então, entendendo que poderia ser algo proporcionado pelo Espírito Santo, perguntou se poderia conhecer o evangelista, ao que a senhora respondeu com firmeza que não. Porém, quando Bonnke já se virava para ir embora, lá de dentro da casa, ouviu-se uma voz, que era a de George Jeffreys, dizendo: “Pode entrar”. Bonnke entrou e se deparou com o velho evangelista bem vestido, como se estivesse esperando uma grande visita. Sim, ele estava: o Espírito Santo falara com ele mais cedo sobre uma visita que ele receberia. Jeffreys então convida o jovem estudante para um chá e, enquanto estão tomando o chá, Bonnke fala sobre sua chamada para a África. O que ocorreu em seguida, ele conta assim: “De repente, George Jeffreys pegou-me pelos ombros e caiu de joelhos, puxando-me ao chão com ele. Ele colocou suas mãos sobre a minha cabeça e começou a abençoar-me sem parar e como um pai abençoa um filho. A sala parecia estar iluminada com a glória de Deus, enquanto ele derramava a sua oração sobre mim. Senti o meu corpo eletrificado, fervilhando com energia divina. Saí da sua casa aos tropeços, voltando cambaleando como um homem embriagado [pelo poder de Deus]”.
 
Segundo Bonnke, assim como o profeta Elias ao partir passou o seu manto para seu servo Eliseu como símbolo de que este daria continuidade ao seu ministério, Jeffreys orou por ele “passando o manto”. E acrescenta: “Eu havia acabado de sair da faculdade bíblica para começar meu serviço de tempo integral para Deus. Deus havia me chamado para Seu trabalho, e agora essa experiência especial parecia me cobrir”. Detalhe: pouquíssimos dias depois, em 26 de janeiro de 1962, George Jeffreys morreu. Ademais, fato é que Reinhard Bonnke, que fundaria o ministério “Cristo para Todas as Nações”, teve um dos mais profícuos ministério evangelísticos e de cura divina que o mundo – e especialmente o continente africano – já viu, com 75 milhões de vidas levadas a Cristo e milhares de curas divinas: cegos, coxos, surdos, paralíticos, enfim, pessoas curadas de todos os males, assim como no ministério de George Jeffreys.
 
Com a morte de Jeffreys, as Igrejas do Padrão Bíblico se desfizeram como denominação, com a maioria de suas igrejas retornando à sua mãe, a Igreja Pentecostal Elim, e as restantes ingressando nas Assembleias de Deus. A antiga sede em Nottingham, o chamado Templo de Kensington, é hoje um dos principais templos da Igreja Pentecostal Elim.

1 comentário

Josué Martins

Meu Deus! Que história linda. O encontro do Bonkee foi D+...

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Perfil

Silas Daniel é pastor, jornalista, chefe de Jornalismo da CPAD e escritor. Autor dos livros “Reflexão sobre a alma e o tempo”, “Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos”, “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, “Como vencer a frustração espiritual” e “A Sedução das Novas Teologias”, todos títulos da CPAD, tendo este último conquistado o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra de Apologética Cristã no Brasil em 2008.

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