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Pr. Silas Daniel

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Lester Sumrall (1913-1996) – Um dos maiores evangelistas internacionais pentecostais do século 20

Seg, 12/04/2021 por

Lester Frank Sumrall foi um dos maiores evangelistas internacionais pentecostais do século 20. Nascido em 15 de fevereiro de 1913 em New Orleans, Lousiana (EUA), ele converteu-se a Cristo de forma dramática, aos 17 anos. Mesmo sendo filho de pais crentes, Sumrall não se interessou inicialmente em entregar sua vida a Cristo. Queria apenas ganhar dinheiro, pois era uma época de grande “boom” econômico nos Estados Unidos e seu pai George prosperava. Sua mãe Betty, porém, quando ele ainda estava no ventre, dedicou seu filho a Deus. Sumrall contava: “Minha mãe já havia decidido, antes mesmo de eu nascer, que eu seria um pregador. Ela orou por mim fervorosamente enquanto eu estava em seu ventre, quando eu não podia fazer nada a respeito, exceto chutar um pouco. Eu nasci em casa, o sexto filho e completamente não planejado. Minha mãe era uma mulher muito gentil e piedosa. Eu a amava e queria agradá-la, mas não queria ser como ela, porque isso significava que eu tinha que ser bom. Por outro lado, se eu seguisse os passos de meu pai, poderia ser meu próprio patrão e fazer o que quisesse. Uma batalha interna se desenrolou no meu coração e, ao final, fiquei determinado a ser como meu pai”.
 
Porém, os planos do jovem Sumrall foram por água abaixo. Veio a avassaladora crise econômica encetada em 1929 e, para piorar, ele contraiu tuberculose. E foi nessa situação que se voltou para Deus. Sua conversão e seu chamado para o ministério ocorreram juntos. Sumrall estava no leito de morte, sem esperança de recuperação, segundo afirmavam-lhe os médicos, quando, em meio ao seu desespero, orou a Deus e teve uma visão, na qual ficou suspenso no ar vendo à sua direita um caixão e à esquerda, uma Bíblia, e ouvindo uma voz que lhe dizia: “Lester Sumrall, qual destes você escolherá nesta noite?”. Então, ele tomou a decisão de entregar a sua vida a Cristo e dedicar o resto da sua vida à proclamação do Evangelho. Na manhã seguinte, ao acordar, estava completamente curado.
 
Imediatamente, mesmo sem preparo e sem recursos financeiros para se manter, aos 17 anos, o adolescente magrelo Lester Sumrall começou a pregar. Nessa mesma época, foi batizado no Espírito Santo. Ele começou pregando no interior da Flórida, no Arkansas e no Tennessee. Conta ele que aquele primeiro um ano e meio longe de casa, vivendo só da pregação, foi o período mais difícil de sua vida. Em meio à Grande Depressão econômica nos EUA, ele passava nas fazendas pedindo aos donos para ceder aqueles espaços em suas propriedades geralmente usados para realização de aulas, para promover neles cultos evangelísticos e de avivamento. As reuniões, entretanto, não eram nada fáceis. Conta ele: “Às vezes eu era impetuoso, abrupto e negativo. Muitas vezes as pessoas simplesmente riam de mim, o que me irritava profundamente. Certa noite, eu estava tão abatido que nem tentei pedir uma oferta e também não perguntei se alguém queria ser salvo. Na manhã seguinte, o fazendeiro anfitrião disse: ‘Jovem, se você não trabalhar, não coma. Se você pretende ficar aqui por mais tempo, pode alimentar os porcos’. Em seguida, ele empurrou dois grandes baldes de água suja em minhas mãos. ‘Alimentar os porcos?!’ Enquanto eu carregava aqueles baldes pesados, a lama fedorenta caiu sobre minhas roupas e meus sapatos. Depois disso, pude realmente me identificar com a história do filho pródigo. Deitei no meio do milharal sem me importar se minhas roupas estavam ficando sujas e gritei: ‘Oh, Senhor, talvez eu deva ir para casa e morrer!’. Mas o Senhor me acalmou, dizendo: ‘Se você for fiel a mim nestas pequenas coisas, Lester, eu lhe darei coisas muito maiores’”.
 
Então, em 18 de dezembro de 1931, pouco menos de dois meses antes de completar 19 anos, Lester Sumrall teve uma nova visão, que o firmou ainda mais no propósito de continuar apesar de todas as dificuldades. Deus lhe mostrou multidões formadas por homens e mulheres de várias nacionalidades, as quais caminhavam a passos largos para o Inferno, e Sumrall via o sangue de muitas delas em suas mãos. Depois dessa visão, nunca mais ele esmoreceu em seu chamado. E o detalhe é que, exatamente no mesmo dia, do outro lado do Atlântico, enquanto o jovem pregador norte-americano estava tendo essa visão impactante, Deus já estava preparando o seu futuro além-mar.
 
Exatamente no dia 18 de dezembro de 1931, na mesma noite da segunda visão de Sumrall, muito longe dali, mais especificamante em Londres, Inglaterra, o experiente pastor pentecostal Howard Carter (1891-1971) estava orando. Carter era um grande expositor das Escrituras e um dos fundadores das Assembleias de Deus na Grã-Bretanha, a qual chegou a presidir de 1934 a 1945. Naquela noite, enquanto orava pedindo ajuda para o grande ministério para o qual Deus o chamara, o Senhor quebrantava o seu coração dizendo-lhe algo que em seguida ele anotaria em sua agenda pessoal. Dizia Deus: “Eu encontrei um companheiro para ti. Eu chamei um obreiro para ficar ao seu lado... Ele é chamado e escolhido e se juntará a você. Eis que ele vem; ele vem de longe. Ele vem para te ajudar a carregar teu fardo e ser uma força ao teu lado, e tu terás prazer em seu serviço e terás prazer em sua comunhão”.
 
Então, os anos se passaram, com Sumrall, dos 17 aos 21 anos, trabalhando com o povo simples do campo até vê-los finalmente se voltarem para Deus e receberem o derramamento do Espírito Santo. Em 1932, aos 19 anos, ele fundou uma igreja em Green Forest, Arkansas. No mesmo ano, foi ordenado ao ministério pelas Assembleias de Deus norte-americanas; e em 1934, Sumrall encontrou-se finalmente com Carter e este logo percebeu que aquele jovem evangelista era o companheiro de ministério que Deus havia prometido. Ambos ficariam também impressionados ao saber depois da experiência que tiveram, cada um em seu país, na noite de 18 de dezembro de 1931, o que confirmava que Deus estava abençoando aquela pareceria ministerial.
 
Sumrall descreveu o relacionamento entre os dois como o de Paulo e Timóteo. Os dois iniciaram um ministério conjunto de evangelismo, estabelecimento de igrejas e instrução de crentes que se estendeu da Inglaterra até a Nova Zelândia e a Austrália, e depois para além das fronteiras britânicas. Na Austrália, Sumrall fundou uma igreja em Brisbane. Nesse período de viagens com Carter, ele também conheceu pioneiros do pentecostalismo, como o evangelista britânico Smith Wigglesworth (1859-1947).
 
Juntos, Sumrall e Carter viajariam para pregar no Taiti, Indonésia, Indochina, China, Tibete, Mongólia, Coreia, Sibéria, Rússia, Polônia, Alemanha, França, por toda a Escandinávia e por grande parte da América do Sul. Em 1937, os dois foram os preletores da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), ocorrida em São Paulo. Sumrall retornaria ao nosso país em 1938, para pregar na Convenção das Assembleias de Deus em Santa Catarina, ocorrida em Joinville; e depois nos anos de 1940, pregando "poderosamente", com grande graça e repercussão, nas principais igrejas das Assembleias de Deus em nosso país naquela época, como as ADs em Belém do Pará, Rio de Janeiro, Recife e Campina Grande, conforme relatos publicados no jornal "Mensageiro da Paz" daquele período.
 
Devido à Segunda Guerra Mundial, Sumrall e Carter se separaram. Carter teve que permanecer na Inglaterra enquanto o evangelista norte-americano passou a dedicar-se à pregação na América do Sul. Foi assim que ele conheceu na Argentina a missionária Louise Layman, com quem se casaria em 1944, nascendo deste enlace três filhos. Eles casaram no Canadá e passaram a lua-de-mel evangelizando o Canadá, as Ilhas Caribenhas e a América do Sul. Depois, já em 1953, foram para as Filipinas, onde o ministério de Sumrall ganhou as manchetes do mundo inteiro.
 
Tudo começou quando Lester Sumrall soube pelos jornais da época da história de uma jovem filipina chamada Clarita Villanueva, presa na Cadeia da Cidade de Manila e que, em maio de 1953, fora possuída por demônios em uma audiência pública. A mãe da menina, uma senhora espírita que praticava a adivinhação, morreu quando Clarita tinha 12 anos, levando-a a uma vida de prostituição para sobreviver. Aos 17 anos, Clarita foi presa por vadiagem e, em meio às audiências para julgar seu caso, foi possuída por dois espíritos demoníacos que literalmente a mordiam, deixando marcas físicas das mordidas em seu corpo. As marcas de mordidas surgiam ao vivo, do nada, sem que ela mesma ou alguém as fizessem. Esses demônios a atormentavam já havia algum tempo.

O prefeito de Manila, Arsenio Lacson, após receber relatórios sobre o caso, determinou que Clarita fosse levada ao necrotério da cidade para que ele pudesse ver por si mesmo as marcas surgindo, pois não acreditava. Após 15 minutos sentado ao lado dela, ele viu marcas de mordidas apareceram do nada no dedo indicador e no pescoço da moça. Ele declarou que viu as marcas de dentes humanos surgirem na hora que Clarita dizia que estava sendo mordida pelos espíritos. Inclusive, o prefeito Lacson chegou a segurar as mãos da moça no momento em que ela era mordida.
 
Cerca de “100 médicos especialistas, enfermeiros e assessores”, segundo relato de um jornalista da United Press, foram até a moça para analisar o caso “in loco”. Eles ficaram impressionados e não puderam fazer nada por ela. Então, quando Sumrall leu a notícia nos jornais, viajou para as Filipinas para libertar Clarita na autoridade do nome de Jesus. Ele chegou em 19 de maio de 1953. Ao vê-lo, os demônios se manifestaram na moça, declarando altissonantemente ódio a Deus e ao pastor Sumrall, e fazendo declarações blasfemas pelos lábios dela. Foram três dias orando por ela e expulsando os demônios. No dia 22 de maio, ela foi liberta para sempre. Sua história viraria filme. Sumrall aproveitou então para fazer cruzadas evangelísticas na cidade, as quais reuniam, segundo os jornais da época, mais de 50 mil pessoas por culto. Milhares aceitaram Jesus como Salvador e foram libertos, e Sumrall fundou em Manila a maior igreja das Filipinas, a Catedral do Louvor, com mais de 24 mil membros.
 
Da mesma forma como o pastor assembleiano David Wilkerson (1931-2011) leu em uma edição da revista “Life” de 1958 sobre as gangues de Nova York e, tocado por Deus, saiu da Pensilvânia, onde pastoreava, até a cidade de Nova York para evangelizá-los, ganhando milhares de vidas para Cristo, fundando o ministério Desafio Jovem e também uma grande igreja em Times Square, o evangelista assembleiano Lester Sumrall, ao ler em 1953 a notícia sobre a moça oprimida nas Filipinas, foi tocado por Deus a ir até aquele país, fazendo um grande trabalho ali, levando dezenas de milhares a Cristo e também estabelecendo uma grande igreja, a maior das Filipinas. Quantos, chamados para o ministério de evangelistas, estão dispostos a fazerem o mesmo hoje, pela condução do Espírito Santo?
 
De volta aos EUA, Sumrall fundaria, em 1957, a Associação Evangelística Lester Sumrall (LeSEA) e também uma Escola Bíblica, a World Harvest Bible College (hoje Indiana Christian University), além da revista trimestral “World Harvest”. Em 1963, porém, ele desliga-se da Assembleia de Deus, muda-se para South Bend, Indiana, e funda ali a igreja Centro Cristão Catedral do Louvor. Um dos ministros de louvor dessa igreja ficaria famoso nos anos 90: Ron Kennoly, que antes trabalhara na igreja do pastor Jack Hayford.
 
A Associação Evangelística Lester Sumrall publicou mais de 100 títulos do evangelista tratando sobre temas como evangelismo, cura divina, exorcismo, angelologia, demonologia, apologética etc. Ela também investiu na área de comunicação cristã via rádio e tevê. Primeiro, em 1968, Sumrall deu início ao que se tornaria a World Harvest Radio International, com três estações de rádio FM e cinco estações de ondas curtas, atingindo 90% da população mundial; e de 1972 a 1997, ele adquiriu mais de uma dezena de estações de televisão nos Estados Unidos como parte da World Harvest Television, depois batizada de LeSEA Broadcasting. Em 2018, a LeSEA Broadcasting mudou seu nome para Family Broadcasting Corporation (FBC). Por esses empreendimentos, Sumrall é considerado um dos pais da televisão cristã. Seu lema era: “Não ficarei satisfeito enquanto não ganhar o maior número possível de almas para Jesus todos os dias”.
 
Nos anos de 1970, assim como muitos dos evangelistas pentecostais pioneiros, Sumrall ficou animado com o Movimento Carismático que impactou as principais denominações históricas naqueles dias, movimento este que cria na contemporaneidade dos dons espirituais, mas não no batismo no Espírito como revestimento de poder evidenciado pelo falar em línguas. Porém, isso não o fez mudar sua teologia. Ao contrário, ele afirmava: “Nunca comprometerei o Evangelho Pleno [Jesus salva, cura, batiza no Espírito Santo e em breve voltará], que é a esperança desta geração”.
 
Já no final da vida, Sumrall deu início a outra grande trabalho, um dos mais belos e notórios do seu ministério. Ele criou, em 1987, uma organização de ajuda humanitária, a LeSEA Global Feed the Hungry, com o objetivo de saciar a fome daqueles que lutam para sobreviver em meio à pobreza, aos desastres e às guerras.
 
Sumrall escreveu uma autobiografia, chamada “Adventuring with Christ” (“Aventuras com Cristo”), onde mais detalhes podem ser encontrados sobre sua vida e ministério. Ele faleceu em 28 de abril de 1996, aos 83 anos.

3 comentários

Edinei Siqueira

Estas Biografias muito nos edificam. Quem sabe o autor nos brinda com um livro á semelhança do livro Heróis da fé do Orlando Boyer? Edinei

Eliell Ramos

Como é edificante e inspirador ler a saga desses heróis na fé.

Pompilho Netto

Muito edificante! 😌

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Perfil

Silas Daniel é pastor, jornalista, chefe de Jornalismo da CPAD e escritor. Autor dos livros “Reflexão sobre a alma e o tempo”, “Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos”, “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, “Como vencer a frustração espiritual” e “A Sedução das Novas Teologias”, todos títulos da CPAD, tendo este último conquistado o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra de Apologética Cristã no Brasil em 2008.

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