Como bem definiu a missionária sueca, Frida Vingren, “os mais belos hinos e poesias foram escritos em tribulação”. Foi no âmago da Reforma Protestante, cujo aniversário de 509 anos é celebrado hoje (31), que Martinho Lutero, considerado o principal nome do movimento, compôs o hino “Castelo Forte”, posteriormente chamado pelo poeta Heirich Heine como a “Marselhesa da Reforma”, em alusão ao hino nacional francês.
Embora não haja consenso quanto à data de composição do cântico, provavelmente entre os anos 1527 e 1529, sua inspiração bíblica é amplamente conhecida. Trata-se do Salmo 46, com suas afirmações de confiança e segurança em Deus, sintetizadas no primeiro versículo: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia” (Sl 46.1).
Naquele contexto, o monge alemão já havia afixado à porta da Igreja do Castelo em Wittenberg, as 95 teses, que em linhas gerais, questionavam práticas da Igreja da época, especialmente a comercialização de indulgências, e ressaltavam a necessidade do arrependimento e da contrição pelo pecado.
As proposições escritas em latim rapidamente foram traduzidas e inflamaram a Europa, chegando logo no palácio Apostólico, em Roma. Chamado a prestar esclarecimento às autoridades eclesiásticas, Lutero teve seu processo conduzido em território alemão. Em 1518, defendeu suas posições diante do cardeal Caetano, em Augsburgo, e, em 1519, debateu com João Eck, em Leipzig. No ano de 1520, o papa Leão X publicou a bula Exsurge Domine, condenando suas ideias e exigindo retratação. Lutero queimou publicamente o documento e, em janeiro de 1521, foi excomungado. Convocado pelo imperador Carlos V, recebeu salvo-conduto para comparecer à Dieta de Worms, onde deveria responder por seus escritos.
“Na sua viagem para Worms, o povo afluía em massa para ver o grande homem que teve coragem de desafiar a autoridade do papa. Em Mora, pregou ao ar livre, porque as igrejas não mais comportavam as multidões que queriam ouvir seus sermões. Ao avistar as torres das igrejas de Worms, levantou-se na carroça em que viajava e cantou o hino de sua autoria “Ein Feste Berg” — ‘Castelo forte’ —, que se tornaria o mais famoso da Reforma”, relata Orlando Boyer em trecho do livro Heróis da Fé, publicado pela CPAD.
A relevância musical de “Castelo Forte” ultrapassou o contexto da Reforma Protestante e inspirou compositores de diferentes épocas e tradições. Johann Sebastian Bach, por exemplo, utilizou a melodia na cantata “Ein feste Burg ist unser Gott” (BWV 80), associada à celebração do Dia da Reforma. Felix Mendelssohn incorporou o tema do hino à sua Sinfonia nº5, conhecida como “A Reforma”. Outros compositores, como Giacomo Meyerbeer, Richard Wagner e Richard Strauss, também recorreram à melodia em suas obras.
No Brasil, o hino foi incluído no Cantor Cristão, hinário batista, sob o número 523, e na Harpa Cristã, utilizada pelas Assembleias de Deus, como hino 581. Ao longo dos anos, recebeu diversas interpretações e gravações.
Para conhecer mais sobre a vida e a obra de Martinho Lutero, o leitor pode consultar Heróis da Fé, de Orlando Boyer. Já a história de “Castelo Forte” é abordada com mais detalhes em História dos Hinos que Amamos, de autoria do pastor Silas Daniel. As duas obras publicadas pela CPAD podem ser adquiridos no site https://www.cpad.com.br
Confira abaixo a letra do hino na versão da Harpa Cristã:
Castelo forte é nosso Deus
Amparo e fortaleza
Com seu poder defende os seus
Na luta e na fraqueza
Nos tenta Satanás
Com fúria pertinaz
Com artimanhas tais
E astúcias tão cruéis
Que iguais não há na Terra
A nossa força nada faz
Estamos, sim, perdidos
Mas nosso Deus socorro traz
E somos protegidos
Defende-nos Jesus
O que venceu na cruz
O Senhor dos altos céus
E sendo também Deus
Triunfa na batalha
Se nos quisessem devorar
Demônios não contados
Não nos podiam assustar
Nem somos derrotados
O grande acusador
Dos servos do Senhor
Já condenado está
Vencido cairá
Por uma só palavra
Que Deus a luta vencerá
Sabemos com certeza
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa
Se temos de perder
Família, bens, poder
E, embora a vida vá
Por nós Jesus está
E dar-nos-á seu reino
Por Iury Costa / Jornalismo CPAD
