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13/12/2019

Universo Cristão

Aumento de antissemitismo obriga judeus franceses a fugirem para Israel

Um terço de todos os judeus franceses que emigraram para o país desde seu estabelecimento em 1948

Fonte: Guiame / com informações National Geographic Brasil / Foto: Reprodução/National Geographic Brasil | 03/12/2019 - 15:00
Aumento de antissemitismo obriga judeus franceses a fugirem para Israel

A Lei do Retorno de 1950 permite que qualquer judeu de qualquer lugar do mundo se torne um cidadão israelense com direito a inúmeros benefícios governamentais, como auxílio financeiro, incentivos fiscais, cursos de hebraico gratuitos e voos grátis para Israel.

Somente em 2015, quase 8 mil judeus franceses fizeram o que é conhecido como Aliyah — ascensão à Terra Santa — o maior número de qualquer nação ocidental em um único ano.

Para muitos desses imigrantes, chegar a Israel também é trazer profecias da Bíblia ao cumprimento.

“É sobre a reunião dos exilados, trazendo o povo judeu para casa. Além do cumprimento da profecia, estou muito feliz porque minha família está voltando para casa e estamos todos juntos finalmente, em nossa terra que traz a luz para o mundo todo”, disse Ari Abramowitz.

Os cristãos são os principais contribuintes para o retorno de judeus a Israel, um movimento que é conhecido como “aliá”, segundo uma nova pesquisa.

Novos imigrantes desembarcam em Israel em meio a acaloradas boas-vindas. (Foto: Reprodução/National Geographic Brasil)

Dentre mais de 28 mil judeus que fizeram a aliá para Israel em 2017, pelo menos 8.500 voltaram à sua pátria graças às doações de cristãos, de acordo com dados apresentados pela CBN News.

“Depois de 2.000 anos de opressão e perseguição, hoje você tem cristãos que estão ajudando os judeus”, observa o rabino Yechiel Eckstein, presidente da Irmandade Internacional de Cristãos e Judeus, organização que arrecada dinheiro de evangélicos pelas causas judaicas.

Virar a página

Em uma tarde escaldante de julho em Paris, um voo da Agência Judaica Aliyah está pronto para decolar para Tel Aviv, com a judia Esther Coscas a bordo. “Queremos virar a página”, afirma ela.

O bebê de dois meses dorme no berço, enquanto as filhas de quatro e seis anos brincam pelos corredores. Sua família empacotou o que acumulou durante a vida inteira em 130 caixas de papelão e 24 malas “porque queria viver o judaísmo livre e abertamente, longe do antissemitismo”. Agora, os pais dela e os do marido não têm mais filhos na França.

Ela conta que antes se sentia segura no país. Sua casa ficava no coração de “Pequena Jerusalém”, um bairro no subúrbio de Sarcelles, repleto de restaurantes kosher e lojas com nomes hebraicos. Judeus e árabes viviam lado a lado. Apesar dos ocasionais atritos, Esther diz que nunca temeu por sua vida. Mas as coisas mudaram.

“Espalhando-se como veneno”

A França abriga a maior população judaica da Europa, a terceira maior do mundo, depois de Israel e dos Estados Unidos. No entanto essa comunidade histórica — que remonta à conquista romana de Jerusalém e à expulsão da população judaica há 2 mil anos — está no meio de uma crise existencial.

O ministro do interior da França alertou que o sentimento antijudaico está “se espalhando como veneno”.

O Presidente Emmanuel Macron declarou que o antissemitismo atingiu os níveis mais altos desde a Segunda Guerra Mundial. Em meio a uma série de ataques, o primeiro-ministro Edouard Philippe admitiu que o antissemitismo está “profundamente enraizado na sociedade francesa”.

Segundo um levantamento publicado em março, 89% dos estudantes judeus na França relatam ter sofrido abusos antissemitas. Em 2017, os judeus foram alvo de quase 40% dos incidentes violentos classificados como de motivação racial ou religiosa, apesar de constituírem menos de 1% da população francesa. Em 2018, os atos antissemitas aumentaram quase 75%.

A atual onda de imigração passou a se intensificar depois do massacre de Toulouse em 2012, em que um extremista islâmico nascido na França abriu fogo em um externato judaico, matando um jovem rabino que protegia seus filhos de três e seis anos, e depois matando a tiros ambos os meninos e uma menina de 8 anos. Três anos depois, um atirador que prometeu lealdade ao ISIS matou quatro clientes em um supermercado kosher em Paris. “Nos dias seguintes, recebemos milhares de ligações de pessoas dizendo que queriam ir embora”, conta Ouriel Gottlieb, diretor da Agência Judaica em Paris. “Dentre as quatro pessoas assassinadas em Hyper Casher, três de suas famílias se mudaram para Israel.”

Em quase todos os anos seguintes, assistimos a outro ataque antissemita mortal, como o ocorrido com Sarah Halimi, à época com 65 anos, espancada e atirada pela janela em 2017, e o terrível assassinato de Mireille Knoll, sobrevivente do Holocausto, em 2018. Menos assustadores, mas igualmente prejudiciais a essa comunidade frágil, são os constantes incidentes em menor escala, como a profanação de cemitérios e memoriais judeus, ou ataques a meninos que usam quipás. Tais ataques levaram muitos na França a ocultar demonstrações de sua fé na aparência externa. Outros optaram por ir embora.

Aqueles que ficaram afirmam que é só uma questão de tempo antes da próxima manchete apavorante. “A situação só piorou”, afirma Samuel Sandler, pai do rabino morto em Toulouse. Sentado em uma cafeteria em Paris, Sandler lembra como seus pais fugiram da Alemanha nazista em busca de um futuro melhor para seus filhos na França. Sua avó, primo, tias e tios foram mortos em Auschwitz. “Eu pensava: ‘a guerra acabou. Agora estamos na França. Estamos a salvo’”, afirma ele.

Uma nova forma de ódio?

Da expulsão dos judeus em 1306, ao Caso Dreyfus em 1894 e à cooperação do governo Vichy com o extermínio nazista de 75 mil judeus franceses, a França tem uma história de antissemitismo de longa data. Hoje, o ódio vem da extrema direita e da extrema esquerda. Alguns manifestantes do movimento Coletes Amarelos abordaram judeus franceses proeminentes e chamaram o presidente Macron de “prostituta dos judeus”.

No entanto a comunidade judaica também teve vitórias na França. A França concedeu direitos iguais aos judeus em 1791, inspirando outras nações a seguirem seu exemplo. A França teve três primeiros-ministros judeus. Um deles, Leon Blum, ajudou a estabelecer a Agência Judaica com outros ilustres judeus, como Albert Einstein.

Hoje, entretanto, muitos judeus franceses estão notando uma nova forma de ódio. Afirmam que esse novo antissemitismo está profundamente ligado ao conflito israelense-palestino. Ao listar todos os ataques antissemitas mortais desde 2003, Robert Ejnes, diretor-executivo do Conselho Representativo de Instituições Judaicas na França (Crif), conclui: “doze pessoas foram assassinadas pelo único motivo de serem judias. Todas por muçulmanos radicais.”

As duas principais organizações muçulmanas da França se recusaram a comentar esta matéria. Contudo, em carta aberta publicada no jornal Le Monde no ano passado, 30 imãs condenaram o crescente extremismo e os ataques antissemitas, ao mesmo tempo em que defendiam sua fé. “Também somos muçulmanos, como o resto de nossos religiosos, muçulmanos pacíficos que sofrem com os criminosos que se apropriam de nossa religião”, escreveram eles. “Esse radicalismo ou radicalização deve ser combatido de forma inteligente por todos os envolvidos, de políticos a imãs, por meio de famílias, escolas e segurança”.