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História do “Cremos” das ADs

04/10/2016 - 00:00

Por motivos diversos, desde os primeiros anos das Assembleias de Deus no Brasil houve a preocupação em expressar em que elas crêem e o que elas praticam. A seguir,  estão relacionadas as iniciativas nesse sentido, suas características e finalidades, as reprovações, até a denominação atingir à elaboração do documento Declaração de Fé. O Cremos nos jornais Boa Semente e O Som Alegre Um artigo sob o título “O que nós cremos” foi publicado no jornal Boa Semente de 16 de abril de 1919 e foi repetido no jornal O Som Alegre de março de 1930, p.6. O artigo não está assinado, mas provavelmente tenha sido redigido pelo missionário Gunnar Vingren, que era o editor do jornal Boa Semente, quando pastoreava a Assembleia de Deus de Belém do Pará, e também do jornal O Som Alegre que ele fundara quando presidia a Assembleia de Deus de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro. O Cremos de Gunnar Vingren trata de forma sintética as linhas mestras de nossas crenças, em oito parágrafos, tocando nas seguintes doutrinas: Palavra de Deus, Salvação, Cura Divina, Oração, bênçãos do Senhor, obediência a Jesus, o batismo em água, morte e ressurreição de Cristo, comunhão do crente com Jesus, sinais e prodígios, vida espiritual do crente, dons espirituais, línguas estranhas, a segunda volta de Cristo, o Milênio e o reino da Igreja com Cristo.Não há a preocupação em dar ao leitor a conceituação bíblico-teológica de cada uma das doutrinas referidas. Ao contrário, observa-se  o objetivo do redator em conclamar os crentes assembleianos a apenas praticarem cada uma delas. 

No primeiro parágrafo é afirmado o desejo de Deus que os crentes sigam a Palavra de Deus para experimentar tudo o que nela é mencionado e prometido. No segundo parágrafo é declarada libertação de todo o pecado em razão de Cristo ter pagado a nossa dívida, lavado completamente as manchas de nossos pecados e aniquilado o poder do pecado em nós. No terceiro parágrafo, toda a doença pode ser curada divinamente por Jesus, porque tanto os nossos pecados como as nossas doenças Jesus tomou sobre Ele em cumprimento de Isaías, capítulo 53. No quarto parágrafo, diz que os crentes oram porque crêem no poder eficaz da oração. No quinto parágrafo é afirmado que descemos com Jesus à sepultura na morte pelo batismo em água para bedecermos a Ele em tudo, conforme a Sua Palavra. No sexto parágrafo está expressa a crença de que Jesus é nosso intercessor porque, ao morrer e ressuscitar, Ele cumpriu a lei e substituiu o pecador, e agora está vivo. No sétimo parágrafo é ensinado que quando temos uma vida verdadeiramente espiritual, com dons espirituais, tais como a língua estranha, opera em nós a comunhão com Jesus, o Salvador vivo, manifesta pelos sinais e prodígios sobrenaturais. Por fim, no último parágrafo, a Igreja é tipificada como a Esposa que será recebida por Jesus em Sua segunda vinda e que julgaremos e reinaremos com Jesus durante o Milênio. O redator deste Cremos o encerra com as seguintes palavras: “Isto é o que nós cremos; praticamos e anunciamos como testemunhas do Senhor, e por isso, como testemunhas suas que somos, nada queremos ocultar, aumentar ou mudar, sobre tão importante assunto. O que nós não queremos é ser perjuros espirituais”.

Os objetivos dos pioneiros em elaborar e publicar o O primeiro “Cremos” É possível notar dois objetivos que o redator do Cremos dos jornais Boa Semente e O Som Alegre estabeleceu para a sua elaboração e publicação. O primeiro objetivo pode ser entendido pela última frase das palavras finais do artigo em apreço: “O que nós não queremos é ser perjuros espirituais”. Mais especificamente com a expressão “perjuros espirituais”, os pioneiros provavelmente queriam dizer que eles não desejavam abjurar a confissão espiritual. Ou seja, eles não queriam cometer a violação do juramento à fé que uma vez aceitaram quando receberam a Salvação em Jesus Cristo. Eles queriam ser fiéis e leais aos ensinamentos do Senhor contidos na Bíblia Sagrada. Certamente preocupava aos primeiros obreiros das Assembleias de Deus a perjuria espiritual. No Antigo Testamento os juramentos eram obrigatórios (Nm 30.2) e a lei mosaica decretou o castigo para o perjurador, aquele que faz um juramento falso (Dt 19.16-19; 1Tm 1.10). Por exemplo, era questão seríssima profanar o nome de Deus, se tivesse sido proferido em um juramento (Lv 19.12). No Novo Testamento, o apóstolo Paulo escreveu a Timóteo que a lei era também para “os perjuros, e para o que for contrário  

Denominações protestantes
históricas exigem profissão de fé pública dos novos membros e o juramento público da lealdade para com a Confissão de Fé da parte dos candidatos a ordenação ministerial. Os pioneiros, sem dúvida, encaravam com seriedade o compromisso de lealdade e fidelidade aos ensinamentos da Palavra de Deus. O missionário Gunnar Vingren, antes de chegar ao Brasil em 19 de novembro de 1910, pertencia à Igreja Batista Sueca de Kansas City, nos Estados Unidos, por ele ter se convertido na igreja batista na Suécia. Os irmãos batistas americanos aconselharam Vingren a ingressar no Seminário da denominação batista sueca em Chicago. Ele havia participado de uma Escola Bíblica durante um mês em Götabro, Närke, na Suécia, numa federação de evangelização. Após receber essa instrução bíblica, ele foi enviado a trabalhar como evangelista juntamente com outros 14 participantes da Escola Bíblica. Vingren declarou em sua autobiografia que os estudos ministrados pelos profundos e fervorosos pastores-professores lhes fizeram bem por toda a sua vida. Seus mestres no Seminário Batista Sueco nos EUA foramEric Sandell, N. N. Morten, Olof Hedeen e W. A. Peterson. Eric Sandell, além de ter sido notável pastor em três igrejas e educador entre os batistas suecos, era destacado como filósofo e profundo pensador. Ele colocava a Palavra de Deus em seu lugar supremo, e a mensagem do Cristo crucificado era o seu tema. Olof Hedeen, professor de Grego e Interpretação do Novo Testamento, era um homem brilhante e fervoroso, do tipo emocional e, segundo o historiador batista Adolf Olson, “inclinando-se para o pentecostalismo, algumas vezes, com o coração derramado, chegava ao topo da inspiração e eloquência como professor e pregador”.

Vingren foi diplomado pelo Seminário Batista Sueco em 11 de maio de 1909, após quase cinco anos de estudos teológicos.A denominação batista da qual não somente Vingren, mas Daniel Berg e outros missionários pioneiros faziam parte, também há tempo possuía sua própria formulação doutrinária. Champlin e Bentes informam que a doutrina batista foi antecipada na Assembleiade Londres, ou Segunda Confissão de Londres,de 1677, e a Confissão de Filadélfia, de 1677, foi muito importante para as igrejas batistas, bem como para as igrejas presbiterianas e congregacionais.O segundo objetivo para a publicação do primeiro Cremos pode ser entendido pela leitura do Expediente do periódico. Nele o redator avisa: “Como em nosso primeiro número, só aceitaremos em nossas colunas os artigos que tenham assinatura de seus próprios autores e que estejam em conformidade com a sã doutrina”. Então, provavelmente, a elaboração e publicação de um artigo sob o título “O que nós cremos” havia sido por finalidade deixar explícita a todos a “sã doutrina” esposada pelas Assembleias de Deus para servir como crivo à publicação de artigos no então periódico oficial da denominação pentecostal. Esta é uma mostra do antigo cuidado dos líderes assembleianos em não aceitar erros doutrinários e nem os desvirtuamentos à fé dos membros de suas igrejas. O artigo “O que ensinamos” de Otto Nelson no jornal Mensageiro da Paz O missionário sueco Otto Nelson publicou no jornal Mensageiro da Paz de janeiro de 1931, p. 6, 2ª quinzena, o artigo doutrinário sob o título “O que ensinamos”. Otto Nelson chegou ao Pará em 1914. Ele foi o primeiro missionário sueco a vir para o Brasil depois de Gunnar Vingren e Daniel Berg. Ele havia imigrado para os Estados Unidos em 1910 e ali se converteu, recebeu o batismo no Espírito Santo e frequentou uma igreja pentecostal em Chicago. No Brasil, Otto Nelson exerceu a liderança das Assembleias de Deus nos Estados de Alagoas, Bahia, Sergipe e Rio de Janeiro. Foi presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) durante uma assembleia geral. Também pastoreou igrejas na Argentina e no Uruguai. Na Harpa Cristã é de sua autoria o hino 127, e a versão dos hinos 21, 94, 344, 419 e 424. Faleceu na Suécia em 1982, aos 91 anos de idade.

O artigo de Otto Nelson trata uma doutrina bíblica em cada um dos 11 parágrafos. As doutrinas foram assim nomeadas por Nelson: As Santas Escrituras, Deus, Arrependimento e Perdão, o Novo Nascimento, batismo em água, batismo no Espírito Santo, Santa Ceia, dons espirituais, Cura Divina, Segunda vinda de Cristo e o castigo eterno para os ímpios. Observa-se que as doutrinas que formam a espinha dorsal do pentecostalismo clássico (batismo no Espírito Santo, dons espirituais e cura divina) foram explicitadas pelo autor em comparação com o texto Cremos de 1919. O Cremos pentecostal de Theodoro Sthor O missionário norte-americano Theodoro Sthor que atuava no interior de São Paulo, fez publicar no Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de outubro de 1938, p. 2, um Cremos por meio de um artigo traduzido por ele, sob o título “Em que crêem os pentecostais”. Theodoro Richard Sthor chegara ao Brasil em 1936, junto com a esposa Tima Adams, como missionário enviado pela Igreja Calvário Pentecostal. Seguiu para a cidade de Catalão (GO) a fim de trabalhar ao lado da missionária Mathilda Paulsen, que havia sido enviada ao Brasil também pela Igreja Calvário Pentecostal. Em 1938, Sthor substituiu o missionário Gustav Bergström no pastorado da Assembleia de Deus de Ribeirão Preto (SP). Na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil realizada em 1949, quando os convencionais debateram aprovar ou não o ingresso de crentes da Igreja Calvário Pentecostal nas Assembleias de Deus, Sthor revelou o motivo de sua saída daquela denominação dizendo que verificara posteriormente que a mesma era divorciada dos princípios bíblicos, resolveu ingressar nas Assembleias de Deus, o que fez nos Estados Unidos, tendo recebido nova consagração. Então, opinou que os obreiros que viessem da Calvário Pentecostal deveriam “ser consagrados [ou reconsagrados]”, caso se revelassem “capacitados”. Sthor foi bastante atuante nas Convenções Gerais na década de 40 e um dos nomes recorrentes como professor em escolas bíblicas regionais ao lado de John Peter Kolenda, N. Lawrence Olson e outros. Faleceu em 2000 nos Estados Unidos. 

As justificativas para que esse Cremos fosse escrito são apresentados pelo autor (o nome não foi informado por Sthor) nos parágrafos iniciais e nos finais. Ele afirma que o movimento pentecostal era grandemente ignorado e também várias concepções rrôneas haviam surgido para difamá-lo. O movimento estava sendo confundido com o espiritismo ou visto como ideias novas. Por outro lado, o autor rechaça o calvinismo afirmando que “o movimento pentecostal não admite o fanatismo das predestinações e salvação incondicional”. Também declara que os pentecostais não poderiam ser responsabilizados pelo mau testemunho que um ou outro crente desse com uma vida discrepante da Palavra de Deus. Além disso, admitia que o movimento não era perfeito porque envolvia obra de humanos. O autor assegura que aquelas eram as verdades defendidas pelos pentecostais e que elas estão “em harmonia perfeita com todas as demais disposições bíblicas”. Talvez tenha sido esta a razão para o autor ter colocado a frase “no evangelho integral” como subtítulo em adendo à afirmação do título do artigo “Em que crêem os pentecostais”. Para ele, o “movimento é absolutamente bíblico, nos mais íntimos detalhes da doutrina”. O autor acrescentou que o despertamento pentecostal nasceu em oração e, por este motivo, durava até aquele momento. Era a oração que fazia os seus participantes experimentar a glória de Deus, revigorava-os e os conduzia triunfantemente como igreja  missionária. No fim do artigo traduzido por Sthor aparece uma Nota da Redação do jornal Mensageiro da Paz afirmando que aquele texto mostrava em poucas palavras “o que representa o combatido ‘pentecostismo’”.

A partir da 1ª edição de junho de 1969, um Cremos passou a ser publicado mensalmente na página 3 do jornal Mensageiro da Paz.Esta publicação ocorreu seis meses após o pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos ter assumido a direção das publicações da CPAD e também se tornado diretor do referido jornal em 10 de janeiro de 1969, em substituição ao jornalista Emílio Conde. Até o momento é desconhecido qualquer documento textual que possa esclarecer quem escreveu, e qual foi o motivo e de onde partiu a decisão para que um Cremos passasse a ser publicado mensalmente no periódico oficial das Assembleias de Deus no Brasil. Todavia, por meio da leitura do capítulo que trata da Assembleia Geral da CGADB em 1968 do livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, sabe-se que, na época, houve um debate doutrinário sobre a Trindade. A ata da reunião convencional informa que no Estado de São Paulo havia muitos crentes combatendo a doutrina da Trindade, inclusive um funcionário da agência da Casa Publicadora e, destaca que alguns obreiros de algumas Assembleias de Deus eram contra a mesma doutrina. Os convencionais reafirmaram por unanimidade a crença na doutrina bíblica da Trindade e reconheceram a necessidade de se investir no ensino bíblico propondo a conservação e criação de escolas bíblicas para discorrer sobre o assunto. Provavelmente, a iniciativa de publicação mensal de um Cremos no jornal Mensageiro da Paz tenha sido uma medida tomada pela liderança assembleiana no sentido de combater ensinamentos contrários às doutrinas que a denominação defendia e ensinava até então. A partir de então, este tem sido o único documento oficial da denominação que expressa seu pensamento doutrinário.

Daniel Berg e Gunnar Vingren, pioneiros das Assembleias de Deus no Brasil; autoria de artigo publicado no jornal Boa Semente de 16 de abril de 1919 e repetido no jornal O Som Alegre de março de 1930, intitulado “O que nós cremos” é atribuída a Vingren A esaprovação de um Credo e a ênfase na preservação dos usos e costumes Nas décadas de 60, 70 e início de 80, houve debates entre os pastores nas assembleias gerais da CGADB (ainda que o tema não tenha sido item ofi cial de Temários), discutindo se as Assembleias de Deus deveriam ter um Credo ou não. Uma ala mais nova de pastores, representada pelospastores Otoniel e Oziel Moura de Paula, defendia a elaboração e aprovação de um Credo, e apresentavam as razões. Mas, a ala mais antiga dos pastores sempre rechaçava as propostas por acharem que Credo era coisa dos católicos e das denominações protestantes tradicionais, e “que a Bíblia é que é o nosso Credo” (assim diziam eles). Desta forma, parece ter prevalecido nessas últimas décadas do século XX o fortalecimento dos mores e folkways (usos e costumes) da denominação em detrimento do didaquê (doutrina). Houve maior preocupação para que os membros apresentassem um padrão comportamental do que aprendessem e formulassem as doutrinas bíblicas. Não se pode ignorar que nesse momento houve combate ferrenho à existência de seminários teológicos. Nos anos 70, 80, 90 e na primeira década dos anos 2000, os usos e costumes foram temas recorrentes nas assembleias gerais da GADB e nos encontros de liderança (Elads). Em 1975, a CGADB aprovou uma resolução com normas acerca de usos e costumes para as igrejas. Esta resolução foi publicada outras duas vezes no jornal Mensageiro da Paz, em 1989 e 1999. Em 2007, os convencionais debateram a “conservação da doutrina, liturgia e bons costumes das Assembleias de Deus, visando sua contemporização sem perder a sua identidade”.

Uma resolução foi aprovada e publicada no Mensageiro da Paz prevendo punições aos fi liados da CGADB que a descumprisse. A proposta de reforma do Credo do Mensageiro da Paz e aprovação da Declaração de Fé Na assembleia geral extraordinária da CGADB em 2012 foi proposto a reforma do Credo ofi cial das Assembleias de Deus no Brasil para a inclusão no Estatuto da CGADB e com sugestão de inclusão nos Estatutos das afiliadas, em razão da proteção constitucional prevista no artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal à liberdade de crença e de consciência, em razão de mudanças previstas na legislação. Nesta reunião foi compostauma comissão especial de pastores, a maioria dos órgãos de Doutrina, Apologética e Educação da instituição para tratar da ampliação do Cremos que vem desde 1969 sendo publicado no jornal Mensageiro da Paz e aceito como o Credo impresso da denominação. A Comissão Especial, após várias reuniões, elaborou o documento de 154 páginas intitulado Declaração de Fé. O conteúdo é formado por 24 capítulos com interpretações autorizadas das Escrituras e ensinos ofi ciais das Assembleias de Deus no Brasil. Os autores afi rmam que o referido documento organiza de forma escrita e sistemática as crenças e práticas das Assembleias de Deus brasileiras que já são ensinadas nas igrejas desde a chegada ao país dos missionários fundadores, Daniel Berg e Gunnar Vingren. A Declaração de Fé se propõe, além de mostrar em que crê e o que pratica a denominação, oferecer proteção contra as falsas doutrinas, contribuir para a unidade do pensamento teológico, preparar os candidatos ao batismo e formar bíblico-espiritualmente os novos convertidos.

Fonte: Pr. Isael de Araújo