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Mensageiro da Paz

Entrevista com Fátima Lúcia Pelaes

De feminista radical a defensora da família e da vida desde a concepção

02/12/2013 - 12:53

Fátima Lúcia Pelaes é socióloga e atualmente exerce seu 5º mandato de deputada federal, representando o estado do Amapá. Ela é vice-presidente da Frente Parlamentar Evangélica e vice-presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família.

Casada com Sivaldo Brito e mãe de Yuri, 24 anos, a hoje irmã e assembleiana Fátima Pelaes conta-nos nesta entrevista exclusiva ao jornal Mensageiro da Paz como se deu sua trajetória de vida, marcada pelo preconceito, pela discriminação, pela angústia e muita crise interior; e também conta como aconteceu seu encontro com Jesus, que mudou a sua vida e visão política pelo poder da Palavra de Deus.

Qual sua história de vida antes de conhecer Jesus?


Fui gerada numa penitenciária do Amapá como fruto de um abuso sexual sofrido por minha mãe. À época, ela era interna da penitenciária, onde cumpria pena por crime passional. Nasci e passei parte da minha infância dentro de uma cela. Foi ali que aprendi a andar, falar e sobreviver, com meu mundo resumido a quatro paredes e convivendo com pessoas com quem não tinha afinidade nem laços afetivos. Tínhamos que ser práticas para continuar a viver. Quando cresci, tomei conhecimento de que minha concepção foi fruto de abuso sexual e havia dúvida quanto à paternidade, sendo que minha mãe relatou-me que, por conselhos de colegas, pensou em me abortar. Mas, depois mudou de ideia e o amor e a vida venceram. Foi chocante saber disso. Esse fato passou a marcar negativamente minha vida. Olhava-me como uma pessoa inferior, até mesmo porque não sabia quem era meu pai. Saímos de lá e minha mãe foi trabalhar como faxineira para sustentar a mim e às minhas irmãs, e eu a acompanhava nos serviços. Ia para ajudar, mas também porque na escola na qual ela trabalhava tinha merenda, o que serviu de atrativo, mas também me mostrou que estudar poderia ser a alternativa para mudar minha vida. Na escola, adotei um comportamento retraído. Sentava na última carteira. Não falava sobre minha origem. Tinha muita vergonha dos outros. Não tinha coragem de olhar nos olhos dos outros. Depois de passar pela escola pública, conquistei um sonho: aprovação no vestibular da Universidade Federal do Pará, no curso de Sociologia. Quatro anos depois de intensos estudos e muitas dificuldades, finalmente, a conquista do título de bacharelado em ciências sociais.

A porta que Deus abriu para fazer algo marcante em favor de pessoas pobres. Oportunidades de muitas visitas a casas, igrejas, bairros etc para construção de muitos relacionamentos, para vivenciar o drama de muitas mulheres também sofridas, como minha genitora.

Como aconteceu seu encontro com Jesus?

No ano de 2002, em pré-campanha para o governo do Estado do Amapá, aconteceu o que jamais imaginava: o naufrágio nas águas do caudaloso rio Amazonas. Era noite escura. Por volta de meia noite, o barco em que estávamos colidiu com uma balsa e naquele momento abriu-se o barco, começando a afundar. Muita água começou a entrar na embarcação. O desespero começou a tomar conta de todos. Gritos, medo e pânico. Confesso que o medo da morte invadiu minha alma, principalmente porque eu não sabia nadar. No corre-corre, passava uma frase pela minha mente: “Salve-se quem puder!”. Diante dessa situação, como um fi lme a minha vida passou em minha mente, comecei a pensar no meu filho (à época com 10 anos), na minha família. Pensei também na minha carreira política e vi que nada podia fazer para me salvar. Em meio ao desespero, lembrei-me das muitas mulheres de oração que oravam por mim quando visitava as igrejas evangélicas em missão pela Legião Brasileira de Assistência (LBA). Também consegui lembrar do Deus que elas falavam, “o Deus do impossível”. Nada podendo fazer, lancei-me nas águas do Rio Amazonas, em meio à escuridão, e ali fiz uma breve oração, pedindo a Deus que não me deixasse morrer. Já prestes a afundar, ouvi uma voz que dizia nitidamente: “Se creres, Me chame com toda a tua força!” Diante da voz inconfundível de Deus, enchi-me de mais fé e coragem, fechei os olhos, levantei as mãos ao céu e gritei em alta voz: “Deus, dá-me mais uma oportunidade, não me deixe morrer... Salve-me!”. E desfaleci por uns segundos. Ao abrir os olhos, escutei uma voz que dizia “Pegue esse barco”. Olhei e contemplei um barquinho que, milagrosamente, apareceu ao meu lado, no qual estava um ribeirinho (morador das ilhas). Peguei no barquinho e fomos conduzidos para a margem do rio.

Dois sentimentos se juntaram em mim: a alegria de estar viva e a tristeza por ver muitos perdendo a vida. Isso ficou muito tempo massacrando minha cabeça e meu coração, assim como o céu estrelado daquela noite. Naquele dia, cumpriu-se em minha vida o que está escrito em Isaias 43.2: “Quando passares pelas águas, estarei contigo, e quando passares pelos rios, eles não te submergirão.” Apesar de ter perdido a eleição, ganhei o mais importante: o dom da vida eterna em Cristo Jesus. Deus me concedeu mais uma oportunidade de vida.

O que o encontro com Jesus mudou em sua visão política?

De 1991 a 2002, exerci três mandatos de deputada federal. Nesse período, como ainda não conhecia Jesus Cristo, defendi bandeiras de lutas contrárias aos valores bíblicos, como, por exemplo, a defesa do aborto, por entender, naquela época, que a mulher era “dona” de seu corpo, não conseguindo enxergar que ali há uma vida. Defendi, veementemente, o Projeto de Lei 1135/91, que visava a descriminalizar o aborto no Brasil. Além disso, não via a família como um projeto de Deus e cada um deveria constituí-la como bem entendesse. Após o naufrágio e minha conversão, passaram-se quatro anos. Conquistei novo mandato de deputada federal. Coloquei o mandato à disposição de Deus. Firmei um compromisso de glorificar o nome do Senhor naquela Casa de Leis. Hoje, eu defendo o direito à vida, o direito de viver tem que ser dado para todos, assim como foi dado para mim, por mais de uma vez.

Seu testemunho já foi compartilhado no plenário da Câmara?

Certa feita, na acalorada discussão do projeto de lei “Estatuto do Nascituro” (P.L 478/2007), que defendia a vida desde a concepção, havia uma estratégia bem montada pelos parlamentares defensores do aborto para não aprovar o projeto. A estratégia estava dando certo, até o momento em que fui tomada por um forte impulso do Espírito Santo. Em meio ao calor da discussão, solicitei à palavra. Naquele momento, já havia chorado bastante. Estava indignada pela forma como a matéria estava sendo tratada. A concepção do ser humano estava sendo tratada numa perspectiva puramente humana, sem considerar que Deus é autor da vida. No embate, um deputado colocava o aborto como direito que a mulher tem sobre o seu próprio corpo. Foi aí que reagi e, contrariando minhas posições dos mandatos anteriores, surpreendentemente, senti força e coragem como nunca antes e falei com autoridade sobre o assunto, relatando minha vida pessoal. Ao concluir a explanação, observei que muitos estavam chorando. O cenário político havia mudado. Os deputados mudaram de posição. Não havia mais clima para aprovar aquele malsinado projeto de lei. Digo como o apóstolo Paulo: “Deus escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo e as desprezadas, e aquelas que não são para reduzir a nada as que são” (1Co 1.27-28).


Mensageiro da Paz - Número 1543 - dezembro de 2013, CPAD

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