Turbulência no norte do país africano cria refugiados em países e levanta preocupações de que região se transforme em ímã para terroristas internacionais
A região do vasto deserto localizado no norte de Mali tornou-se um ímã para extremistas islâmicos que intensificaram o seu domínio sobre Timbuktu e outras cidades distantes, impondo uma forma estrita de justiça que está levando dezenas de milhares de pessoas a fugir. Alguns dizem se tratar de uma espécie de Afeganistão africano.
Os recém-chegados a um acampamento improvisado que já abriga 92 mil pessoas na fronteira com a Mauritânia descrevem um influxo de jihadistas - alguns advindos do próprio país e outros, possivelmente, do exterior - com a intenção de impor um islã de chicote e pistola sobre os muçulmanos de Mali, que sempre conviveram com turistas ocidentais na lendária cidade de Timbuktu.
As condições em Mbera são sombrias, com muitos malinenses doentes, famintos e desnorteados. Mas isso é melhor, segundo os refugiados, do que a vida cansativa e tumultuada que enfrentavam naquela inesperada região militarizada pelos islâmicos no coração da África Ocidental.
Refugiados de lugares como Timbuktu, Goundam, Gao e Kidal disseram ter testemunhado chicotadas, espancamentos e outras punições nas ruas, de maneira ostensiva, por violação da lei islâmica. Alguns dos que fugiram disseram terem eles mesmos passado por essa severa justiça.
"Eles disseram: 'Vocês são ladrões. Por que você está andando a essa hora?'", disse Mohamed el-ag Hadj, 27 anos, ex-soldado do Exército de Mali.
Ele e um amigo saíram para passear às 19h e se viram cercados por dois carros cheios de homens armados. Os homens amarraram os braços dos amigos nas suas costas, os prenderam a uma árvore e os obrigaram a ficar de joelhos durante toda uma noite. Pela manhã, "tudo estava inchado."
"Foi assustador", lembrou Hadj. "Eles me insultaram, me chamaram de selvagem e infiel."
Quando encontraram um maço de cigarros no bolso de sua camisa, eles o agrediram no rosto. "Eles punem as pessoas por nada", disse o jovem.
Especialistas em contraterrorismo dos Estados Unidos expressam preocupação de que Mali possa se transformar em um ímã para terroristas internacionais, mas dizem que esses relatos ainda não foram corroborados. Apesar de a turbulência no norte de Mali, lembram, ter sido causada em grande parte por extremistas da região.
"A preocupação é que esses grupos locais consigam abrir espaço no norte de Mali para servir como uma base de operações", disse uma autoridade dos EUA que pediu para não ser identificada. "Talvez, então, o norte de Mali possa se tornar um destino para combatentes estrangeiros da região e até mesmo de lugares mais longe, mas isso ainda não aconteceu."
Fonte: Último Segundo