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04/10/2011 - 13:19

O espaço vazio

A questão da tevemania e da internetmania



O espaço vazio

Pr. Silas Daniel

Há uma frase do personagem Charles Foster Kane, do filme Citizen Kane (Cidadão Kane), de Orson Welles, que se tornou emblemática: “Posso dizer o que o povo pensará – sou dono de vários jornais”. Ela denota o poder que a mídia tem de influenciar as pessoas.

Sem sombra de dúvida, os mais suscetíveis à influência da mídia são crianças e adolescentes. Sabendo disso, as grandes mídias investem pesado em programas voltados para esse grupo. Muitos são os exemplos. Vamos a um deles, que não faz tanto tempo assim: aquela novela da Globo O beijo do vampiro, de 2002. Por estar com as sucessivas novelas das 19h em franco declínio na audiência, a Globo resolveu apostar em um produto no horário voltado para crianças e adolescentes, e recheado pela maioria das principais estrelas globais. Como sempre, o resultado foi de um profundo mau gosto. A novela foi uma verdadeira invocação ao mal oferecida em um formato de humor para tornar seu conteúdo imundo palatável, principalmente às crianças. Veja o que disse a própria Globo, que chegou a criar na época até um site para a novela, intitulado “vampiromania”: “Agora, com O beijo do vampiro, (...) o autor desceu às trevas mas deve ter conseguido conquistar, desta vez em cheio, a garotada. De quebra, Calmon vai angariar a simpatia das donas de casa (...) Afinal, crianças quietas diante da TV na hora da correria para preparar o jantar é um auxílio e tanto. O beijo registrou, na estréia, 36 pontos de média, 41 de pico e 50% de share (o que significa que, de cada cem televisores ligados no horário, 50 estavam na Rede Globo)”, O Globo, 28 de agosto de 2002.

Diante de situações como essa, muitos pais ficam se perguntando: O que fazer para impedir que meu filho veja essas sujeiras? Como fazer para meu filho não absorver essa mensagem demoníaca?

Bem, talvez seu filho não assista novelas desse tipo ou outros programas com conteúdo no mínimo duvidoso. Ótimo. Estamos citando só um exemplo. O que está em pauta aqui, essencialmente, é o que fazer para que suas crianças não sejam influenciadas negativamente pela mídia, no caso, a televisão e os conteúdos ruins da Internet.

Foi Deus quem criou a família foi Deus. A família foi gestada e criada por Ele. Portanto, ninguém melhor para nos ensinar como resolver problemas familiares do que Deus, e isso Ele o faz por meio da sua Palavra.

Poderia citar várias passagens bíblicas sobre o assunto, mas gostaria de me prender apenas a uma neste artigo. Trata-se do célebre texto de Provérbios: “Ensina a criança no caminho em que deve andar”. O detalhe dessa passagem é a colocação “no caminho”. Não basta os pais ensinarem aos seus filhos o caminho em que devem andar. Eles têm que ensinar o caminho no caminho. Isso fala principalmente da importância dos pais como exemplo, como um referencial a ser seguido pelos filhos. Os pais não podem dizer: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

No entanto, há um outro princípio que salta aos nossos olhos quando analisamos a expressão “no caminho” na passagem supracitada. Esse texto de Provérbios também fala de apoio. Os filhos têm que ver seus pais envolvidos com suas vidas, cúmplices, incluídos no processo de amadurecimento deles. Pais e filhos devem andar lado a lado no caminho proposto. Se o pai disser para o filho fazer algo sem lhe der o apoio necessário para que ele possa fazê-lo, como o fará? Não é assim que Deus age conosco? Ele diz “Não faça isso” ou “Não faça aquilo”, mas também nos concede a capacidade, o apoio necessário para podermos agir corretamente.

Não é à toa que o mesmo Paulo, que diz em Efésios 4 e 5 o que Deus não quer que façamos, fala em seguida “Enchei-vos do Espírito” e “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder” (Ef 5.18 e 6.10). Paulo deixa claro que além de Deus dizer “Não faça isso”, Ele também disponibiliza seu poder e sua presença para nos fazer acertar.

Portanto, a melhor proposta não é jogar o televisor fora ou desligar a Internet de casa. Com ou sem televisão e com ou sem Internet, não esqueça que seu filho precisa de sua presença ao seu lado! A “tevemania” ou a “internetmania” são sinais de que a tevê e a Internet tomaram o espaço vazio que você deixou. Os pais devem estar de alguma forma mais presentes.

Em vez de deixar seu filho assistir televisão sozinho, assista à tevê com ele para selecionar o que ele vê. Não coloque uma tevê no quarto dele, principalmente se seu filho for uma criança ou adolescente. Filhos dessa idade ainda não estão com a personalidade definida, não têm autocontrole. Adultos às vezes não têm, imagine então uma criança ou adolescente. Tevê a cabo ou Internet no quarto dele, nem pensar.

Quer saber como vai seu filho realmente? Primeiro, reserve um espaço do seu tempo para conversar com ele. Não se contente apenas em perguntar como ele vai. O retorno pode não ser conclusivo. Não tenha pressa, gaste (ganhe) um tempo com ele, conversando sobre vários assuntos de seu interesse. Essa deve ser sempre uma experiência prazerosa. Em segundo lugar, veja o que ele assiste. Há pais que até conversam com seus filhos, mas nem se importam com o que eles assistem.

Quer conhecer os valores de seu filho? Assista tevê com ele e veja o que ele anda acessando na Internet. Descubra quais são seus heróis e os principais assuntos que o atraem. Depois, converse com ele sobre a filosofia de vida desses heróis e sobre os temas que ele gosta. Encoraje o seu olhar crítico. Confronte os valores desses heróis e os temas do gosto dele com os valores da Palavra de Deus. Não apenas diga o que é errado, mostre porque é, explique pela Palavra de Deus e em uma linguagem acessível.

Mostre a seu filho que a televisão e muitas mídias na Internet, de forma geral, sempre apresentam um mundo diferente da realidade. Esse mundo é fantasioso, com efeitos especiais, onde sempre há gente bonita, tudo é resolvido rapidamente e no fim dá tudo certo.

Lembre-se que a tevê apresenta pais que são “perfeitos”, fazendo com que seu filho ache a vida real uma chatice. Os pais devem evitar que seus filhos escapem para esse mundo fantasioso, e uma das formas de fazer isso, além de revelar a ilusão do mundo televisivo, é tornar o mundo real, em casa, mais agradável. Há muitas crianças que se fixam na tevê para fugir do mundo real, que lhes é perturbador.

Por fim, apresente-lhe outras formas de entretenimento, e saudáveis. A mídia é um conjunto de meios de comunicação, onde você tem, além da tevê, jornais, revistas, livros, rádio, CDs, mídias sadias de Internet, vídeos, DVDs etc. Você tem um conjunto de instrumentos à disposição. Basta decidir o que se quer ver, ler ou ouvir. Saiba usar esses instrumentos e dê opções boas a ele. Isso serve tanto para um filho tevemaníaco como àquele que é fixado em Internet ou games.

Lembro-me que quando era criança gostava de colecionar revistas em quadrinhos. Meus heróis preferidos eram Homem-Aranha, Hulk e X-Men, até que um dia meus pais me deram uma edição da antiga Bíblia em quadrinhos. Gostei e eles acabaram comprando toda a coleção. As aulas de Escola Dominical passaram a ser mais interessantes. Comecei a ler a Bíblia. Li toda. Depois devorei Heróis da Fé, de Orlando Boyer. Meus referenciais mudaram. Tudo porque foram-me dadas outras opções. Inclusive, foi nesse período que nasceu meu prazer por livros, meu principal entretenimento hoje.
Se em nossos dias a tevê está superdimensionada nas casas, é porque as famílias deixaram de lado muita coisa. A tevê apenas preencheu o espaço vazio. Mudar isso depende dos pais.

Silas Daniel é pastor, jornalista e escritor.

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