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Valmir Nascimento

Valmir Nascimento

Em favor de congressos da juventude que edificam

Qua, 24/01/2018 por Valmir Nascimento

Participei no final de semana passado de mais um Liderar + Impactar, evento organizado pela CPAD voltado para a liderança de juventude e aos jovens e adolescentes cristãos. Esta edição ocorreu na AD de Curitiba-PR, em conjunto com o congresso de jovens daquela região (UMADC).

Foram momentos preciosos de aprendizado, comunhão, adoração e fervor espiritual. Jovens e líderes, vindos de várias partes do país, receberam instrução e conselhos no decorrer do dia com palestras sobre música, liderança, pornografia, suicídio, universidade, cyber dependência e mercado de trabalho. À noite, fomos edificados pelos louvores e pela exposição avivada da Palavra, principalmente.

Estou mencionando este trabalho a fim de refletir sobre a nossa juventude cristã, mais precisamente sobre os eventos voltados para esta faixa etária de nossas igrejas. Creio que este modelo que conjuga ensino sobre temas contemporâneos à luz das Escrituras, juntamente com a exposição da Bíblia no poder do Espírito Santo, é o ideal para amadurecimento espiritual dos nossos jovens e adolescentes pentecostais.

Congressos direcionados para a juventude devem proporcionar reflexão, conscientização e despertamento espiritual. Festividades que focam tão somente em movimentos e pregações isoladas, em descompasso com o que ocorre na sociedade, podem até produzir algum tipo de êxtase momentâneo, porém, mostram-se ineficazes a longo prazo, pois não conseguem preparar o adolescente/jovem crente para os desafios da contemporaneidade.

Eis o motivo pelo qual tenho me manifestado em favor das escolas bíblicas de jovens ou eventos que, como o Liderar + Impactar, visam proporcionar estudo sistematizado das Escrituras, reflexões sobre temáticas contemporâneas que façam parte do cotidiano dos jovens e adolescentes, e contenham pregações expositivas e pentecostais da Palavra de Deus.

Devemos lembrar que o perfil da juventude pentecostal de nossos dias é diferente daquele de quinze ou vinte anos atrás. Isso exige de nós, líderes, pastores e professores de jovens, sabedoria e discernimento para lidar com as gerações Y e Z, que frequentam hoje nossas igrejas e participam dos grupos da mocidade. E o ponto de partida para um trabalho desta natureza, penso eu, começa por compreender que eventos, congressos ou qualquer outro tipo de encontro com a juventude não é o ponto central da vida cristã. Nenhuma programação de três ou quatro dias substitui o cuidado e o acompanhamento permanente dos jovens, e por isso mesmo não pode ser o único ou o mais importante ato do líder durante o seu mandato. Tais encontros simplesmente corroboram ou coroam um trabalho sério de comunhão e serviço demonstrado ao longo dos anos.

Importante lembrar ainda que encontros da juventude cristã não se prestam ao entretenimento. Não me entenda mal. Não estou dizendo que não seja um momento de alegria e diversão entre irmãos na fé ou que não possamos fazer eventos específicos para lazer e descanso; e sim que as programações não devem ser pautadas com o evidente propósito de agradar ou entreter pessoas. Congresso de jovens ou adolescentes não é um programa de férias; é um empreendimento de adoração a Deus!

James K. A. Smith foi muito preciso ao alertar que transformamos (isso é uma ironia) o ministério de jovens em algo voltado à expressão, “supondo que o que ‘segurará’ os jovens na igreja é uma série de oportunidades para que sinceramente expressem sua fé”[1]. Ele diz que temos nos contentado com uma dicotomia: “uma experiência emocional como prelúdio da dispensação de informações, trinta minutos de música emocional, seguidos de uma ‘mensagem’ de trinta minutos”[2]. De acordo com Smith, porém, “embora possamos acreditar que o emocionalismo do ministério contemporâneo para jovens seja anti-intelectual, ele está, na verdade, vinculado a um paradigma profundamente intelectualista de discipulado: toda a motivação de manter os mais jovens felizes, comovidos e emocionalmente engajados é ainda termos uma oportunidade para depositar uma ‘mensagem’ em seus receptáculos intelectuais”[3].

Smith ainda adverte: “O que se entende por ministério para jovens muitas vezes não é uma forma séria de formação cristã, mas, sim, um esforço pragmático e desesperado de manter os mais jovens como membros de carteirinha de nosso clube evangélico”. Temos confundido, diz Smith, “manter os mais jovens dentro dos prédios com mantê-los em Cristo”. Além disso, “embora possamos ter muitos jovens participando com entusiasmo de todos os eventos de entretenimento que lhes proporcionamos, essa participação não está realmente formando seus corações e direcionando seus desejos para Deus e seu reino, uma vez que as liturgias padrão desses eventos são construídas sobre rituais consumistas e sobre ritos de valorização pessoal”[4].

A leitura feita por Smith é interesse e nos faz refletir sobre eventos destinados a este público de nossas igrejas de tradição pentecostal. Tais reuniões não se destinam a promoção individual, passatempo entre jovens ou movimentos sem propósito. Devem ser momentos de comunhão, instrução na Palavra, conscientização cristã e adoração, a fim de alcançar a maturidade espiritual (Ef 4.13).

Assim, ao tempo em que parabenizo a CPAD pela realização do Liderar + Impactar em diversas regiões do país, conclamo a liderança de jovens a que repensem as programações e o propósito de seus encontros e congressos, direcionando-os para que a juventude realmente seja edificada nestes eventos, crescendo na graça e no conhecimento de Cristo (2 Pe 3.18).

 

 

REFERÊNCIAS

 
 

[1] SMITH, James. Você é aquilo que ama: o poder espiritual do hábito. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 193.

[2] SMITH, p. 193.

[3] SMITH, p. 193. 

[4] SMITH, p. 194.

6 comentários

Gregori Soares

Concordo plenamente com esse pensamento . Sou líder de jovens e hoje tento passar essa informação para eles (jovens) . As vezes a expectativa de uns líderes e exatamente o congresso cheio de "movimentos" Mas que na verdade não dará sustento para o" longo".

zoriwitudo

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Diego Coimbra

Excelente comentário. Infelizmente, muitos "discipuladores" de nosso tempo, só pensam no que realmente interessa "$" Se esquecem, ou não aprenderam nada com os notáveis homens de Deus, que não precisavam se utilizar de recursos muito semelhante aos do mundo, para conseguirem a permanência dos novos cristãos. Contudo, penso que há esperança para a juventude do Brasil. E, ela está baseada na exposição do Ensino Fiel das Escrituras Sagradas.

JOAO PAULO S MENDES

A paz do Senhor, querido Pr. Valmir. Excelentes considerações. No entanto, penso que atualmente essa necessária mudança em relação à perspectiva assembleiana para juventude não é assimilada pela mente de muitos pastores.Muito da nossa liturgia é considerada "sagrada", sendo intocáveis os "marcos antigos". Mas, se não atentarmos para a necessidade de mudanças os danos continuaram crescendo e os jovens mais e mais carentes encontrarão noutras denominações o que buscam.

Elizelda Araujo

Boa é esta palavra! Pena que muitos que precisam entender esta coisas, não a lerão.

Marcos Guimarães

Excelente! Consisa e objetiva sua exposição Pr. Valmir Nascimento. Nós aguardamos uma mudança nos eventos voltados para Jovens. Penso que o embrião ja começou com o projeto Liderar da CPAD. Deus continue abençoando sua vida e dos demais que compõe o projeto.

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Perfil

Valmir Nascimento é jurista e teólogo. Possui mestrado em teologia, pós-graduação em Estado Constitucional e Liberdade Religiosa pela Universidade Mackenzie, Universidade de Coimbra e Oxford University. Professor universitário de Direito religioso, Ética e Teologia. Editor da Revista acadêmica Enfoque Teológico (FEICS). Membro e Diretor de Assuntos Acadêmicos da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure). Analista Jurídico da Justiça Eleitoral. Escritor e palestrante. Comentarista de Lições Bíblicas de Jovens da CPAD. Autor dos livros "O Cristão e a Universidade", "Seguidores de Cristo" e "Entre a Fé e a Política", títulos da CPAD. Ministro do Evangelho em Cuiabá/MT.

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