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Valmir Nascimento

Valmir Nascimento

Afinal, quem é reformado?

Seg, 02/11/2015 por Valmir Nascimento

Nesta data em que se comemora os 498 anos da Reforma Protestante, muitos perguntam: Quem, de fato, dentro do movimento evangelical, pode ser considerado um reformado?
 
Essa é uma indagação bem interessante para os nossos dias, notadamente para ajudar a desfazer a tentativa de monopolização do movimento reformacionista por algumas alas do cristianismo evangélico contemporâneo.
 
De modo geral, a Reforma Protestante representa o movimento teológico no século XVI que buscou o retorno da igreja cristã ocidental a fundamentos mais bíblicos, com implicações eclesiásticas, morais, políticas e econômicas.  Em seu cerne estava o protesto contra a corrupção religiosa e a venda de indulgências pela igreja, e a defesa de que cada cristão pudesse, por si só, estudar as Escrituras.
 
A síntese dos postulados da Reforma Protestante está contida nos chamados 5 (cinco) solas: Soli Deo Gloria (Glória somente a Deus); Sola Fide (Somente a Fé); Sola Gratia (Somente a Graça); Sola Christus (Somente Cristo); Sola Scriptura (Somente as Escrituras).
 
Não obstante, a “Reforma europeia deve ser considerada o resultado de uma série complexa e diversificada de micro-Reformas, “cada uma delas com base em visões essencialmente locais de fontes e métodos teológicos, cujas interações subsequentes viriam a definir a forma da macro-Reforma como um todo”[1]. Afinal, “os fatores sociais não são, de modo algum, insignificantes na recepção das ideias, quer religiosas, políticas ou científicas”[2], muito ao contrário disso, é a partir desses fatos e suas inter-relações e conexões que compreendemos a realidade da história e todos os seus influxos, visto que ninguém age em um vácuo existencial, antes é impulsionado por fatores internos e externos que moldam um determinado período.
 
Portanto, o movimento reformista era complexo e heterogêneo, tratando de várias questões do seu tempo. Segundo Alister McGrath o termo “Reforma” é usado em vários sentidos, podendo se distinguir pelos menos quatro movimentos com características distintas: Reforma luterana (Martinho Lutero); Reforma calvinista (João Calvino); Reforma radical (anabatismo) e a Reforma católica (contra-reforma). De modo mais restrito, a expressão Reforma Protestante alude aos três primeiros movimentos.
 
A partir dessa premissa, McGrath lembra que o termo “calvinismo”, embora frequentemente usado em referência às ideias religiosas da igreja reformada, e muitas vezes referido pela literatura, atualmente é desaconselhado. “A cada dia tem se tornado mais evidente o fato de que a teologia reformada, ao final do século XVI, inspirou-se em fontes outras que não as ideias do próprio João Calvino”.[3]
 
Nesse mesmo sentido, Roger Olson também recorda que o termo Reformado é controverso. Restritivamente, refere-se às pessoas e movimentos que juram fidelidade aos três “símbolos de unidade”- o Catecismo de Heidelberg, a Confissão Belga e os Cânones do Sínodo de Dort. No entanto, segundo Olson, essa definição excluiria os muitos presbiterianos em todo o mundo que também acreditam que são reformados; assim como os congregacionais, batistas e muitas outras igrejas e organizações que reivindicam o termo e que, geralmente, são consideradas reformadas em sua teologia[4].
 
A partir dessa perspectiva, é importante corrigir a ideia segundo a qual reformados são somente aqueles que se identificam com os cinco pontos calvinistas [Tulip: Depravação Total (Total Depravity); Eleição Incondicional (Unconditional Election); Expiação Limitada (Limited Atonement); Graça Irresistível (Irresistible Grace); Perseverança dos Santos (Perseverance of the Saints)]. Essa perspectiva, além de não fazer jus à história da Reforma Protestante, desconsidera um dos princípios básicos que lhe era inerente: a contrariedade ao monopólio da interpretação das Escrituras.
 
Talvez, seja mais consentâneo com a história a afirmação de que os cristãos alinhados à Reforma sejam aqueles cuja teologia defendem a glória de Deus, a salvação pela fé por meio da graça, somente através de Cristo, cuja revelação divina se obtém mediante as Escrituras Sagradas. Isso inclui, obviamente, os pentecostais clássicos e aqueles que defendem a doutrina da salvação dentro de uma perspectiva arminiana.
 
Pensar de forma contrária é querer retornar ao elitismo teológico-religioso do período que antecedeu a Reforma Protestante.
 
 
por Valmir Nascimento
 
Referências:


[1]MCGRATH, Alister.Origens intelectuais da reforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 7.
[2] MCGRATH, Alister.Origens intelectuais da reforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 8.
[3] MCGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd, 2005, p. 99.
[4] OLSON, Roger. Teologia arminiana: mitos e realidade. São Paulo: Reflexão, 2013, p. 56.

14 comentários

Milton souza

Questão essa que nunca chegaremos a um denominidor comum,quem é reformado ou não,mas o que importa isso para os salvos? Isso só importa aos teologos aos intelectuais

ISAIAS.

Reformado é Sim, o Cristão ou Cristã que tipo Apóstolo Paulo transita toda a Sua Confissão e comportamento nos Cinco SOLAS, Na Doutrina Viga Mestra Irrefutável da SOBERANIA DO TODO PODEROSO - SENHOR DEUS, que por conseguinte Solidifica Escriturísticamente A TULIP Os Cinco pontos do Calvinísmo. Com desejo total de Respeito pois são Em Cristo feitos Meus Irmãos, mas Pentecostísmo e Néo-Pentecostísmo é um remanescente do ARMINIANÍSMO Solitário do Ultra-Montanísmo na reação romana da Contra-Reforma.

Wellington Tadeu

Ótimo texto e iniciativa! De fato, aqui mesmo, há alguns comentários que demonstram que uma parcela das denominações evangélicas têm sim a intenção de "monopolizar" o título de REFORMADO; pois, nota-se uma séria dificuldade de interpretar de modo honesto o que expôs o pastor Valmir. Porém, para quem diz que Calvino foi mais importante do que o apóstolo Paulo e que o calvinismo é o Evangelho de Cristo, considerar o título "reformado" mais importante do que o título "CRISTÃO" não surpreende.

Eliel Teixeira da Silva.

Não vejo que possamos incluir os pentecostais como reformados, pois, não fazem a menor força para fazerem conexão com a Reforma Protestante; não ensinam as Doutrinas da Graça, ou mesmo, não usam as cinco solas (para muitos crentes desconhecidas)como balizas d fé protestante; infelizmente, cada um caminha para um lado, alguns, quase beiram o semipelagianismo. Remanescentes do Pentecostalismo clássico são raros,portanto, pelas razões expos afirmo com maior ênfase que o mov pent não é reformado.

Alexandre Coelho

Parabéns por seu texto Valmir. Também divulguei no meu Face. Deus te abençoe.

nivio jose dos reis

A paz de Cristo, pastor Valmir gostei muito do vosso discurso e sei da vossa capacidade intelectual e tenho grande admiração pelo vosso trabalho. Sou Presbiteriano Renovado como é de vosso conhecimento e depois de muitos anos e já fazendo faculdade me parece que as discussões Teológica estão apenas começando e parabenizo pelo trabalho, mas fica a minha duvida com relação a essa questão, se os presbiterianos não são reformados e Calvino também não então o que somos...? aguardo obrigado.

Celso Ricardo de Siqueira

Deus abençoe grandemente gostei: Glórias somente a Deus Somente a fé somente a Graça somente Cristo somente as escrituras.

Luiz

Sinceramente gostei muito desse artigo tão esclarecedor. Realmente estava faltando......Parabéns pr. Valmir.

Sérgio Luís

Pr.Valmir, a paz do Senhor. Parabens pelo belo texto, que Deus continue abençoando ao prezado irmão. Mesmo não sendo “expert" no assunto em pauta, percebo(sob minha leiga opinião) que o amado não tem a intenção de “doutrinar" sobre a matéria,e sim, compartilhar seu conhecimento sobre o assunto. É comum alguns irmãos ou denominações, ao contrário, intitularem-se “genuinos"reformadores ou reformados.

Jamierson Oliveira

VALEU VALMlR, JÁ REPRODUZl NO MEU FACEBOOK Não faço questão nenhuma de ser chamado "reformado", mas acho bom esclarecer essas coisas. Lembro-me que num dos debates que tive no programa de tv "VejamSó" com o prof. pr. Leandro Antônio do Mackenzie, que ao me ver defender os postulados protestantes de acordo com o arminianismo clássico, exclamou: "Vejo que quão próximo estás da teologia reformada" (risos)

Thiago

Incoerência tendenciosa quando o autor diz: "Isso inclui, obviamente, os pentecostais clássicos e aqueles que defendem a doutrina da salvação dentro de uma perspectiva arminiana." Se defendem a doutrina da salvação, não pode haver perspectiva arminiana. Questão lógica.

André de Araújo Neves

Excelente e pertinente reflexão. Em tempos de comemoração, devemos arvorar em busca de uma maior unidade em torno dos pressupostos teológicos da Reforma, como movimento com diversos centros de consolidação e amadurecimento de idéias em vez de um no sentido escrito que não faz sentido na realidade da Igreja Cristã hodierna. Os cristãos reformados não precisam necessariamente se identificar de tal forma, porém não há razão consistente - histórica, teológica ou bíblica, que os impeçam de fazê-lo.

Marlon Marques

Excelente, pr. Valmir. Infelizmente alguns calvinistas querem se apropriar do cognome "reformado", esquecendo que, como McGrath pontuou, a Reforma não se baseia nos escritos de Calvino, mas de outros reformadores também. E muitos dos outros reformadores nem monergistas eram. Graça e Paz.

Valdemir Pires Moreira

Paz do Senhor pastor Valmir, parabéns pelo ótimo texto e por seu comprometimento com a verdade.

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Perfil

Valmir Nascimento é ministro do evangelho, jurista, teólogo e mestrando em teologia. Possui pós-graduação em Direito e antropologia da religião. Professor universitário de Direito religioso, Ética e Teologia. Editor da Revista acadêmica Enfoque Teológico (FEICS). Membro e Diretor de Assuntos Acadêmicos da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure). Analista Jurídico da Justiça Eleitoral. Escritor e palestrante. Comentarista de Lições Bíblicas de Jovens da CPAD (Jesus e o seu Tempo). Evangelista da Assembleia de Deus em Cuiabá/MT.

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