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Valmir Nascimento

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O olhar de Jesus na perspectiva da Criação (1)

Seg, 08/12/2014 por Valmir Nascimento

O primeiro aspecto da visão de Cristo é a Criação. Partindo do pressuposto bíblico de que tudo o que existe foi criado por Deus (Gn 1.1), Jesus via todas as coisas como o resultado do poder criativo do Pai, de quem a natureza refletia a sua magnitude e perfeição. Pelo seu olhar, então, o mundo não é o resultado do acaso, governado por forças imateriais e entregue à própria sorte. Na verdade, esse universo possui as digitais do seu Criador; os céus manifestam a sua glória e o firmamento anuncia a obra das Suas mãos (Sl 19.1), e todas as coisas estão sob o seu controle. 

Aos olhos de Cristo, escreveu Dallas Willard, este é um mundo imbuído de Deus e impregnado de Deus. É um mundo pleno de uma realidade gloriosa, onde cada elemento está dentro da alçada do conhecimento e do controle diretos de Deus – embora ele permita que algumas coisas, por bons motivos, sejam por enquanto diferentes daquilo que ele deseja. “É um mundo inconcebivelmente belo e bom por causa de Deus e porque Deus está sempre nele. É um mundo em que Deus age continuamente e no qual ele continuamente se compraz. Enquanto o nosso entendimento não perceber que cada coisa visível e cada acontecimento está cheio da glória da presença de Deus, a palavra de Jesus não terá nos conquistado totalmente” (A Conspiração Divina, p. 81). Por esse motivo, Willard afirma que a boa nova sobre o Reino só será uma diretriz segura para a nossa vida se enxergarmos o mundo em que vivemos como ele o enxerga.

A ideia da Criação e da soberania divina sobre todas as coisas está na base da lente de Jesus. Ao tomar a natureza como exemplo, ele diz para seus discípulos evitarem a ansiedade pela solicitude da vida: 

Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;
E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?
Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?
Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;
Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. (Mt 6.26-34)

É interessante notar nessa passagem o modo como o Mestre ensina os seus discípulos: “Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta”. No grego, a palavra “olhai” (emblepõ) significa observar de forma fixa; contemplar; discernir de forma clara (Bíblia Palavra Chave, CPAD, p. 2184). Logo, Jesus nos manda olhar o mundo a fim de descobrir as maravilhas do Criador e o seu poder providencial até mesmo nas coisas mais simples da natureza.

Ver e compreender todas as coisas pelo foco da Criação não é algo puramente teórico, mas tem consequências práticas e magníficas para a vida pessoal e para a história humana, atingindo questões éticas, culturais e jurídicas, pois as implicações dos valores e princípios dela decorrentes, como a soberania divina, o propósito da vida, a dignidade humana e a igualdade entre as pessoas conferem padrão absoluto à verdade e valor intrínseco à vida, fundamentando assim um padrão adequado de existência em sociedade.

Por conta disso é que o Cristianismo - a par dos ensinamentos de Cristo - é o alicerce da civilização ocidental. Dinesh D’Souza lembra que o Cristianismo tomou esse continente retrógrado e deu-lhe ensino e ordem, estabilidade e dignidade. “Onde só havia um lugar desolado, eles produziram aldeias, depois vilas e, por fim, comunidades e cidades. Ao longo dos anos, o selvagem guerreiro bárbaro se tornou um gentil cavaleiro, e se formaram novos ideais de civilidade, de comportamento e de romance que moldam a nossa sociedade até hoje” (A Verdade do Cristianismo, Thomas Nelson, p. 64). Segundo D’Souza o Cristianismo é responsável pelo modo de vida e pela organização de nossa sociedade, com contribuições para as nossas leis, nossa economia, nossas artes, nosso calendário, nossos feriados e nossas prioridades morais e culturais, o que levou o escritor J. M. Roberts a escrever: “É bem provável que nenhum de nós fosse o que fosse hoje se um punhado de judeus há quase dois mil anos não tivesse acreditado que haviam conhecido um grande mestre, que o haviam visto crucificado, morto e enterrado, e depois ressuscitado”.

Grande parte da importância da cosmovisão cristã para a história da sociedade decorre justamente do conceito cristão da Criação, afinal, em primeiro lugar ela dá sentido e significação à vida, apontando para o propósito da existência humana, como fruto de um desígnio perfeito de um Deus amoroso (Jo 3.16) e sábio. Por isso, não somos acidentes e muito menos vivemos à deriva, sem rumo e sem direção. 

Jesus via as pessoas por esse prisma. Ele valorizava cada pessoa individualmente não pelo seu status social, posição eclesiástica ou por algum benefício que pudesse receber, mas pelo seu valor intrínseco. Suas vidas faziam sentido e tinham significado, não em virtude de algo que tenham feito, mas em razão de trazerem consigo o desígnio de Deus sobre suas vidas. Percebemos isso ao ver o mestre se aproximando dos marginais, pecadores e publicanos, a fim de tocar e transformar suas vidas. 

Por Valmir Nascimento

# Série: Pense com a Mente de Cristo

2 comentários

PauloEdson

Excelente professor! Mensagem cristocêntrica, objetiva e sem emaranhados filosóficos. O meu desejo é por mensagens assim, onde o autor mostre-se liberto da jactância filosófica. Tal jactância evidencia um ego que procura ser mais admirado que compreendido. Parabéns! Aleluia!

Sergiano reis

Muito interessante a ótica do artigo. Parabéns professor! Sinto-me inspirado a buscar ter esse olhar em minha vida. Abraço!

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Perfil

Valmir Nascimento é jurista e teólogo. Possui mestrado em teologia, pós-graduação em Estado Constitucional e Liberdade Religiosa pela Universidade Mackenzie, Universidade de Coimbra e Oxford University. Professor universitário de Direito religioso, Ética e Teologia. Editor da Revista acadêmica Enfoque Teológico (FEICS). Membro e Diretor de Assuntos Acadêmicos da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure). Analista Jurídico da Justiça Eleitoral. Escritor e palestrante. Comentarista de Lições Bíblicas de Jovens da CPAD. Autor dos livros "O Cristão e a Universidade", "Seguidores de Cristo" e "Entre a Fé e a Política", títulos da CPAD. Ministro do Evangelho em Cuiabá/MT.

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