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Pr. Silas Daniel

Pr. Silas Daniel

Cuidado com a idolatria

Qui, 02/01/2014 por

 

A idolatria é um dos pecados mais terríveis listados na Bíblia, porque consiste em dar glória e veneração a algo ou alguém que não seja o próprio Deus, o único que é digno de toda honra, toda glória, todo louvor e toda adoração. Entretanto, apesar de tão claro, este é um dos pecados mais praticados e mais ignorados em nossos dias no meio evangélico. É triste dizer, mas está se tornando cada vez mais comum jovens evangélicos que desenvolvem verdadeiros comportamentos idolátricos em relação a pessoas e coisas que, obviamente, não devem receber a nossa adoração.
 
Idolatria não é só se prostrar diante de um ídolo de pedra, barro ou metal. Coisas ou pessoas também podem se tornar ídolos em nossa vida, quando começam a ganhar em nosso coração um lugar que não deveriam ter.
 
Uma coisa é gostar, admirar e respeitar; outra bastante diferente é “endeusar”, idolatrar. Logo, segue o alerta: cuidado para que o mero gostar e admirar não dê lugar à adoração por pessoas e coisas!
 
Veneração a cantores
 
Infelizmente, hábitos próprios do público do meio artístico secular estão cada vez mais sendo reproduzidos no meio evangélico brasileiro, devido ao crescimento e à maior visibilidade que os cantores evangélicos têm ganhado midiaticamente nos últimos anos, e que é decorrente do avanço do mercado fonográfico evangélico brasileiro.
 
Não, não há nada demais em gostar de um determinado cantor ou cantora evangélicos, de admirá-lo(a), de sentir-se inspirado positivamente pelo seu ministério, de orar por ele ou por ela, ou mesmo, eventualmente, de fazer aquela “tietagem” básica: elogio, abraços, conversa e fotos. O problema surge quando, por exemplo, aquela pessoa começa a se tornar o centro de tudo, até mesmo ocupando o espaço que deveria ser do culto a Deus.
 
Quando o vínculo emocional da pessoa com aquele cantor ou cantora que são admirados começa a se tornar exagerado, afetando todo o comportamento dessa pessoa, então a coisa já descambou para a idolatria.
 
Quando a presença daquela pessoa admirada no culto passa a ser mais importante do que o culto em si, então já estamos diante de um caso de idolatria.
 
Quando a ordem do culto começa a ser quebrada em nome de um frenesi enlouquecido diante do cantor admirado, então estamos diante de um caso clássico de idolatria dentro da igreja.
 
Quando tudo o mais é menosprezado no culto diante da presença do cantor ou cantora admirado(a), desde a liderança da igreja até o culto em si, então a coisa já saiu fora do controle.
 
Lembremo-nos que há o fogo estranho e há o fogo de Deus; há a verdadeira adoração e há a mera agitação carnal confundida com adoração a Deus. E não, não estamos condenando aqui o adorar a Deus com hinos animados, de celebração e alegria! Tudo isso é maravilhoso e legítimo! Estamos falando do perigo de o culto se tornar um mero show, de o local de adoração a Deus se tornar um ambiente de torcida organizada, de o púlpito se tornar um palco onde o foco é o homem, e não Deus, e isso tem a ver tanto com a atitude de quem ministra o louvor como com a atitude daqueles que são ministrados, daqueles que estão ali para participar daquele momento.
 
Quando o culto a Deus dá lugar ao show do homem, então estamos diante de um pecado. Isso desagrada a Deus, ofende-O profundamente. Podemos chamar isso do que quisermos, mas não de culto a Deus, pois já deixou de sê-lo há muito tempo. É culto ao homem, é idolatria versão evangélica.
 
Os limites da “tietagem”
 
Há limites para a tietagem. E quando é que a gente sabe que estamos passando dos limites? Dá para perceber isso facilmente quando:
 
1) A mera apresentação marcada daquele cantor ou cantora em algum lugar é tratado como “o maior acontecimento da minha vida”;
 
2) Achamos que podemos fazer qualquer coisa, até mesmo mentir, deixar de lado compromissos e responsabilidades, desobedecer os pais e liderança, magoar pessoas, prejudicar os estudos ou perder o emprego, para conseguirmos estar perto do cantor(a) admirado(a);
 
3) Deixamos de dar atenção ao culto a Deus para nos focarmos naquela pessoa admirada quando ela está no culto;
 
4) Ficamos descontrolados e histéricos (e não meramente emocionados) só por estarmos na presença da pessoa admirada;
 
5) Gastamos todo o dinheiro com materiais relacionados àquela pessoa;
 
6) Só usamos o computador e lemos revistas, jornais e livros para saber tudo sobre aquela pessoa;
 
7) Afastamo-nos das pessoas que não compartilham a mesma paixão ou mesmo passa a antipatizá-las;
 
8) Só gostamos de falar daquela pessoa admirada;
 
9) Tomamos atitudes radicais em nome daquela pessoa admirada (há até quem faça tatuagens da pessoa no corpo);
 
10) Valorizamos mais o nosso interesse por aquela pessoa do que qualquer outra coisa.
 
Há ainda o caso mais extremo daqueles que perdem o interesse pelas pessoas do dia-a-dia só para ficar mergulhado em seus sonhos sobre a pessoa admirada. Todos esses casos são doentios, próprios da idolatria, fazendo mal tanto ao nosso espírito quando à nossa alma, tanto às nossas emoções quanto à nossa vida espiritual.
 
Quem vive assim não cresce, só se infantiliza, e muitos acabam prejudicando a sua vida como um todo. Ora, somos cristãos! E cristãos não são idólatras. O cristão só adora, venera e exalta a Deus. Só Ele é a razão do nosso viver, o sentido e o motivo da nossa vida, pois foi Ele quem nos criou e fomos feitos para Ele, portanto nos realizamos nEle. Nada nem ninguém deve ocupar o lugar que Deus deve ter em nossas vidas!
 
Idolatria a coisas
 
Mas, não só a idolatria a pessoas tem feito males na vida de muitos jovens. A idolatria a coisas também.
 
Há gente que é viciada em internet, fazendo com que toda a sua vida gire em torno do mundo virtual. A maior parte do dia é dedicada à internet, prejudicando o sono, a saúde, os estudos e o relacionamento com Deus, com os pais, com os irmãos e com os irmãos em Cristo.
 
Há outros que são viciados em jogos eletrônicos, prejudicando seus estudos e o seu crescimento espiritual. Aliás, por falar em vida espiritual, esta é uma reflexão importante para ser feita a esta altura: Afinal, como vai a sua vida espiritual? Como vai o seu relacionamento com Deus?
 
Qual foi a última vez que você gastou tempo com Deus em oração?
 
Qual foi a última vez que você abriu a Bíblia para estudá-la ou para lê-la devocionalmente para a tua edificação espiritual?
 
Qual foi a última vez que você evangelizou alguém?
 
Qual foi a última vez que você dedicou tempo para ajudar as pessoas?
 
Será que a maior parte do seu dia é dedicada a coisas que realmente valem a pena ou só a futilidades?
 
Todos nós devemos ter tempo para o ócio, isto é, para coisas menos sérias e divertidas. Porém, nunca as amenidades devem ter a primazia sobre a nossa vida. Deus deve ter a primazia, depois a nossa família, e em seguida os nossos relacionamentos com os irmãos em Cristo e com a igreja. As amenidades devem vir em quarto lugar na nossa escala hierárquica de valores.
 
Outros casos sutis de idolatria
 
O apóstolo Paulo afirma em Colossenses 3.5: “Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, a afeição desordenada, a vil concupiscência e a avareza, que é idolatria”. Veja: Paulo fala de “afeição desordenada” e de “avareza”, que “é idolatria”. Avareza é apego às coisas materiais. Quando valorizamos mais os bens materiais do que o espiritual, estamos de cabeça para baixo espiritualmente. Estamos longe de Deus!
 
O profeta Samuel falou também sobre outro tipo de idolatria sutil no meio dos crentes. Disse ele, conforme registrado em 1 Samuel 15.23: “Porque a rebelião é como pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do Senhor, Ele também te rejeitou a ti...”.
 
Ora, o que significa a palavra “porfiar”? Ela quer dizer, segundo o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, “discutir com calor”, “insistir”, “teimar”, “competir” e “disputar”. Ou seja, insubordinação, disputa entre irmãos, espírito de competição dentro da igreja, teimosia, arrogância, contenda, tudo isso, afirma Samuel é pecado de idolatria. Você já parou para pensar nisso?
 
Paulo afirma que uma das características do Anticristo, e que é própria do espírito do Anticristo, é se levantar “contra tudo o que se chama Deus, ou se adora” e querer “se assentar como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus” (2Ts 2.4).
 
Não se engane: há muita gente que começa bem, mas acaba, infelizmente, perdendo a visão espiritual e, por isso, tem o seu coração cheio de altares. É gente que afirma que serve a um único Deus, mas possui um coração idólatra, repleto de “deuses”, quando também não adora a si mesmo.
 
Não à idolatria
 
Que após esta matéria, você possa parar um pouco para refletir melhor sobre a sua vida espiritual. O cristão não deve ser dominado ou escravizado por nada. Apenas Deus deve ser o Senhor soberano de sua vida.
 
Fora idolatria! Fora vícios! Viva à liberdade em Cristo – uma liberdade com responsabilidade, e que tem como foco principal o próprio Deus, o Senhor da vida!

(Publicado originalmente na edição 94 da revista GeraçãoJC, da CPAD, edição de maio/junho de 2013).

5 comentários

Agenor Rodrigues

Esse conteúdo deveria estar presente em todas as nossas igrejas, todavia, a uma grande parte de nossos músicos e cantores que está envolvida em todo o tipo de modismos e idolatria. Muitas apresentações de alguns cantores ditos evangélicos não têm diferença do mundo. Isto denota a falta de ensino, alguns pensam que por tocar um instrumento não precisam nem orar, quanto mais participar então de uma escola bíblica ou de um culto de ensino.

Geovane Leite

Nós, Cristãos de ordem protestante, por muito tempo condicionamos o pecado de idolatria a imagens de esculturas (não que não seje pecado), todavia, no nosso meio precenciamos um culto antropolátra e egolátra, onde o homem e seus mais depravados e obscuros desejos são o alvo da nossa liturgia, a igreja não precisa de palestras motivacionais, as ovelhas estão gemendo por pão quente do céu!!!

Evandro Luís da Ponte

Gostei do vosso artigo Pastor Silas Daniel. Podemos admirar o trabalho de um Pregador, Ensinador como o Pastor que escreve muito bem e cantor (a) como a vossa esposa Lília Paz que louva à Deus com Unção e belas canções, mas somos instrumentos de Deus. A Deus seja a Glória.

Abimael

A paz do Senhor, pastor. Gostei muito desse texto. Acredito que esse tema precisa ser abordado mais vezes nas igrejas evangélicas. Conheço muitos jovens que se dizem evangélicos, porém falam mais sobre "este" ou "aquele" cantor evangélico do que de Deus, e agem da mesma forma que fãs de cantores seculares. Quem dera todos esses jovens pudessem ouvir palavras firmes contra esse grave pecado, da mesma forma que o senhor fez aqui. Deus te abençoe.

Mariluze da Silva Vieira

A Paz do Senhor Pr. Silas, Muito pertinente este assunto da idolatria evangélica, necessitamos muito que os nossos líderes denunciem este pecado que tem distorcido a visão de muitos crentes, especialmente os jovens, pois eles serão os futuros líderes e fiéis da igreja de Cristo, por isso devem ser ensinados corretamente.

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Perfil

Silas Daniel é pastor, jornalista, chefe de Jornalismo da CPAD e escritor. Autor dos livros “Reflexão sobre a alma e o tempo”, “Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos”, “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, “Como vencer a frustração espiritual” e “A Sedução das Novas Teologias”, todos títulos da CPAD, tendo este último conquistado o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra de Apologética Cristã no Brasil em 2008.

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