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Pr. Silas Daniel

Pr. Silas Daniel

Entendendo o Movimento Conservador no Brasil e no mundo

Seg, 09/03/2020 por

Já há alguns anos que o mundo experimenta uma onda conservadora. Porém, muita gente que está inserida nesse contexto ainda não entendeu direito do que se trata o movimento conservador.

Um dos erros mais comuns é acreditar que o Conservadorismo é um movimento homogêneo, quando não é. Há diferenças dentro desse movimento, mas que são atenuadas em nome dos pontos de convergência, os quais são muito maiores que essas diferenças.

Comecemos por esclarecer o que é “Conservadorismo”.

Chamado por alguns de “A direita da direita”, o Conservadorismo existe há séculos e nada mais é do que a direita clássica – a direita pura, por assim dizer, que é conservadora nos valores e liberal na economia. É a direita desde sempre. Como declara o recentemente falecido filósofo Roger Scruton, em sua obra Conservadorismo: um convite à grande tradição, “o conservadorismo moderno é produto do Iluminismo [britânico, século 18], mas invoca aspectos da condição humana que podem ser testemunhados em todas as civilizações e em todos os períodos da história. Além disso, é herdeiro de um legado filosófico ao menos tão antigo quanto os gregos”.

O Conservadorismo, é importante frisar, não é uma ideologia, posto que toda ideologia cria abstratamente um mundo ideal e busca obsessivamente implementá-lo. Já o conservadorismo não estabelece um mundo ideal, mas adota uma política do bom senso, reformando quando é necessário e sempre respeitando as limitações do mundo real e os valores da civilização, isto é, tudo aquilo que se mostrou, no teste do tempo, consistente e positivo para a sociedade; e reconhecendo sempre, nas equações das decisões políticas a serem tomadas, as imperfeições e a maldade humanas como realidades, em vez de cair em um otimismo em relação à natureza humana que é ingênuo e até mesmo, em muitos casos, criminoso.

O Conservadorismo, portanto, não tem absolutamente nada a ver com ser antirreformista ou ser um “isentão” politicamente. “Política da prudência” – outra designação bastante comum para definir o Conservadorismo – não significa ser sinônimo de “murismo” ou mornidão política. Ser prudente no Conservadorismo significa manter firmemente o que é bom e reformar o que eventualmente for necessário, sem promover radicalismos, sem arrancar as boas bases da civilização ocidental.

Por sua vez, o que chamamos hoje de “Liberalismo”, que é designado por alguns como “A esquerda da direita”, consiste em ser liberal tanto na economia como nos costumes e valores, e é um fenômeno muito recente dentro da chamada “direita”. Trata-se de uma invenção do final do século 19 e início do século 20.

“Ora, como assim? O Liberalismo nasceu no século 18!”, alguém pode estar objetando. Na verdade, não. O que nasceu no século 18 foi o “Liberalismo Clássico”, que era liberal na economia e conservador nos valores e costumes – ou seja, conservador. Lembremos que o chamado “Iluminismo Inglês” foi, em sua esmagadora maioria, muito diferente do Iluminismo francês e um grande influenciador do Iluminismo norte-americano – influenciando, inclusive e finalmente, toda a organização política e econômica do Ocidente. Enquanto o Iluminismo francês era um culto à razão e, por isso, era avesso à religião, o Iluminismo britânico tinha como foco uma sociologia da virtude. Já o Iluminismo norte-americano, devido a suas circunstâncias particulares, foi focado em uma política de liberdade; e ambos – os Iluminismos britânico e norte-americano – não eram avessos à religião. Uma obra basilar sobre esse assunto, entre tantas que tratam dessas diferenças, é Os Caminhos para a Modernidade, de Gertrude Himmelfarb. Ela é um bom ponto de partida para quem quiser se aprofundar no assunto. Ademais, as outras obras que tratam desse mesmo tema (dezenas, diga-se de passagem) infelizmente ainda não foram publicadas no Brasil. Aos interessados, posso listá-las depois.

As pessoas geralmente esquecem – ou ignoram – que Adam Smith, pai do Liberalismo Clássico, era crente e escreveu não apenas As Riquezas das Nações, mas também A Teoria dos Sentimentos Morais, que foi, aliás, seu primeiro livro e um dos mais importantes, uma obra que está entre as bases do chamado Conservadorismo Moderno. Mesmo os liberais clássicos ateus do século 18, como David Hume, que escreveu uma obra para tentar provar a inexistência de Deus, era conservador nos valores e costumes, defendendo fortemente a importância da religião e dos valores cristãos para a civilização, dando, assim, um nó na cabeça dos iluministas franceses que eram fãs do seu trabalho ateístico, mas não conseguiam entender como Hume era, ao mesmo tempo, um defensor do cristianismo. Para os iluministas franceses, o ideal de mundo era “enforcar o último rei nas tripas do último padre”.

Em suma, o que é chamado de “Liberalismo” hoje nada mais é do que o Liberalismo Moderno, gestado no século 19 e que, por suas características, costuma se posicionar da seguinte maneira politicamente: quando a esquerda está no poder, se une com os conservadores contra ela; mas, quando a esquerda está fora do poder, se torna adversária dos conservadores, inclusive se aliando à esquerda em pautas que são comuns entre esquerdistas e liberais – as pautas progressistas na área de costumes e valores.

Bem, uma vez que entendemos, em linhas gerais, o que é Conservadorismo, resta dizer que há setores e subdivisões no grupo. Por exemplo, há conservadores monarquistas, os quais são defensores do monarquismo parlamentarista; e há conservadores não-monarquistas, que preferem o sistema republicano de governo. Há ainda conservadores católicos, muitos deles monarquistas; e há os conservadores protestantes, que defendem geralmente o sistema republicano de governo (muito raramente se vê um evangélico pró-monarquia parlamentarista). Há também conservadores ateus ou agnósticos, mas que, apesar de seu ateísmo ou agnosticismo, defendem a importância da religião e dos valores judaico-cristãos para a saúde da civilização ocidental.

No que tange a católicos e evangélicos, é visível que os católicos são mais abertos e tolerantes a alguns costumes para os quais os evangélicos não são, pelas peculiaridades de cada grupo. Embora católicos e evangélicos sejam ambos contra o aborto, contra a ideologia de gênero, a favor da família e do casamento tradicional, e contra ataques à fé cristã, os católicos são mais tolerantes ao fumo, à bebida, ao uso de palavrões e a certas falhas relativas à moral sexual, enquanto os evangélicos, em sua esmagadora maioria, são obviamente mais rígidos em relação a isso. Afinal, ser conservador não é ser evangélico, mas todo evangélico de fato é conservador.

E aqui chegamos ao segundo erro bastante comum entre cristãos evangélicos que se veem atraídos naturalmente pelo movimento conservador: por ser este um movimento que respeita os valores judaico-cristãos, muitos acham que, por isso, todo conservador é um cristão e se frustram quando procuram achar em todos os expoentes do movimento conservador o mesmo padrão de vida e princípios de um cristão evangélico. Ora, pode-se ser conservador e ateu, por exemplo. Há até conservadores homossexuais: eles defendem a família biológica e tradicional, são contra a ideologia de gênero, consideram casamento apenas a união oficial entre um homem e uma mulher para formar uma família, acham a religião importante, são contra a politização da prática homossexual, mas não acham nada demais viver na prática homossexual.

Em suma, todo cristão de fato é um conservador, mesmo que nem saiba o que isso significa social e politicamente; mas, nem todo conservador é um cristão. Em um passado distante, ser conservador no Ocidente era sinônimo de ser um cristão, mas hoje não necessariamente. Há judeus, ateus, agnósticos, sem religião etc que são conservadores. E os conservadores que são cristãos (e que são, obviamente, a maioria esmagadora dos conservadores) podem ser ou de linha católica ou de linha protestante (ou ortodoxos); e eles podem ainda ser a favor da monarquia parlamentarista ou não.

“E aqueles cristãos que não se dizem conservadores? Há até aqueles que se denominam cristãos socialistas! O que dizer destes?”

Estes são uma contradição. Geralmente, devido a décadas de doutrinação socialista nas escolas, esses cristãos se tornaram socialistas sem saber o que é, de fato, socialismo.

Excetuando o caso daqueles que se dizem cristãos, mas são a favor de aborto, da ideologia de gênero, de ditadores comunistas etc, muitos irmãos que se dizem “socialistas”, “não-conservadores” ou “não-direitistas” (outros dirão “Somos de centro!”) são conservadores sem saberem. Eles apenas têm uma imagem equivocada do que seja o socialismo (não percebendo o mal que esse sistema seria para sociedade – pois, além de o socialismo não funcionar na prática, não há socialismo sem concentração brutal de poder); e sem entender o que seja o Conservadorismo ou “A Direita”, acreditando, por exemplo, que quem é de direita defende o que foi batizado de “Capitalismo Selvagem” e que, na verdade, tecnicamente, é o que chamamos de “Capitalismo de Estado”, que vai contra o conceito de livre mercado, pois promove – com a mãozinha do Estado – a destruição ou engessamento da concorrência, fazendo com que um grupo de privilegiados tenha o seu monopólio garantido em setores da economia. Ora, isso não é livre mercado de fato. Mas, por não entenderem isso, esses irmãos acabam – muitos deles – sendo engambelados pelo discurso de políticos ou intelectuais socialistas ou social-democratas.

Outro erro desses irmãos é achar que Conservadorismo não é a favor de ação social, de ajudar os mais pobres. Nada mais irreal! O Conservadorismo defende fortemente a ação social. Inclusive, estatisticamente já está provado que conservadores fazem e financiam mais ação social no mundo do que os socialistas e progressistas de forma geral.

Aliás, uma curiosidade: há até os chamados “conservadores distributivistas”, que defendem na área econômica uma terceira via entre o Capitalismo e o Socialismo, chamada de “Distributismo”. Os britânicos católicos Hilaire Belloc e G. K. Chesterton foram os criadores, no início do século 20, dessa corrente dentro do Conservadorismo, mas trata-se de um movimento extremamente minoritário.

Enfim, espero que esse texto explicativo ajude alguns irmãos a entenderem melhor o que é o movimento conservador. Trata-se, no geral, de uma coisa muito boa, sem dúvida alguma, mas que deve ser bem compreendida para não gerar confusões.

13 comentários

Silas Daniel

(Concluindo de fato) Indico para o entendimento do que é o conservadorismo... Os autores conservadores! Além da obra de Himmelfarb citada por mim no artigo, sugiro "A Política da Prudência”, de Russel Kirk; o próprio “Reflexões sobre a Revolução na França”, de Burke; “O que é Conservadorismo”, de Roger Scruton; “Ortodoxia”, de Chesterton; “A Política da Fé e a Política do Ceticismo”, de Michael Oakeshott, e seu ensaio “On Being Conservative”; e "As Ideias Conservadoras", de João P. Coutinho.

Silas Daniel

(Concluindo...) Veja, a própria classificação de Burke como "liberal conservador" trata-se de uma classificação feita retroativamente a partir dos conceitos de conservadorismo e liberalismo de hoje. Burke não se apresenta como "liberal conservador". Ele não usa essa nomenclatura. Esta é atribuída a ele por alguns autores de hoje. Na época de Burke, ser conservador e ser liberal não era uma contradição. O oposto do conservador era o revolucionário ou progressista. (Continua...)

Silas Daniel

(Continuando...) Infelizmente, alguns autores esquecem ou desconhecem (talvez por não ter lido diretamente os liberais clássicos - só conhecimento de segunda mão) que o Liberalismo Clássico era conservador nos costumes e liberal na economia. Somente a partir do final do século 19 e início do século 20, o liberalismo se tornou essa aberração que vemos hoje, essa ideia de que tudo se resume à economia. Assim surgiu essa divisão - que antes não existia - entre conservadores e liberais. (Continua..)

Silas Daniel

(Continuando...) Não sei quais autores você tem lido, mas é um erro bastante comum de autores de esquerda, que via de regra não entendem NADA de direita, se referirem aos chamados neoconservadores como se fossem o conservadorismo. Não! Neoconservadorismo é um movimento recente, de uns 40 anos para cá, de pessoas da esquerda que se tornaram de direita. O que o irmão (ou os autores que o irmão leu) chamam de "liberal conservadorismo" é o conservadorismo. (Continua...)

Silas Daniel

(Continuando...) "The Different Elightenments: Theory and Practice in the Elightenment", de Charles R. Kesler, publicada como capítulo da obra "The Ambiguous Legacy of the Enlightenment", organizada por William A. Rusher e Ken Masugi, e publicada em 1995 pela Lanham; e "How the Scots Invented the Modern World: The True History of How Eastern Europe’s Poorest Nation Created Our World and Everything in It", de Arthur Herman, publicada em 2001 pela New York University Press. Já são um início, não?

Silas Daniel

(Continuando...) "Post-Puritain England and the Problem of the Enlightenment", de J. G. A. Pocock, publicada como capítulo da obra "Culture and Politics from Puritanism to the Enlightenment", organizada por P. Zagorin e publicada nos EUA pela Berkley University Press em 1980; "The Enlightenment of Edward Gibbon", volume I ("Barbarism and Religion"), publicada em 1999 pela Cambridge University Press. (Continua...)

Silas Daniel

Caro Renato, a Paz do Senhor! Eu "inferi"? Está sugerindo que estou "blefando"? Vamos lá. Segue uma lista: "The Enlightenment in National Context", de 1981, organizada por Roy Porter e Mikulas Teich, e publicada pela Cambridge University Press; "The Creation of the Modern World: The Untold Story of the British Enlightenment", de Roy Porter, publicada em 2000 pela New York University Press. (Continua...)

Renato

A Paz do Senhor Pr Daniel, duas questões. Primeiro por gentileza compartilhe as “dezenas de obras” que inferiu no texto. O segundo é um apoio argumentativo a resistência de muitos eruditos sobre a questão de ser “Conservador nos Costumes”, mas “Liberal na economia”, resistindo eles ser inconcebível, muitos dizendo se tratar de Neoconservadorismo e diferente do “Liberal Conservador” preconizado por Edmund Burke. Agradeço de antemão!

Silas Daniel

Caro irmão Manoel, obrigado pelas palavras de apreço e motivação. Dica anotada. Em uma outra oportunidade, Deus permitindo, escreverei algumas linhas sobre esse assunto. Abraço!

Manoell Mineiro da Silva Neto

Outro texto informativo e muito esclarecedor.Mss desta vez o comentário é de um pedido: prepare-nos um artigo dentro dessa linha tipo: " Entendendo o Socialismo no Brasil e no mundo. Confesso que já fui interpelado por amigos não evangélicos, dizendo que estranhavam o fato de eu ser "gente boa" mas não era " socialista". Sempre fico sem respostas nessa hora, pois nnca li Karl Marx. Um outro falou que na Igreja de Atos Karl Marx gostaria de frequentar, pois dividia-se tudo. Ajudai-nos Pr.Silas!

Silas Daniel

(Concluindo) Acontece que, infelizmente, a maioria, quando ouve a palavra "capitalismo", associam-na a tudo isso, que é um desvirtuamento do conceito de livre mercado. Aliás, o próprio termo "capitalismo" é impróprio. Ele foi cunhado por Karl Marx para criar uma imagem negativa sobre o livre mercado, a qual foi popularizada por seus seguidores. Defendemos uma relação econômica natural, livre, mas regrada por princípios morais e éticos claros, para minimizar as falhas desse sistema humano.Abraço!

Silas Daniel

Caro irmão Daniel, obrigado pelas palavras de apreço e motivação. Sobre o capitalismo e o socialismo, há uma diferença: o capitalismo não é nem cristão nem anticristão - é apenas uma forma natural de relação econômica. A não ser que você esteja falando de "capitalismo selvagem", do qual o "capitalismo de estado" é apenas um tipo. O capitalismo sem regras, que não respeita princípios éticos ou o próprio conceito de livre mercado (Isto é, de liberdade econômica), esse, sim, é diabólico. (>>>)

Cooperador Daniel

Texto brilhante em quase todas as idéias. Definiu perfeitamente o que é ser um conservador. Só pecou gravemente em defender o Capitalismo. Socialismo e Capitalismo são essencialmente anti cristãos.

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Perfil

Silas Daniel é pastor, jornalista, chefe de Jornalismo da CPAD e escritor. Autor dos livros “Reflexão sobre a alma e o tempo”, “Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos”, “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, “Como vencer a frustração espiritual” e “A Sedução das Novas Teologias”, todos títulos da CPAD, tendo este último conquistado o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra de Apologética Cristã no Brasil em 2008.

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