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Pr. Silas Daniel

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O plano para sabotar o governo Bolsonaro e o que são as manifestações de 26 de maio

Seg, 20/05/2019 por

A semana começa com as movimentações contra o governo Bolsonaro ficando cada vez mais claras. Em alguns casos, não precisamos nem ligar os pontos: eles se interligam sozinhos diante de nossos olhos.
 
O “Centrão” se opõe à aprovação de vários pontos da Reforma Administrativa (Medida Provisória 870), dentre eles a ida do Conselho de Controle da Atividades Financeiras (Coaf) para o Ministério da Justiça, que tem por objetivo dar à pasta de Sérgio Moro mais poder para investigar indícios de crime; e também a decisão de dar poder à Receita Federal de investigar indícios de crime e comunicá-los ao Ministério Público Federal. O detalhe é que o Ministério da Economia concorda com essas mudanças, mas o “Centrão” quer que tudo fique como está: o Coaf com o Ministério da Economia e a Receita Federal sem poder de investigação.

Por que tanta insistência do “Centrão” e da oposição nisso? Por que será? Acho que não é necessário muito esforço cognitivo para entender: muitos deles temem ser investigados.

Após a traição de dois votos certos na comissão que apreciava a MP 870 (o governo contava com a vitória por 13x12 e perdeu por 14x11 porque dois votos certos para o governo faltaram à sessão de votação, alegando problemas de saúde, com os suplentes que votaram no lugar deles dando a vitória ao “Centrão” e à oposição), o governo chegou até mesmo a cogitar abrir mão desses dois pontos da reforma, contanto que o restante da Reforma Administrativa fosse aprovada (95% da reforma). O governo tentou até mesmo convencer a sua base na Câmara de, em último caso, aceitar isso, mas a maioria esmagadora da sua base prometeu lutar pela aprovação de 100% do teor da reforma.

A preocupação do governo é que a reforma não seja apreciada a tempo e caduque. Ela tem que ser aprovada até o dia 3 de junho, quando vence o prazo para sua tramitação na Câmara, caso contrário o governo será forçado a voltar a ter 29 ministérios, como era no governo Temer, o que inchará os gastos do governo, que com 22 ministérios já está cortando na carne para tentar fechar as contas do ano.

Só no primeiro bimestre, o governo cortou 78% de gastos de Minas e Energia, 44% do Ministério da Defesa, 42% de Ciência e Tecnologia, 41% de Cidadania, 39,5% de Infraestrutura, 34% de Agricultura, 32% de Desenvolvimento Regional, 29% do Ministério da Economia, 26,7% no Turismo, 24,7% das verbas discricionários (não obrigatórias) da Educação, 22,7% de emendas impositivas individuais, 22,6% do Ministério da Justiça e Segurança Pública, 22,5% do Meio Ambiente, 21,6% de emendas impositivas de bancada, 20,7% de Direitos Humanos, 20,4% da Presidência da República, 20% do Ministério das Relações Exteriores, 20% da Advocacia Geral da União, 13,6% da Controladoria-Geral da União e 2,9% da Saúde.

Isso deu uma economia de 35 bilhões ao governo só no primeiro bimestre, mas é pouco. Se o governo mantiver esse contingenciamento até o final do ano, terá uma economia de cerca de 210 bilhões em 2019, quando o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, disse semana retrasada que o governo precisa de 250 bilhões para fechar suas contas só neste ano, razão pela qual pediu ao Congresso a aprovação de um crédito suplementar para este ano.

Só que o “Centrão”, animado pela vitória da semana passada e irritado porque o governo não tem atendido aos seus pedidos por “mais diálogo” (leia-se: cargos nas estatais e ministérios), endureceu, ameaçando não aprovar a Reforma Administrativa a tempo e até mesmo adiar a aprovação da urgentíssima Reforma da Previdência, cuja aprovação aliviaria os cofres públicos. Basta lembrar que 60% dos gastos anuais do governo federal são com a Previdência e a previsão é que esses gastos subam para 82% do orçamento até 2024 caso a reforma no sistema previdenciário não seja feita com urgência.

Sabendo que o governo tem feito um importante trabalho de conscientização junto à população – via internet e idas a programas de tevê – sobre a importância da aprovação da Reforma da Previdência e uma vez que, sem reforma alguma, o país quebra, o “Centrão” já elabora sua saída: a apresentação de um outro projeto de reforma, descartando o do governo já aprovado na Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) (sic). O do governo corta privilégios e dá uma economia de cerca de 1,4 trilhão de reais em dez anos; o do “Centrão” mantém muitos privilégios e dá uma economia de apenas 800 bilhões, o que apenas diminui o problema e momentaneamente.

Sim, momentaneamente, porque, diferentemente da reforma do governo, o projeto do “Centrão” não prevê a migração – caso o beneficiado da previdência queira – para o sistema de capitalização, previsto pela reforma do governo apresentada pelo competentíssimo ministro Paulo Guedes. Tal proposta torna esta Reforma da Previdência do governo naquela que destrava a bomba de vez (Não tenho como explicar isso em detalhes agora, mas pretendo fazer um programa O Cristão e o Mundo na TV CPAD mais à frente sobre a Reforma da Previdência, onde abordaremos, entre outras coisas, isso).

Ora, é um acinte o que o Congresso está fazendo com o governo. É chantagem pura e simples. Tudo por cargos em estatais e ministérios. Bolsonaro disse semana passada no Texas que não vai ceder. Por sua vez, o presidente da Câmara e principal líder do “Centrão”, Rodrigo Maia, disse que se o governo souber “dialogar” (eufemismo da velha política para o atender a reivindicações), não só a MP 870 é aprovada a tempo como as outras que precisam de aprovação também: as MPs 863, 866, 867, 868 e 869. E arrematou: “Diálogo constrói soluções que a gente nem imagina. Já votamos 30 medidas provisórias por acordo aqui no governo do presidente Lula em 2005. Quando o parlamento consegue o diálogo você vota cinco, seis matérias [de uma só vez]” (AQUI).

Sim, Maia, a Câmara aprovava tudo que o governo Lula pedia naquele tempo, mas porque, naquela época (2005), além de ter em abundância cargos em estatais e ministérios, o “Centrão” tinha o “Mensalão”. Logo, o “Centrão” estava satisfeitíssimo e o governo aprovava tudo que queria. Será que você esqueceu ou a menção àquela época foi proposital? Ou um ato falho?

Bolsonaro disse no Texas a jornalistas: “Querem que eu ceda a pressões pela tal ‘governabilidade’? Não vou ceder a pressão nenhuma” (Assista AQUI).

Eis, portanto, a situação: se a Reforma Administrativa não for aprovada a tempo, o governo, que nem com os atuais contingenciamentos está conseguindo (com 22 ministérios) o valor que precisa para pagar as contas do ano, não vai conseguir mesmo isso agora, com 29 ministérios. Diante de tal quadro, Bolsonaro só tem duas alternativas: ou maquia as contas do governo (as famosas “pedaladas” da Dilma), cometendo crime contra a lei de responsabilidade fiscal, passível de impeachment, e ainda sai imprimindo dinheiro para pagar as despesas, fazendo com que a inflação vá para as alturas (Você, mais velho, se lembra dos períodos de hiperinflação que tivemos até o início dos anos 90?); ou não faz nada disso para não ensejar impeachment, mas o Brasil vai parar por falta de dinheiro.

Vai faltar dinheiro para tudo. A maioria esmagadora do orçamento do governo é de verbas obrigatórias. Não há contingenciamento que resolva isso. Os órgãos públicos não vão funcionar, servidores vão ficar sem receber. É o caos total.

Como se não bastasse isso, a imprensa, que poderia colocar mais luz na situação para a população, denunciando a chantagem do Congresso, não está fazendo isso (salvo raríssimas exceções) e nem vai fazer, porque é oposição ao atual governo. Ela quer sua queda, não só por divergências ideológicas, mas porque o governo Bolsonaro cortou as verbas de publicidade (e outras) para as empresas de comunicação, que estão passando dificuldade (por serem mal acostumadas em nosso país a dependerem principalmente de verba pública).

Por isso, os opositores já estão falando de impeachment ou de renúncia. Até mesmo o Movimento Brasil Livre (MBL, formado por liberais), que nunca foi apoiador de Bolsonaro (foi contra ele no primeiro turno, apoiando Amoedo, e só votou nele no segundo turno porque do outro lado estava Haddad), fez uma live na internet neste final de semana onde seus membros sugeriam ao presidente a renúncia ou o suicídio (sic)! Curioso que eles fizeram isso dias depois de o MBL ter tido uma reunião em Brasília com o vice-presidente Mourão. Já abordamos em meu penúltimo artigo as divergências dos militares com a agenda conservadora de Bolsonaro.

Devido a esse vídeo (que o MBL tirou do ar logo em seguida), o grupo perdeu em 24 horas mais de 80 mil inscritos em seu canal e – o mais importante de tudo – alguns de seus doadores declararam que não vão mais contribuir com o grupo. Ademais, o MBL se manifestou contra as manifestações marcadas para 26 de maio em todo o país pelos apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais, quando as manifestações têm como pauta a aprovação das reformas Administrativa e da Previdência (do governo), do Projeto Anticrime de Sérgio Moro e da CPI da Lava Toga no Congresso. Chegaram até mesmo a taxar o fato de se fazer essa manifestação agora como algo “autoritário”, “golpista”, “fascista” etc, como se o povo não tivesse o direito de livre e publicamente se manifestar quando quiser a favor de pautas que considera importantes para o país, sejam elas governistas ou não. Ademais, chegaram a mentir de forma deslavada, afirmando que o objetivo da manifesação é "fechar o Congresso e o STF". Loucura total. Nenhum organizador do evento afirmou isso (Veja a pauta das manifestações AQUI e AQUI).

Até mesmo a expressão “Invadir Brasília” usada pelos organizadores da manifestação foram tratadas pelo MBL irresponsavelmente como se significasse “Fechar o Congresso” e como se o próprio MBL, nas manifestações de 2015, não tivesse usado os mesmíssimos dizeres em sentido metafórico. Absurdo.

O detalhe é que o MBL já confessou que também se interessa pelo caos e por uma eventual queda de Bolsonaro. Assista a essa gravíssima confissão AQUI.

Enquanto isso, o PT luta pela aprovação de seu Projeto de Emenda Constitucional que propõe que sempre em caso de impeachment haja nova eleição. O “Centrão” prefere o Mourão. As esquerdas preferem, claro, a volta delas ao poder. Ou seja, aos dois grupos interessa o caos, mas por motivos diferentes.

Há também os grupos que têm ameaçado Bolsonaro de morte, como o PCC, por sufocamento do governo ao crime organizado, e grupos malucos extremistas da “Dark Web” por questões ideológicas, como o que promoveu a chacina recente em uma escola em Suzano.

Enfim, ore pelo presidente. Ele está sob pressão de todos os lados. A ele só resta orar, não se dobrar e contar com o apoio da população.

O “Centrão” teme a população. Lembre-se que o “Centrão” já foi bem maior. Ele perdeu um terço do seu tamanho na última eleição e muitos dos que conseguiram se reeleger o fizeram “batendo na trave e entrando”. Se o “Centrão” sentir que Bolsonaro tem grande apoio popular, não só pela pressão constante nas redes sociais sobre os parlamentares, mas pelo tamanho da manifestação nas ruas no dia 26 de maio, a tendência é sua unidade se desfazer, porque o político pensa, sobretudo, na sua sobrevivência política.

O “Centrão” não é homogêneo. Sob pressão, ele desidrata.

Oremos pelo nosso país. Chegamos a uma encruzilhada, onde dois projetos de país se digladiam: o da velha política e o da nova política. Quem vai vencer? Só Deus sabe. Mas, uma coisa é certa: isso também depende de você, cidadão brasileiro.

9 comentários

A. Eduardo

Pois é Pastor orar e muito!!!

Felipe Francelino

Ótima análise sobre o assunto no que se refere ao nosso Brasil. Oremos pelas autoridades constituídas do nosso país.

Silas Daniel

Irmã Milena, a Paz do Senhor! Obrigado. Não existe ainda no site um link para compartilhamento pelo WhatsApp, mas você tem, sim, como compartilhar via WhatsApp. É só copiar o endereço do artigo e colá-lo no espaço de digitar mensagem do WhatsApp que ele se torna link para o artigo na hora de você postar lá.

Milena

Paz do Senhor! Tem opção de compartilhar via WhatsApp? Execelente texto! Bem esclarecedor!

Valderi miguel

Muito esclarecedor o texto! Que continui usando sua vida

Silas Daniel

Elias, a Paz do Senhor! Amém. Obrigado pelas palavras de apreço e motivação. E é verdade: muita gente não tem acesso a essas informações, mas você pode ajudar a ampliar o alcance desses esclarecimentos compartilhando esse conteúdo em suas redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram, WhatsApp). Façamos nossa parte. No mais, continue orando por nós. Abraço.

Elias Amarante FIlho

Paz do Senhor.. Pena que nem todos leem esses artigos postados aqui no Cpad news, é muito esclarecedor, Deus abençoe pastor. Muto obrigado pelo esclarecimento do jogo politico poucos entendem isso.

Silas Daniel

Obrigado, Hazael. Façamos nossa parte e oremos pelo Brasil.

Hazael Lopes

Excelente analise, parabéns!

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Perfil

Silas Daniel é pastor, jornalista, chefe de Jornalismo da CPAD e escritor. Autor dos livros “Reflexão sobre a alma e o tempo”, “Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos”, “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, “Como vencer a frustração espiritual” e “A Sedução das Novas Teologias”, todos títulos da CPAD, tendo este último conquistado o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra de Apologética Cristã no Brasil em 2008.

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