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Pr. Silas Daniel

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Entenda o embate entre bolsonaristas e militares no governo

Sex, 10/05/2019 por

Este é um texto longo, mas imprescindível para entendermos o conflito nestes últimos dias dentro do grupo que forma a base de apoio do presidente Bolsonaro. Peço, portanto, sua atenção do início até o fim, sem pular parágrafos, pois é importantíssimo você acompanhar o desenvolvimento do raciocínio e o escalonamento dos eventos para entender como as coisas chegaram onde chegaram.

Para compreendermos o que está acontecendo, devemos antes de tudo entender as diferenças ideológicas que existem dentro dessa base de apoio do presidente Bolsonaro.

Bolsonaro, lembremos, foi eleito com o apoio de três segmentos: os conservadores, os liberais e os militares. Esses três segmentos, inclusive, estão representados em seu governo hoje.

Os conservadores são aqueles que são liberais em economia e conservadores em termos dos valores judaico-cristãos. Os liberais são aqueles que são liberais em economia e liberais também em costumes (diferentemente dos liberais clássicos do século 18, que eram todos conservadores). Já os militares são, em sua esmagadora maioria, positivistas.

O positivismo é uma corrente filosófica e política criada no século 19 pelo francês Augusto Comte (1798-1857), que, inspirada no Iluminismo, acreditava que o avanço da humanidade dependeria exclusivamente da ciência. O positivista é, em outras palavras, um cientificista, um tecnicista, que acredita que as nações seriam melhor governadas por técnicos e cientistas. É uma corrente progressista, razão pela qual um positivista não é um conservador e, mesmo não sendo comunista ou socialista, tem em seu pensamento pontos de contato aqui e acolá com o pensamento de esquerda.

Claro que nem todo militar brasileiro é um positivista. Há militares conservadores, liberais e até marxistas. Luís Carlos Prestes (1898-199), por exemplo, estudou no Colégio Militar, graduou-se em Engenharia na Escola Militar, foi capitão do Exército e líder do Partido Comunista, inclusive tendo sido membro da Comissão Executiva da Internacional Socialista. Carlos Lamarca (1937-1971) estudou na Escola Preparatória de Cadetes e na Academia Militar das Agulhas Negras, foi capitão do Exército e guerrilheiro comunista caçado pela Ditadura Militar. Por sua vez, o marechal Duque de Caxias (1803-1880), o maior oficial militar da história do nosso país, era conservador. O presidente Jair Bolsonaro, capitão do Exército, é um conservador.

Entretanto, fato é que o positivismo está entranhado na mentalidade da maioria dos militares no Brasil. Oséias Faustino Valentim, autor da obra bastante citada O Brasil e o Positivismo (Publit, 2010), frisa que já “a partir da segunda metade do século 19, as ideias de Auguste Comte permearam as mentalidades de muitos mestres e estudantes militares, políticos, escritores, filósofos e historiadores. Vários brasileiros adotaram, ou melhor, se converteram ao positivismo, dentre eles o professor de matemática da Escola Militar do Rio de Janeiro, Benjamin Constant, o mais influente de todos. [...] A Proclamação da República, ocorrida através de um golpe militar, com apoio de setores da aristocracia brasileira, especialmente a paulista, foi o resultado ‘natural’ desse movimento”.

Não por acaso, por ocasião do golpe militar que instituiu a República em nosso país, cujos primeiros anos foram de ditadura militar, a bandeira brasileira foi mudada, incluindo entre outras coisas os dizeres “Ordem e Progresso”, que são o lema do positivismo. Ou seja, o positivismo está até na bandeira de nosso país e pelo dedo dos militares.

Não estou aqui querendo falar mal dos militares. As Forças Armadas são uma instituição obviamente importantíssima, que deve ser respeitada e que está repleta de homens e mulheres valorosos. O que estou colocando aqui são apenas dados da história para entendermos as coisas que estão acontecendo em nossos dias.

A maioria dos militares em nosso país é positivista, mesmo que não se declare oficialmente ou nem pare para pensar nisso. Por uma razão bem simples: o positivismo está entranhado na alma militar brasileira. A pessoa não precisa estudar positivismo para ser positivista. Basta viver anos de sua vida em um ambiente cuja mentalidade é formada dentro de uma cultura positivista há mais de 100 anos.

Por exemplo: a visão de que um governo deve ser formado só por técnicos é totalmente positivista. E não estou dizendo aqui que seja uma má ideia, mas apenas constatando uma realidade. O próprio presidente Bolsonaro defende isso e, com certeza, não apenas por causa de sua preocupação em “despetizar” o Estado brasileiro, mas também e principalmente por influência de sua formação militar.

Quando os militares assumiram o governo do país após a Revolução Civil de 1964 que derrubou Jango, eles também formaram um ministério cheio de técnicos. E frisaram que o governo deles seria sem linha ideológica, seja à esquerda ou à direita. Basta lembrar do discurso de posse de Castelo Branco, quando ele diz: “Caminharemos para frente, com a segurança de que o remédio para os malefícios da extrema-esquerda não será o nascimento de uma direita reacionária” (Assista esse trecho do discurso no vídeo AQUI a partir do segundo 23). Aliás, muita gente se esquece, mas a Ditadura Militar não só cassou políticos de esquerda, mas também conservadores, como Carlos Lacerda.

Enfim, a base de apoio do presidente Bolsonaro é formada por esses três segmentos, que estão, inclusive, como já disse, representados em seu governo. Os liberais estão na área econômica, capitaneados pelo ministro Paulo Guedes, um extraordinário economista. Entre os conservadores, podemos citar, por exemplo, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. A ministra Damares Alves é outro exemplo. Quanto aos militares, não precisamos citar nomes: o governo está repleto deles, mais do que dos outros grupos. E por quê?

Talvez porque Bolsonaro, sabendo que iria assumir sem ter apoio do sistema (ele é como um “vírus” dentro do sistema), sentiu a necessidade de fortalecer e proteger seu governo enchendo-o com a alta cúpula das Forças Armadas. Não foi só uma questão de honrar os militares porque ele é um militar e sempre defendeu os militares. Até porque, para honrar, não precisava saturar o governo de militares em detrimento das demais correntes que o apoiam.

Com essa decisão, um problema se formou. Os militares, devido à sua alma progressista, têm posições que se chocam com a dos conservadores e com a dos liberais, principalmente com a dos conservadores (e lembremos: Bolsonaro é um conservador); e os militares são maioria dentro do governo Bolsonaro, razão pela qual acabam tendo mais influência lá dentro do que os outros dois grupos.

Já há até quem fale na imprensa da existência de um “governo paralelo dos militares dentro do governo Bolsonaro”, limando, inclusive, aos poucos, gente ligada ao principal adversário dos ideais progressistas dos militares: os conservadores.

Deixemos claro uma coisa: não são todos os militares lá dentro que agem assim, porém muitos deles, pelo que temos lido e ouvido, têm agido assim. Esse é o resultado de não equilibrar essa representação dos três grupos dentro do governo.

Agora, perguntemo-nos: qual a maior base de apoio de Bolsonaro? Os conservadores, os liberais ou os militares?

Sem dúvida alguma, os conservadores.

Bolsonaro não foi eleito presidente com os votos dos liberais. Muitos deles só votaram em Bolsonaro no segundo turno, e apenas porque do outro lado estava Haddad e porque Bolsonaro tinha Paulo Guedes como seu futuro ministro da Economia. Os militares também não foram os que decidiram no voto as eleições em favor de Bolsonaro. Eles têm a importância em sua base como força institucional, mas não como principal base popular de apoio. E a base popular é o fator mais importante politicamente. Não é o único fator, mas é indubitavelmente o principal.

Bolsonaro foi eleito presidente há sete meses no segundo turno com 55,13% dos votos válidos (57,8 milhões de votos). Mas, o que provocou isso? O antipetismo? A Operação Lava Jato? É o que dizem a imprensa oposicionista e quase todos entre aqueles que votaram de forma relutante em Bolsonaro naquele dia, fazendo ressalvas a ele. A imprensa oposicionista e alguns destes relutantes o dizem sempre na tentativa de desprezar ou minimizar a notória onda conservadora formada no país nos últimos anos que foi decisiva para eleger Bolsonaro.

A verdade é que, embora tudo isso tenha ajudado (antipetismo e Lava Jato), não foi o principal fator. Muita gente que era antipetista ou estava indignada pela corrupção petista não votou em Bolsonaro no primeiro turno das eleições. Esse pessoal (antipetistas não-bolsonaristas) votou em peso nele apenas no segundo turno. No primeiro turno, eles votaram antes em Alckmin, Marina, Amoedo, Meirelles etc. Mesmo assim, Bolsonaro teve 46,03% dos votos válidos no primeiro turno das eleições (49,3 milhões de votos), quase ganhando ainda no primeiro turno. Estes votos vieram de quem? Dos conservadores.

Ele não tinha tempo de tevê, tinha a mídia tradicional toda contra ele, atacando-o 24 horas, sistematicamente e sem parar, e venceu por causa da onda conservadora em seu favor, que foi mobilizada na internet. E aqui eu quero aproveitar para fazer uma distinção entre “conservadores” e “conservadores bolsonaristas”.

Entre os conservadores que votaram em Bolsonaro, há os bolsonaristas (apoiadores dele de primeira hora) e os apenas conservadores. Estes não eram apoiadores dele de primeira hora, mas, diante das opções que tinham e vendo as propostas de Bolsonaro (o primeiro candidato realmente conservador em muitos anos), votaram nele apesar de, às vezes, não concordarem com sua retórica por vezes muito agressiva. Votaram nele mais pelo conteúdo das propostas do que pela forma, além de crerem em sua honestidade e em sua aparente sinceridade (Creio que Bolsonaro seja realmente sincero em suas afirmações, até porque ele sempre demonstrou não estar preocupado com o politicamente correto e em agradar a mídia mainstream). Eu me incluo nesse segundo grupo de conservadores que votarem nele. Muitos evangélicos idem.

Pois bem, quem é conservador e votou em Bolsonaro espera que seu governo cumpra a agenda que ele pregou nas eleições e que traz, inclusive, bandeiras que ele defende há muito tempo; enfim, espera coerência. Entretanto, os militares que compõem a sua base de apoio não pensam todos igual ao presidente nessas questões. Eles não são todos conservadores como ele. Muitos deles acham até a agenda política de Bolsonaro muito radical.

Dos que estão lá, podemos dizer que pelo menos o general Heleno tem se mostrado o mais fiel de todos. Bolsonaro já declarou até que ele é seu conselheiro e amigo. Já outros militares do governo têm dado declarações públicas que se chocam frontalmente com aquilo que o presidente defende, levando Bolsonaro a desdizê-los constantemente.

Bolsonaro é contra a liberação do aborto; Mourão afirma publicamente que é a favor da liberação do aborto. Bolsonaro afirma que vai transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém; Mourão afirma publicamente que é contra. Bolsonaro elogia o seu ministro das Relações Exteriores (que, aliás, está fazendo um excelente trabalho mesmo!); Mourão critica o ministro publicamente. Bolsonaro afirma que não vai fazer controle de imprensa nem de mídias sociais no Brasil; o ministro Santos Cruz afirma que as mídias sociais no Brasil devem ser disciplinadas pelo governo. Bolsonaro é contra propaganda do governo com “lacração” gayzista; o ministro Santos Cruz aprova esse tipo de propaganda. Os exemplos são vários, e tudo isso em apenas pouco mais de quatro meses de governo.

Lógico que isso iria irritar os conservadores que formam a base de Bolsonaro, dentre eles os mais ativos de todos: os conservadores bolsonaristas, isto é, seus apoiadores de primeiríssima hora que ajudaram a fazer sua campanha nas redes sociais. Ainda mais que se sabe, pela própria imprensa, que os militares estão isolando ou limando os bolsonaristas de dentro do governo. A imprensa fala até, como já disse, da existência de um “governo paralelo dos militares dentro do governo Bolsonaro”.

Aliás, por falar de imprensa, é preciso falar agora dos inimigos de Bolsonaro: as esquerdas e a maioria esmagadora da imprensa tradicional. O que eles acham de tudo isso que está acontecendo? É importante saber isso porque nos traz ainda mais luz sobre o que está acontecendo.

Pois bem, a atitude dos opositores de Bolsonaro – as esquerdas e a mídia tradicional – é de total apoio aos militares do governo e de total oposição aos bolsonaristas dentro e fora do governo. Quem diria que iríamos ver um dia o PT em defesa dos militares e a imprensa tradicional exaltando os militares?

Pergunta-se: o PT quer ver o bem do governo Bolsonaro? A imprensa tradicional, que bate em Bolsonaro dia sim e o outro também, quer o bem de Bolsonaro? A mídia sequer engoliu até agora a eleição dele!

Essa atitude de seus inimigos diz alguma coisa, não diz?

Uma estratégia velhíssima de guerra e bastante eficiente é “dividir para conquistar”. Jesus já dizia: “Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá” (Mateus 12.25).

Os opositores de Bolsonaro, ao perceberem divergências dentro de sua base, atiçaram essas divergências.

Muitos militares do governo têm sido já há alguns meses bajulados pela grande imprensa oposicionista e acabaram gostando da coisa, de maneira que entraram – consciente ou inconscientemente – no jogo dela, respondendo a perguntas que foram premeditadamente direcionadas a levarem esses militares a fazer declarações que se chocam com aquilo que Bolsonaro e a sua principal base de apoio defendem. Uma vez proferidas, essas declarações rapidamente ganharam as manchetes dos jornais, revistas, sites e noticiários radiofônicos e televisivos da grande imprensa, despertando a indignação da base conservadora como um todo e especialmente a ira da ala bolsonarista, que em resposta parte para o ataque aos militares nas redes sociais. Por sua vez, a imprensa retroalimenta o conflito divulgando esses ataques dos bolsonaristas nas redes sociais, de maneira a atiçar a revolta dos militares contra os bolsonaristas.

Costumeiramente, essas matérias:

(1) Não lembram a seus leitores que esses ataques dos bolsonaristas nas redes sociais nada mais são do que apenas reação àquelas declarações dos militares e às suas ações anticonservadoras dentro do governo (porque, infelizmente, a coisa não se resume só a falas, mas envolve ações);

(2) E ainda são acompanhadas de opiniões que exaltam os militares e denigrem os bolsonaristas.

A imprensa, em uníssono, sai dizendo que os militares estão sendo desrespeitados e que a base do governo está rachada, que o governo está em crise e que a culpa toda... É da base conservadora do governo! E ainda contam com o apoio daqueles que eram apoiadores circunstanciais de Bolsonaro: a turma – seja na mídia ou nas redes sociais – que votou nele no segundo turno só porque do outro lado havia Haddad. Esse pessoal nunca foi fiel à agenda do governo nem simpatiza com o presidente. Muitos deles têm até inimigos entre os bolsonaristas. Nessas horas, esse grupo não pensa duas vezes em qual lado tomar na briga: contra os bolsonaristas.

Há também, claro, conservadores não-bolsonaristas (conservadores que não foram apoiadores de primeira hora) confusos naturalmente com toda essa situação e que acabam engrossando o coro de insatisfação com o governo, mas são poucos. Os mais suscetíveis dentre eles já começam até a se desiludir totalmente com o governo que mal começou, sem entender a guerra que está sendo travada. Como se as coisas fossem fáceis, o cenário tranquilo e Bolsonaro e sua base é que estivessem criando tempestades sozinhos.

O presidente e sua equipe têm andado em campo minado desde o começo. É o jogo, e eles têm que saber como jogá-lo. Não é fácil, mas precisam.

Por fim, há ainda o chamado “Centrão”. Eles não são a Esquerda, mas sangraram nestes últimos anos juntamente com ela por sua cumplicidade nos esquemas corruptos que foram combatidos pela Lava Jato. Se há um ponto de convergência entre o “Centrão” e a Esquerda é este: acabar com a Lava Jato, soltar quem foi preso pela operação e impedir a prisão dos envolvidos que ainda não foram presos, mas estão seriamente ameaçados de serem. Ao “Centrão” também interessa essa instabilidade, porque tira a força do governo e aumenta o poder de barganha deles, ainda mais que o governo e o país precisam da aprovação da Reforma da Previdência e do Projeto Anticrime. Vide o caso nesta semana da votação da Reforma Administrativa.

Nunca um presidente e um governo assumiram com tanta oposição de todos os lados. Nunca. Bolsonaro e suas ideias são vistos como um intruso absolutamente indesejável dentro do sistema, um "vírus" que precisa ser expelido de qualquer jeito. Tentaram até matar ele a um mês do pleito. Ele sobreviveu por um milagre.

Mas, voltemos a falar da ala oposicionista da imprensa – que é majoritária. Ela já tentou usar da mesma estratégia que está usando com os militares com os ministros Paulo Guedes e Sérgio Moro, mas eles têm sabiamente evitado cair no jogo dela. Talvez até porque o foco que estes têm dado à missão de aprovar a Reforma da Previdência e o Projeto Anticrime os leve a não dar mole para essas armadilhas. O governo precisa de estabilidade para aprovação dessas medidas.

O ministro Moro pode até ter dado uma “escorregada” de leve e involuntária uma vez ou outra em uma fala aqui ou acolá, mas devemos compreender que é difícil para os ministros ficar o tempo todo escolhendo as palavras diante de gente que está forçando – e torcendo por – uma palavra mal colocada para criar uma tensão e, daí, uma crise. O ministro da Economia e o ministro da Justiça têm mantido o equilíbrio, a coerência e a fidelidade ao presidente Bolsonaro. A imprensa tem usado até falas de Bolsonaro para tentar jogar Paulo Guedes e Moro contra o presidente, mas os três têm sabiamente lidado bem com essas situações.

Ademais, a imprensa já elegeu há muito tempo os principais alvos a serem atacados dentro e fora do governo.

Dentro do governo, os alvos principais são Ernesto Araújo, Damares Alves, Abraham Weintraub e Ricardo Salles. Os quatro são tratados como desequilibrados e/ou radicais. Por quê?

Porque os quatro são conservadores e representam as principais áreas que a imprensa quer ver derrubadas: a política internacional de Bolsonaro, a política de Direitos Humanos de Bolsonaro, a política de Educação de Bolsonaro e a política de Meio Ambiente de Bolsonaro. Essas quatro políticas do atual governo ferem os ideais progressistas da imprensa e das esquerdas. Além do que, a esquerda precisa do financiamento na área cultural e de educação – vide os ataques à conservadora Letícia Catelani, que foi derrubada da Apex. Aliás, sobre Santos Cruz a ter demitido, leia estas reportagens AQUI, AQUI, AQUI, AQUIAQUI que tratam de detalhes que a grande mídia está omitindo de você sobre o assunto. Ouça também a entrevista recente dela sobre sua demissão e o que aconteceu antes e depois AQUI.

Do lado de fora, os ataques da mídia têm sido aos apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais – os bolsonaristas, que, como já disse, são conservadores ativistas. Eles têm milhões de seguidores e fizeram a campanha para ele que o levou à eleição sem o apoio da mídia tradicional e do sistema. Eles anularam grande parte do poder da mída tradicional, por isso, para a imprensa oposicionista, eles precisam urgentemente serem derrubados, razão pela qual são tratados injusta e constantemente como “milícias virtuais”, “radicais de direita”, “extrema-direita”, "promotores de fakenews" (como se a mídia tradicional não produzisse fakenews aos montes), "malucos", "fascistas", "promotores de discurso de ódio" etc. A ideia é justificar um clima de censura aos bolsonaristas pelos próprios administradores e provedores das redes. Já há gente na mídia pedindo até para invocar a segurança nacional para mandar prender essa gente ou calar sua voz nas redes sociais. Absurdo! Onde está a liberdade de expressão? Todos têm o direito de criticar, ainda mais quem viabilizou o atual governo!

Como o filósofo Olavo de Carvalho é a figura principal entre os apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais (ele é, sem dúvida, o que tem mais voz entre eles e, inclusive, diante do presidente, que chegou a consultá-lo para escolher dois ministros: o de Relações Exteriores e o da Educação, posto ter sido ele o principal responsável pelo surgimento de uma nova direita no Brasil que ajudou decisivamente a eleger Bolsonaro), os ataques da imprensa às vezes se desferem somente contra ele. Ora eles são contra todos os apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais, ora contra Olavo de Carvalho especificamente.

Não sou “olavista” e não concordo com tudo que Olavo de Carvalho diz, mas é preciso reconhecer a influência cultural dele. Isso é inegável. É visível nas discussões na internet e nas conversas fora dela também. E eu não estou falando de vídeos e textos de redes sociais dele, que trazem às vezes xingamentos desferidos aos seus opositores. Estou falando da obra dele mesmo como a maior influência. Já li muitos de seus artigos e algumas de suas obras e por esse material dá para entender a razão de sua influência cultural. Há valor em suas obras, muita qualidade, o que não significa concordar com tudo que há nelas nem com a retórica mais popular e ácida que ele usa nas redes sociais. Para se entender um fenômeno social, é preciso ler o conteúdo que o provocou.

Olavo de Carvalho se envolveu diretamente nas críticas contra os militares, então a imprensa tratou de usar esse conflito para destruir a sua imagem diante da opinião pública e até mesmo diante do presidente. É o caso do superdimensionamento – dado pela imprensa, a esquerda e todos os desafetos dos bolsonaristas – à resposta que o filósofo deu aos militares do governo mencionando Villas Boas.

À primeira vista, quando li sobre o caso na imprensa, achei realmente absurda a fala de Carvalho. Mas depois fui ler a declaração toda dele. Na mensagem, Carvalho, em primeiro lugar, não se dirigia a Villas-Boas e, em segundo lugar, chamava de “baixeza” a atitude dos militares do governo de, em vez de responderem diretamente às suas críticas "como homens", usarem como seu escudo o respeitado general Villas Boas, fragilizado fisicamente por uma enfermidade. Como disse, não sou olavista, não sou simpático a alguns de seus posicionamentos e nem à certa parte da retórica usada pelo filósofo em suas redes sociais, mas é preciso admitir que ele não tinha por objetivo atacar Villas Boas.

É terrível ver gente embarcando em uma injustiça contra uma determinada pessoa influenciada por alguma antipatia ou discordância que tem em relação a essa pessoa – seja lá o motivo que for. Entendo a indignação de quem entendeu o contrário (eu também me indignaria se Carvalho tivesse dito mesmo o que disseram que ele disse), mas, para mim - reforço - a mensagem publicada por Carvalho é clara e não diz o que a grande imprensa e os antibolsonaristas dizem que o texto diz.

Apesar dessa campanha para destruir o principal nome dos apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais, parece que o presidente tem se mantido fiel à sua amizade com Carvalho, que é um apoiador dele de primeira hora. Os filhos de Bolsonaro também têm se mantido ao lado dele. Por falar deles, o vereador carioca Carlos Bolsonaro, mesmo fora de Brasília, tem se envolvido intensamente nessas discussões na internet, por isso tem sido também alvo constante de ataques. É tratado como desequilibrado pela imprensa. Recentemente, a imprensa divulgou – não sei se é verdade ou mais uma informação plantada para criar intrigas – que há militares dentro do governo que criticam Carlos fortemente, dizendo que ele tem “problemas mentais” (sic).

Concordo plenamente que o vereador carioca exagerou aqui e acolá em algumas colocações na internet e poderia ter evitado manifestar outras para evitar tensões desnecessárias, distorções ou mal entendidos, mas reconheço também que alguns dos ataques contra ele são extremamente tendenciosos, politicamente motivados.

Bem, diante deste contexto, o que Bolsonaro deve fazer e o que ele não deve fazer?

(Antes que alguém diga, digo eu: Ora, quem sou eu para dar conselhos ao presidente – que, aliás, com certeza, nem está me lendo? Meu objetivo aqui obviamente não é este. Estou apenas falando aos meus leitores com o objetivo de fazê-los entenderem as opções que o presidente tem agora. Então, vamos lá).

É mais fácil começar com o que ele não deve fazer: ceder a seus opositores, fazer a vontade deles e romper com sua base popular. Isso seria suicídio político e um mal para as mudanças que o país precisa, assegurando a manutenção desse sistema que está aí, além da fomentar uma futura ascensão da extrema-esquerda ao poder.

E o que ele deve fazer?

No mundo ideal, ele deveria antes limpar a casa para depois fazer as reformas. Mas isso é impossível: o mundo real é bem diferente e mais complexo que a realidade. As reformas são uma urgência para o país. Confrontar fortemente opositores agora pode comprometer as reformas. Só se houvesse uma manifestação popular maçiça nas ruas em seu apoio nessa hora. A própria base popular está meio dividida agora, aparentemente. Então, o presidente está sendo forçado a primeiro concentrar-se na aprovação da Reforma da Previdência e do Projeto Anticrime, e, depois, uma vez conquistado tudo isso (que dará um capital político colossal para ele), ele pode olhar inclusive para dentro de casa com mais atenção para fazer ajustes pontuais na sua equipe.

Neste momento, ele precisa acalmar a sua base (bolsonaristas e militares) – que é o que ele está tentando fazer agora – e ter uma conversa interna com sua equipe. Precisa dizer a ela que evite dar margem a esses conflitos. Nada de ficar alimentando a imprensa com bate-bocas. É preciso evitar responder a provocações etc. É preciso silenciar e focar – juntamente com ele – no que mais interessa agora. Bolsonaro parece que já teve uma conversa com sua equipe sobre isso.

Há a possibilidade de mais tensões? Ainda há. O próprio caso “Santos Cruz x bolsonaristas” ainda não baixou sua poeira. Mas o caminho a seguir neste momento parece ser esse.

Ademais, devemos orar todos os dias pelo presidente, sua equipe e seu governo, para que Deus os ajude e dê sabedoria para superar todos esses problemas e aprovar as mudanças que o país precisa.

Deus abençoe o Brasil. E Deus tenha misericórdia da Venezuela. Ela também não deve sair de nossas orações.

17 comentários

Rick Reis

Nobre pastor Silas, segui seu conselho e e assisti seu último prog. na TVCPAD (09/05/2019), além de reler seu artigo.Em suma, EU ESTAVA ERRADO! Realmente ataquei um espantalho. Quanto as minhas insinuações sobre sua coragem em defender o certo frente aos opositores, pequei em escrever sem conhecer sua história(eu devia ter seguido o conselho de Sun Tzu). Enfim, estou envergonhado depois de perceber meus inúmeros erros de percepção. O ponto positivo é que agora eu tenho outra fonte de informação.

Silas Daniel

Irmão William, obrigado pelas palavras de apreço e motivação. Que bom que o artigo foi esclarecedor para o irmão, e que as obras de minha lavra têm abençoado a sua vida também. Continue orando por nós. Abraço!

Silas Daniel

Irmão Sérgio, a Paz do Senhor! Claro que o irmão tem o direito de discordar! Sobre a afirmação de que alguns simpatizantes são exagerados, isso é comum em qualquer época. Todo governo tem alguns simpatizantes que mais parecem devotos. Simpatizo com o atual governo, o que não significa concordar com tudo. Reconheço boa intenção e a qualidade da maioria das propostas. Na questão em tela, entendo acertadas muitas das críticas dos bolsonaristas, mas não acho certo excluir os militares como um todo.

William

Parabéns Pastor Silas, obrigado por compartilhar conhecimentos tão importantes e necessários. Já li suas obras: A Sedução das novas teologias, reflexões sobre a alma e o tempo, estou lendo ainda arminianismo a mecânica da salvação.

Sérgio Luis

A Paz do Senhor. Tenho o direito de discordar? Pois me parace que para alguns simpatizantes do atual governo, isso é equivalente a pecado de blasfêmia. Deixo claro não ser petista ou comunista. Que o Senhor nos dê o espírito de moderação e discernimento.

Silas Daniel

Irmão Daniel, amém! Obrigado pelas palavras de apreço e motivação. Continue orando por nós

DANIEL CARLOS FERNANDES

Meus parabéns pelo artigo. Valeu a pena ler do início ao fim (apesar de extenso...rsrsr). Que Deus continue lhe usando para trazer informações, esclarecimentos e opinião cristã fundamentada.

Silas Daniel

Irmão Abner, obrigado pelas palavras de apreço e motivação. Que bom que o artigo foi esclarecedor para o irmão! Essa foi a intenção. Abraço!

Silas Daniel

(Conclusão) Não preciso ser seguidor de alguém para reconhecer mérito em sua obra. Como disse, não concordo com todos os posicionamentos de Carvalho nem sou simpático àquela parte de sua retórica que é mais agressiva na internet (até vc disse que não gosta dos palavrões), mas reconheço muita qualidade em sua obra. Isso é "demonizar"? Prefiro crer que não leu o texto direito. Caso contrário, parece fã cego. Dou o benefício da dúvida. Sobre esses que vc citou, veja meu último programa na TV CPAD.

Silas Daniel

(PARTE 3) "O Mínimo que Vc Precisa..." contém até artigos dele que eu já havia lido antes na grande imprensa. Li ainda dele os livros "Visões de Descartes", "Maquiavel e a Confusão Demoníaca" e "Aristóteles em Nova Perspectiva". Foi tudo o que li dele. Já é alguma coisa, não é? Por tudo o que li dele, reconheço grande mérito em sua obra filosófica e de crítica política e social, e afirmo isso em meu artigo. Mas o irmão diz que... ataquei Olavo! É porque eu disse que não sou "olavista"? (Cont.)

Silas Daniel

(PARTE 2) Eu falo no texto que eu li algumas obras de Olavo de Carvalho e muitos de seus artigos, e elogio a obra dele, e aí você me diz que eu deveria ter lido a obra dele em vez de criticá-lo. Que artigo você leu? Não foi o meu. Leio os artigos dele desde 2000. Cheguei a assistir ao vivo alguns episódios do True Outspeak em seus primeiros anos, li dele "A Nova Era e a Revolução Cultural", "O Imbecil Coletivo" (I e II), "Como vencer um debate sem ter razão", "O Mínimo que Vc Precisa.." (Cont.)

Silas Daniel

Caro irmão Rick, creio que você não leu o texto com atenção. Você está batendo em um espantalho! Eu falo exatamente o contrário do que o irmão está dizendo. O irmão disse que eu estou atacando Olavo de Carvalho, quando eu estou defendendo ele nas suas críticas aos militares. O irmão disse que eu estou defendendo a imprensa tradicional e seguindo ela, quando eu estou fazendo exatamente o contrário e defendendo os bolsonaristas e a mídia independente na internet. (Continua...)

Abner

Muito esclarecedor e pertinente esse texto. Alguns dos meus questionamentos quanto a parte do cenário que envolve esses primeiros meses de governo Bolsonaro, encontraram sólidos argumentos e importantes informações nessa matéria. Parabéns Pr Silas Daniel!

Rick Reis

Querido pastor, sou da AD desde o nascimento e amo minha igreja. Contudo, fico triste ao ver que os "intelectuais" da igreja são cegos quando o assunto é política e cultura. Tenho 22 anos e percebo que crente da AD acredita na grande mídia e consome 'somente' textos de outros cristãos. Se o senhor discorda, vamos debater e veremos que está com a razão.

Rick Reis

Sugestão: busque informações das seguintes fontes antes de falar bobagens: Tradutores de Direita(Sites e YouTube); Olavo de Carvalho(idem); Terça Livre ( idem); Portal Conservador(Site,2) Nando Moura(YouTube,3), Diego Rox; Estudos Nacionais (site); Instituto Mises(site), Adriano Gianturco; Brasil Paralelo; Bernardo Kuster; Hoje no Mundo Militar; MamaeFalei; Submente(YouTube);Epoctimes, Gospel prime; infielatento(site/blog),etc. Sem se informar no básico, vc só produzirá textos rasos, como esse.

Rick Reis

(2/2) mas, o senhor deve parar de demonizar o prof. Olavo por isso. Por acaso vc já leu algum livro dele( pelo menos "O mínimo...")? Enquanto a AD deixava o mundo entrar nas igrejas pelas TVs( novelas, filmes, etc) o prof.Olavo denunciava toda engenharia social da esquerda que visava destruir os valores judaico-cristãos. Enfim, pena que ele é católico! Data vênia, no dia que o senhor tiver metade das 'bolas' do prof. Olavo para denunciar o mal e defender o Reino de CRISTO a gente conversa.

Rick Reis

(1/2)Péssimoartig pastor. Péssimo quando lido por alguém bem-informado como eu. Sua retórica isentona, haja paciência. E outra, onde o senhor estava quando o prof. Olavo denunciava os planos dos esquerdopatas? É muito fácil jogar pedras em cachorro morto, difícil é denunciar a esquerda quando todos a apoiavam( inclusive igrejas). Quanto a agressividade do prof. Olavo, bem, o próprio JESUS CRISTO era agressivo contra os hipócritas de Belial( MT 23: 13-36,LC 3:7). Não gosto de palavrões,mas ....

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Perfil

Silas Daniel é pastor, jornalista, chefe de Jornalismo da CPAD e escritor. Autor dos livros “Reflexão sobre a alma e o tempo”, “Habacuque – a vitória da fé em meio ao caos”, “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, “Como vencer a frustração espiritual” e “A Sedução das Novas Teologias”, todos títulos da CPAD, tendo este último conquistado o Prêmio Areté da Associação de Editores Cristãos (Asec) como Melhor Obra de Apologética Cristã no Brasil em 2008.

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