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Pr. Esdras Bentho

Pr. Esdras Bentho

Experiências do Espírito em o Novo Testamento

Sex, 02/10/2015 por

Nos Evangelhos

O batismo de Jesus e o chamado à conversão representam o início do eschaton, que se caracteriza pelo dom do Espírito sobre o povo de Deus como chamamento universal. Neste particular, a efusão do Espírito em o Novo Testamento distingue-se em parte da manifestação da Ruah sobre eventos e pessoas no Antigo Testamento.

O Espírito de Deus se manifestava vez por outra em pessoas particulares com missões específicas na aliança anterior enquanto na presente Ele se exprime sobre a comunidade e nela habita. Assim, Jesus ao ser batizado é designado e consagrado como aquele cuja palavra, sacrifício e ação faz com que o Espírito entre na história como dom escatológico e messiânico.

A comunicação/missão do Espírito sobre Jesus o constituiu primeiramente como “santo”, e depois como “Filho de Deus”. A segunda é feita no batismo para testificar que Cristo é aquele sobre o qual o Espírito agirá e o responsável para enviá-lo após sua ascensão gloriosa. A vida e ministério de Jesus foram permeados pela ação do Espírito. Jesus ofereceu-se pelo Espírito eterno para que em um só Espírito fosse formado um só corpo, a Igreja. Portanto, é paradigma e meio de discernimento da ação do Espírito no homem e na comunidade cristã.

No Epistolário Paulino

O Espírito é apresentado em conexão com a ação salvífica de Jesus e com a promessa ligada à fé de Abraão (Gl 3.14). O Espírito age por meio da pregação e suscita a fé. Ele é concedido à comunidade como herança e garantia escatológica até que se tome posse da libertação final. O mesmo Espírito que fez da humanidade de Jesus uma humanidade completa, faz da comunidade, apesar de suas mazelas e fraquezas, filhos e herdeiros de Deus, mediante o qual podemos dizer “Abbá, Pai” (Rm 8.14-17).

Nesta comunidade o amor, como fruto do Espírito, é o princípio gerador, é o todo. O Espírito não apenas opera no povo de Deus, mas também no crente, sem profanar a interioridade e a liberdade de cada pessoa. Todavia, sua ação no fiel e na comunidade cria a relacionalidade, tornando possível um “nós”. Ele não age apenas “em nós”, inspirando cada um particularmente, mas principal e fundamentalmente, “entre nós”, explicitando o amor.

É o “entre nós” que cria a oportunidade e a relacionalidade e, somente assim, é possível dizer de modo pertinente que o Espírito está tralhando na comunidade. Antes de o Espírito ser dado à comunidade, as pessoas tinham uma relação amorosa e pessoal com Jesus, entretanto, não possuíam um projeto comunitário antes do evento pascal e do pentecostes. Com a presença do Espírito na comunidade houve uma passagem do individual para o coletivo, do “eu” para o “nós”, de um projeto pessoal para um plano coletivo.

Entre as muitas novidades que o Espírito traz está sua ação sobre a comunidade, onde todos são partícipes do agir do Pneuma. Essa experiência é distinta da veterotestamentária onde a comunidade era apenas expectadora da ação da Ruah de Javé sobre indivíduos específicos em ações pontuais. Eles concebiam a Ruah como uma força, energia, enquanto o Novo Testamento o apresenta como uma Pessoa. Nisto se percebe toda a relevância e atualidade da profecia de Joel que vaticina a Ruah de Javé sobre toda a carne.

Portanto, os carismas do Espírito são dados agora, de acordo com Paulo, a toda comunidade para a edificação da própria igreja. Lembre-se, por conseguinte, que Paulo fora o primeiro a trabalhar a Pneumagiologia, embora não tivesse uma experiência concreta e pessoal com Jesus de Nazaré. A experiência paulina é pneumatológica, toda permeada pelo Espírito. Portanto, todos devem agir por meio da ação do Espírito que ensina o crente a falar, a orar, a caminhar, a discernir os espíritos; é Ele quem edifica e consola a comunidade. Toda práxis cristã genuína está permeada do Espírito.

Paulo, por sua vez, afirma estas verdades às comunidades em formação, que ainda não estavam devidamente organizadas e cientes desse temário pneumatológico. O crente ou a comunidade pode e até deve ter um projeto, mas sem a participação do Espírito é ineficaz (Rm 8). A unidade que o Espírito cria na comunidade pode ser entendida também à luz da “crise da Galileia” e das idiossincrasias dos Doze. Ainda hoje, o Espírito toma pessoas distintas em suas formações e experiências e as une em torno de um projeto salvífico comum e comunitário na igreja.

Nos Atos dos Apóstolos

Lucas apresenta o Espírito como aquele que irá gerar a Igreja no mundo. Ele impulsionou Jesus em seu ministério terreno e nos Atos anima os apóstolos para anunciarem o Evangelho, de Jerusalém até os confins da terra. Ele é o princípio dinâmico por detrás das ações miraculosas e da escolha dos itinerários dos missionários. Por meio do Pentecostes o Espírito trouxe aos apóstolos o discernimento da universalidade do chamado à fé. Apesar de Lucas não ter uma teologia dos efeitos do fruto do Espírito na vida do cristão, Paulo a tem e, assim, a pneutmatologia de Paulo, Lucas e João se completam.

No Evangelho de João

O Espírito Santo é apresentado inicialmente em sua relação com Jesus. Este tem o Espírito e o concede. Ele diz e faz a obra de Deus através do Espírito.  Na comunidade, o Paraclito ajuda a superar o trauma da morte de Cristo. Ele ensina a segui-lo em vez de a um corpo de doutrina.

As perspectivas lucana, joanina e paulina se articulam. Pentecostes não é somente a festa do Espírito Santo, mas do Jesus histórico e da comunidade. A experiência de Jesus na comunidade foi de amor. O amor que o Espírito transmite é um amor comunitário, em vez de articulação individual. A vida do Espírito é uma vida comunitária, muito embora haja a ação dele na vida de indivíduos. O Espírito traz novidade para o seguimento de Jesus, no passado e no presente. O Espírito traz um “nós”. O Espírito fala em “nós” e entre “nós”.


Esdras Costa Bentho

Mestre em Teologia - PUC, RJ 

11 comentários

Davison

Só estranhei permita-me dizer Pastor Esdras Costa a falta do termo Batismo no Espirito na abordagem talvez outas també notaram uma vez que somos tão familiarizados com este aliás se não me engano em outras abordagens tem sido assim se estiver errado me corrija por favor a alguma razão para tal? uma abordagem mais geral seria isso? ou não achas que o termo usado ali é mais usualistico do momento e não um fim em si mesmo ou seria apenas uma mudança de opção termo para não ser repetitivo...

Davison

Sucinto como disse Sandro Barcelos, mais muito bom o texto, aprofundando mais a questão e a doutrina " Pneumatológica ,do Pentecoste (...) que pena que o que dissestes tão lindo e rico que foi a exemplo da frase:" Pentecostes não é somente a festa do Espírito Santo, mas do JESUS HISTÓRICO e da COMUNIDADE . na pratica estejamos um pouco perdidos precisando se encontrar. Poder e unção é com a gente mesmo agora amor cristão e os passos do Jesus Histórico estamos um pouco perdido qe Deus tenha mi

Rui Baptista Pereira

Gostei muito desse artigo.

Geovany Antunes

Irmão Esdras, Deus te abençoe por essa palavra maravilhosa. Gosto muito de missões e vou destacar a frase "Ele é o princípio dinâmico por detrás das ações miraculosas e da escolha dos itinerários dos missionários". Também quero dizer ao irmão que sou professor de jovens e sua lição é maravilhosa.

João Paulo

Prezado Pr Esdras, Destaco as palavras do Mestre em Jo 17.21 "... a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste." Parece-me que Jesus estava de fato interessado na unidade, na comunidade, e isso para que, pela união [nós], os que são de fora da comunidade creriam que Jesus é o Filho de Deus.

sandro barcelos

acho que pelo resumido do texto merecia uma parte 2 e 3 ... aprofundando a ultima parte do texto em que você afirma "O amor que o Espírito transmite é um amor comunitário, em vez de articulação individual. A vida do Espírito é uma vida comunitária, muito embora haja a ação dele na vida de indivíduos." identificar o padrão bíblico da experiencia individual e como ela está articulada ao todo, é importante para se refutar os modismos de hoje praticados por indivíduos nos arraias pentecostais.

Rogério dos Santos

Parabéns pelo maravilhoso texto pastor. Quero destacar a frase: Ainda hoje, o Espírito toma pessoas distintas em suas formações e experiências e as une em torno de um projeto salvífico comum e comunitário na igreja.

Sérgio Luís

Bem vindo,Pr.Esdras.texto excelente.

Ev. Heveraldo Ramos

Gosto muito de seus artigos irmão Esdras, sempre profundos e com muita novidade. Não sei quantas vezes já li textos falando do Espírito Santo no Novo Testamento, mas esse merece destaque. Deus te abençoe

Anderson Salustino

O senhor sempre nos enriquece com seus estudos maravilhosos pastor. Quanta profundidade em palavras singelas.

Anselmo Lima

Estávamos com saudade de seus artigos pastor Esdras.

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Perfil

Esdras Costa Bentho Teólogo, Bacharel e Licenciado em Teologia com especialização em Hermenêutica; graduado em Pedagogia (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Formação de Professores), e escritor. Atualmente concluindo o Mestrado em Teologia pela PUC, RJ, atua como professor na Faecad, RJ, trabalha como editor de Bíblias e revisor sênior para editoras cristãs.

É autor dos livros “A Família no Antigo Testamento – História e Sociologia” e “Hermenêutica Fácil e Descomplicada”, e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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