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Pr. Esdras Bentho

Pr. Esdras Bentho

Seguir os Passos de Jesus: uma teologia para hoje (continuação)

Sex, 13/11/2020 por

 

Andar nas Páginas do Novo Testamento

     Em o Novo Testamento o termo mais usado é peripatēō, derivado da preposição grega perí, “através”, e do verbo pateō, “pisar”, “caminho”. A preposição deriva o seu sentido lato do verbo peiron, que significa “atravessar”. A ideia por detrás do conceito de “andar” (peripatēō) é a das marcas ou das pegadas que atravessaram a areia e deixaram rastros. Alguém andou pelo caminho e as marcas de suas pegadas estão fixadas no chão. Um rastro foi deixado, portanto, é fácil seguir. É esse o ensino de Paulo em Romanos 4.12 a respeito das pisaduras do crente Abraão: “e fosse pai da circuncisão, daqueles que não somente são da circuncisão, mas que também andam nas pisadas daquela fé de Abraão, nosso pai, que tivera na incircuncisão” (grifo nosso).

     A exortação paulina aqui é muito simples, contudo, profunda. São herdeiros espirituais da fé de Abraão somente aqueles que andam em suas pisaduras. Para ser sucessor espiritual do grande patriarca não é necessária a circuncisão, mas andar nas mesmas pegadas de fé deixada pelo amigo de Deus. Abraão deixou suas marcas e todos que desejam imitá-lo devem andar em suas pisaduras, isto é, colocar os pés nas pegadas deixadas por ele na senda da fé e da esperança em Deus. Deste modo, Paulo usa o vocábulo andar por oito vezes na epístola aos Efésios. O sentido é tanto ético quanto doutrinário. Ele refere-se mais ao uso figurado do que ao literal, a fim de expressar a natureza geral da vida de fé em Cristo. Embora empregasse o uso metafórico em suas epístolas, por exemplo, Romanos 4.12; 6.4; Gálatas 5.16, 25; 6.16, o emprego repetitivo em Efésios é digno de nota. Assim o indivíduo “anda em Espírito”, “em amor” ou como “filhos da luz”. 

     Os termos sempre aludem ao comportamento ou modus vivendi da pessoa. Vejamos o uso do termo pelo apóstolo: “quais Deus preparou para que andássemos nelas” 2.10; “que noutro tempo andastes, segundo o curso deste mundo” 2.2; “antes, andávamos nos desejos da nossa carne” 2.3; “que andeis como é digno da vocação” 4.1; “andai em amor.” 5.2; “vede prudentemente como andais” 5.15; “sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” 5.8; “para que não andeis mais como andam os outros gentios” 4.17.

    O uso reflete a sabedoria hebraica e a figura do caminho da vida e da morte no qual a pessoa é instada a se decidir ou escolher entre um caminho e outro (Gl 5.16-25). A vida no Espírito exige que se ande no Espírito (Gl 6.25). Portanto, existe um cânon, uma regra na qual todos verdadeiramente sábios em Cristo devem andar (Gl 6.16). Todos esses conceitos traduzem o contexto semítico. Veja por exemplo que a expressão de 5.8: “sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” é uma reminiscência doutrinária do Masquil de Etã, o ezraíta, que falava da alegria festiva daqueles que andam na luz da face de Deus (ver Sl 89.15; 116.9).

     Fica evidente, que a teologia paulina a respeito de “andar” reflete adequadamente o contexto da sabedoria, justiça e ética hebraica do Antigo Testamento, sob a perspectiva de uma nova ordem que se inaugura: o Reino de Deus. Assim, é no contexto da retidão e da ética de Cristo que o apóstolo Paulo insiste na repetição do verbo andar.

 

 

Andar e o Seguimento de Cristo

O seguimento de Jesus reflete o contexto da vocação cristã. Jesus chamou uma variedade de pessoas para segui-lo, enquanto ia pelo “caminho” (Mc 9.57): Mateus (Mt 8.22); o jovem rico (Mt 19.21); um discípulo (Mt 8.21-22); Filipe (Jo1.43); Pedro (Jo 21.19,22), entre outros.

O fato de Jesus vocacionar enquanto “ia pelo caminho” já ilustra o seu exemplo, suas pisaduras e o tipo de vereda que o seguimento deveria seguir: “E ele, levantando-se, o seguiu” (Mt 9.19); “seguiu-o, e os seus discípulos também”; “E, levantando-se, o seguiu” (Mt 9.13; 20.29; Mc 2.14).

Cada um desses discípulos desejava colocar os seus pés nos mesmos passos de Jesus, isto é, seguir suas pisaduras, colocar os pés nas marcas que ele deixou enquanto “ia pelo caminho”. Dos apóstolos aos líderes religiosos, dos pobres aos ricos, dos homens às mulheres, Jesus a todos convidou para seguir suas pisaduras.

O seguimento não é provisório e circunstancial, mas um projeto de identidade plena vivido e seguido dia a dia apesar das vicissitudes. O discípulo não é vencido pelo peso da cruz, mas pelo amor que o vence a cada dia e o faz renunciar tudo para seguir nas pisaduras do Mestre. O Salmo 85.13 afirma: “A justiça irá adiante dele, e ele nos fará andar no caminho aberto pelos seus passos”. Quantos estão dispostos a “andar no caminho aberto pelos seus passos”? A pisar nas pisadas que ele deixou como exemplo de vida e humanidade? 

O verdadeiro discípulo é aquele que pisa onde Jesus pisou, seguindo-o e imitando-o. O chamado para segui-lo é na maioria das vezes pessoal e cada um deve responder positiva ou negativamente ao chamamento. Aqueles que respondem de modo afirmativo aderem ao caminho da fé. E os que respondem de forma contrária escolhem o caminho da incredulidade. O Cristo chama a todos particularmente e cada um deve responder ao chamamento divino. Não se trata de um chamamento ao orgulho, mas para a humildade. Não é o discipulo chamado para ser divino, mas assumir sua humanidade na plena humanidade vivida por Jesus. O discípulo se humaniza na mesma medida em que o Cristo é humano.

O caminho do discipulado, pisar nas pisaduras de Jesus, está na contramão do orgulho, da riqueza, do sucesso e da glória. É a peregrinação que se dirige do Getsêmane ao Gólgota: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” (Mc 8.34). É necessário ir na direção que Jesus indicou, nas pisaduras de sua peregrinação. Pode-se escolher o caminho glorioso dos filhos de Zebedeu (Mc 10.37-41), mas o cálice do Cristo é a única resposta e a vereda mais certa a percorrer.

Andar nos passos de Jesus é aprender a ser humano na própria humanidade vivida por Jesus. É acolher os pobres e necessitados, é amar os pecadores, é defender os indefesos, é ser como Jesus!

 

 


3 comentários

Sérgio Luís

Valeu a pena esperar !!!! Deus o abençoe.

Jonathas dos Santos Oliveira

Parabéns professor Esdras. Continue nos brindando com essas lições. Escreva um livro sobre esse assunto. Deve ter mais pepitas escondidas por aí.

Josué Luíz Amaral

Muito Bom os Estudos! Acompanho Desde que Descobrir. Amo Todos os Estudos e Artigos do Site, Leio e Sempre Compartilho Com Mais de Trezentos Contatos do Meu Whatsapp. São as Mensagens Teológicas Diárias Deles! Realmente, São Muito Edificantes. Só Não Costumo Comentar. Continuem Assim, que Através Desses Artigos Teológicos e Estudos Bíblicos que Vocês Estão Também Salvando Vidas.

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Perfil

Esdras Costa Bentho Teólogo, Bacharel e Licenciado em Teologia com especialização em Hermenêutica; graduado em Pedagogia (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Formação de Professores), e escritor. Atualmente concluindo o Mestrado em Teologia pela PUC, RJ, atua como professor na Faecad, RJ, trabalha como editor de Bíblias e revisor sênior para editoras cristãs.

É autor dos livros “A Família no Antigo Testamento – História e Sociologia” e “Hermenêutica Fácil e Descomplicada”, e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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