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Pr. Esdras Bentho

Pr. Esdras Bentho

Seguir os Passos de Jesus: uma teologia para hoje

Qua, 24/07/2019 por

Introdução 

Certa vez ouvi um certo conto de um cristão que dissera ter tido um sonho no qual ele andava na praia com o Senhor, enquanto passava todas as cenas de sua vida diante dele. Contava que a cada cena era deixado dois pares de pegadas na areia. O cristão entendeu que uma era dele e a outra de Jesus. Todavia, observou que nas horas mais amargas de sua vida, nas dificuldades mais hercúleas, havia apenas uma pegada na areia. Ficou triste e cabisbaixo e queixou-se de que Jesus o abandonara nas tribulações. Contudo, com olhar meigo e voz melíflua, Jesus lhe disse: “Meu precioso filho. Eu te amo e jamais te deixaria nas horas da tua prova e do teu sofrimento. Quando vistes na areia, apenas um par de pegadas, foi exatamente aí que eu, nos braços te carreguei”.

O conto fala de duas pegadas, do crente e do Senhor, todavia, pretendo falar de apenas uma pegada, a de Jesus e o que isso significa para o discipulado. Propomos uma leitura teológica do verbo “andar” e de sua relação com os termos “caminho” e “passo” nas perspectivas da Teologia Bíblica e do discipulado cristão, de acordo com o seguimento de Jesus Cristo.

 

Andar no Antigo Testamento

No hebraico o termo ‘āshar é usado em sentido literal (Gn 3.14; Êx 14.24; 15.22) e figurado (Gn 5.22, 24; 6.9; Dt 5.33; Pv 9.6). Literalmente, ‘āshar significa “ir reto pelo caminho” ou tão somente “andar”. 

Um dos traços mais curiosos do verbo talvez seja o fato de que ‘āshar dá origem ao substantivo ‘āshār, que significa “felicidade” ou “bênção”. Provavelmente o sentido metafórico positivo de “andai pelo caminho do entendimento” em Provérbios 9.6 (ARC), pressuponha algum artifício de linguagem na qual a exortação indique uma assonância com a bênção que acompanha aqueles que “andam” pelo caminho justo.

A aliteração estaria presente no discurso ou pronúncia do verbo ‘āshar com a indicação de que se quer dizer ‘āshār, felicidade ou bênção. Observe, por exemplo, que o hebreu preferia o verbo bārak para “abençoar”, “bendito”, “bênção”, no entanto, ‘āshar é o mais indicado para relacionar o conceito do verbo com a ideia da bem-aventurança: a felicidade acompanha os que andam no caminho do entendimento”. Não é sem razão que a Septuaginta traduz bārak por eulogētos (bendito) e ‘āshar por makarios (bem-aventurado).

A ideia de andar consequentemente liga-se ao conceito pictórico hebreu de “caminho”. No hebraico ‘ōrach quer dizer “caminho” ou “vereda” e seu emprego mais acentuado está na literatura poética, sempre com sentido figurado no qual se pretende afirmar tanto o “caminho da vida” como o “caminho da morte” (ver Pv 2.13). 

“Caminho”, seja qual for os termos hebraicos usados, ‘ōrach ou derek, emprega-se tanto com significado literal como também figurado; até mesmo quando cita esses dois vocábulos mais comuns: “Ensina-me, Senhor, o teu caminho (derek) e guia-me por tua vereda (‘ōrach)” (Cf. Pv 2.8; 4. 14; 12.28).

Do conceito é que se pode compreender satisfatoriamente a relação com a vida ética e justa diante de Deus e dos homens. Afirmam as Escrituras que “E andou Enoque com Deus” e “Noé andava com Deus”, dando a entender que ambos viviam de forma justa e reta numa geração perversa (Gn 6.11). Enoque é arrebatado e Noé salvo do dilúvio porque “andaram” com Deus, isto é, viveram retamente perante o Senhor. 

A um Deus “toma para si”, a outro conserva a vida (Gn 6.19) pelo testemunho de retidão que sustentaram diante de Deus e dos homens. O vocábulo “tomou” é obscuro, mas o uso em Salmos 49.15 e 73.24 sugere um “arrebatamento”, como traduz a NVI o verbo “tomar”.

Nesse aspecto, o “caminho em que se deve andar” (Êx 18.20) positiva (Pv 4.11) ou negativamente (Pv 5. 20-23) expressa uma forma de viver; a maneira de se colocar diante do mundo e da vida; as formas de agir; o posicionamento entre a submissão e a desobediência (Cf. Ec 11.9; Sl 119.35; 139.3). Daí a recomendação para que se ande nos juízos e estatutos do Senhor e da Sabedoria (Lv 18.4; Pv 8.20). 

“Andar”, portanto, aparece em conjunto com os termos temer (ver Ne 5.9), inocência (Sl 26.6), guardar, servir, fazer e dar ouvido à voz do Senhor (Dt 13.4, 16; 26.16, 17; Ne 10.29; Sl 78.10) – todos os vocábulos expressam o caminho de um homem justo e bom. Esse justo é temente a Deus, guarda os mandamentos, serve fielmente, pratica as boas obras e dá ouvido à voz do Senhor em todo tempo.

Afirmou Ezequias: “Ah! Senhor! Sê servido de te lembrar de que andei diante de ti em verdade e com o coração perfeito e fiz o que é reto aos teus olhos” (2 Rs 20.3 ver Sl 86.11; 101.2; Pv 4.11; Is 26.7). Eis as características do homem que anda com Deus, porquanto, os justos, por um alto caminho, o Caminho Santo, andarão (Is 35.7-9). Em Isaías, o Senhor guia pelo caminho em se deve andar (48.17). Todavia, o caminho errado na qual o ímpio anda ou o justo se perde também é apresentado como um alerta às gerações seguintes.

Assim, fala-se do caminho errado na qual alguém morre “porque sem correção andou” (Pv 5.23; Sl 1.1; Is 42.24). Por conseguinte, o caminho em que se deve andar diz respeito a ação ética que se deve praticar (Êx 33.4; Pv 22.6). Andar com Deus no Antigo Testamento é viver de modo digno, agradando ao Senhor em tudo (Sl 119.35; 139.3). Na literatura bíblica se afirma que o caminho ético no qual alguém anda, determina sua vida e o seu fim, para o bem ou para o mal (ver Sl 81.12; Pv 2.13).

[continua...]

Esdras Costa Bentho é Coordenador da Graduação em Teologia da FAECAD, Pedagogo, Mestre e Doutorando em Teologia pela PUC, RJ.

 

 

 

 

 

 


2 comentários

Sérgio Luis

Esperando ansiosamente a continuação. A paz do Senhor.

Fanuel

Excelente postagem! Que Deus os abençoe...

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Perfil

Esdras Costa Bentho Teólogo, Bacharel e Licenciado em Teologia com especialização em Hermenêutica; graduado em Pedagogia (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Formação de Professores), e escritor. Atualmente concluindo o Mestrado em Teologia pela PUC, RJ, atua como professor na Faecad, RJ, trabalha como editor de Bíblias e revisor sênior para editoras cristãs.

É autor dos livros “A Família no Antigo Testamento – História e Sociologia” e “Hermenêutica Fácil e Descomplicada”, e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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