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Pr. Esdras Bentho

Pr. Esdras Bentho

A Doutrina do Discernimento

Sex, 15/07/2016 por

O termo “discernir”, do hebraico nākar e do grego diakrinō, quer dizer “distinção”, “separação”, “julgar”; isto é, “fazer distinção”, “fazer separação”. O termo hebraico aparece pela  primeira vez em Gênesis 27.23, no contexto em que Isaque é enganado por Rebeca e Jacó. O  vocábulo é traduzido por “não o conheceu” (ARC) ou “não o reconheceu” (ARA). Na passagem em apreço, o termo significa literalmente “discernir algo por alto”. Contudo, outros vocábulos hebraicos traduzem o sentido considerado: sāpat (Êx 18.16); shama (2 Sm 14.17); yada (2 Sm 19.35); nakar (Ed 3.13), entre outros. Todos com o sentido que diz respeito à percepção, compreensão e julgamento (cf. Jó 6.30; Sl 19.12; Ez 44.23; Jn 4.11). No grego do Novo Testamento, a palavra diakrinō aparece dezoito vezes com o sentido de “julgar”, “discernir”, “fazer distinção”, “separar”. O termo descreve tanto o discernimento das coisas naturais quanto das espirituais. 

Nas páginas de o Novo Testamento o termo, ao que parece, é citado pela primeira vez em Mateus 16.3 (ARC) aludindo ao “discernimento” dos tempos e estações naturais. Todavia, o termo não se restringe apenas a essa observação, mas prolonga-se no versículo, pois a supressão do vocábulo na parte seguinte pressupõe o seu uso: “...sabeis diferençar a face do céu e não conheceis os sinais dos tempos?”. Portanto, há o uso combinado de ginōskete diakrinein, isto é, “sabeis discernir”, nas duas sentenças: “sabeis discernir a face do céus”; “não sabeis discernir os sinais dos tempos”. Confira, por exemplo, o texto da ARA “Sabeis, na verdade, discernir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?”. 

No texto de 1 Coríntios 11.31, o vocábulo é usado em relação ao autojulgamento do crente: “Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos [heautous diekrinomen], não seríamos julgados”. Trata-se, na verdade, da auto-análise que o crente faz de si mesmo e, mediante a qual, participa conscienciosamente da Ceia do Senhor. Porém há outros que assentam-se à mesa do Senhor sem discerni-lhe o corpo: “Porque o que come e bebe indignamente come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo [diakrinōn to sōma] do Senhor”. 

O discernimento pode manifestar-se também como um conhecimento sobrenatural que o Espírito Santo concede a determinados membros do corpo de Cristo para julgar ou discernir os espíritos: “...e a outro, o dom de discernir os espíritos [diakriseis pneumatōn]...”. O discernimento de espíritos, aludido no presente texto, é um dos extraordinários dons que concede ao crente a capacidade de discernir os espíritos, julgar as profecias e as motivações cristãs, entre outras espetaculares manifestações. Embora, certos membros do Corpo de Cristo possuam este dom, todos os crentes são desafiados a “provar se os espíritos são de Deus, porque  já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1Jo 4.1). O termo joanino para “provar”, não é diakrinō, mas dokimadzō, isto é, “colocar em prova”, “testar” ou “examinar”. Não somos escusados de frisar, que este último procede da raiz dok, cujo sentido é “perceber”, “pensar”, “pressupor”, “crer”. Traz a ideia de estar convencido de que isto ou aquilo está errado ou certo. Também pressupõe, chegar a certeza das coisas mediante repetidos testes. Portanto, somos advertidos e orientados pela Palavra de Deus a julgar a procedência das motivações humanas, das profecias, dos movimentos de caráter messiânico entre outros.

O discernimento é uma capacidade do crente maduro de acordo com Hebreus 5.14: “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal”. O crente maduro, no original teleiōn, é aquele que tem as suas faculdades cognitivas exercitadas na piedade e doutrina cristã. Este, é capaz de separar, julgar, testar, distinguir ou discernir tanto o bem como o mal [diakrisin kalou te kai kakou]. O termo kalōs, traduzido neste texto por “bem”, trata-se da capacidade para discernir a qualidade das ações morais humanas que lhes confere um caráter moral correto, bom ou útil. Já, o vocábulo kakōs, significa literalmente “erradamente”, “impiamente”, “mal”, ou seja, tudo o que se opõe à virtude, à probidade, à honra. Neste âmbito o crente é desafiado a discernir a cultura, a mídia, a política, a educação, a religião, comparando e confrontando-os com os postulados das Sagradas Escrituras.

 

O contexto religioso atual exige que o crente exerça mais do que nunca, o discernimento, não apenas como percepção racional mas como dom espiritual. Visto que o crente santo e fervoroso, aspira por uma experiência que o eleve acima da mediocridade espiritual tão comum em tempos pós-modernos, é ele, e não os indolentes, quem mais necessita do discernimento espiritual.

Esdras Costa Bentho

Mestre em Teologia PUC RJ

5 comentários

Ricardo José

excelente texto, Deus lhe abençoe Pr. Esdra

David

Obrigado pastor pela aula. A PAZ DO SENHOR!!!!!!!!!!!!!!

Eleno Gutemberg Silva

Paz do Senhor, será que algum dos pastores poderia fazer um texto em que esclarecesse, ou que estivesse algum raciocínio, relacionados com o envolvimento da noiva de Cristo e a política( estado), ou seria muito polêmico. Estamos entrando em mais uma guerra interna onde uns concordam e outros não, nesse período a Igreja fica em um clima tenso é constrangedor. Se for possível será de grande relevância para os leitores, muito obrigado.

Eleno Gutemberg Silva

Paz do Senhor pastor, muito bom precisamos imediatamente incentivar as nossas igrejas, a buscar o don do discernimento, porque muitos já estão indo pelo caminho do engano, se é que já não estão recebendo o espírito do erro.

Sérgio Luís

Prezado pastor Esdras, a paz do Senhor. Glorias à Deus. O presente texto é esclarecedor e recheado de subsídios didáticos e teológicos. Nestes tempos de mediocridade espiritual,Jeová usa seus arautos e estes clamam: Quem tem ouvidos ouça! Na atualidade, a igreja tem sido bombardeada pela pluralidade, sincretismo e ecumenismo. Será que isto acontece pela falta de discernimento?!

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Perfil

Esdras Costa Bentho Teólogo, Bacharel e Licenciado em Teologia com especialização em Hermenêutica; graduado em Pedagogia (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Formação de Professores), e escritor. Atualmente concluindo o Mestrado em Teologia pela PUC, RJ, atua como professor na Faecad, RJ, trabalha como editor de Bíblias e revisor sênior para editoras cristãs.

É autor dos livros “A Família no Antigo Testamento – História e Sociologia” e “Hermenêutica Fácil e Descomplicada”, e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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