Colunistas

Pr. Esdras Bentho

Pr. Esdras Bentho

Uma Metáfora da Identidade da Igreja a partir dAs Cidades Invisíveis

Ter, 05/07/2016 por

No criativo e ficto diálogo elaborado por Ítalo Calvino em As Cidades Invisíveis, Marco Pólo diz ao grande Kublai Khan:

Você sabe melhor do que ninguém, sábio Kublai, que jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. Contudo, existe uma ligação entre eles.

Permita-me o leitor à seguinte paráfrase, supondo que esse diálogo tenha ocorrido entre um missionário e um líder tribal, que resiste a cultura cristã para manter a identidade de sua tribo:

Você sabe melhor do que ninguém, sábio líder, que jamais se deve confundir Jesus e o Cristianismo com o discurso das igrejas que os representam. Contudo, existe uma ligação entre eles.

De acordo com o personagem Marco Pólo, a única forma de representar adequadamente a cidade Olívia é descrevendo, através do discurso, a prosperidade da cidade que, embora rica, com “suas almofadas franjadas nos parapeitos dos bífores”, está envolta “por uma fuligem e gordura que gruda nas paredes das casas” .

Assim também a Igreja. Não há como descrever adequadamente a sua identidade se não falarmos de sua riqueza e impoluta beleza e também da fuligem e gordura incrustada em sua estrutura. A estética e opulência da città fazem parte de seu estado e criação originais, mas a tisne e nediez foram acrescentados depois. Tal qual Olívia, “na aglomeração das ruas”, onde os guinchos manobravam comprimindo os pedestres contra os muros, as igrejas pululam nos guetos e ruelas dos grandes centros disputando espaços e atenção dos transeuntes, comprimindo-os.

Todavia, a identidade da cidade Olívia não está em seus suntuosos palácios de filigranas almofadas, mas nos personagens que nela vivem. A identidade da metrópole não se confunde com suas magníficas construções. São os sujeitos, com o que são e produzem, que lhe dá sentido. Para melhor descrever a cidade, Marco Pólo afirma que seria necessário usar a metáfora da fuligem, dos chiados de rodas, dos movimentos repetidos, dos sacarmos. A mentira, diz o veneziano, não está no discurso, mas nas coisas. A chave-hermenêutica está na relação entre o discurso e os fatos, entre a realidade e as imagens verbais. 

Marco Pólo não trata de identidade, mas identidades. O grande império não se construiu na homogeneidade das cidades e de suas populações, mas na pluralidade identitária. As pessoas que constituem as cidades têm seus costumes e visão de mundo diferente uma das outras e, no entanto, compõem o mesmo império. O relato do desbravador é variado, sujeito a interpretações, assim como as cidades que descreve. Cabe ao imperador compreender e relacionar as coisas com a linguagem empregada. 

Por conseguinte, tal qual Marco Pólo, é possível falar das várias identidades eclesiásticas e no entanto não chegar a uma conclusão válida a respeito de qual delas traduz concretamente a identidade ideal da Igreja de Cristo. As identidades das igrejas cristãs se configuram tanto por sua relação com a modernidade quanto por sua negação a ela; pelo aceite de novas formas e estruturas sem romper com as antigas tradições, ou pela afirmação desta última em detrimento daquela; ou ainda, são os sujeitos que definem a identidade do grupo religioso e, portanto, mudando as primeiras gerações, as novas lhe configuram uma nova identidade que pode gerar conflitos com a que está em processo de sucessão. A identidade da igreja, a organização, não existe sem um corpo de regras e valores (instituição) que são reproduzidos na igreja, no entanto, é o grupo, formado pelos sujeitos na modernidade líquida e reflexiva, que é responsável pela produção dentro das organizações e pela singularidade – ora controlado, submetido de forma acrítica a essas regras e valores, ora sujeito da transformação, da rebeldia, da produção do novo”. Parabolicamente, cito Ítalo Calvino 

Mas a cidade não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão, escrito nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos postes das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de arranhões, riscos, cortes e entalhes.

Retomando a metáfora inicial, a distinção entre Cristianismo e Jesus permite entender a situação da Igreja no mundo. Jesus é distinto do Cristianismo, mas o Cristianismo é impensável sem a fé em Jesus e esta só continua historicamente porque o Cristianismo se tornou uma realidade social. Assim também as igrejas cristãs manifestam-se de muitos modos no Cristianismo e às vezes distinguem-se de seu Fundador, embora existam relações entre essas três realidades.

Portanto, numa sociedade moderna e fluída, que se classifica como plural e democrática, tornou-se não apenas importante o respeito às diferenças e diversidades, mas também a tolerância entre os grupos sociais, a interculturalidade e a construção social através do diálogo. A identidade entendida em suas bases sociais não significa a negação do “outro” para reafirmar o “eu”, mas reunir o “eu” e “ele” em um “nós”, conservando-lhes a singularidade, como se espera de uma sociedade plural e democrática.

A Igreja é um mistério que se manifesta de muitas formas...

Pensemos....

[CALVINO, Í. As cidades invisíveis. São Paulo: Publifolha, 2003.]

1 comentário

Sérgio Luís

Pr.Esdras, a paz do Senhor. Texto interessante, intrigante e que nos leva à pensar e repensar sobre a relação Cristo/cristianismo, cristianismo/fé, fé/religião e todas as combinações ou binômios relativos à este(s) tema(s),que envolvem,referem e refletem tanto o coletivo quanto o individual de nossa igreja e denominação.

Deixe seu comentário







Perfil

Esdras Costa Bentho Teólogo, Bacharel e Licenciado em Teologia com especialização em Hermenêutica; graduado em Pedagogia (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Formação de Professores), e escritor. Atualmente concluindo o Mestrado em Teologia pela PUC, RJ, atua como professor na Faecad, RJ, trabalha como editor de Bíblias e revisor sênior para editoras cristãs.

É autor dos livros “A Família no Antigo Testamento – História e Sociologia” e “Hermenêutica Fácil e Descomplicada”, e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

COLUNISTAS