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Pr. Esdras Bentho

Pr. Esdras Bentho

Teologia Pastoral e Autonomia do Sujeito na Modernidade

Qui, 07/04/2016 por

É assente e ponto pacífico na teologia a relação do saber teológico com os paradigmas explicativos da realidade de seu tempo. A teologia sempre foi e será uma ciência inculturada. Neste aspecto, é necessário ao trabalho pastoral ensinar a comunidade a desaprender as formulações arcaicas, os conceitos teológicos e litúrgicos ultrapassados, que não mais falam ao homem moderno. A mera repetição de fórmulas teológicas não presta serviço algum ao povo de Deus, muito pelo contrário, essa cantilena só pode provocar fastio e constitui uma infidelidade e irresponsabilidade para com a mensagem cristã. É necessária uma interpretação mais criativa dos dados da fé transformando-os em fonte de conhecimento e renovação do ser humano.

O dogma é um caminho, uma orientação. Uma afirmação dogmática reflete o contexto que a gerou, pois se trata de uma resposta a uma situação epocal. Gerações que vivem em épocas diferentes devem dar novo vigor, frescor e interpretação ao dogma. Devemos reinterpretar os enunciados dogmáticos à luz de nossa leitura atual da Escritura. Não é possível anunciar o Evangelho sem considerar o homem moderno, o seu destinatário.

 Não é mais possível negar os reclamos científicos que exigem da fé uma resposta dialógica. Não podemos mais aceitar uma visão de homem que lhe negue sua completude.

Neste ínterim, a pastoral deve resgatar o sentido de pessoa que encontra no amor e liberdade de Deus o seu fundamento. Ser pessoa é ser livre. Heidegger afirmava que a liberdade não é uma propriedade (Eigenschaft) do homem, mas que o homem é essencialmente livre. Entendia o filósofo que para o homem adorar a Deus precisava estar livre de Deus, livre para se desviar de Deus, não determinado ou compelido por Deus para adorá-lo.

Se o homem adorar a Deus deve fazê-lo mediante uma ação livre, não compelida. Ser livre, em última instância, é ser capaz de se decidir a favor ou não de Deus. A concepção heideggeriana de modo algum entra em conflito com a teologia. Em Deus subsiste em toda plenitude a liberdade, o amor e a relação, elementos pessoais constitutivos. Deus criou o homem como ser livre, chamado para se decidir na abertura, para acolher o dom de Deus salvador-criador e para viver o amor concreto aos outros seres pessoais e assumir responsabilidade face ao mundo criado por Deus. Todavia, como a experiência tem demonstrado e a própria escatologia paulina, nem todos ainda se submetem ao senhorio de Cristo e respondem positivamente ao seu chamado (1Co 15,24-28). Não é isto indício de uma liberdade, mesmo que negativa?

Ao criar o homem como ser livre (para), o próprio Senhor arca com a responsabilidade de o homem desejar ser livre d’Ele. O ser, assim, é pessoa, criada pelo amor e liberdade de Deus, capaz de se decidir a favor ou mesmo contrário a Deus. Javé decide criar o homem e o faz como um ser livre. Embora não explícito, a última proposição conforma-se à concepção do escritor, segundo a qual Deus criou o homem e o guia para a salvação.

O mundo é o palco no qual Deus revela o seu amor ao homem e reafirma sua autonomia e liberdade ao permitir que ele faça suas próprias escolhas, mesmo que essas contrariem seus mandamentos (Gn 3). Somente uma perspectiva da liberdade de Deus e do homem pode conformar-se ao sentido de autonomia do sujeito, da natureza e do social propalados pela Modernidade.

 

A pastoral, por conseguinte, não se pode fechar ao novo contexto que tanto desafia quanto impele a Igreja ao cumprimento de sua missão no mundo.

31 comentários

Esdras Costa Bentho

Cristino, obrigado pela observção. Segue:Michael INWOOD. Dicionário Heidegger. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002, p. 106. Heidegger distingue sete tipos de liberdade, razão pela qual os conectivos para e de aparecem em itálicos, uma vez que representam dois conceitos de liberdade mais importantes para Heidegger: (1) libertação, libertar-se de; e (2) ligar-se a, liberdade para. Ele distingue Eigenschaft (qualidade do homem) e Eigentum (possessão do homem). Assim a liberdade do homem é definid

Cristino Benicio

O artigo do pastor é muito bom, o que falta são as citações de fontes, exemplo quando ele cita Heidegger, cade a fonte ?

Izaque Barbosa

Esse ser humano livre do qual o Pastor Esdras escreve eloquentemente nada mais é do que o "Dasein" de Heidegger, tão propagado pelo filósofo comunista Alexandr Dugin que é o mentor de Vladimir Putin. O "dasein" é o ser livre de todas as raízes: familiar, social, política, ideológica, religiosa, e até mesmo livre de Deus. O ser humano livre, conforme Heidegger, é o sonho dos comunistas para fazer da população massa de manobras. Olha só com quem a teologia pentecostal está dialogando.

Vivi

E por isso que eu rompi com toda essa engrenagem, continuo crista, mas longe desses intelectuaisinhos criztaos que querem falar palavras bonitinhas, mas nao querem ir pra cracolNdia falar dw JESUS para, os viciados, quando falo isso nao me refiro ao Pastor Esdras esse eu conheco bwm, su a esposa w filhos, que gente do bem verdadeiro pastpr de Deus, bom tempo em que trabalhamos juntos, continnue assim Pastor, sempre falando a verdDe, sem medo de feror esses aeminaristazinhos cafe com leite. Grande abracobbwm

Vivi

E por isso que eu rompi com toda essa engrenagem, continuo crista, mas longe desses intelectuaisinhos criztaos que querem falar palavras bonitinhas, mas nao querem ir pra cracolNdia falar dw JESUS para, os viciados, quando falo isso nao me refiro ao Pastor Esdras esse eu conheco bwm, su a esposa w filhos, que gente do bem verdadeiro pastpr de Deus, bom tempo em que trabalhamos juntos, continnue assim Pastor, sempre falando a verdDe, sem medo de feror esses aeminaristazinhos cafe com leite. Grande abracobbwm

Eduardo

Afinal, o diálogo parte do pressuposto que o outro não é uma extensão de quem fala. Pessoas que não conseguem respeitar opiniões, que não conseguem fazer ponderações, preferem o monólogo.

Eduardo

Gostei do texto. Mesmo que determinado leitor discorde, não pode dizer que a proposta não seja interessante, especialmente por estar em uma coluna de um órgão "oficial". Interessante também pensar essa sua proposta dentro de alguns caminhos da " Teologia Pública ". Há um texto da Estudos Teológicos (na verdade vários artigos acadêmicos) que são interessantes nessa proposta. Mesmo que se discorde, não deixa de ser interessante.

Leandro do Couto

O ataque do Izaque Barbosa dirigido ao articulista demonstra completo desconhecimento dos textos que o autor escreve para a Escola Dominical, dos livros do autor e de suas palestras pelo Brasil. O Pr. Esdras é um teólogo pentecostal e defensor de nossas doutrinas. Quem conhece o professor Esdras sabe que ele está chamando seus leitores para a reflexão.

Hamilton Soares

Está claro a provocação do articulista. Entendo que ele não está diminuindo a importância do dogma ou do credo, pois em seus livros mostra sensatez e conformidade com a doutrina. Concordo com a ideia de que o dogma deve ser repensado quando novo cenário se apresenta a igreja. Parabéns, pr. Esdras. Não ligue para rótulos!

Joao Paulo

Prezado Pr. Esdras, Parabéns pelo artigo. Parece-nos que, de fato,há necessidade de repensar o ensino das Escrituras ao homem moderno. O Evangelho deve fazer sentido aos ouvintes e isto implica comunicá-lo de forma inteligente, sem alterar seu conteúdo, sem dimunuí-lo. Isto, porém, está no ambiente da liberdade da igreja, digo a liberdade de ensinar como necessário, com sentido ao público presente. Cabe à igreja decidir mudar; Deus nos deu tal liberdade, apesar de já apontar o caminho...

Izaque Barbosa

Irmãos, agora cheguei à conclusão que a mente do Pastor Esdras já está contaminada pela Escola de Frankfurt e outros marxistas. Creio que somente o poder de Deus livrará nossa igreja da "onda vermelha" que ele e outros "assembleianos marxistas" tentam introduzir a ferro e fogo. O mal do marxismo cultural ronda a seara de Deus.

Jean Patrik

O que o senhor propõe já é propagado por algum tempo. Pelo pessoal da Missão Integral. Eles dizem que é preciso fazer uma releitura bíblica desprendida de todos os dogmas. Afim que essa nova interpretação entenda e atenda melhor os incrédulos e a comunidade cristã. Como é uma idéia mais Batista, ainda é discutível no meio deles tal assunto. Uma das cismas é que essa releitura não se torne antropocêntrica. Visto que ela parece partir da necessidade do homem.

Ana Rita Ribeiro

O carater provocativo do artigo, é característico do autor. Instigante.....reflexivo....mas exige intenso cuidado ao aplicá-lo ao à nossa realidade face aos paradigmas que norteiam e embasam o contexto em que vivemos.

Gustavo Souza

Show professor! Lhe espero no próximo semestre! Abraços.

hosana dos anjos

CREIO QUE SOU LIVRE PARA ESCOLHER O CAMINHO QUE QUISER POIS DEUS FEZ ASSIM. ESCOLHO, POIS, OS CAMINHOS DE DEUS, PO R GRAÇA DELE. OBRIGADA SENHOR

Sandro Barcelos

Vale ainda destacar que o dogma por sua natureza é eisegético ao contrario do credo que é exegético , não há credo sem exegese e isso faz do credo sempre uma afirmação necessariamente bíblica por isso o credo por sua natureza é absoluto e inegociável portanto todo dogma que se pretende ser guia de uma ação litúrgica ou missiológica precisa estar fundamentando e um credo bíblico .. caso contrario o dogma será visto como um decreto humano e totalitário.

Sandro Barcelos

o artigo te um tom bem provocativo , pelo fato de estabelecer uma abordagem revolucionário no que sempre foi tido como um termo inspirado dentro do debate teológico tradicional , é quase uma revolução copernicana , se o dogma era sempre o ponto final das discussões agora é visto somente como um ponto de saída mais não de chegada , vejo isso como elemento progressista na mentalidade pentecostal onde sempre os dogmas engessaram o espirito criativo da mente cristã .

Eudenio Rodrigues dos Santos

Pastor Esdras, quando falamos em modernidade e dogmas e culturas e tempos e épocas diferentes, enfrentamos, ainda em algumas de nossas congregações AD Convenção Nacional- Mg, muitas barreiras pra o anuncio das boas novas para esse'' homem moderno'', enfrentamos igrejas de 1910 vivendo em situação cosmopolita de intensa atividade e não conseguem se adaptar situações de modernidade, coisas basicas são um tabu desde de uso e costumes até mesmo uma reforma para melhorias no templo.

Eudenio Rodrigues dos Santos

Pastor Esdras, quando falamos em modernidade e dogmas e culturas e tempos e épocas diferentes, enfrentamos, ainda em algumas de nossas congregações AD Convenção Nacional- Mg, muitas barreiras pra o anuncio das boas novas para esse'' homem moderno'', enfrentamos igrejas de 1910 vivendo em situação cosmopolita de intensa atividade e não conseguem se adaptar situações de modernidade, coisas basicas são um tabu desde de uso e costumes até mesmo uma reforma para melhorias no templo.

Idayr Rocha

COMO AS PESSOAS INTERPRETAM MAU A TEOLOGIA EXEMPLO ESTAR LÁ EM BRASILIA CRISTÃOS ASSOCIANDO Á INJUSTOS EX; RM;1,32(.PARTIDO CRISTÃO?)

Reginaldo Rodrigues Cardoso

Não vejo problemas as pessoas manifestarem posicionamentos progressistas, mas é fundamental uma ortodoxia cristã. Penso que podemos correr o risco de relativizar tanto em favor de uma modernidade, até já ouvi: " não existe verdade absoluta', e tentando tirar da bíblia o caráter de infalibilidade e inerrante palavra de Deus. O que foi visto como verdade no passado distante,já não é hoje. Me parece que isso é decorrente de um pensamento liberal que atingiu a pós-modernidade.

Daladier Lima

O maior problema é transformar tudo isso em realidade. Traduzir em paradigmas para o dia-a-dia.

Márcio da Cruz

EXCELENTE!! Em uma sociedade cada vez mais aberta, racional e questionadora, precisamos realmente avaliar como estamos andando e sob que luz nos orientamos. O parágrafo final é a cereja do bolo quando diz: "A pastoral, por conseguinte, não se pode fechar ao novo contexto que tanto desafia quanto impele a Igreja ao cumprimento de sua missão no mundo." Parabéns pelo texto provocante e elucidativo, Pr. Esdras! O Senhor continue lhe abençoando, A Paz do Senhor!!!!

Wilson Gomes dos Santos

Provocador e instigante dentro de um contexto de reafirmação e fechamento dogmático das igrejas protestantes. Não vamos condenar as ideias do autor, que reflete uma exigência moderna.

Rodrigo Sant'Ana

O comentarista começa com os dois pés no peito do leitor, desafiando a refletir sobre assuntos que não queremos. Acho que é muito provocação,kkkkkk

Antonio Canto

Sem dúvida um artigo que enfurece o dogmático!!!

Eliane dos Santos

Artigo que nos põe a pensar sobre a missão da igreja no mundo, apesar dos desafios que apresenta no trato com os dogmas da igreja.

Gilson Fagundes

Destaco a expressão revolucionária: É necessário ao trabalho pastoral ensinar a comunidade a desaprender as formulações arcaicas, os conceitos teológicos e litúrgicos ultrapassados, que não mais falam ao homem moderno.

Esdras Bentho

Prezado Sérgio Luís, foi justamente isso que afirmei. Prepararei um breve artigo explicando melhor o sentido da frase: "O dogma é um caminho, uma orientação."

Sérgio Luís

Pr. Esdras,a paz do Senhor. O senhor está afirmando que os dogmas são mutáveis? Esclareça por favor. Grato. Saudações em Cristo.

Davison Alves

Interessante!...

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Perfil

Esdras Costa Bentho Teólogo, Bacharel e Licenciado em Teologia com especialização em Hermenêutica; graduado em Pedagogia (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Formação de Professores), e escritor. Atualmente concluindo o Mestrado em Teologia pela PUC, RJ, atua como professor na Faecad, RJ, trabalha como editor de Bíblias e revisor sênior para editoras cristãs.

É autor dos livros “A Família no Antigo Testamento – História e Sociologia” e “Hermenêutica Fácil e Descomplicada”, e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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