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Pr. Esdras Bentho

Pr. Esdras Bentho

Identidade Antropológica da Igreja de Cristo

Qui, 11/02/2016 por

A igreja é constituída de pecadores redimidos por Cristo que, à semelhança de Isaías, está diante do Trono, mas treme em sua humanidade impura. A igreja deve reconhecer sua grandeza – ela é Corpo de Cristo – mas jamais pode se esquecer de suas limitações e fraquezas – o pecado ainda é uma realidade latente, não obstante sua transformação à semelhança de Cristo (Ef 4.13).

A identidade antropológica da ekklēsia não reduz sua grandeza, pelo contrário a traduz. De acordo com Pascal, a verdadeira religião é aquela que permite que conheçamos nossa mais íntima natureza, sua grandeza, insignificância e a razão para ambas; para o cientista e teólogo francês, a fé cristã é a única que tem esse conhecimento [1]. 

É na relação celíflua com o Logos que os membros da ekklēsia conhecem o verdadeiro propósito de sua criação, redenção e glorificação. Nesse inaudito e glorioso convívio a índole carnal cede para “o novo homem” (ton kainon anthrōpon) que “segundo Deus” (kata Theon) foi criado em verdadeira justiça (dikaiosynē) e santidade de vida (hosiotēs) (Ef 4.24).

Em Cristo, a ekklēsia vive e reflete a verdadeira humanidade, “o novo homem segundo Deus”; o poema (poima) que foi criado en Christō (Ef 2.10). Ao “ter sido feito semelhante aos homens” (homoiōthēnai), Jesus tornará os redimidos semelhantes (homoioi) a Ele (Hb 2.17; 1 Jo 3.2; Fp 3.21). Nenhuma instituição humana cumpre essa função, somente a ministração salvífica da Santíssima Trindade é capaz de transformar pecadores redimidos à semelhança do Filho de Deus, e convertê-los em Corpo de Cristo! 

Não são os programas litúrgicos, as inúmeras festividades, o estatuto, as tradições, os bons costumes e as convenções sociais da igreja que transformam pecadores à imagem de Cristo, mas o relacionamento entre o homem e Deus através do sacrifício vicário de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio da ação noutética do Santo Espírito.

Diante da realidade da igreja contemporânea mais e mais pessoas são agregadas ao rol da igreja local sem uma profunda transformação de natureza, caráter e vida. Mas há uma Igreja dentro da igreja. Assim como o trigo e o joio são coisas distintas embora cresçam juntos, assim também há muitos joios na igreja local que crescem com os trigos da Igreja universal, santa e uma.

Ainda que esta seja a natureza transformacional da ekklēsia – organismo espiritual, santo e universal – a igreja também vive suas limitações locais como corpo e membro uns dos outros. A natureza una, espiritual e santa do Corpo de Cristo opõe-se à realidade social, cultural e humana da igreja visível, principalmente enquanto estivermos in partibus infidelium, isto é, entre os infiéis. O sentido de opor neste caso não é o de “oposição”, “impugnação”, mas como no latim opponere, isto é, “pôr na frente”.

 

É possível, portanto, distinguir satisfatória e adequadamente a natureza da Igreja universal da local. Assim como é possível distinguir a Igreja, comunidade dos redimidos, da congregação de Israel no deserto. Bultmann afirma que a “pergunta pelo conceito de Igreja” é decisiva para o cristianismo [2]. E a resposta para essa pergunta acha-se principalmente nas páginas neotestamentárias.

Notas

1. PASCAL, B. Mente em chamas: fé para o cético e indiferente. Brasília: Editora Palavra, 2007. p. 173.

 

2. BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Teológica, 2004, p.140.

6 comentários

Horacy dos Santos

Gostaria de ler artigo do professor Esdras Costa Bentho, demonstrando pela Bíblia, que a Igreja do Novo Testamento é a continuação do Israel espiritual da Antiga Aliança - que Deus tem um único povo - que se chama pelo Seu nome.

Jair Custódio da Silva

Querido Pr g ostei demais do seu texto, mas me esclareça por favor o ue qui dizer "com ação noutetica do esp. santo".....abços..

PR Edmilson

A paz meu professor Esdras. Um abraço. Edmilson Matias Faecad.

Pr. Márcio Santos

Sou aluno do Professor Esdras na FAECAD, e ler esta matéria, me faz relembrar suas aulas cheias de vida, sabedoria e relevância espiritual. Parabéns a CGADB por ter em seu corpo docente, Mestres desta grandeza. Parabéns professor pelo texto. Soli Deo Gloria Pr. Márcio Santos

Sidnei

Muito interessante e edificante! obrigado pelo texto me ajudou no correto entendimento de Igreja e igreja local. Deus o abençoe em nome de Jesus.

Sérgio Luís

Amado irmão,a paz do Senhor. Texto excelente, que apesar de técnico, é acessível à leigos, como eu. Que Deus continue a abençoà-lo.

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Perfil

Esdras Costa Bentho Teólogo, Bacharel e Licenciado em Teologia com especialização em Hermenêutica; graduado em Pedagogia (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Formação de Professores), e escritor. Atualmente concluindo o Mestrado em Teologia pela PUC, RJ, atua como professor na Faecad, RJ, trabalha como editor de Bíblias e revisor sênior para editoras cristãs.

É autor dos livros “A Família no Antigo Testamento – História e Sociologia” e “Hermenêutica Fácil e Descomplicada”, e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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