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Pr. Esdras Bentho

Pr. Esdras Bentho

Da História à Palavra: A Teologia da Revelação em Paul Ricoeur

Qui, 28/01/2016 por

 

No atual contexto de inculturação da fé cristã, Paul Ricoeur (1913 – 2005) não fornece apenas uma epistemologia para a hermenêutica teológica, mas também exemplifica esse saber por meio dos textos teológicos que escreveu. A perda do sentido do símbolo e da sensibilidade do homem moderno para interpretá-lo constitui para o hermeneuta de Valence um problema que ameaça a compreensão da Escritura e a possibilidade de o sujeito ler sua própria realidade a partir dela. Porquanto para Ricœur não há compreensão que o homem faça de si mesmo que não seja mediatizada por meio de signos, símbolos e textos. A hermenêutica do si depende da linguagem usada para traduzir a experiência humana (signos), as expressões de sentido plurívoco (símbolos) e a mediação pela escrita e literatura, que se liberta dos limites do diálogo vis-à-vis e se torna texto do discurso.

Paul Ricoeur não escreveu qualquer tratado exclusivo de hermenêutica bíblica ou teológica, mas tratou exaustivamente do tema em diversos artigos publicados em revistas acadêmicas; alguns, escritos especificamente para os periódicos e, outros, colhidos de suas conferências. Além de ser profícuo no tema, desenvolveu um temário teológico rico e variegado: Deus, revelação, testemunho, kerygma, esperança, fé, profecia, demitização, criação, soteriologia, Reino de Deus, entre outros. Manteve também um diálogo construtivo com a teologia de R. Bultmann, J. Moltmann, A. Schweitzer, C. H. Dodd e escreveu diversos sermões e interpretações de perícopes bíblicas. Atualmente o Brasil dispõe de uma bibliografia vasta e diversa do literato, mas ainda resta muito a ser traduzido.

Contudo, a recepção da teoria hermenêutica de Ricoeur gira em torno do enlace e do divórcio. Neste último estão as correntes fundamentalistas que não reconhecem a contribuição efetiva da teoria do autor pelo fato de estarem presas ao hiperliteralismo, enquanto no primeiro encontram-se teólogos mais abertos ao diálogo ricœuriano, principalmente após o Vaticano II. É possível, portanto, desenvolver uma hermenêutica teológica a partir da teoria de Ricoeur que contribua significativamente à reelaboração e interpretação das doutrinas fundamentais da teologia protestante e católica? O texto em pauta procura um diálogo-dialético entre a hermenêutica textual e teológica de Ricoeur e a teologia fundamental a partir da hermenêutica da ideia da Revelação. Cônscio de que a hermenêutica de si, do testemunho e do texto constituem excelentes metodologias para a reflexão e projeto teológico de matiz pentecostal, uma vez que o movimento se fundamenta na experiência do indivíduo, no testemunho e na Escritura.

Por conseguinte, a escolha do título e tema procede de uma expressão de Ricoeur, colhida de uma de suas conferências teológicas: “A marca de Deus está na história antes de estar na palavra”. À vista da frase-síntese, articulou-se o tema: Da História à Palavra: A Teologia da Revelação em Paul Ricoeur.

Embora tal premissa rompa com a ontoteologia grega e desvele a Deus na história como o actante último, no qual a fé de Israel e da Igreja primeva se combinam e fundamentam-se mutuamente, conforme os vários gêneros narrativos da Escritura, torna-se necessário algumas explicações fundamentais.

Inicialmente, Ricœur entende uma estreita relação entre narração e história. A força da narração não é apresentar Deus como uma ideia, um ideal, princípio universal ou figura espacial do cosmo, mas como uma figura histórica, que age historicamente. Deus é o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Ele é o Atuante da grande gesta de libertação, sendo Ele mesmo solidário dos acontecimentos fundadores nos quais a comunidade de interpretação se reconhece enraizada, instaurada e instituída. Deste modo, na medida em que o gênero narrativo é primeiro, a marca de Deus está na história antes de estar na palavra. A palavra, portanto, é segunda, na medida que confessa o traço fundamental de Deus no acontecimento, seja na escolha de Abraão, seja no Êxodo (et passim) para os israelitas, ou na Ressurreição de Cristo para a comunidade primitiva. Tais acontecimentos não se limitam a transmitir uma tradição, mas marcam uma época, tecem uma história. Afirma Ricoeur:

"Esses acontecimentos formaram uma época porque têm o caráter duplo de erigir a comunidade e de livrá-la de um grande perigo, o qual pode ter, aliás, natureza bem diferente. Falar aqui de revelação é qualificar esses acontecimentos em sua transcendência em relação ao curso ordinário da história. Toda a fé de Israel e da Igreja primitiva se combina aqui na confissão do caráter transcendente desses acontecimentos nucleares, instauradores, instituintes."

Não é a narração como acontecimento que fala por si mesmo, mas o acontecimento da narração como é apresentada pelo narrador a uma comunidade de fé. É, deste modo, uma narração confessante que não se distingue da coisa e dos acontecimentos contados na história. O narrador torna-se ele mesmo profeta por meio de quem o Espírito também fala. E muito embora os gêneros profético e narrativo sejam distintos, eles se assemelham à medida que a profecia, à sua maneira, também é narração.

Afirma o teólogo dominicano francês, C. Geffré, amigo e intérprete de Ricoeur, que o fato histórico elaborado não tem a pretensão de ser a descrição do evento tal como se passou, mas o relato é elaborado teologicamente a partir de um ponto de partida histórico, mesmo que este último continue inacessível à arqueologia ou à crítica histórica. Há, portanto, uma distância entre o fato bruto, isto é, o fato histórico, e o fato elaborado, ou seja, o fato histórico interpretado pela comunidade de fé. O fato elaborado é construído teologicamente para a comunidade crente e fundamentado no fato histórico, mesmo que este, como afirmou-se anteriormente, continue nalgumas vezes inacessível à crítica histórica. O fato elaborado reconstrói o fato histórico sem a pretensão de corresponder ipso facto ao evento. Por conseguinte, a Revelação como evento precede a Revelação como palavra. E se os grandes relatos de milagres das Escrituras são de fato verdade de fé (o êxodo realizou-se mediante “sinais e milagres”, Dt 4.34, e “sinais e maravilhas”, Dt 7.19) não são suscetíveis à pesquisa histórica. Não se quer afirmar portanto que se trata de elaboração de linguagem destituída de evento real, ou que o agir de Javé na história está oculta nos eventos e que são evidentes somente aos olhos da fé, mas tão somente que tais relatos milagrosos, a partir de uma perspectiva moderna, são meta-históricos e por isso estão longe do domínio da experiência histórica.

Com isto não se quer também dar razão ao projeto hermenêutico do teólogo alemão Rudolf Bultmann (1884-1976) – demitologização –, muito menos ao de Paul Tillich (1886-1965) – desliteralização – pelo contrário. A teologia somente pode ater-se à intenção realista das narrações bíblicas se levar a sério seu testemunho de um agir de Deus nas circunstâncias reais que pessoas experimentaram e que em parte foram moldadas por estas, e se também hoje se perguntar pelo agir de Deus na realidade daquela história, tal como ela se apresenta ao julgamento moderno, ainda que isso não possa acontecer sem juízo crítico a respeito da historicidade de muitos traços particulares de textos bíblicos e de narrativas inteiras – nisto concorda o teólogo alemão Wolfhart Pannenberg (1928-2014) em sua Teologia Sistemática.

Não somos escusados de frisar, no entanto, que o antigo Israel entendia como história o agir de Deus (Js 24.31; Jz 2.7,10; Sl 33; Is 5.12). Era inconcebível para o profeta, o sacerdote, o sábio e outras instituições do Antigo Testamento uma “meta-história” ou “uma história de fundo, que se encontra atrás da verdadeira história”. Como afirma Pannenberg, “para Israel, a própria história dos feitos de Deus é a verdadeira história, que abarca toda atividade humana”. Portanto, a teologia deve insistir na convicção do agir de Deus na história, inclusive no plano da facticidade, não abrindo mão do conceito de história. A Revelação está assim ligada ao fato de que o conhecimento de Deus se dá somente a posteriori, no retrospecto do seu agir na História.

Não é correto, portanto, relacionar a perspectiva de história ricœuriana com a de Bultmann, ainda que Ricœur nutrisse uma admiração por este, mas de integrá-la ao conceito pannenbergiano. E, como atesta Manuel Fraijó, o entendimento de história em Pannenberg distingue-se tanto do projeto existencialista de Bultmann quanto do horizonte transcendental de Karl Rhaner (1904-1984).

Portanto, a perspectiva de Revelação e História mantida no texto ricœuriano em apreço reconhece em diálogo-dialético com Pannenberg o caráter arreligioso da Revelação como “texto sempre aberto” a uma nova contextualização. Logo, a pretensão do Cristianismo de oferecer ao mundo a Revelação de Deus é plausível porque é a religião, senão a única, que vê na história o lugar da manifestação de Deus. Sendo assim, como interpreta Juan Camino, na teologia pannenbergiana a Revelação definitiva de Deus em Cristo Jesus não encerra ou conclui o caminho da história reveladora, como acontece com algumas supostas revelações que se voltam ao passado em suas representações míticas.

Pelo contrário, em seu caráter antecipatório (verdade proléptica) atua como luz de uma história de revelação que se faz abrir adiante, no futuro, como obra do mesmo Deus já manifestado no Filho que haverá de Voltar (parousia). Isto é o que revela a escatologia neotestamentária e a mensagem pascal cristã ao anunciar a realidade definitiva da vida da ressurreição que vence a morte como foi real em Jesus, mas simultaneamente para os cristãos ainda está por vir, designando uma tensão entre o “já” da presença da salvação e o “ainda não” de sua consumação escatológica.

O cristão está convicto e seguro de sua ressurreição futura não pelo fato desta ser atestada pela razão histórica mas pelo fato de que Jesus em sua própria ressurreição antecipou e garantiu a fidelidade da promessa divina da ressurreição dos santos. Do mesmo modo a religião de Israel, diferentemente das demais religiões do Antigo Oriente, não encontra o seu Deus apenas nos tempos originários presumivelmente imutáveis, mas também no futuro esperançoso o qual remete para as promessas de Javé e para as experiências de sua fidelidade nos acontecimentos relidos como cumprimento daquelas promessas. Deus não abandona a criatura que aceita sua oferta de Aliança. Assim, o conceito hebreu da história vai se distinguindo paulatinamente do esquema mítico de um tempo originário determinante, abrindo-se para a confiança num futuro certo, mas imprevisível de Deus, na qual resta ao crente a confiança na fidelidade e verdade de Javé. 

7 comentários

Antonio Silvestre

Depois de tudo isso, vamos estudar teologia, rs!

Wilson Souza

Texto profundo que merece discussão por parte da igreja pentecostal.É uma pena que os teólogos pentecostais vivem sempre repetindo e repetindo e nunca se abrem as coisas novas. Aqui temos um autor ousado. Fiquemos atentos a ele, é um grande teólogo.

Daniel Gonçalves Ribeiro

Li em livros de hermenêutica bíblica que esse autor, Paul Ricoeur, é adepto do relativismo, como então pode ser útil a ortodoxia?

Gilberto Antunes Vieira

Artigo importante que inaugura uma nova fase da teologia pentecostal no Brasil, já que o autor diz que os textos do filósofo se constituem excelentes metodologias para a reflexão e projeto teológico de matiz pentecostal, uma vez que o movimento se fundamenta na experiência do indivíduo, no testemunho e na Escritura", Vamos ver como a comunidade pentecostal reage a essa provocação.

Juliana Dias

Parabéns pela iniciativa em abordar um autor tão profundo como Paul RIcoeur. É a primeira vez que vejo um artigo escrito por um pentecostal. Parabéns! Quero destacar a frase " Portanto, a teologia deve insistir na convicção do agir de Deus na história, inclusive no plano da facticidade, não abrindo mão do conceito de história",

Andre Cosme Lyra

Excelente e esclarecedor o texto, pastor Esdras. Estou lendo Mestres da suspeita, de Paul Ricoeur e espero lê-lo mais. Deus continue usado. Paz de Jesus.

Lucas Braga Medrado da Silva

Ótimo texto e esclarecedor.

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Perfil

Esdras Costa Bentho Teólogo, Bacharel e Licenciado em Teologia com especialização em Hermenêutica; graduado em Pedagogia (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Formação de Professores), e escritor. Atualmente concluindo o Mestrado em Teologia pela PUC, RJ, atua como professor na Faecad, RJ, trabalha como editor de Bíblias e revisor sênior para editoras cristãs.

É autor dos livros “A Família no Antigo Testamento – História e Sociologia” e “Hermenêutica Fácil e Descomplicada”, e co-autor de “Davi: As vitórias e derrotas de um homem de Deus”, todos títulos da CPAD.

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