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Pr. Douglas Baptista

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503 anos da Reforma Protestante e o legado da Sola Scriptura

Sab, 31/10/2020 por

 Na noite de 31 de outubro de 1517, o reformador alemão Martinho Lutero (1483- 1546) afixou na porta da igreja do castelo de Wittenberg 95 teses contra as indulgências da igreja medieval. As teses sacudiram o país alemão e em pouco menos de trinta dias já tinham chegado à Itália. Escritas em latim, às teses foram traduzidas para o alemão, holandês e espanhol. Cerca de quatro anos depois o Imperador Carlos V convocou sua primeira dieta imperial na cidade de Worms para entre outros assuntos colocar um fim na reforma deflagrada por Lutero.

Os trabalhos iniciaram em fevereiro e se estenderam até o mês de maio de 1521. No dia 18 de abril, uma quinta feira, Lutero foi conduzido ao local da assembleia que se encontrava lotada, o número dos que ocupavam as ante-salas, as janelas e as escadarias somavam 5 mil pessoas [1]. Na ocasião, o reformador foi instigado a retratar-se de seus escritos e sua resposta diante daquela multidão entrou para a história como uma declaração de convicção e fé nas Escrituras Sagradas:

“Minha consciência está atrelada à palavra de Deus. Enquanto não me tiverem convencido pelas Sagradas Escrituras, não posso nem quero retratar-me de coisa alguma, pois é perigoso agir contra a consciência” [2]

 

A partir desta declaração surgia o embrião de um dos relevantes princípios teológicos da Reforma: a “Sola Scriptura”. Para o reformador alemão, o sentido dessa expressão latina era literal, ou seja, somente a Escritura – e não a Escritura somada à tradição da Igreja – é a fonte de revelação cristã. Sua defesa era pela centralidade da palavra de Deus. Lutero não reconhecia nenhuma outra fonte como autoridade infalível de fé e conduta que não fosse as Escrituras [3].

 

Como resultado desta postura, no dia 26 de maio de 1521, um decreto imperial conhecido como Edito de Worms condenou o reformador por heresia, determinou a execução da bula papal com a excomunhão e ordenou a queima dos escritos e livros de Lutero. O edito também autorizava a prisão e o saque dos bens de todos quantos aderissem ou simpatizassem com as ideias do reformador. Contudo, mesmo diante de tal nefasto decreto, a reforma não pode ser contida.

 

Deste modo, em 1529, Carlos V voltou a convocar à Dieta Imperial, desta vez na cidade de Espira, com a intenção de ratificar o Edito de Worms e impor o catolicismo na Alemanha. A reunião transcorreu no período de 19 a 25 de abril daquele ano. Após intensos e calorosos debates em que os representantes do imperador e do papa desejavam suspender o direito à liberdade religiosa e restabelecer a religião católica no país, os líderes alemães indignaram-se e redigiram um documento de protesto. Ao total, seis príncipes assinaram e 14 cidades imperiais livres subscreveram a carta:

 

“Protestamos pelos que se acham presentes [...] que nós, por nós e pelo nosso povo, não concordamos de maneira alguma com o decreto proposto, nem aderimos ao mesmo em tudo que seja contrário a Deus, à Sua santa Palavra, ao nosso direito de consciência, à nossa salvação. [...] Por essa razão rejeitamos o jugo que nos é imposto. [4]

 

Percebe-se no “protesto” dos líderes o compromisso inegociável com a Palavra de Deus e não com a vontade do “Estado”. Os protestantes reivindicaram liberdade religiosa e liberdade de consciência e se recusaram em aceitar um decreto contrário as Escrituras Sagradas. Neste propósito não se importaram em oferecer a própria vida em sacrifício. Neste ato, novamente, a “Sola Scriptura” se faz presente como princípio do movimento da Reforma.

 

A partir deste episódio os adeptos e simpatizantes das ideias de Lutero receberam a alcunha de “protestantes”. Já o conceito de “protestantismo” surgiu no século XVI com o propósito de fundir uma série de eventos que contribuíram para a transformação da igreja cristã. Na verdade, após as 95 teses de Lutero, a igreja experimentou programas de reformas diversos e distintos em todo o mundo. Porém, foi a partir de Wittenberg que a teologia escolástica e o aristotelismo deram lugar a uma nova teologia com ênfase na Bíblia.

 

Contudo, os reformadores nem sempre estavam concordes em suas posições doutrinárias. Desde o começo aconteceram divergências quanto à necessidade de reformar este ou aquele ponto doutrinário. Evidente que estes fatos não são deméritos e nem colocam a reforma em descrédito. A reforma deve ser entendida como um movimento de transformação. Como se convencionou afirmar “sempre reformando”. E já no período clássico da reforma surgiu a “reforma radical” que desejava não apenas reformar, mas restaurar a igreja à sua pureza original.

 

Esta ênfase foi considerada uma “reforma da Reforma”, ou uma “correção da correção do catolicismo” [5]. Deste modo, no período da Reforma, confissões, credos e declarações de fé protestantes passaram a ser promulgadas. Estes documentos depois de aprovados passavam a ser a interpretação autorizada das Escrituras como norma de fé e prática deste ou daquele determinado segmento protestante.

 

Mercê destes fatos e seguindo o legado dos reformadores, as Assembleias de Deus no Brasil, em abril de 2017, aprovaram por unanimidade de seus Ministros a sua “Declaração de Fé”. O documento é constituído de 16 artigos de fé intitulado de “cremos” o que pode ser considerado como “credo menor” e a “Declaração de Fé” propriamente dita que contém 24 capítulos e que pode ser identificada como “credo maior”.

 

Uma das marcas, do credo das Assembleias de Deus no Brasil é o seu compromisso inegociável com o princípio de “Sola Scriptura”. Logo, no artigo de fé número um, o documento declara: “Cremos na inspiração divina verbal e plenária da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé e prática para a vida e o caráter cristão” [6].

 

Nota-se na leitura do credo assembleiano alguns termos preponderantes para a construção das Escrituras como o fundamento da fé pentecostal: inspiração, inerrância, infalibilidade, e exclusividade em termos de fé. Isso significa que a autoridade da Bíblia Sagrada é revelação divina autossuficiente e não deve ser relativizada e nem precisa de atualização (infelizmente teólogos liberais negam a suficiência bíblica).

 

Apesar disso, a Declaração de Fé das Assembleias de Deus indica que nossa conduta ética e moral reproduzida em nosso viver diário deve ser orientada pela autoridade revelada nas Escrituras Sagradas, isto é, não se pode fazer concessão alguma e nem mesmo ajustes que sejam contrários ou afrontem a Palavra de Deus. Esta sempre foi a postura original dos protestantes.

 

Diante disso, os verdadeiros cristãos conduzem suas ações pelo princípio da “Sola Scriptura”. Para estes, a sã doutrina, a ética e a moral cristã não podem ser relativizadas, modificadas ou vendidas e nem podem ser compradas. Neste entendimento, pseudos líderes “cristãos” e agremiações político-partidárias contrárias às convicções cristãs não recebem apoio e nem o voto do cristão compromissado com as Escrituras.

 

Todo (a) aquele (a) que preza pelas Escrituras Sagrada, assim como fizeram os primeiros protestantes, não se deixam seduzir pelos decretos ou vontade anti-cristãs do Estado e da sociedade corrompida, mas dizem não a desconstrução dos valores, tais como, a descriminalização do aborto, casamento homoafetivo, ideologia de gênero, marxismo cultural, liberação da maconha, ateísmo, laicismo e demais pautas “progressistas” e anticristãs, e ainda, repudiam pseudoscristãos que no afã das regalias do Estado anulam a cruz de Cristo.

 

Neste aniversário de 503 anos da Reforma Protestante, concito aos verdadeiros cristãos a defesa do princípio de “sola Scriptura”. Neste sentido, reafirmamos nosso compromisso de obediência as Escrituras como a única inerrante e infalível fonte escrita de revelação divina. Negamos que qualquer concílio, governo, ideologias ou indivíduo tenha autoridade superior a Bíblia sagrada. E por fim, ratificamos que o Espírito Santo não fala independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Palavra de Deus.

 

Pense Nisso!

Douglas Roberto de Almeida Baptista

 

Referências bibliográficas

[1] JUST, Gustav. Deus despertou Lutero. Porto Alegre: Concórdia, 2003. p. 77.

[2] SAUSSURE, A. de. Lutero o grande reformador. Rio de Janeiro: Vida, 2003. p. 73.

[3] LUTERO, Martinho. As 95 teses e a essência da Igreja. São Paulo: Vida, 2016, p. 126.

[4] D’AUBIGNÉ, M. História da Reforma do Século XVI. Genebra, 1846. Lv. 13, cap. 6. p. 964

[5] GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 254.

[6] SOARES, Esequias (Org). Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 21.

 

1 comentário

JOSE ORLANDO DA CONCEICAO

Meus parabéns, Pastor Douglas! Mais uma vez o senhor é usado por Deus em defesa da fé genuína. Nestes 503 anos da Reforma Protestante, com certeza muita coisa no mudou no mundo, inclusive a forma de pensar e agir das pessoas, porém nós, cristãos, não podemos seguir os ditames deste mundo, más da inerrante e infalível Palavra de Deus, que não muda pois é sempre atual. Que o senhor continue perseverando neste propósito de agradar Àquele que o capacita! Deus o abençoe sempre!

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Perfil

Douglas Baptista é pastor, líder da Assembleia de Deus de Missão do Distrito Federal, doutor em Teologia Sistemática, mestre em Teologia do Novo Testamento, pós-graduado em Docência do Ensino Superior e Bibliologia, e licenciado em Educação Religiosa e Filosofia; presidente da Sociedade Brasileira de Teologia Cristã Evangélica, do Conselho de Educação e Cultura da CGADB e da Ordem dos Capelães Evangélicos do Brasil; e segundo-vice-presidente da Convenção dos Ministros Evangélicos das ADs de Brasília e Goiás, além de diretor geral do Instituto Brasileiro de Teologia e Ciências Humanas.

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