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Pr. Douglas Baptista

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Cristo foi crucificado na Sexta-Feira!?

Ter, 14/04/2020 por

 

 

O credo dos apóstolos (Séc. II) tradicionalmente dividido em doze artigos declara que Cristo “padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu aos infernos, ressuscitou ao terceiro dia”. O credo Niceno, promulgado em 325 d.C., assevera que Cristo “por nossa salvação desceu e foi feito carne, e se fez homem, sofreu, e ressuscitou ao terceiro dia” (SOARES, 2013, p. 31-51). Os demais credos ecumênicos Niceno-Constantinopolitano (Séc IV) e Atanasiano ( Séc. V) ensinam a mesma coisa.

Ambos os credos acima citados fundamentam-se nas Escrituras, tanto nos Evangelhos como nos demais livros bíblicos com notável destaque nos escritos paulinos onde lemos o resumo dessa incontestável verdade, isto é, que Cristo “foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15.4).

Desde a compreensão desse evento messiânico, a Igreja não somente crê, mas também ensina que Cristo foi crucificado na sexta-feira às 9h da manhã (Mc 15.25), sendo sepultado na mesma sexta-feira pouco mais das 15h da tarde (Mc 15.34), tendo ressuscitado no domingo de manhã bem cedo (Mc 16.2).

A controvérsia teológica acerca desse ensino reside na dificuldade de muitos em equacionar o intervalo de dias entre o registro da morte de Cristo e de Sua ressurreição por ter Ele afirmado que ficaria “três dias e três noites no seio da terra” (Mt 12.40). Desse debate, surgem muitos questionamentos, tais como: 1) o sinal de Jonas servia para comprovação de sua Messianidade? 2) qual o dia da semana que Cristo realmente morreu? e, 3) os três dias e três noites a que Ele se referiu eram literais? Com o propósito de elucidar essas questões, apresentamos abaixo o entendimento da ortodoxia pentecostal:

 

1. O sinal do profeta Jonas

O sinal de Jonas enfatizado no texto de Mateus 12.38-42 é uma das sessões “duplas” desse Evangelho, uma vez que o assunto é repetido em Mateus 16.1-4. Nas duas citações os escribas e fariseus querem que Jesus lhes dê um sinal. Entretanto, eles não querem apenas mais um milagre, eles querem muito mais que isso:

 

Eles estão pedindo que Jesus prove a autenticidade de seu ministério, predizendo algum grande acontecimento não diferente do que fizeram os profetas do Antigo Testamento (1Sm 2.27-33; 1Rs 20.1-43; Isaías 7.10-25) [...] Jesus reprova os escribas e fariseus por pedirem que milagres específicos comprovem sua autenticidade... [porém] Jesus dá aos inimigos um sinal divino do seu Messiado, quando faz uma comparação da sua morte e ressurreição com o fato de Jonas ter estado no ventre do grande peixe por três dias e três noites (STRONSTAD, 2003, p. 85,86).

 

A diferença entre Cristo e Jonas está somente na ordem em que os eventos aconteceram. No caso de Jonas, sua “ressurreição” do ventre do grande peixe aconteceu antes do anúncio da mensagem de arrependimento aos Ninivitas, e, no caso de Cristo a pregação do Evangelho se deu antes de sua ressurreição dentre os mortos. No entanto, em ambos os casos, a “ressurreição” atestou o ministério deles (STRONSTAD, 2003, p. 86).

 

Corroborando com esse entendimento o “Comentário do Novo Testamento: Aplicação Pessoal” assevera que o “único sinal que eles teriam seria o do profeta Jonas [...] Da mesma maneira como Jonas esteve três dias e três noites no ventre de um grande peixe, também Jesus estaria três dias e três noites no seio da terra. E a ressurreição de Jesus provaria que Ele é o Messias” (RIBAS, 2009, vol. 1, p. 84). A prova cabal desse sinal está mais adiante explicada quando Cristo profetiza que os Ninivitas condenariam aquela geração no dia do juízo, pois os pagãos se converteram com a pregação de Jonas, mas os judeus se recusavam em ouvir a pregação de Jesus. E, a causa do juízo é enfatizada pelas palavras de Cristo: “E eis que está aqui quem é maior do que Jonas” (Mt 12.41).

 

2. Qual o dia da semana que Cristo realmente morreu?

            Para elucidar essa pergunta é necessário prestar total atenção nas informações fornecidas pelos evangelistas bíblicos. Nos evangelhos sinópticos temos a informação que Cristo foi crucificado no “dia da preparação”. Mateus registra que após a crucificação de Cristo as autoridades eclesiásticas foram até Pilatos para pedir uma guarda para o sepulcro: “E no dia seguinte, que é o dia depois da preparação reuniram-se os príncipes dos sacerdotes e os fariseus em casa de Pilatos (Mt 27.62).

Marcos afirma com detalhes aos seus leitores que, após a crucificação de Cristo, o senador José de Arimatéia foi reivindicar o corpo morto de Cristo ainda no “dia da preparação, isto é, a véspera do sábado” (Mc 15.42). Lucas destaca que o corpo de Cristo foi retirado da cruz antes que começasse o sábado “E era o dia da preparação, e amanhecia o sábado” (Lc 23.54). O evangelista João enfatiza o dia e a hora que Pilatos entregou Cristo para ser crucificado “E era a preparação da páscoa, e quase à hora sexta; e disse aos judeus: Eis aqui o vosso Rei” (João 19.14). Mercê dessas evidências bíblicas, não restam dúvidas que a crucificação de Cristo ocorreu no “dia da preparação”. Quanto o significado grego dessa expressão, assim explica o Dicionário VINE:

 

Parakeue denota "preparação", “equipamento". O dia no qual Jesus morreu é chamado de "O dia da preparação" (Mc 15.42); "O Dia da Preparação (e amanheceu o sábado)" (Lc 23.54); "a preparação da páscoa" (Jo 19.14); "a preparação" (Jo 19.31); "a preparação dos judeus" (Jo 19.42). O mesmo dia está em vista em Mt 27.62, onde os eventos registrados aconteceram no "dia depois da preparação". A referência seria ao sexto dia da semana (...) No grego moderno e no latim eclesiástico (como também na liturgia católica), parakeue é igual a sexta-feira (VINE, 2002, p. 89).

 

            Com essa conceituação pode-se claramente afirmar que Cristo foi crucificado na sexta-feira. Porém, alguns tentam burlar a frase preparação da páscoa” (Jo 19.14) afirmando ser algum dia de preparação para o sábado cerimonial e não necessariamente a sexta-feira. Em relação a essa teoria Champlin é categórico em afirmar “foi à preparação (sexta-feira) da semana da Páscoa, não um dia de 'preparação' para a Páscoa. Os outros Evangelhos mostram claramente que esta é a 'preparação' sob consideração. A crucificação foi numa sexta-feira, chamada 'preparação' literalmente no grego” (CHAMPLIN, 1995, vol 2, p. 610).

 

3. Como entender a expressão “três dias e três noites”?

Como já afirmado acima, em virtude da dificuldade de encontrar três dias e três noites entre à tarde de sexta-feira e a manhã de domingo, muitas pessoas defendem ideias de uma crucificação na quarta-feira ou na quinta-feira. E ainda, o conceito de dois tipos de sábados – o semanal (dia de descanso) e o cerimonial (festas litúrgicas). Porém, apesar do esforço de muitos em defender essas conjecturas, tais hipóteses não se sustentam. Acerca dessa controvérsia, o “Comentário Beacon” observa que:

 

Os judeus consideram as partes dos dias como sendo dias inteiros. Por esta razão podemos entender que não há nada de errado em considerar a sexta-feira, o sábado e o domingo como um intervalo de três dias e três noites. (EARLE, 2019, vol. 6, p. 96).

 

A mesma interpretação oferece o “Comentário Bíblico Pentecostal”, vejamos:

 

No cálculo judaico, mesmo parte de um dia era considerada um dia inteiro; assim Mateus computa o tempo que Jesus ficará no sepulcro por três dias, ainda que não fossem literalmente setenta e duas horas (STRONSTAD, 2003, p. 86).

 

E por fim, podemos também mencionar a explicação de Champlin:

 

A expressão três dias e três noites não significa literalmente três dias e três noites completos... Isso pode ser observado nas inúmeras citações extraídas do hebraico do grego e do latim em que tal expressão é usada nos dias antigos para significar parte de três dias e noites em que uma parte era usada para expressar a totalidade. A seguinte citação de Jerônimo ilustra essa ideia: “tenho abordado mais completamente o trecho sobre o profeta Jonas em meu comentário. Direi agora somente que isto deve ser explicado como modo de falar chamado ‘sinédoque’, quando uma porção representa a totalidade. Não significa que nosso senhor esteve três dias e três noites inteiras no sepulcro, mas sim, parte de sexta-feira, parte do domingo e todo dia de sábado, o que é apresentado como três dias”. (CHAMPLIN, 1995, vol. 1, p. 394).

 

            Diante do exposto, ratifica-se que a forma judaica de contar os dias difere de nossa cultura ocidental. E aquilo que Jerônimo chamava de “sinédoque” também é conhecido entre nós como “contagem inclusiva”. Esses termos significam a mesma coisa. Portanto, não é necessário retroceder a morte de Cristo para quarta ou quinta-feira com o pretexto de harmonizar o texto bíblico, basta observar a cultura judaica na definição do tempo.

 

Considerações Finais.

Mercê dos fatos conclui-se que Cristo foi crucificado na sexta-feira e ressuscitou no domingo, e que pelo contexto cultural de sua época permaneceu três dias e três noites no seio da terra. Finalizo lembrando a todos que, embora essa discussão seja relevante, não devemos perder de vista o sentido principal contido nesta passagem bíblica, ou seja, que Jesus apresentou um grande sinal não somente aquela geração, mas também para a nossa: a Sua própria morte e ressurreição. Esse evento realmente aconteceu testificando e autenticando a sua Messianidade. Foi após a ressurreição de Cristo que teve início a pregação do Evangelho entre os gentios e a revelação do mistério oculto: a igreja de Cristo (Ef. 5.32).

Douglas Roberto de Almeida Baptista

Pense Nisso!

 

Referências Bibliográficas

CHAMPLIN, Russel. O Novo Testamento Interpretado. São Paulo: Candeias, 1995, vol. 1,2.

EARLE, Ralph. Comentário Bíblico Beacon. Rio de Janeiro: CPAD, 2019, vol. 6.

RIBAS, Degmar (Trad.). Comentário do NT: Aplicação Pessoal. Rio: CPAD, 2009.

SOARES, Esequias. Credos e confissões de Fé. Recife: Beréia, 2013.

STRONSTAD, Roger (Ed.). Comentário Bíblico Pentecostal do NT. Rio: CPAD, 2003.

VINE, W. E (Ed.) Dicionário VINE. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.



 

1 comentário

Sérgio Luis

Amém,amém e amém.

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Perfil

Douglas Baptista é pastor, líder da Assembleia de Deus de Missão do Distrito Federal, doutor em Teologia Sistemática, mestre em Teologia do Novo Testamento, pós-graduado em Docência do Ensino Superior e Bibliologia, e licenciado em Educação Religiosa e Filosofia; presidente da Sociedade Brasileira de Teologia Cristã Evangélica, do Conselho de Educação e Cultura da CGADB e da Ordem dos Capelães Evangélicos do Brasil; e segundo-vice-presidente da Convenção dos Ministros Evangélicos das ADs de Brasília e Goiás, além de diretor geral do Instituto Brasileiro de Teologia e Ciências Humanas.

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