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Pr. Douglas Baptista

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A Reforma, a justificação pela fé e a mecânica da salvação

Qua, 25/10/2017 por

         A doutrina da justificação pela fé é considerada como a grande verdade que a Reforma Protestante restituiu à Igreja. Lutero vivia atormentado com o seguinte raciocínio: “Se Deus julga o homem de acordo com a sua estrita justiça, quem poderá ser salvo?”. Em sua cela no convento de Erfurt, o monge lutava contra os desejos de sua carne, confessava semanalmente os delitos cometidos, flagelava o corpo e jejuava até a exaustão em busca de paz. Em certa ocasião escreveu: “Eu era o homem mais miserável da terra. Dia e noite eram gritos e desespero, e ninguém podia ajudar-me”1. E, foi somente após compreender a expressão “o justo viverá pela fé” (Rm 1.17) que encontrou alívio para sua alma:

Ao entender a justificação não como transformação, mas como uma declaração judicial divina em nosso favor a partir tão somente da fé no sacrifício expiatório de Cristo na cruz do Calvário por nós, o fardo sobre as costas de Lutero finalmente caiu 2;

A doutrina da justificação pela fé ensina, em termos gerais, que o pecador é justificado (absolvido da condenação do pecado) unicamente pela fé na graça divina. Assevera que a salvação é dom gratuito e imerecido de Deus aos pecadores e que só pode ser recebida por meio da fé (Ef 2.8,9). Significa dizer que as obras humanas não podem salvar, mas apenas a fé em Cristo por meio da recepção da graça de Deus. Ao descrever a ação divina para nos justificar, os termos usados na Bíblia apontam para o contexto judicial e forense. Em outras palavras, Deus torna livres os pecadores condenados e os declara plenamente justos e isentos de toda culpa, mediante a fé na obra de Cristo na cruz. Quanto a esta verdade, o Novo Testamento jamais afirma que a justificação é “dia pistin” (“em troca da fé”), mas sempre “dia pisteos” (mediante a fé). Isto significa que a fé não é meritória, ou seja, a fé é o meio de se receber a justificação. Deste modo, a justificação pela fé está atrelada a graça divina:

A Bíblia deixa duas coisas bem claras. Em primeiro lugar, não é por causa de nenhuma boa obra de nossa parte. Realmente, “Cristo morreu debalde” se a justiça provém da obediência à Lei (Gl 2.21) [...] Em segundo lugar, no próprio âmago do Evangelho encontra-se a verdade de que a justificação tem sua origem na graça de Deus (Rm 3.24) e sua provisão no sangue que Cristo derramou na cruz (Rm 5.19), e nós a recebemos mediante a fé (Ef 2.8) 3.

Lutero ao receber a paz que vem mediante a fé escreveu: “Finalmente compreendi que a justiça de que fala o evangelho é aquela pela qual Deus, em sua graça, nos justifica. Imediatamente senti que renascia para uma nova vida” 4. Por ter sido fundamentada nas Escrituras, a justificação pela fé inevitavelmente conduziu a Reforma ao princípio de “sola scriptura” e seus desdobramentos como o “sola gratia” (somente a graça), o “sola fides” (somente a fé) e ainda o “sola Christus” (Somente Cristo). Todos estes princípios estão presentes na doutrina da justificação pela fé. Em consequência, Lutero afirmava que “a doutrina da justificação não é apenas mais uma doutrina; é o artigo fundamental da fé, pelo qual a igreja se firmará ou cairá e do qual depende toda a doutrina”5.

Contudo, o desenvolvimento desta doutrina culminou em divergências quanto a “mecânica da salvação”. Este termo cunhado por Silas Daniel indica que os reformadores eram concordes quanto à mensagem e o método da salvação, mas discordavam de temas doutrinários acerca da eleição, predestinação, livre-arbítrio, presciência e soberania de Deus. Ao dirimir tais diferenças, a posição pentecostal quanto à justificação pela fé e a mecânica da salvação pode ser observada nos artigos de fé 5, 6 e 7 do “cremos” (credo menor) das Assembleias de Deus que confessa crer:

Na pecaminosidade do homem, que o destituiu da glória de Deus e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo podem restaurá-lo a Deus (Rm 3.23; At 3.19). Na necessidade absoluta do novo nascimento pela graça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus para tornar o homem aceito no Reino dos Céus (Jo 3.3-8, Ef 2.8,9). No perdão dos pecados, na salvação plena e na justificação pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor (At 10.43; Rm 10.13; 3.24-26; Hb 7.25; 5.9)” 6

 

Estas verdades centrais presentes no “credo menor” são pormenorizadas na “Declaração de fé” (credo maior) da seguinte forma:

A salvação está disponível a todos os que creem [...] A predestinação genuinamente bíblica diz respeito apenas à salvação, sendo condicionada à fé em Cristo Jesus, estando relacionada à presciência de Deus [...] A graça de Deus é manifestada salvadoramente maravilhosa, perfeita; entretanto, não é irresistível [...] A fé antecede a regeneração [...] Foi Deus quem tomou a iniciativa na salvação [...] É por meio da graça que Deus capacita o ser humano para que ele responda com fé ao chamado do evangelho [...] os seres humanos, influenciados pela graça que habilita a livre escolha, são livres para escolher [...] Deus proveu a salvação para todas as pessoas, mas essa salvação aplica-se somente àquelas que creem [...] Nesse sentido, não há conflito entre a soberania de Deus e a liberdade humana” 7

 

Como é possível perceber no credo das Assembleias de Deus, a soteriologia (doutrina da salvação) é concorde com a doutrina da “justificação pela fé” e com a “mecânica da salvação” arminiana. De acordo com Silas Daniel, o ensino arminista, quanto ao assunto, pode ser resumido do seguinte modo:

Aquele que é salvo em Cristo não fez nada para ser salvo, pois sua salvação foi totalmente propiciada por Deus; ele apenas recebeu, passivamente, confiantemente e de mãos vazias, aquilo que de graça foi feito por Deus em seu favor, algo que ele não podia fazer por si mesmo. E ele só pode receber a salvação porque Deus, pela sua graça, ativou seu livre-arbítrio para as coisas espirituais, sua capacidade de responder positivamente ao chamado divino para ser salvo, a qual havia sido comprometida após a Queda. Tudo vem de Deus” 8

Fundamentado então nos princípios teológicos da Reforma, o credo das Assembleias de Deus ratifica a doutrina da justificação pela fé e reconhece que tudo procede de Deus, ou seja, a salvação por meio da fé e o livre-arbítrio para crer são dádivas divinas, contudo, o credo assembleiano exorta que embora a salvação seja oferecida gratuitamente a todos os homens, uma vez adquirida, deve ser zelada e confirmada.

 

Pense nisso!

          Douglas Roberto de Almeida Baptista

 

______________________

1SAUSSURE, A. de. Lutero: o grande reformador. São Paulo: Vida, 2003. p. 22.

2DANIEL, Silas. Arminianismo. A mecânica da Salvação. Rio de Janeiro: CPAD, 2017. p. 146.

3HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1996. p. 373.

4SAUSSURE, A. de. Lutero: o grande reformador. São Paulo: Vida, 2003. p. 25.

5OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo: Editora Vida, 2001. p. 399.

6 CGADB. Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 13.

7 CGADB. Declaração de Fé. Capítulo X. Sobre a Salvação. Rio de Janeiro: CPAD, p. 63-64.

8 DANIEL, Silas. Arminianismo. A mecânica da Salvação. Rio de Janeiro: CPAD, 2017. p. 18.

11 comentários

Pr. Marcelo

Excelente texto, que reafirma a salvação como uma fonte disponível a todos. Para matarem a sede, os homens precisam apenas beber - Jo 7.37. Cabe salientar que, apesar da abrangência universal da salvação, ela não é universalista. Correntes universalistas afirmam que todos serão salvos, inclusive o diabo. Tal doutrina é extremamente mentirosa, uma vez que o príncipe deste mundo já está condenado (Jo 16.1) e será lançado no lago de fogo e enxofre para sempre (Ap 20.10).

RUEBNS MONTEIRO

Amém. Mais um artigo que retrata este período tão importante da história do Cristianismo. Sola scriptura Sola fide Sola gratia Solo Christus Soli deo Gloria

BENEDITO

A SALVAÇÃO ESTÁ DISPONÍVEL A TODOS OS QUE CREREM E CONFESSAREM QUE JESUS É O SENHOR. DESDE O JARDIM DO ÉDEN, DEUS PERMITE QUE O SER HUMANO FAÇA SUAS PRÓPRIAS ESCOLHAS. ELE SEMPRE MOSTROU AO HOMEM O CAMINHO CERTO A SEGUIR, SEMPRE DISSE QUE A JORNADA NÃO SERIA FÁCIL, MAS QUE SE HOUVESSE PERSEVERANÇA HAVERIA SALVAÇÃO. O FAVOR IMERECIDO ESTÁ AO NOSSO ALCANCE, MAS NÃO BASTA ALCANÇÁ-LO É NECESSÁRIO LUTAR PARA PRESERVÁ-LO, POIS O REINO DOS CÉUS É CONQUISTADO A FORÇA. PARABÉNS

Rodolfo Céspedes

Mais uma excelente postagem Pr Douglas, pois vem num momento bastante oportuno no mês em que comemoramos os 100 anos da Reforma Protestante e traz esclarecimentos sobre um tema de suma importância a respeito da fé que nos justifica e nos possibilita a salvação por meio da fé em Jesus Cristo.

EMANUEL OLIVEIRA

Parabéns Pr Douglas pelo Post! A justificação pela fé, a soteriologia e os fundamentos da Reforma(solas) estão alicerçadas nas escrituras. O ato expiatório de Cristo nos garante a salvação, que foi nos dada pela Graça, não são as indulgências, nem o positivismo, teologia da prosperidade e nem as coisas terrenas podem nos prover a salvação.Somos bem aventurados por participar destes 500 anos da reforma e somos desafiados a manter viva a visão dos princípios defendidos pelos refor

Simone Viana

Com base no texto é importante que façamos uma reflexão quando entendemos a razão pelo qual o reformador Martinho Lutero buscava expressar por suas ações àqueles que já se encontravam enfermos no pecado entenderem que a justiça de Deus revelada por meio do evangelho é uma justiça passiva com a qual Deus pela sua misericórdia nos justifica mediante a fé.

Orlando Lima Santos

Parabéns pastor Douglas por mais um artigo, que tomamos como base a nossa declaração de fé das AD do Brasil, quando Martinho Lutero em meio as suas ações, expressou de forma clara a doutrina da justificação pela fé que por intermédio do evangelho de Cristo é necessário que o homem reconheça que a sua justificação perante Deus não será apenas pelo seu mérito e (ou) obras praticadas, mas sim mediante a sua fé em Cristo Jesus.

RUBILAR DAVILA DIAS

Louvado seja Deus por sua vida Pr Douglas, vivemos dias difíceis, em muitas vezes a soberbados e com nosso tempo insuficiente para fazer boas leituras. Neste contexto seus artigos tem sido muito oportunos e recheados de conteúdos que nos ajudam e massificar o que cremos, e a não sermos engodados por falsos ensinamentos, humanos, dissimulados em inspiração de Deus. Que o Senhor continue cada dia mais lhe dando sabedoria e entendimento, para nos brindar cada vez mais com artigos como esse.

Carlos Matheus

Parabéns por mais um ótimo artigo Pr. Douglas Baptista. Assim como verberado, a salvação nos é garantida por intermédio da graça salvífica de Cristo, mediante a nossa fé. O determinismo, que exalta que tudo já foi determinado por Deus - uns para salvação e outros para a morte eterna -, é antibíblica e antilógica, pois o Deus, Todo-Poderoso, garante a cada um de nós a liberdade e a liberalidade de crer ou não crer. Assim nossa Justificação, tão cara a Cristo, deve ser "zelada

Carlos Junior

A justiça de Deus imputada ao pecador é um marco no movimento da reforma. Nenhuma obra humana pode justificar o perdido. A graça de Deus manifesta em Cristo Jesus é suficiente. O texto deste artigo muito esclarece acerca das controvérsias que se seguiram ao movimento reformista, sobretudo no campo da soteriologia. Elas, no entanto, não ofuscam o mérito do resgate da genuína mensagem da salvação. Nossa geração é privilegiada por celebrar essa data comemorativa. Parabéns pelo excel

Daniele Amorim Fernandes

Amém! Devemos ser gratos e reconhecedores da graça divina de Deus! Não mereciamos, mas ele nos alcançou e de nós mesmo jamais conseguiriamos! "Embora a salvação seja oferecida gratuitamente a todos os homens, uma vez adquirida, deve ser zelada e confirmada." Amém! Que possamos zelar a cada dia mais pela nossa salvação! Que Deus continue abençoando Pastor Douglas e o usando na palavra e o capacitando cada vez mais!

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Perfil

Douglas Baptista é pastor, líder da Assembleia de Deus de Missão do Distrito Federal, doutor em Teologia Sistemática, mestre em Teologia do Novo Testamento, pós-graduado em Docência do Ensino Superior e Bibliologia, e licenciado em Educação Religiosa e Filosofia; presidente da Sociedade Brasileira de Teologia Cristã Evangélica, do Conselho de Educação e Cultura da CGADB e da Ordem dos Capelães Evangélicos do Brasil; e segundo-vice-presidente da Convenção dos Ministros Evangélicos das ADs de Brasília e Goiás, além de diretor geral do Instituto Brasileiro de Teologia e Ciências Humanas.

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