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Pr. Douglas Baptista

Pr. Douglas Baptista

A Reforma Protestante e a Declaração de Fé das Assembleias de Deus

Qui, 05/10/2017 por

 

Na noite de 31 de outubro de 1517, o reformador alemão Martinho Lutero (1483- 1546) afixou na porta da igreja do castelo de Wittenberg 95 teses contra as indulgências da igreja medieval. As teses sacudiram o país alemão e em pouco menos de trinta dias já tinham chegado à Itália. Escritas em latim, às teses foram traduzidas para o alemão, holandês e espanhol. Cerca de quatro anos depois o Imperador Carlos V convocou sua primeira dieta imperial na cidade de Worms para entre outros assuntos colocar um fim na reforma deflagrada por Lutero. Os trabalhos iniciaram em fevereiro e se estenderam até o mês de maio de 1521. No dia 18 de abril, uma quinta feira, Lutero foi conduzido ao local da assembleia que se encontrava lotada, o número dos que ocupavam as ante-salas, as janelas e as escadarias somavam 5 mil pessoas [1]. Na ocasião, o reformador foi instigado a retratar-se de seus escritos e sua resposta diante daquela multidão entrou para a história como uma declaração de convicção e fé nas Escrituras Sagradas:

 

“Minha consciência está atrelada à palavra de Deus. Enquanto não me tiverem convencido pelas Sagradas Escrituras, não posso nem quero retratar-me de coisa alguma, pois é perigoso agir contra a consciência” [2]

 

Como resultado de sua postura, no dia 26 de maio de 1521, um decreto imperial conhecido como Edito de Worms condenou o reformador por heresia, determinou a execução da bula papal com a excomunhão e ordenou a queima dos escritos e livros de Lutero. O edito também autorizava a prisão e o saque dos bens de todos quantos aderissem ou simpatizassem com as ideias do reformador. Mesmo diante de tal nefasto decreto, a reforma não pode ser contida. Desse modo, em 1529, Carlos V voltou a convocar à Dieta Imperial, desta vez na cidade de Espira, com a intenção de combater a reforma, ratificar o Edito de Worms e impor o catolicismo na Alemanha. A reunião transcorreu no período de 19 a 25 de abril daquele ano. Após intensos e calorosos debates em que os representantes do imperador e do papa desejavam suspender o direito a liberdade religiosa e restabelecer a religião católica no país, os líderes alemães indignaram-se e redigiram um documento de protesto. Ao total, seis príncipes assinaram e 14 cidades imperiais livres subscreveram a carta:

 

“Protestamos pelos que se acham presentes [...] que nós, por nós e pelo nosso povo, não concordamos de maneira alguma com o decreto proposto, nem aderimos ao mesmo em tudo que seja contrário a Deus, à Sua santa Palavra, ao nosso direito de consciência, à nossa salvação. [...] Por essa razão rejeitamos o jugo que nos é imposto. [...] Ao mesmo tempo estamos na expectativa de que Sua Majestade imperial procederá em relação a nós como príncipe cristão que ama a Deus acima de todas as coisas; e declaramo-nos prontos a tributar-lhe, bem como a vós, graciosos fidalgos, toda a afeição e obediência que sejam nosso dever justo e legítimo” [3]

 

            A partir deste episódio histórico os adeptos e simpatizantes das ideias de Lutero com a consequente reforma da igreja receberam a alcunha de “protestantes”. Já o conceito de “protestantismo” surgiu no século XVI com o propósito de fundir uma série de eventos que contribuíram para a transformação da igreja cristã. Na verdade, após as 95 teses de Lutero, a igreja experimentou programas de reformas diversos e distintos em todo o mundo. Porém, foi a partir de Wittenberg que a teologia escolástica e o aristotelismo deram lugar a uma nova teologia com ênfase na Bíblia. O lema adotado por Lutero “renovar e não inovar” passou a ser um padrão para o protestantismo onde o movimento se instalava. Como resultado dessas transformações surgiram uma variedade de ramificações e denominações cristãs e cada qual adotou um modelo de reforma para ser seguido.

            Em decorrência, os reformadores nem sempre estavam concordes em suas posições doutrinárias. Desde o começo aconteceram divergências quanto à necessidade de reformar este ou aquele ponto doutrinário. Evidente que estes fatos não são deméritos e nem colocam a reforma em descrédito. A reforma deve ser entendida como um movimento de transformação. Como se convencionou afirmar “sempre reformando”. E já no período clássico da reforma surgiu a “reforma radical” que desejava não apenas reformar, mas restaurar a igreja à sua pureza original. Essa ênfase foi considerada uma “reforma da Reforma”, ou uma “correção da correção do catolicismo” [4]. Deste modo, no período da Reforma, confissões, credos e declarações de fé protestantes passaram a ser promulgadas. Estes documentos depois de aprovados passavam a ser a interpretação autorizada das Escrituras como norma de fé e prática deste ou daquele determinado segmento protestante.

            Assim, as confissões de fé tornaram-se marcas da Reforma Protestante, dentre elas, destacam-se a Confissão de Augsburgo (Lutero), elaborada por Filipe Melânchton em 1530; as Confissões Helvéticas (Zuínglio), a primeira em 1534, e a segunda em 1566, sendo esta preparada por Heinrich Bullinger; a Confissão de Fé Gaulesa (João Calvino), elaborada em 1559; a Confissão de Fé Escocesa (John Knox), preparada em 1560; a Confissão Belga (Guido de Brés), elaborada 1561; o Catecismo de Heidelberg (Ursino e Oleviano) em 1567; a Confissão de Fé da Igreja Anglicana (Matthew Parker) escrita em 1552 e revisada em 1563; a Remonstrância (Armínio), escrita em 1610 e que culminou com a Confissão Arminiana em 1621, elaborada por Simão Episcópio. E por fim, a última delas no período da Reforma, a Confissão de Fé de Westminster (Britânica), produzida entre 1643 e 1647.

            Mercê destes fatos e seguindo o legado dos reformadores, as Assembleias de Deus no Brasil, no ano de aniversário de 500 anos da Reforma Protestante e no período pós-centenário do pentecostalismo assembleiano, por ocasião da 42ª Assembleia Geral Ordinária da CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil), em abril de 2017, aprovou por unanimidade de seus Ministros a sua “Declaração de Fé”. O documento é constituído de 16 artigos de fé intitulado de “cremos” o que pode ser considerado como “credo menor” e a “Declaração de Fé” propriamente dita que contém 24 capítulos e que pode ser identificada como “credo maior”. O documento ressalta a marca pentecostal das Assembleias de Deus enquanto desponta como a maior denominação religiosa protestante do país. No entanto, a primordial finalidade da “Declaração de Fé” das Assembleias de Deus é usar o documento como proteção contra os modismos e as falsas doutrinas, contribuir para a unidade do pensamento teológico e ortodoxia cristã para “que digais todos uma mesma coisa” (1 Co 1.10) e, de modo especial, fazer com que tudo culmine para a Glória de Deus (Soli Deo Gloria).

 Douglas Roberto de Almeida Baptista

Pense nisso!

 

Referências bibliográficas

[1] JUST, Gustav. Deus despertou Lutero. Porto Alegre: Concórdia, 2003. p. 77.

[2] SAUSSURE, A. de. Lutero o grande reformador. Rio de Janeiro: Vida, 2003. p. 73.

[3] D’AUBIGNÉ, M. História da Reforma do Século XVI. Genebra, 1846. Lv. 13, cap. 6. p. 964

[4] GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 254.

 

 

21 comentários

Ana Claudia Silva dos San

É maravilhoso vermos quantos fatos ocorreram para que estivéssemos vivendo esse momento como igreja na atualidade. Quantos homens destemidos se despuseram, creram, e lutaram totalmente convictos da sua Fé, Lutero é um grande exemplo para as nossas vidas, um grande apologeta, que nos deixou um grande legado. É louvável a iniciativa das Assembleias de Deus em ter sua Declaração de Fé aprovada seguindo o legado dos reformadores, o que já serve como proteção ao modismo.

Priscila Chagas Verçosa

Excelente texto, pastor Douglas! De forma simples e completa, mostrou-nos a história da Reforma Protestante e as consequências desta para a Igreja pós-reforma. a partir do questionamento de um homem, que pretendeu reformar (e não inovar), outros começaram a se preocupar com aquilo que se cria e pregava, chegando até a nossa igreja, a Assembleia de Deus,que este ano aprovou a Declaração de Fé, cujo objetivo é promover a unidade doutrinária e combater as heresias que surgem atualmente.

Luciana Karla de Freitas

Diante dos desafios para alcance dessa geração, é notória a descrença e a total falta de convicção de muitos cristãos, que muitas vezes não conhecem ou simplesmente ignoram os princípios da fé que professam. Essa apatia espiritual, envergonha e enfraquece. Os Credos (submissos às Escrituras) são importantes pois expressam os sólidos fundamentos da Doutrina Cristã. Conhecê- los é dever de todo aquele que se considera cristão. Conhecer e ter convicção daquilo que se crê é que

Rogério

Diante de tantas heresias e invenções que temos visto no meio evangélico a Declaração de Fé de uma igreja é um meio eficaz para ela se manter neutra a tudo isso. Vale ressaltar que por mais que uma igreja tenha a sua Declaração de Fé baseada na Bíblia o esforço para se coloca-la em prática deverá ser de todos (lideranças, obreiros e membros), todos remando na mesma direção, atentos contra as inovações e modismos, descartando tudo aquilo que não é do Espírito, resultando nu

Rogério

Diante de tantas heresias e invenções que temos visto no meio evangélico a Declaração de Fé de uma igreja é um meio eficaz para ela se manter neutra a tudo isso. Vale ressaltar que por mais que uma igreja tenha a sua Declaração de Fé baseada na Bíblia o esforço para se coloca-la em prática deverá ser de todos (lideranças, obreiros e membros), todos remando na mesma direção, atentos contra as inovações e modismos, descartando tudo aquilo que não é do Espírito, resultando nu

LUCIMEIRE L. G. RODRIGUES

A SOCIEDADE MEDIEVAL ESTAVA MERGULHADA NAS TREVAS, ATÉ QUE DEUS LEVANTOU LUTERO PARA MOSTRAR O CAMINHO PARA A LUZ. DESDE ENTÃO MUITOS OUTROS TEM SIDO USADOS POR DEUS, PARA CONFIRMAR QUE A PALAVRA DE DEUS NUNCA PERDE SUA EFICÁCIA (MATEUS 24,35). NA ATUALIDADE, A DECLARAÇÃO DE FÉ DA ASSEMBLEIA DE DEUS, FUNDAMENTADA NAS ESCRITURAS, RATIFICA A IDEOLOGIA DE LUTERO, QUE SOMENTE AS ESCRITURAS SÃO AUTORIDADE DE FÉ E PRÁTICA DO CRENTE SALVO.

Marco Aurélio Martins Ne

O pastor mostra no artigo dois fatos de extrema importância, um passado, que nos deu a oportunidade de, como "leigos", conhecermos a palavra de Deus e o outro presente, que deveria, acho eu, ser adotado por todas as denominações, a declaração de fé, deve ser servir entre outras coisas, de proteção contra o relativismo e o pragmatismo tão em moda nos nossos dias.

CÉSAR PEREIRA PISSOLATI

Lutero e demais reformadores trouxeram de volta o que se havia perdido na Igreja: a importância da soteriologia, bem como a correta interpretação das Escrituras Sagradas. Neste ano que completa 500 anos da Reforma, a Igreja Assembleia de Deus aprova sua “Declaração de fé”. Uma excelente iniciativa de seus líderes, que ao registrar a teologia ortodoxa da religião cristã em seu credo, promove a unidade e protege a igreja das falsas doutrinas e dos modismos. Parabéns Pr. Douglas!

CARLOS ARAUJO

O legado de Martinho Lutero para a fé cristã está estampado como marca indelével na história da igreja cristã. O desafio da presente geração é atentar para os princípios defendidos pelos reformadores. A igreja contemporânea está envolta em misticismo, modernas indulgências, paternalismo e imperialismo. Feudos são erguidos sob o estandarte da fé, onde o norte é manter a todo custo o "status quo". Urge o erguer de vozes a romper com o conformismo e o mundanismo. Deus venha nos rest

Josafá Maia

Em outras épocas e também nesta, nós cristãos somos convocados a expressar nossa fé, e nesse contexto cheio de heresias e de distorções dessa fé genuína, faz-se necessário declarar de forma expressa no que cremos para que a Igreja não fique a mercê de quaisquer doutrinas. Matinho Lutero, juntamente com Zwínglio, Calvino e outros reformadores, insatisfeitos com as inúmeras heresias dentro da Igreja, promoveram vários atos em defesa da fé que professavam, questionando a atuação

Simone

A Reforma Protestante foi um movimento de suma importância para os cristãos. E a declaração de Fé das Assembleias de Deus é um instrumento de grande valor é como um canal facilitador aos nossos irmãos que tem objetivo de facilitar o conhecimento da Palavra de Deus e contribuir na preparação de Fé para os novos integrantes da Igreja. " A Bíblia revela a verdade em forma popular de vida e fato;o Credo declara uma forma lógica de doutrina"

BENEDITO ROGÉRIO DA S. R

Conforme o que foi exposto pelo Pr. Douglas, vimos que ao longo da história, homens levantados por Deus, enfrentaram todo tipo de aflição pela restauração da essência do evangelho. A reforma protestante e os demais movimentos que iniciaram na Europa, prosseguiram nos Estados Unidos e se espalharam pelo mundo influenciaram a educação, a cultura, a economia e outros setores da sociedade, deixando um legado de bênçãos para o mundo e a igreja hodiernos.

Orlando Lima Santos

O artigo em questão nos leva refletir as transformações ocorridas no século passado quando ramificações cristãs adotaram cada uma um modelo de reforma. Não devemos ficar alienados às imposições disfarçadas de verdade estabelecidas de forma indireta pela mídia, as quais entram em nossos lares, igrejas, estabelecimentos de ensino, etc. Portanto devemos seguir uma vida pautada nas verdades divinas por meio de uma regra de fé de forma a não cometermos os mesmos erros doutrinários.

Luan Pirajá

Em 2017 completamos 500 anos da reforma protestante que se deu inicio em 1517 com Martin Lutero. Martin Lutero e seus antecessores ajudaram muito a igreja e fizeram ela voltar a pratica da Leitura biblica e seguir somente o que nela há( sola scriptura). Pois bem, em 2017 a Assembléia de Deus entra para a história colocando em publicação e normatização a sua declaração de fé. Aos mesmos moldes da reforma, o intuito é a busca de normatizar o pensamento da igreja conforme escrito na Bíb

Emanuel Oliveira

Precisamos reafirmar esta convicção na Palavra de Deus para não sermos levados por doutrinas de demônios(1Tm 4.1). A BÍBLIA NÃO É ANTIGA NEM MODERNA ELA É ETERNA! cf. Martinho Lutero

Emanuel Oliveira

Parabéns pela postagem Pr Douglas!Podemos ver que a igreja hodierna tem se afastado da verdadeira mensagem baseada nas escrituras.Há muita teologia da prosperidade, macumba gospel, simpatia gospel, confissão positiva e outras meninices.A Reforma que teve como principal pressuposto a declaração de convicção de Fé somente nas Escrituras, ou seja nada que não passasse pelo crivo da Bíblia poderia ser considerado,crido, ensinado ou professado.

Rodolfo Céspedes

Todos os reformadores deixaram seu legado na História do Cristianismo, muitos foram precursores para a reforma protestante iniciadas com as 95 teses de Martinho Lutero ocorresse, todos tiveram grande importância e nos fazem reavaliar nossas posturas em relação as coisas que vem ocorrendo contrárias a Palavra de Deus. Essas informações trazidas aqui nos faz conhecer um pouco da história e sem dúvidas nos ajuda a repensar, corrigir e combater algumas posturas que vem sendo tomadas por mu

Valmar Queiroz

Importância para a religião protestante. Estes credos trataram e tratam de assuntos que a igreja deve atentar para não desviar-se do verdadeiro caminho, o da retidão. Não podemos desconsiderar que o erro encontra-se disfarçado de verdade ou de meia-verdade. Os credos funcionam como vacinas que imunizam a igreja de doutrinas espúrias e de perigosos e astutos modismos.

Valmar Queiroz

O estudo permanente das doutrinas cristãs, acompanhado de uma vida santificada pela presença do Espírito Santo na vida dos obreiros, da oração,e, depois de tudo isso, da prática destas mesmas disciplinas demonstrando amor pelas almas deveria ser o cerne da conduta dos líderes cristãos durante todas as épocas. Porém, nem sempre tais líderes agem conforme acima descrito. Erros doutrinários, modismos, heresias, etc, fazem parte da história da igreja. Daí a importância dos credos para

LUCAS MENDES SANTIAGO

A reforma protestante é um marco para os cristãos. Em 1517 não ocorreu uma reforma do Cristianismo, mas a reforma da igreja que havia se afastado das Sagradas Escrituras. Neste contexto, os credos são muito importantes, como uma regra de fé para a religião protestante. Porque eles são elaborações científicas daquilo que os cristãos creem e confessam. É uma referência para se evitar as inovações e as falsas doutrinas. Parabéns Pr. Douglas por mais esse excelente artigo.

Jasson Guedes dos Anjos

A Declaração de Fé da Assembleia de Deus, realmente vem em momento oportuno, visto que inúmeras heresias e modismos estão adentrando com velocidade na nossa querida igreja. Alguns por simples ignorância, outros - infelizmente - por oportunismo, fazem e desfazem "inovações", ensinam por "achismos". Cabe agora às nossas lideranças zelar pelo povo de Deus, guardando a sã doutrina. Que Deus nos guarde e abençoe!

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Perfil

Douglas Baptista é pastor, líder da Assembleia de Deus de Missão do Distrito Federal, doutor em Teologia Sistemática, mestre em Teologia do Novo Testamento, pós-graduado em Docência do Ensino Superior e Bibliologia, e licenciado em Educação Religiosa e Filosofia; presidente da Sociedade Brasileira de Teologia Cristã Evangélica, do Conselho de Educação e Cultura da CGADB e da Ordem dos Capelães Evangélicos do Brasil; e segundo-vice-presidente da Convenção dos Ministros Evangélicos das ADs de Brasília e Goiás, além de diretor geral do Instituto Brasileiro de Teologia e Ciências Humanas.

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