Colunistas

Pr. Claudionor

Pr. Claudionor

O Teólogo e as Boas Obras

Sab, 10/10/2020 por Claudionor de Andrade

   Que teólogo não gosta de um gabinete confortável? Uma sala soberbamente recoberta de títulos, diplomas, loas acadêmicas e, forrando as paredes, muitos livros antigos e alguns cheios de peçonhas pós-modernas. No conforto do ar condicionado, especulamos, devaneamos e, mui raramente, meditamos na Palavra de Deus. Entretemo-nos com nós mesmos. Adoramo-nos. Idolatramo-nos. E, fatalmente, eis-nos deuses. 

   Além dessas olimpianas fronteiras, contudo, há um mundo real, onde campeiam a dor, a aflição, a desesperança e a própria morte.

   É neste mundo realístico e cru, querido obreiro, que o Senhor Jesus nos intima a fazer teologia. Nesta seara de angústia e pesares, seremos provados de todas as formas, sem formalidade alguma; em todas as instâncias, você e eu seremos implacavelmente provados. Por essa razão, enviou o Mestre Divino os seus discípulos a evangelizar de dois em dois; assim, puderam os nazarenos resistir às provas e as provanças, que o semeador enfrenta em suas idas e vindas, quer na cidade quer no campo. 

   No mundo real, temos de jungir fé e boas obras. Se o fizermos, o Pai Celeste será glorificado, em nosso labor teológico. Logo, não as encaremos de forma dialética e contraditória, como se fossem mutuamente destrutivas. Entre ambas, não há dualismo algum; nelas, impera uma dicotomia perfeitíssima, como pondera Tiago: “Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma. Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” (Tg 2:17,18).

   Ao deixar o aconchego do gabinete, o teólogo mui rapidamente conscientiza-se de que não passa de um simplório e mísero filho de Adão e Eva. Nessa condição, terá de fazer a teologia do cotidiano. O dia a dia é traumático; nivela a todos na dor, nas afeições e no consolo. 

   Nas instâncias de um assalto, ou de um atropelamento, o laureado teólogo falará de Cristo a homens e a mulheres, que, em nada, o estimularão intelectualmente. Misturar-se-á, numa fila de banco, a clientes revoltados, que jamais se preocuparão com as diferenças entre arminianos e calvinistas. E, nesse burburinho todo, a única coisa que logrará dizer, a um idoso desesperançado, será: “Jesus o ama”. Mas, ao dizê-lo, fará a mais alta, sublime e bela teologia, pois o que ganha almas sábio é (Pv 11:30).

   Na sala de espera de uma emergência hospitalar, onde o socorro nem sempre é pronto, tamanha a legião de enfermos e feridos, ver-se-á constrangido a esquecer a própria dor, a fim de suavizar incômodos alheios, com a mensagem de Jesus Cristo, o Médico dos médicos. Sabe ele que, nessas horas, não deverá receitar nem o supralapsarianismo nem o infralapsarianismo. Tais remédios são inúteis nesses momentos; placebos de nossas altercações. Então, recorre ao maior doador de sangue de todos os tempos – Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus. Doador universal, somente o seu sangue purifica a todos de todos os pecados (1 Jo 1:7).   

   E, caso esteja numa lanchonete, a saborear uma deliciosa refeição, num momento que é exclusivamente seu, poderá ser abordado por um faminto, rogando-lhe uma migalha de sua atenção. Contrariado, você olha para o sanduíche, já pela metade, e o para o pedinte, ainda inteiro à sua frente. O que fazer? Multiplicar o pão? Ou dividir o tempo com aquele Lázaro fora de hora. Nesses improvisos, que teologia buscar? A dos “pais” da Igreja? Nessas reais provações e angústias, somente o Pai Celeste poderá assistir-nos.

   A verdadeira teologia é impossível sem as boas obras. Não me refiro à Apologia de Tertuliano, às Confissões de Agostinho ou à Teologia Sistemática de Stanley Horton. Todos esses livros são possíveis numa loja física ou, virtualmente, adquiridos. As boas obras, a que a Bíblia Sagrada se refere, têm de ser cultivadas fora dos gabinetes e mui distante das cátedras. Não foi o que fez o Semeador do Evangelho? 

   Ao anunciar as Boas Novas, fez teologia entre as pedras, em meio aos espinhos, junto as aves e frente aos homens maus. Só na última etapa de seu labor, veio a encontrar boa terra; abundante foi-lhe a sementeira.

   Querido obreiro, é claro que não fomos salvos pelas boas obras. Mas não ignoremos este artigo de fé tão basilar: Jesus, em sua imerecida graça, ao salvar-nos, instigou-nos à prática das obras boas, redentoras e meritórias; realizadas pela fé, em seu nome, jamais deixarão de glorificar a Deus e ceifar milhões de almas (Ef 2:10; Tg 2:14-18). Que o teólogo, então, jamais se esqueça das obrigações comuns a todos os crentes: participar dos santos cultos, ser aluno da Escola Dominical, sustentar a Obra do Mestre com os seus dízimos e ofertas, orar por seu pastor e manter a comunhão dos santos. Sem as boas obras, de que vale a teologia? 

   O teólogo não é um anjo; é apenas um homem de Deus e, como tal, não pode ignorar suas fraquezas, nem descumprir suas obrigações. Entremos, pois, em nosso gabinete. Imploremos a presença de Deus. Choremos todas as lágrimas. Derramando-as aos pés de Jesus, não deixaremos de ser consolados.     

4 comentários

Sousa

Paz do Senhor, Pr Claudionor! Sábias e corajosas palavras! Que possamos acolher todo o conselho de Deus e não apenas os textos que nos soem mais "fáceis". O Paulo que escreveu Romanos é o mesmo que escreveu Tito, sob a inspiração do Espírito Santo, que, sendo Deus, não pode mentir e nem se contradizer... Que Deus tenha misericórdia de nós e nos ajude a ser praticantes da Palavra e não apenas ouvintes, e ouvintes "seletivos". Parabéns! Que Deus continue a lhe conceder ciência e coragem!

Reginaldo Conceição do Nascimento

Oh glória!!que maravilha PR Claudionor de Andrade com sua humildade ao se expressar nos deixa sempre uma mensagem de vida

Sérgio Luís

A paz do Senhor, meu pastor. " teologia do cotidiano" Lc. 12:24-28. O Mestre nos instrui à olhar em volta e aprender. Se aprendermos,poderemos ensinar. Prá glória d'ELE. Amém. Deuso abençoe.

joanmoraesdossantos moraes

GRAÇA E PAZ EIS O DISAFIO NA O AGUI AGORA

Deixe seu comentário







Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

COLUNISTAS