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Pr. Claudionor

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O EVANGELHO FANTASMA

Ter, 01/10/2019 por Claudionor de Andrade

Logo que comecei a estudar teologia, deparei-me com vários mestres e doutores a enaltecer um tal documento “Q”. E, com base nessa obra, punham-se eles a questionar, insolentemente, os evangelhos de Mateus e de Lucas. Sempre que esses senhores discordavam (e isso acontecia sempre) de uma narrativa ou proposição mateana ou lucana, apresentavam eles o “infalível” documento como prova de suas ousadas asseverações. Tinha-se a impressão de que aqueles ilustrados lentes dispunham de uma fonte inexaurível, para arruinar a canonicidade não somente das já citadas Escrituras como também de todo o Novo Testamento.

Sem dúvida, haviam eles descoberto a pedra de toque para aferir não apenas o Novo, mas igualmente o Testamento Antigo. Enfim, o documento “Q” era o grande achado da hermenêutica sagrada; sem ele, nenhuma exegese seria possível. Mais adiante, querido leitor, vou explicar-lhe o que vem a ser essa obra. Por enquanto, narrar-lhe-ei minha saga em busca dessa “preciosidade”.

 Ansioso por folhear o referido texto, pus-me a correr e a percorrer os catálogos das editoras; primeiro, as cristãs; em seguida, as seculares. Em nenhuma delas, porém, encontrei essa maravilha editorial. Fui, então, aos sebos. Revirei pilhas de livros. Cobri-me de pó e de cinza. Tossi entre aqueles volumes, antes novos e requisitados, mas agora jogados aqui e, ali, amontoados. A tal raridade, contudo, não achei. Não digo que era como procurar uma agulha num imenso palheiro; era pior: estava eu a resmar uma folha anônima, sem numeração ou código de barras, entre montanhas de outros papéis sem feições ou identidade.

Já desanimado, fui conversar com um livreiro velho e experimentado em selecionar, cerzir e dispor, em cada prateleira e balcão, os livros que, antes mesmo de nossa aposentadoria, aposentamos. Tentei descrever-lhe a obra. Usei todos os títulos possíveis, a fim de facilitar-lhe a busca: documento “Q”, evangelho “Q”, hipótese “Q” e prova “Q”. O que mais eu poderia acrescentar-lhe?

O pobre ancião, já um tanto impaciente, garantiu-me que semelhante obra jamais transitara por sua loja. E, como bom conhecedor de seu ramo, acrescentou que, em nenhum outro sebo, iria eu encontrar essa “pérola de inestimável valor”. Demonstrando boa vontade, procurou num catálogo mais exaustivo. Nada. Nesse momento, um tanto assustado, vi-me no encalço do graal da hermenêutica sacra.

Lembrei-me, antes de sair do estabelecimento, que os estudiosos que mais citam o tal documento são os alemães. Roguei-lhe, então, que fosse aos livros estrangeiros, a fim de ver se, na imensa pilha de livros germânicos, encontrasse algum título que trouxesse a palavra “quelle”. Uma vez mais, vi-me frustrado. E, para encerrar minha procura naquele recanto memorial de letras mortas e já sepultadas, deixei de lado a concisão, fiz-me redundante, e arrisquei um título esdrúxulo:

- Veja-me, por favor, se o que procuro traz este título: “Documento Fonte Quelle”.

O velho, e já impacientado homem, olhou-me, fez uma pausa, e repreendeu-me professoralmente:

- Meu senhor, a palavra “quelle”, em alemão, é fonte. Logo, intitular alguma coisa de “fonte quelle” é redundar, redundando redundantemente. Seja como for, não conheço tal obra. Todavia, tenho aqui o endereço de duas pessoas que poderão ajudá-lo; são especialistas em obras raras, extintas e inexistentes.

Ao ver os nomes dos especialistas, recomendados pelo ancião, surpreendi-me. Eu conhecia a ambos. Se eu já tivesse falado com eles, ver-me-ia poupado daquela romaria pelos sebos e antiquário de minha província. Havia, porém, uma dificuldade. Para encontrar-me com eles, teria eu de fazer uma longa viagem internacional. Primeiro, voaria à Hierápolis, cidade ainda emblemática da Turquia e, depois, pegaria um avião para a Alemanha.

E assim o fiz. Sem muita mala e sem muito jeito, cruzei o Atlântico rumo ao Mediterrâneo.

Já na saudosa Hierápolis, fui procurar o bispo Papias (70-55). Lá chegando, fui recepcionado pelo venerando e cultíssimo ancião. Após apresentar-me, pedi-lhe que me mostrasse uma cópia do evangelho “Q”. O santo homem ficou sem entender o que eu rebuscava. Expliquei-lhe, então, que um erudito britânico chamado Burnett Hillman Streeter, no início do século 20, garantia que Mateus e Lucas, na escrituração de seus evangelhos, haviam se utilizado de uma fonte comum, escrita provavelmente em grego. Ou hebraico? E que, a partir de então, o tal documento tornara-se real no imaginário de teólogos liberais, academias descompromissadas com a Palavra de Deus e mestres apóstatas. Alguns, inclusive, até já sabiam a cor da capa e do número de páginas do fatídico códice.

Papias, ainda não canonizado, mas já venerado e santo, respondeu-me que conhecia obviamente os evangelhos de Mateus e Lucas. Todavia, garantiu-me que jamais ouvira falar acerca do “Evangelho Q”. Quanto a Burnett Hillman Streeter (1874-1937), o crítico bíblico-textual britânico que levantara essa questão, assegurou-me o ancião nada saber a seu respeito.

Pelo que depreendi do arrazoado de Papias, os primeiros evangelhos canônicos são exatamente os que estão em nossas Bíblias. E que, antes destes, não houve nenhum documento primordial. Afinal, Mateus, o autor do primeiro evangelho, fazia parte do colégio apostólico. Acompanhando o Senhor, desde o início de seu ministério, e sendo ele um hábil escriba, pois a sua profissão como publicano obrigava-o a ser criterioso em seus registros, historiara metodicamente as palavras e feitos do Salvador do mundo.

Naquele momento, concluí que, de fato, jamais houvera o nocivo documento “Q”. Mas suponhamos que algo parecido tenha existido, por que não foi apensado ao cânon da Bíblia Sagrada? E se não está no cânon, não foi inspirado pelo Espírito Santo; logo, não serve. Se não serve, é algo imprestável; descartemo-lo de vez. Por que iríamos nós usar algo ruim e nocivo, para aferir a autenticidade e a excelência divina das Sagradas Escrituras? Entretanto, não me espantaria se, a qualquer momento, aparecesse alguém, alegando ter encontrado alguma coisa que lembrasse o famigerado documento. Nesse caso, seguirei o conselho do apóstolo Paulo: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (Gl 1.8).

Após ouvir os argumentos bem concatenados e lógicos de Papias, vim a concluir sem muita dificuldade: se jamais existiu o fantasioso “Evangelho Q”, também inexiste o que os críticos denominam de “problema sinóptico”. Que boa notícia: um problema a menos em minhas áreas do estudo sagrado. Ao invés de procurar algo que não existe e perquirir a solução de um problema que, graças a Deus, jamais existirá, vou dedicar-me a algo mais útil.

Despedi-me de Papias, deixei Hierápolis, e segui para a Alemanha, para avistar com o segundo especialista que me recomendou o velho e sábio livreiro. Na verdade, tratava-se de uma mulher, cujo testemunho em favor da ortodoxia bíblica é maravilhoso. Refiro-me a irmã Eta Linnemann (1916-2009). Discípula de Rudolf Bultmann (1884-1976), Linnemann era uma fervorosa adepta do método histórico-crítico. Mas, certa vez, ao entrar numa igreja pentecostal, ouviu o chamado do Espírito Santo, e converteu-se a Cristo. A partir daquele momento, renunciou à sua antiga vida acadêmica, recolheu seus livros, e passou a defender a Bíblia Sagrada como a inspirada, infalível, inerrante e completa Palavra de Deus.

Ao chegar à Alemanha, fui logo procurar a irmã Eta Linnemann, a fim de conferir as informações que eu havia recebido do venerável Papias. Ao ver aquela senhora delicada, gentil e já tomada pelo alvor da idade, enterneci-me. Somente o Espírito Santo para ajudar alguém tão frágil a romper as correntes do liberalismo teológico e as algemas da crítica textual racionalista. Por isso, louvo a Deus pela vida dessa senhora alemã tão cordial e gentil, mas igualmente tão firme em suas convicções.

Já em sua biblioteca, perguntei-lhe se, entre aqueles milhares de volumes, havia algum exemplar do “Evangelho Q”. Gentilmente, estampou um sorriso quase prussiano. Percebi, então, ter sido indelicado com a doce, mas enérgica anciã. Já com o cenho meio cerrado, mas conservando a ternura de uma autêntica cristã, passou a querida Linnemann a narrar-me suas aventuras em busca do tal documento. Pelo jeito, o seu depoimento confirmaria a assertiva de Papias.
Num tom acadêmico, pôs-se a contar-me suas peregrinações em busca do “Evangelho Q”:

“Imagine voar para uma ilha que não existe, num avião que ainda não foi inventado. Mesmo se essa viagem impossível acontecesse no décimo terceiro mês do ano, ela não seria tão fantástica quanto a famosa fábula do Evangelho perdido de Q e a igreja primitiva, a qual foi recentemente batizada como verdade científica por alguns estudiosos do Novo Testamento.

“A história de Q (abreviatura da palavra alemã quelle [fonte]) não é exatamente uma novidade. Ela teve início cerca de um século e meio atrás. Naquele tempo, ela fazia parte da teoria das ‘duas fontes’ da origem dos Evangelhos. Na esteira das afirmações Iluministas de que os Evangelhos não eram confiáveis do ponto de vista histórico, ela sugeria, em lugar da historicidade, que a origem dos Evangelhos fora principalmente de natureza literária. A teoria afirmava que Mateus e Lucas compuseram seus Evangelhos baseados não em recordações históricas, mas utilizando uma fonte dupla, composta de Marcos e um documento hipotético chamado Q”.

Depois de um hiato, a irmã Linnemann retoma seus argumentos, agora mais fortes: “Aqui descobrimos a verdade: Q é a alavanca usada para arrancar a fé cristã fora de seu ancoradouro bíblico. Não o Evangelho, mas Q deve ser a nova âncora da fé, visto ser Q anterior aos Evangelhos e não concordar com eles. Q resolve o problema.

“Pobre Cristandade. Estamos sobre panos de saco e cinzas já que temos seguido os Evangelhos errados e negligenciado a única e real autoridade, Q? Ou melhor, em vez disso, estamos no tempo de barrar a entronização de um Evangelho Falso seguindo o conselho de Paulo e da Palavra de Deus: ‘Se alguém vos prega o evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema’” (Gl 1.9).

Finalizando suas palavras, a irmã Eta, enérgica, mas ternamente, arremata: “Se quisermos evitar seguir ‘fábulas engenhosamente inventadas’ (2Pe 1.16), devemos, então, preferir deixar essas fantasias para trás e voltar aos fatos”.

Em seguida, a irmã Eta fez um silêncio de uns cinco segundos. Pensei que estivesse a alinhar outros argumentos. Mas percebi a tempo que o meu horário tinha chegado ao fim. Aliás, esta é a forma que os anglos e saxões assinalam o fim de uma audiência. Levantei-me e despedi-me da gentil irmã em Cristo.
Cronologicamente, querido leitor, ser-me-ia impossível manter qualquer diálogo ou com Papias ou com Eta Linnemann. Aquele faleceu há quase vinte séculos; esta foi chamada à glória celeste em 2009. Usei, porém, desse recurso literário, a fim de mostrar que, através da história, do testemunho e das obras de ambos, muito podemos aprender. E, como já constatamos, jamais houve qualquer documento ou evangelho Q. Tudo não passa de uma bem urdida mentira do Diabo, o milenar pai das falsidades e embustes.

Portanto, ao invés de perdermos tempo e dinheiro com essas fantasias ridículas e grosseiras, preguemos o Evangelho de Cristo e conquistemos as almas que, celeremente, precipitam-se no inferno. Querido leitor, jamais houve qualquer “Documento Q” ou ‘Evangelho Q”. O que há de fato é uma tentativa desesperada de Satanás em minar as bases da redenção humana. Por que inflar ou diminuir o Cânon Sagrado? Temamos a Deus. Doutra forma, recairá sobre nós a derradeira maldição da Bíblia:

“Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro. Aquele que testifica estas coisas diz: Certamente cedo venho. Amém. Ora vem, Senhor Jesus. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém” (Ap 22.18-21).
 

6 comentários

JOÃO SIDNEI CANDIDO

Louvado seja Deus por nosso Senhor e Salvador JESUS CRISTO por esse privilégio que nos é concedido através do vosso ensino catedrático Pastor Claudionor de Andrade. Quando me vejo diante de uma narrativa tão elucidativa e esclarecedora, faltam adjetivos para expressar o quanto é saudável aprender lendo suas obras literárias e aprender sempre... Só assim a Igreja cresce em graça e conhecimento. "O Evangelho Fantasma".. "Q" ninguém nunca comprovou sua existência... Muito bom...

Alexandre Passos da Silva

Paz do Senhor, Pastor Claudionor, recentemente estive estudando na academia exatamente sobre essa tal fonte "Q", é incrível como alguns doutores desse tempo, realmente fazem tantos esforços para imprimirem uma capa de verdade sobre o insustentável, a exemplo da fonte "Q". Parabéns pelo seu artigo!

Claudionor de Andrade

Irmã Rozelaine, muito obrigado por suas palavras. Continue a orar por mim. Sem Ele, nada posso fazer. Jesus é a razão de meu ministério. Eu quero que o Cordeiro de Deus seja em tudo glorificado. Mais uma vez, ore por mim.

Rozelaine Soares

A paz do Senhor! Seus escritos são um presente para nós leitores, publique mais artigos ao longo do mês.

DANIEL CARLOS FERNANDES

Glorifico a Deus pela sabedoria concedida ao pastor Claudionor, e compartilhada conosco. Mais um texto abençoado para nossa edificação espiritual. Aleluia! Estejamos sóbrios e vigilantes quanto às astutas ciladas do Diabo.

herivelton marculino

Paz do Senhor, pastor Claudionor, seus artigos são muitos edificantes, Deus abençoe!

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Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

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