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Pr. Claudionor

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O Anjo Nu

Qui, 22/11/2018 por Claudionor de Andrade

No término de minha visita à Igreja do Púlpito de Ouro, o Velho Teólogo instou-me a conhecer a Igreja do Anjo Nu. A princípio, imaginei tratar-se de uma daquelas catedrais da Renascença, famosas por seus anjinhos rechonchudos, cuja nudez reveste-se de uma doce inocência. Meu amigo, porém, assegurou-me que, nas congregações da Ásia Menor, eu jamais encontraria resquícios da arte florentina. Ali, não veria eu quadros, nem estátuas, pois os templos são ainda sóbrios e despidos de ornamentos. Não obstante, a Igreja do Anjo Nu, pelo que pude inferir de nossa conversa, já começava a desgastar a proverbial modéstia da Anatólia.

 - Bem, onde fica a tal igreja? E o seu anjo, onde está? Num ícone? Ou num bloco de mármore importado de Carrara?

Com a paciência tão comum aos médio-orientais, o Ancião assegurou-me que o anjo, em tela, não era nenhuma obra de arte. Mais arteiro que artista, vinha ele, porém, inspirando afrescos e murais. Vendo-me curioso e um tanto impaciente, meu amigo revelou-me, então, que o tal anjo era, na realidade, um rico e imperial clérigo. Não obstante, fazia questão de andar nu. Ainda bem que eu estava só. Nessas horas, não dá para fazer-se acompanhar da esposa, da filha e das netas.

Em silêncio, limitei-me a seguir o Velho Teólogo. Este, frugal nas palavras e comedido nos gestos, mantinha a cadência do passo. Depois de uns quarenta minutos, paramos em frente a um templo, que destoava dos demais santuários da Ásia Menor. Detivemo-nos à porta da belíssima nave, e vimos que uma pantomima ensaiava-se em seu interior. Mas, para mim, o espetáculo era mais comédia que drama. Uma presepada.

Reparei que o Anjo Nu não atinava nem com os corredores, nem com a bancada do templo. Um pouco desorientado, perguntei ao Velho Teólogo: “Este homem é cego, ou estou vendo mal?” O Ancião, depois de um curto proêmio, respondeu-me com uma dicção entre profética e lamentosa: “ Sim, ele é cego, mas finge tudo ver. Os outros veem que ele nada vê, mas fazem de conta que ele é o homem de visão do ano. Aqui, ninguém tem senso de ridículo. Nem o solista, nem os que lhe fazem o coro”.

Em seguida, o Ancião resumiu-me a história daquela igreja. No princípio, era a Palavra de Deus proclamada ousadamente de seu púlpito. De triunfo em triunfo, o rebanho pôs-se a prosperar a olhos bem vistos e invejados. Junto com a bênção espiritual, a material não demorou a chegar. Mas o seu anjo, imaginando que tudo era mérito seu, veio a substituir a teologia que faz a alma prosperar, por um arremedo, que, apesar do nome, misera a alma.

Retorcendo narrativas e proposições das Sagradas Escrituras, veio ele a acumular prata e ouro. Agora, com a boca daquele pequeno chifre, visto um dia por Daniel, e que falava grandes coisas, o anjo dizia a todos que de nada ressentia. Na encenação desse embuste, transformou o púlpito num picadeiro. Despojou-se da armadura espiritual. Tirou a vestimenta branca. E, sem pejo algum, pôs-se nu diante da congregação. O interessante é que ninguém jamais teve coragem de denunciar-lhe as vergonhas. Então, que o rei fique nu.

Atrevendo-me, perguntei ao Velho teólogo: “Nem o senhor? Afinal, todos lhe conhecem a idoneidade espiritual. Quem não lhe respeitaria os cabelos brancos e sofridos?” Fitando-me os olhos, meu amigo foi gentil e firme: “Se o Anjo Nu não deu ouvidos ao Cordeiro, como ouviria a mim?” A seguir, mostrou-me a carta que o Filho de Deus endereçara ao Anjo Nu:

“Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas. Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo. Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 3.13-22).

Ao ouvir o texto, indaguei do Ancião: “O Anjo Nu não se curvou nem mesmo a esta intimação?” Sim, vestira-se ele de tanto orgulho e soberba, que nem caso fizera do ultimato do Cordeiro. E, para agravar a situação, o seu rebanho passou a ser conhecido como a igreja-conceito. Dispensando a autoridade das Escrituras e a direção do Espírito Santo, aquela congregação, dantes tão humilde e tão humilhada, já oferecia uma série de produtos sem qualquer intermediação. Céu na Terra. Pecado sem culpa. Vida cristã sem o Cristo. Enfim, sua lista de modismos e futilidades não tinha limites. Por essas quinquilharias, havia muita gente empenhando a alma e penhorando a própria eternidade.

- Como trazer esta igreja à vida? Perguntei-lhe. O Velho Teólogo passou a dar-me uma receita simples, mas completa, de como avivar um rebanho naquele estado tão decadente e tão deplorável.

- Em primeiro lugar, que o Anjo Nu tenha vergonha das próprias vergonhas. Que se vista dos trajes alvejados pelo sangue do Cordeiro. Que o seu castelo se faça manjedoura, e abra-se para receber o Crucificado. Que use o colírio do Nazareno, a fim de que veja a glória de Deus. Às suas feridas, chagas e lacerações, eis as águas de Hierápolis: saudáveis e terapêuticas. À sua alma sedenta, aqui estão as águas de Colossos: potáveis e frescas. Quanto à sua pobreza, compre ele, sem dinheiro algum, o ouro que exalta o pobre e humilha o rico aos pés da cruz.

Por que trazer águas de tão longe? Perguntei ao Ancião. Não há, em Laodiceia, fontes, cisternas ou represas? Vendo-me a perplexidade, pôs-se ele a explicar o porquê dessa estranha prescrição.

- As águas de Laodicéia são impróprias ao consumo humano. Mornas, servem apenas para provocar vômitos. É o que o Anjo Nu dá às suas ovelhas. Elas vêm, enchem-se dessa beberagem. Todavia, o seu organismo espiritual a rejeita. Veja de onde manam as águas eméticas e vomitivas. Sim, elas brotam no púlpito, mas não saltam para a vida eterna.

Mas o avivamento, respondeu o Ancião, ainda é possível. E a receita,como eu já disse, é bastante simples. Colírio para ver a glória de Deus. Ouro para enriquecer-se de Cristo. Vestiduras brancas para andar como santo. Águas termais para curar as feridas da alma. E água potável e fria para mitigar a sede do espírito.

 Antes de nos despedirmos, o Velho Teólogo convidou-me a visitar, da próxima vez, a Igreja do Anjo Pobre.      
 

7 comentários

Pastor Felipe Amarante

Eu sou aluno, da escola bíblica do Rio de Janeiro, desde a primeira em 2004, e o Pastor Claudiinor foi o Primeiro a mininistrar, neste retorno das escolas bíblicas. Eu lembro me até hoje do ensino. Ele ensinou sobre os pecados contra o Espírito Santo, quando cheguei em casa comecei um trabalho de decorar todos os versículos que foram referidos naquela aula, desde aquele dia fui impactado pelo Espírito Santo a conduzir a minha vida no temor do Senhor e amor pelas sagradas escrituras.

Elias Pimentel

Amado pastor, parabéns pela excelente reflexão, a igreja de Deus precisa urgentemente de mensageiros que não perderam a sensibilidade do Espírito e que conseguem discernir bem as suas motivações.

Salatiel da Silva Nascimento

As palavras do Pr. Claudionor sempre me inspiraram seguir fielmente à Cristo.

PB HERIVELTON MARCULINO

Mas uma passagem tratada de forma ilustrativa e exuberante como é característico do autor pastor Claudionor. Que coisa linda!

Claudionor de Andrade

Irmão Misael, obrigado por seu comentário. Ore por mim, para que Deus me abençoe no ministério da escrita. Sem Jesus, nada posso fazer.

Claudionor de Andrade

Pastor Geremias, obrigado por me ler o texto. Que Deus o abençoe. O irmão é um mestre na estilística da língua portuguesa.

Misael Lopes

Belíssimo texto...

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Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

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