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Pr. Claudionor

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O Pai do Soldado e o Velho Engodo Comunista

Qui, 08/11/2018 por Claudionor de Andrade

Já faz algum tempo que reservo, em minha alma, um lugar especial à Rússia. Nesse amor já um tanto serôdio, devoto-me a orar pelas igrejas ali semeadas por Custódio e Cirilo, no século IX, e pelos missionários europeus e americanos, no século passado. Vim a descobrir, recentemente, que há muitos pentecostais naquele chão imenso, gélido e ainda ignorado.

Atraído pela Rússia, prendi-me ao seu idioma; paixão ainda temporã. E, de imediato, pus-me a estudar metodicamente a “madre língua”. Sim, querido leitor, a “madre e boa língua”! Assim, carinhosa e poeticamente, as gentes russas apelidam o mais belo dos falares de Kiev. Semelhante tarefa, como você sabe, requer apego e muita disciplina. Mas valeu-me a pena. Hoje, graças a Deus, já me é possível ler a Bíblia no vernáculo de Liev Tolstói.

A fim de aumentar a minha compreensão desse idioma, assisto, de vez em quando, a um filme em russo. E, atento a cada mudança de cena, deleito-me com o som, com a dicção, com a harmonia e com o ritmo de uma das línguas mais belas faladas pelos filhos de Noé, desde a confusão de Babel.

No início deste ano, vi um filme que, embora rodado numa república soviética, pareceu-me de uma ternura rara. Aqui, comedido leitor, caberia um superlativo. Mas, depois de analisar criticamente aquela obra “meiga e poética”, assustei-me. Em sua metalinguagem, vim a descobrir uma engenharia social tão bem arquitetada, que era capaz de canonizar o mais vil e abjeto dos ditadores.

O Pai do Soldado

Intitulado O Pai do Soldado, o filme é dirigido por Rezo Chkheidze e tem, como atores principais, Sergo Zakariadze, Vladimir Privaltssev e Aleksandr Nazarov. O referido filme, lançado em 1959, narra as aventuras de um pai, que, procedente da Geórgia, cruza o impossível para ver o filho gravemente ferido em combate. Mas, ao chegar ao hospital, descobre que o ferimento não era tão grave, pois o valente e destemido soldado já estava a caminho de Berlim, a fim de ajustar as contas com Adolf Hitler.

A boa notícia deixa Georgy ainda mais ansioso; rever o filho é tudo o que ele deseja. A essas alturas, ele já sabe que, na guerra, o amanhã é uma remota possibilidade. Por isso, ajunta improvisos e imprevisões, e sai ao encalço do primogênito. Nessa jornada, aventura-se aqui, e, mais além, desventura-se. A cada estância, vê-se às voltas com a morte. Constrangem-no, ainda, as desconfianças e protocolos do Exército Vermelho. 

O pai, contudo, não desiste do filho.

Depois de uma longa e estressante peregrinação, encontra o rapaz. Ouve-lhe a voz. Trocam algumas palavras. Mas não consegue aproximar-se dele. Conquanto a distância que os separava não fosse grande, o intenso tiroteio mantém-nos dolorosamente apartados um do outro. De repente, o guerreiro é atingido por uma bala anônima, despretensiosa e fortuita, mas certeira.

Findo o combate, Georgy achega-se ao filho. Abraça-o. E, após ouvir-lhe as últimas palavras e assistir-lhe o derradeiro suspiro, vê-o morrer. O jovem belo e sonhador desfalece-lhe nos braços. A dor é muita, mas a lágrima, pouca; no front russo, o choro é desencorajado.       
Apesar do luto, o vinhateiro georgiano reúne o que lhe restara de forças, e parte, junto ao pelotão a que pertencera o filho, para a investida final contra Berlim.

A semelhança não é coincidência

De início, senti-me comovido pela história de Georgy. Mas, depois de ruminar cada quadro do filme, vim a descobrir que este não passava de uma bem engenhada propaganda comunista. A narrativa era tão eficiente, que podia transformar um assassino frio, calculista e implacável, como Joseph Stalin, num santo com direito a todos os ícones, nichos, altares, incensos e encômios da ortodoxia russa.

O ancião georgiano era, na verdade, a benévola personificação de Stalin. Quando do lançamento do filme, o tirano sanguinário já estava morto; ele falecera em 1953. Mas, certamente, a primorosa cinematografia fora produzida sob os seus auspícios.

Vejamos algumas “coincidências” observadas no filme.

 Georgy era tão georgiano quanto Stalin. O bigode de ambos confundia-se. O andar do primeiro espelhava o do segundo. Todavia, o detalhe que mais chamou-me a atenção foi o fato de Joseph e Georgy haverem perdido seus filhos na chamada Guerra Patriótica. No Ocidente, conhecemo-la como a Segunda Guerra Mundial.

O filho de Stalin, Yakov Iosifovich Djugashvili (1907-1943), fora capturado pelos alemães, em 1941, vindo a morrer dois anos depois de maneira ainda não explicada. O alemães chegaram a negociar, com Stalin, a troca de Yakov pelo marechal alemão Friedrich Paulus. Mas, o ditador comunista, ao ouvir a proposta, vociferou: “Não trocarei um marechal por um tenente”.

Já o filho de Georgy teve um fim mais nobre: morreu nos braços do pai. Na ficção, um final feliz é possível até mesmo atrás da cortina de ferro.

As semelhanças entre o velho Georgy e Stalin não são facilmente detectáveis pelo espectador desatento. Mas as justaposições são notáveis. Em primeiro lugar, o ditador soviético não falava muito bem o russo. Embora soviético, seu idioma materno era o georgiano. Georgy também enfrentava sérios problemas com a “madre língua”; não sabia ler os caracteres cirílicos. Além dos bigodes espessos e cheios, ambos aparentavam um defeito físico quase imperceptível. Enfim, o velho Georgy era uma cópia humana do sanguinolento e desumano Stalin.

Chkheidze empreendeu o impossível. Logrou canonizar Joseph Stalin não propriamente como o herói da Guerra Patriótica; ungiu-o como o santo de todos os comunistas. Aliás, no velho e persistente Georgy, o cineasta busca convencer os soviéticos de que Stalin é o grande pai do povo.

Como todos eram obrigados a assistir a filmes como esse, eram todos induzidos, sutil e habilmente, a aceitar o ditador como o pai dos pobres, dos enfermos, dos oprimidos e dos sem esperança. Tais líderes, a propósito, não geram outra coisa senão pobreza, enfermidade, opressão e desesperança. Eles são incapazes de parir riqueza, saúde, liberdade e esperança. Tais luxos são reservados às elites comunistas, que, na prática, são mais elites do que as elites capitalistas que eles, tanto outrora quanto hoje, dizem odiar.

Obras como esse filme fazem parte daquilo que, modernamente, veio a chamar-se de engenharia social.

A engenharia da alma

Joseph Stalin disse, certa vez, que os poetas são os engenheiros da alma. Através de versos e rimas, trabalham eficazmente as paixões humanas – do ódio mais irreconciliável ao amor mais arrebatado. Seduzem, amedrontam e buscam quebrar a vontade mais férrea.

O ditador soviético sabia como utilizar as letras e as artes para conseguir seus intentos. Apesar de sua truculência, Stalin era um refinado intelectual; até poemas fazia. E, para um grupo bem seleto, ousava ele cantar. Dizem que a sua voz era boa. Também lia muito. Quando jovem, frequentava a biblioteca de Tbilisi, capital da Geórgia, e, literalmente, consumia os livros daquele acervo; roubava-os.

Ele utilizou toda a sua cultura, inclusive a teológica, pois também fora seminarista, a fim de escravizar a alma humana. E, nessa empresa, manteve milhões de homens e mulheres sob um cativeiro insuportável. Não é preciso mencionar os milhões que ele, direta ou indiretamente, mandou assassinar. Foi um genocida da própria gente.

Embora poeta, despoetizava a vida. Sabia como desconstruir um verso, tirar a eufonia de uma rima e comprometer a métrica mais perfeita. Era mais eficaz que Jacques Derrida na desconstrução de um discurso. Montaigne estava certo ao afirmar que “a maior parte das razões dos problemas do mundo é gramatical”.
Em virtude de suas habilidades com as artes, aprisionou as letras e manietou a arquitetura. A Moscou comunista era tão fria, tão distante e tão soberba quanto ele. Sem cor e desprovida de simpatia. Em meio aos arranha-céus, engenhavam-se os infernos jamais imaginados pelo gênio mais fértil.

Sim, o Pai do Soldado

O que havia, de fato, entre Georgy e Stalin? Apenas a terra natal, o idioma e a paternidade ferida e machucada? Entre ambos havia, ainda, uma devoção doentia pelo comunismo e por tudo o que este pode gerar na alma humana: apreensão, medo e terror.

Sob o enredo de um filme aparentemente terno, jazia os intentos de um dos maiores criminosos do mundo. E, sob a pele do bom e velho vinhateiro da Geórgia, o cineasta, engenhando a alma soviética, mostrou um Stalin que jamais existiu: o pai das repúblicas socialistas soviéticas. Na verdade, era ele o verdugo dos verdugos; o maior criminoso que este mundo já teve. Sim, pior do que Hitler.

Querido leitor, ao ler um poema, ou ao assistir a um filme, seja precavido. Não se deixe arquitetar por homicidas, adúlteros, corruptos e mentirosos. Eis a advertência de Paulo: “Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo” (2 Co 11.3).

A mentira, desde o Éden, vem sendo oferecida como a realidade última do Universo. Examinemos tudo; retenhamos apenas o bem.   
 
 

6 comentários

Claudionor de Andrade

Irmão Adejarlan, gostei da sugestão. Oro para que Deus me ajude a divulgar os meus textos. O senhor, a propósito, escreve bem e com preocupação estética. Glorifique ao Pai Celeste com os seus dons.

Adejarlan Ramos

Ótimo texto! Li observando, como sempre faço, a forma e o conteúdo. O senhor poderia publicar uma coletânea dos seus textos. Seria um serviço à nova geração de escritores.

Karen

É possível afirmar que não existe programação alguma, ou entretenimento algum, que não objetive moldar o comportamento do homem. Nas artes, na literatura, nos filmes, jogos eletrônicos, e até no jornalismo, a tentativa de manipulação das massas é facilmente observável. Por isso, quanto menos nos expusermos a esses veículos que se prestam a comunicar o mal, melhor.

Sérgio Luis

Amém. Texto muito bem elaborado. Que Deus continue abençoando o amado irmão. A maioria dos ditadores surgiram como "homens de bem", "salvadores da pátria",etc. Só JESUS é a verdade que liberta !!

Claudionor de Andrade

Irmão Daniel, que Deus o abençoe por ler-me os escritos. Oro para que o seu talento seja usado para a glória e a honra do Senhor Jesus. Se Deus o chamou a fazer poesias, enalteça-o com o seu talento. Eu não uso WhatsApp, mas espero um dia conhecer o seu trabalho.

Daniel Ferreira

A paz do Senhor! Sou um grande admirador dos seus escritos cheios de poesia! Amo muito a retórica do amado irmão desde a minha adolescência! Gostaria muito de poder falar com o irmão através do whatssap. Meu telefone é 045 998136382. Por favor irmão, me adiciona no seu whatssap! Escrevo poesias e gostaria que o irmão ouvisse algumas! Meu sonho é poder conhecer o irmão pessoalmente! Eu amo a Almeida Corrigida e tenho rimado muitos capítulos dela!

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Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

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