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Pr. Claudionor

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Púlpito de Ouro, Coração de Bronze

Qui, 25/10/2018 por Claudionor de Andrade

Dias atrás, voltei à Ásia Menor, pois ouvira dizer que, numa de suas igrejas, havia um púlpito de ouro batido, puro e raro. Já tomado pela curiosidade, resolvi conhecer pessoalmente a tal basílica. Enquanto arrumava as malas, crescia em mim uma ira meio santa e um tanto carnal. Por que tamanha ostentação se o berço do Menino Jesus era uma manjedoura singela e tosca? Como a viagem era longa, dava para controlar o meu ímpeto. Eu jamais permitiria que o sol da Capadócia se pusesse sobre aquela minha raiva.

Ao desembarcar na Anatólia, fui gentilmente recepcionado pelo Velho Teólogo, que eu conhecera da viagem anterior. Ele já dispunha de um transporte rápido e seguro, para conduzir-nos à tão decantada sé eclesiástica. O transccurso até o nosso destino foi, além de agradável, instrutivo e doutrinário; humildemente acadêmico. Descemos do veículo, e pusemo-nos a caminhar a pé. Enquanto caminhávamos pelas ruas daquele continente juncado de crônicas, histórias e arqueologias, o Ancião, qual enciclopédia romeira e mártir, ia narrando-me o interessante caso da igreja do púlpito de ouro. A certa altura, perguntei-lhe:

- Irmão, onde exatamente fica essa catedral?

Ele, um tanto surpreso, corrigiu-me com delicadeza e lhanura:

- Quem disse catedral? Nem catedral, nem basílica. Aliás, nossas igrejas nem igrejas parecem; são casas modestas e despossuídas de opulência. Não obstante, posso garantir-lhe que, aqui, temos uma congregação, cujo púlpito é de maciço e puro ouro.

Não querendo contrariar o Velho Teólogo, acompanhei-o silenciosamente, até pararmos defronte a um domicílio tão simples e rude como rude e simples era a cruz do Filho de Deus. Franzindo a testa, o Ancião desconsolou-se:

- O púlpito de ouro está aqui.

Seria aquilo um gracejo clerical? O Velho Teólogo, porém, era conhecido por sua gravidade; não era dado a chistes, nem a facécias. Vendo-me a reação, introduziu-me no santuário. Sim, estava bem ali o púlpito de ouro. Acho que nem Florença seria capaz de lavrar semelhante joia.

Para a minha surpresa, meu amigo aproximou-se do púlpito. E, reverentemente, pôs-se a contemplá-lo. Seu olhar parecia retroceder a um tempo que já era história. Quanto a mim, não podendo mais conter a curiosidade, perguntei-lhe quem mandara construir uma obra tão prima e tão excelente. Pausadamente, respondeu-me o ancião:

- Este púlpito foi cinzelado por alguns amigos meus: Paulo, Timóteo e Tíquico. Aliás, eu mesmo ajudei a lavrá-lo. Nos últimos anos, aqui estive para dar-lhe os derradeiros retoques.

- O senhor se refere ao apóstolo Paulo e aos seus colegas de ministério?

- Sim, refiro-me ao Doutor dos Gentios e aos seus companheiros.

A seguir, narrou-me de que forma vieram a concluir semelhante primor. O ouro utilizado não se encontra em qualquer lugar. É necessário ir às minas de Ofir, onde os profetas e os apóstolos do Cordeiro extraíram-no dos veios mais profundos, escondidos e cobiçados. Metal raríssimo; inapreciável. Acumulado em dois compartimentos, o material é de um brilho peregrino. O primeiro compartimento é o Antigo Testamento, e o segundo, o Testamento Novo. Toda essa riqueza é administrada pelo Filho de Deus, em quem se acham ocultos todos os tesouros da sabedoria, da ciência e do conhecimento.

A essas alturas, desconcertei-me, e indaguei do Velho Teólogo:

- Se este púlpito foi trabalhado por homens tão santos e sábios, qual o problema com ele? Não é o que todas as igrejas almejam?
 O ancião olhou-me bem nos olhos. Fez uma pausa. Respirou fundo. E acrescentou:

- O problema não é o púlpito de ouro, mas o coração de bronze do pastor. Até recentemente, todos pensavam que o seu coração também era de ouro. Brilhava. Reluzia. Mas o Cordeiro, que a todos escrutina, instruiu-me a enviar-lhe uma carta, denunciando o brilho falso de seu ministério. Houve um tempo, em que o seu coração também era de ouro. Mas o estresse do tempo fê-lo passar do ouro ao bronze. À distância até parece ouro, mas não resiste a um exame mais detido e minucioso.

Em seguida, mostrou-me a cópia da carta do Cordeiro. Escrita num grego simples e com letras unciais; era direta e incisiva:

“Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro: Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos; e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer. Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas” (Ap 2.1-5).

No pergaminho, vi umas lágrimas. Não posso dizer se do Ancião ou do Cordeiro.

O pastor da Igreja de Éfeso possuía um currículo invejável. Nenhuma convenção haveria de rejeitá-lo, pois todos o queriam como anjo e guardião. Todavia, posto que o seu coração não era mais de ouro, o Cordeiro estava prestes a remover-lhe o castiçal.

Narrou-me o Velho Teólogo que, no princípio, o pastor de Éfeso pregava o evangelho puro e simples do Filho de Deus. Mas, com o tempo, substituiu-o por um arrazoado meramente combativo e racional. Ele já não pregava; debatia. Não proclamava a verdade; limitava-se a desconstruir, filosoficamente, as investidas dos gnósticos, nicolaítas e judaizantes. E, assim, trocou o ouro da mensagem da cruz pelo bronze da polêmica. Enfim,  agiu como Roboão que, privado dos escudos de ouro que fizera o pai, Salomão, substituíra-os por outros de bronze.

- Então, não podemos ser apologetas? Questionei-lhe.

- Podemos e devemos; é a nossa obrigação. Mas a apologética não é um fim em si mesma. Se pregarmos o Evangelho conforme nos recomenda a Bíblia, nossa mensagem será natural e irresistivelmente apologética. É o que nos recomenda os irmãos Paulo e Pedro.

Enquanto conversávamos, chegou o pastor da igreja. De presença imperial e nobre, cumprimentou-nos. Em seguida, perguntou-me pela viagem e por minha igreja. Depois, pediu-me licença para falar a sós com o Teólogo. A conversa deve ter durado uns 40 minutos. Ao deixarem o gabinete pastoral, ambos estampavam um sorriso aberto, largo e radioso. Despedimo-nos do pastor de Éfeso. E, já na rua, a caminho da condução, perguntei ao Teólogo o que havia acontecido. Ele me respondeu:

- Nada de mais. Apenas um procedimento cirúrgico. O Cordeiro tirou-lhe o coração de bronze, e tornou a dar-lhe o de ouro. Para Jesus, uma operação corriqueira. Como Ele substitui corações de pedra por corações de carne, não lhe foi difícil trocar os metais. Difícil mesmo é operar corações de madeira e palha. Mas, se o paciente quiser, sempre se dá um jeito.

Despedindo-nos, o Velho Teólogo convidou-me a visitar, da próxima vez, a igreja do anjo nu. Fiquei curioso. Se Deus me der vida e saúde, voltarei à Ásia Menor no próximo mês. Espero que a taxa de câmbio seja-me um pouco mais favorável.  

15 comentários

Claudionor de Andrade

Queridos irmãos, agradeço-lhes o carinho e as palavras de incentivo. Orem para que Deus continue a abençoar-me. Sem Ele, nada posso fazer. Quero escrever sempre para glorificar o nome de meu Senhor.

Altamiro Mendes de Freitas

Lindo, instrutivo simplesmente maravilhoso como sempre . Deus o nosso Deus continue abençoando a sua vida e seu ministério. Pr. Claudionor.

Valdecir Lima

Benção de Deus Pastor, acompanhei as outras viagens pelo mensageiro da paz, fiquei muito reflexivo.

Isaac Ferreira

Lindo artigo! Que Deus continue inspirando o seu coração, com conteúdos de sabedorias como esse.

HERIVELTON MARCULINO

A paz do Senhor, pr Claudionor que texto lindo mix de mistério, Verdade e realiade hodierna. Faz texto que não vejo tanta criatividade e sabedoria juntas. Não poderia deixar de parabenizá-lo.

Levi Martins

Que leitura maravilhosa, que diálogo lindo e gratificante aos meus olhos! Por favor, estou a espera da próxima viagem 🙏

Sandra Regina Gomes Marques

Texto a altura do autor. Sou seminarista da Faesp, estou conhecendo algumas de suas lindas obras e faço nada por sua sabedoria. Amo aprender, acabei de conhecer um púlpito de ouro. Deus continue lhe abençoando e dando sabedoria do céu e que continue compartilhando com todos.

Sérgio luis

A paz do Senhor, Pr. Claudionor. Texto inteligentemente abençoado; reflexivo e que nos leva à uma auto-crítica referenciada pelas santas escrituras. DEUS o abençoe rica e abundantemente. Amém.

Israel L Cordeiro

Paz do Senhor a todos Obrigado pastor Deus o abençoe

TIAGO RIBEIRO DA CUNHA

A Paz do Senhor, havia tempos que não lia algo tão gratificante. Também fiquei curioso com a Igreja do anjo nu.

joel belon Rodrigues

Gostei muito. Pr Claudionor escreve com primorosa maestria. Os nossos púlpitos são mesmo desse jeito Alguns são feno palha e madeira mas outros bronze prata e ouro. Que o Senhor nos dê sempre púlpitos de ouro, para honra e glória do seu nome.

Claudionor de Andrade

Irmão Renan, obrigado por ler-me o texto. Que Deus o abençoe. E não se esqueça de mim em suas orações.

Claudionor de Andrade

Irmão Jessé, muito obrigado por seu contato. É com as suas orações que conseguimos desenvolver o nosso ministério.

Jessé

A paz do Senhor. Louvo a Deus por ter lido este texto, muito edificante. Que o Deus todo poderoso o mantenha assim.

Renan

a Paz do Senhor.. que texto lindo e simplesmente profundo.

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Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

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