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Pr. Claudionor

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Duas saudades teológicas

Qui, 23/08/2018 por Claudionor de Andrade

Ontem à tarde, enquanto caía uma chuva fininha e cortante sobre o Rio de Janeiro, vieram-me ao coração dois mestres queridos e já saudosos. O primeiro morreu em 16 de dezembro de 1993. Já o segundo veio a falecer bem recentemente: no dia 30 de julho de 2018.

No campo santíssimo dos Testamentos, eu sei que eles não morreram nem faleceram; foram ambos recolhidos à Casa do Pai. Gosto desses eufemismos. Eles me diminuem a dor, dão-me esperança, enxugam-me as lágrimas, encurtam-me o caminho do reencontro e transformam-me as despedidas num “até breve”.

É nesse vale de lembranças e recordações, que evocarei essas duas saudades. Já que estas linhas me compõem o diário da alma, observarei a ordem cronológica. 

Meu primeiro mestre foi o irmão Roberto Montanheiro, pastor da Assembleia de Deus em São Bernardo do Campo, SP. Homem amoroso, sábio e enérgico, soube como manter o seu rebanho na sã doutrina e nos costumes bons e sadios. Ele era dotado de uma espiritualidade irresistível. Falava noutras línguas, interpretava-as e profetizava. Sua vida de oração não era teórica; era amorosamente prática. Todos sabíamos estar, ali, alguém que comungava intimamente com Jesus.

Leitor disciplinado, jamais deixava a Bíblia em segundo plano.

Sua biblioteca particular era bem fornida. Naquelas estantes impecavelmente organizadas, havia livros teológicos, devocionais e exegéticos. O irmão Roberto (ele gostava de ser tratado assim), porém, não se descuidava da cultura geral. Disse-me ele, certa vez, ter lido toda a Enciclopédia Barsa. Do primeiro ao último verbete, estudou-a. Segundo o escritor João Pereira de Andrade e Silva, meu pastor achava-se entre os homens mais ilustrados das Assembleias de Deus.

Os cultos de doutrina que o pastor Montanheiro ministrava eram acompanhados como aulas magnas. Valia a pena ouvi-lo. Eu, particularmente, devo a minha formação teológica a esse homem insigne, que, desde 1993, já está com o Pai Celeste. Recentemente, ao revisitar São Bernardo do Campo, alegrei-me ao ver que o seu nome fora dado a um dos principais logradouros da cidade. Aliás, sua influência espiritual não se limitava à igreja; era sentida na sede da prefeitura e na câmara municipal. Sua filantropia era notória.

Essa foi, querido leitor, a minha primeira saudade teológica. Agradeço a Deus, por ter sido pastoreado por um homem tão singular e tão parecido com Jesus. Sem ele, eu não seria o que hoje sou.

A minha segunda saudade teológica teve início em 1979. Nesse ano, o Pr. Antonio Gilberto da Silva foi à Assembleia de Deus no Taboão, também em São Bernardo do Campo, onde ministrou-nos uma palestra acerca de suas peregrinações bíblicas, teológicas e culturais. Não registrei a data com exatidão, pois não imaginava que aquele encontro far-se-ia, quatro décadas mais tarde, uma página mui preciosa de meu diário. Também não imaginava que, transcorridos mais cinco anos, eu seria convidado a trabalhar na Casa Publicadora das Assembleias de Deus, onde estou, até hoje, pela imensa graça do Senhor.

Sim, amigo leitor, o que eu não poderia imaginar jamais é que, em 2013, eu seria chamado pelo diretor executivo da CPAD, irmão Ronaldo Rodrigues de Souza, a auxiliar o Pr. Antonio Gilberto, na Consultoria Doutrinária e Teológica de nossa editora. E, desde então, passei a desfrutar um pouco mais de sua companhia nessa abençoada caminhada teológica.

Como descreverei o Pr. Antônio Gilberto? Antes de tudo, descrevo-o como um autêntico homem de Deus; isso faz toda a diferença na vida de quem professa servir a Cristo. E, sem dúvida alguma, foi o maior e mais abalizado teólogo que eu já conheci. Corajoso e intrépido, combatia sem quartel os desvios e apostasias que nos querem destruir a sã doutrina. Aqui e ali, requisitavam-no para resolver pendências doutrinárias e elucidar dúvidas exegéticas. Nos momentos de indecisão teológica, sua voz era ouvida reverente e respeitosamente. 

Antonio Gilberto era acatado dentro e fora das Assembleias de Deus.

Talvez, você queira saber o segredo de nosso mestre, agora tão saudoso. Aliás, tinha ele dois segredos. O primeiro é que, diariamente, colocava em prática esta recomendação paulina: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (1 Tm 4.16). Zelando sempre de si, jamais deixou de zelar pela sã doutrina.

Quanto ao segundo segredo, tratava-se de algo raro. Aliás, raríssimo. Refiro-me ao dom ministerial que lhe outorgara o Espírito Santo: o doutorado na Palavra de Deus. O saber de Antonio Gilberto não era provindo apenas de leituras, estudos, pesquisas e academias; era uma dádiva divina. Senão vejamos o que diz o apóstolo Paulo: 

“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo,  até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4.11-14).

Meus queridos e inesquecíveis mestres já foram recolhidos à Casa do Pai. Além de me serem referências máximas na doutrina pentecostal, Roberto Montanheiro e Antonio Gilberto são agora, em meu labor diário pela sã doutrina, duas grandes saudades teológicas. Não substituí o primeiro nem poderei ocupar o lugar do segundo. Na Consultoria Teológica da Casa Publicadora das Assembleias de Deus, limitar-me-ei, talvez, a suceder ao amado pastor Gilberto. 
O tempo ainda está frio; mais frio que ontem. Enquanto concluo estas linhas, ouço, na voz de Feliciano Amaral, o hino “Campainhas de Ouro”. A terceira estrofe é significativa e tocante:

“Quando os dias se findarem/ E da morte a dor vencermos/ Quando Cristo ao seu reino nos chamar;/ Nunca mais angustiados/ Para sempre consolados/ Quando o Salvador chamar a mim e a ti”.

O pastor Feliciano Amaral, a propósito, era o meu cantor predileto. Mas quis a divina coincidência, que ele também fosse chamado neste mesmo mês (dia sete de julho), ao lar paterno. Melódica e teologicamente os céus acham-se mais ricos. Quanto a nós, alimentamo-nos da esperança de, brevemente, reunirmo-nos à grei dos santos e redimidos de todas as eras e lugares.

Maranata! Ora vem, Senhor Jesus.         

12 comentários

Marcos Cruz

Que belo texto.

JOAO BATISTA

Verdade Pastor Claudionor, não conhecia o pastor Roberto, mas tive o privilégio de conhecer, embora não pessoalmente, o Pastor Antonio Gilberto e seus ensinos que foram e serão muito edificantes. Eu também tenho o privilégio de aprender muito com os seus ensinos também Pastor Claudionor, apesar de não substituir os tais pastores, o senhor também é um grande mestre. Que Deus te abençoe cada vez mais.

Welington cezario

A Paz do Senhor Jesus Cristo, quando estudamos e metitamos com amor e recheado da intimidade vom Deus em oração.Aprendemos à cuidar de nós e da sá Doutrina do Senhor Jesus Cristo....Deus os abençõa e conserve na Sà Doutrina. Nasci e cresci na Ig.Ev.Ass. de Deus em mantena,mg. Abraçõs a todos...

Edmar Filho

Deus tem recolhido às mansões celestiais, homens piedosos que amaram ao Senhor e a sua Palavra. O meu sincero desejo é que nestes últimos dias, que antecedem a volta do Senhor Jesus, Deus levante homens piedosos para apascentar a sua Igreja.

Jacó Rodrigues Santiago

Tive o privilégio de conhecer tanto o primeiro quanto o segundo. Estive por algumas vezes em São Bernardo do Campo, visitando parentes e amigos e sempre que podia visitava a igreja sede. Uma vez, à procura de um pastor amigo, estive na casa do pastor Roberto Montanheiro, onde tomei café com ele. Pastor Antônio Gilberto dispensa comentários. Tal era a sua cultura e verdadeiro homem de Deus. Por algumas vezes ministrou em escolas bíblicas, na AD em Ipatinga (MG), onde congrego.

Ákila Cardoso

uma ótima recordação, sempre tive vontade de conhecer ao Pastor Antônio Gilberto da silva, mas aprove Deus o levar para a glória, um grande homem de Deus. "campainhas de ouro" um maravilhoso louvor que eu também gosto muito. Deus o abençoe. Graça e Paz.

Izaque Alves Barbosa

Paz do Senhor a todos. O nobre Pastor Claudionor de Andrade, não somente ocupa o lugar do saudosíssimo Pastor Antônio Gilberto na Consultoria Teológica da CPAD, mas também ocupa a insigne posição nas fileiras da Teologia Pentecostal, brandindo escorreitamente a espada do Espírito como aquele valoroso soldado de Cristo que encerrou seu bom combate.

Oziel Carrias

Grandes homens de Deus, que deixam saudades e referência para nossas vidas e que continue abençoando ao nobre pastor Claudionor e também nos abençoando com suas mensagens que vem direto do trono de Deus para nossas vidas.

Jônatas Victor de Carvalho

Não tive o prazer de conhecer o pastor, Roberto Montanheiro, mas tive a honra de assistir as belas palestras do Pastor Antônio Gilberto, posso dizer que o pastor Claudionor de Andrade, escolheu bem seus referencias, tanto no ensino da Palavra, quanto na música sacra, pois o saudoso Feliciano Amaral, quando louvava, nos conduzia mais perto dos céus.

Afrânio Alves Ciriaco

É fato, homens com tamanha janela no que tange ao Doutorado da Palavra, levará muitos anos( para chegar ao mesmo nivel dos mesmos). O querido Pastor, Mestre na Palavra, detentor da palavra da Ciencia bem como da palavra da Sabedoria; o mesmo tinha algo peculiar em seu afinadíssimo Ministério do Ensino, Só respondia o que a inerrante e infalivel palavra de Deus afirma. Esperamos em Deus que a geração atual possa se espelhar em Cristo, Paulo, o Colegio Apostólico, Esdras, Antonio Gilberto e outros

ROBERTO

MUITO BOM COMENTARIO PR. VERDADE DEUS O ABENÇOE

Sérgio Luís

Pr. Claudionor, a paz do Senhor. Solidariza-me com suas saudades. Não conheci nenhum dos baluartes mencionados pelo senhor. Porém, dois deles fizeram( e ainda fazem)parte da minha vida cristã. Como esquecer Feliciano Amaral,cantando,por exemplo, "o rosto de Cristo"? Já o pastor Antônio Gilberto, esteve comigo muitas vezes através dos comentários das revistas de EBD jovens e adultos.

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Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

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