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Pr. Claudionor

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O perigo da cristologia sócio-crítica

Qua, 18/07/2018 por Claudionor de Andrade

Segundo Gustavo Corção (1896-1978), o Concílio Vaticano II, realizado entre 1961 e 1965, escancarou as portas da Igreja Católica a uma bem ensaiada cristologia de esquerda. Pelo menos, foi o que eu entendi ao ler as páginas iniciais do Século do Nada, desse inconformado e corajoso pensador católico brasileiro.

Infelizmente, Corção não estava errado; interpretara ele precisa e claramente os objetivos daquele concílio. Então, atentemos às alocuções da Santa Sé.

O Papa Paulo VI, ao concluir os trabalhos conciliares, declarou solenemente: “A religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião, porque ela é tal, do homem que se faz Deus”. Mais adiante, acrescentou o pontífice romano: “Sabei reconhecer nosso novo humanismo: nós também, nós, mais quem quer que seja, nós temos o culto do homem”.

Sim, querido leitor, o que esperar de um líder, tido como cristão, que, formal e publicamente, troca a cristologia do Novo Testamento, por uma cristificação humanista, materialista, comunista e despida de Deus? Não se pode adotar a ambas; são irreconciliáveis. Ou se fica com a primeira. Ou com a segunda. Professar a primeira e a segunda é algo ilógico, pois antagônicas e excludentes.

Como um abismo chama outro, o Concílio Vaticano II acabou por provocar a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Realizada em Medellin, na Colômbia, de 24 de agosto a 6 de setembro de 1968, o conclave trabalhou a seguinte temática: “A Igreja na presente transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II”. Foi nessa ocasião que a Teologia da Libertação começou a grassar por toda a América Latina, principalmente no Brasil. A esquerdização da igreja romana já era uma indesejável, mas indisfarçada realidade. Nesse encontro, ganharam destaque os documentos sobre a justiça, a paz e a pobreza da igreja. Tais palavras, a propósito, são habilmente trabalhadas pelo maxismo cultural, visando a subversão da ordem social. 

Até a ascensão de Karol Józef Wojtyła ao papado, Karl Marx era mais citado que Agostinho e Tomás de Aquino, em boa parte dos seminários e paróquias romanas de nosso pobre, sofrido e crédulo continente. O papa Bento XVI, firmado em sua cristologia bíblica e conservadora, também não abriu espaço à Teologia da Libertação. Mas o seu sucessor, oriundo de um contexto esquerdista e caótico, ensaiou conceder algumas guaridas à tal “doutrina”. 

A Teologia da Libertação, aliás, não é tão recente como se imagina, nem tão exclusivamente católica quanto se supõe. Se recorrermos a história da América Latina, encontraremos a sua gênese no frade dominicano espanhol Bartolomé de las Casas (1474-1566). Missionário na ilha hoje ocupada pelo Haiti e pela República Dominicana, las Casas logo se incomodou com a situação do nativo caribenho frente à opressão ibérica. E, para denunciar o colonizador europeu, escreve ele O Paraíso Destruído.

O erro de Bartolomé não foi contrapor-se às injustiças. Todo cristão está intimado a clamar aos Céus e à Terra contra a tirania. Em orações, clamores e lágrimas, a Deus; e, em petições devidamente protocoladas, aos reis e aos governadores. A estes, apresentemos as reivindicações dos profetas hebreus e dos apóstolos de Jesus Cristo. E, para tanto, não precisamos torcer as Escrituras, nem lançar mão de uma hermenêutica libertária e violenta. O Antigo e o Novo Testamento trazem provisões necessárias, a fim de se implantar a justiça, o direito, a concórdia e a solidariedade entre os homens. Ao que parece, o religioso dominicano não levou isso em conta.

No decorrer da vida atribulada das nações latino-americanas, outros ideólogos católico-romanos foram surgindo aqui e ali. Haja vista Gustavo Gutiérres. Usando habilmente o método sócio-crítico de interpretação das Escrituras, o teólogo peruano, nascido em 1928, publicou, em 1971, a sua Teologia da Libertação. Com as lentes do marxismo, passou ele a ensinar que a missão da igreja é libertar o oprimido do sistema capitalista. E, para fundamentar sua tese, foi buscar os exemplos mais improváveis e inapropriados nas Escrituras, como se Moisés e o próprio Cristo fossem tão comunistas quanto Lênin e Stalin. No ano seguinte, o teólogo brasileiro Leonardo Boff lançaria o seu Jesus Libertador.

Na construção da teologia comunista, não deixaram de contribuir também alguns teólogos protestantes como o alenão Jürgen Moltmann (1026-), com a sua Teologia da Esperança. Infelizmente, algumas igrejas evangélicas históricas, no Brasil, acabaram por aderir à cristologia marxista. Algumas, sem o saber; outras, premeditadamente. Há que se mencionar, ainda, o influente teólogo batista norte-americano Harvey Cox, autor de A Cidade Secular.

Se alguma cristologia é possível, a partir da Teologia da Libertação, não é certamente a do Novo Testamento. Desse arremedo todo, saiu um cristo caricato, blasfemo e tão esquerdista quanto os marxistas que infelicitaram a Rússia, a Coreia do Norte, Cuba e, mais recentemente, a Venezuela. Sim, querido e inconformado leitor, o cristo que daí ascende nada tem a ver com o Jesus do Calvário. Em nada difere de Fidel, Che e de outras figuras bem conhecidas dos brasileiros.

Não precisamos da Teologia da Libertação, para corrigir as desigualdades sociais. Homens como Martinho Lutero, João Wesley e Robert Raikes, ao proclamarem a Palavra de Deus tal como no-la confiaram os profetas hebreus e os apóstolos de Jesus, fizeram mais pela humanidade do que Marx e Lênin. 
O irmão Raikes, por exemplo, levou o Reino Unido a experimentar a maior revolução espiritual, moral e social do século 18. Ao fundar a Escola Dominical, no dia três de novembro de 1783, demonstrou que as crianças de rua podiam ser plenamente recuperadas pelo Evangelho de Cristo, sem que nenhum sangue precisasse ser derramado. A partir daí, o Reino Unido começou a experimentar um progresso extraordinário em todas as áreas. Aliás, foi com a Escola Dominical que teve início o ensino público obrigatório nas ilhas britânicas.

Se a França contasse com uma escola como a do irmão Raikes, não teria arcado com as consequências desastrosas de sua revolução. Enquanto as crianças inglesas frequentavam a Escola Dominical, as francesas eram mortas por um movimento insuflado por homens que nenhum valor emprestavam à Bíblia Sagrada.           

Certa vez, Jesus viu-se constrangido a evadir-se, para que o povo não o aclamasse rei (Jo 6.15). Isso aconteceu após o Mestre Divino ter alimentado quase cinco mil pessoas com os cinco pães e os dois peixinhos de um rapaz. Se o Filho de Deus fosse um desses demagogos, que, a cada sinal de crise, aparecem para infelicitar ainda mais a América Latina, teria ele confiscado os pães e os peixinhos daquele garoto, para estatizá-los. Em seguida, racionaria cada naco de pão e farelo de peixe.

O meu Cristo não é comunista. Todavia, Ele morreu por todos igualmente, a fim de que, junto a Ele, usufruíssemos de uma doce e indelével comunhão.

A Teologia da Libertação nada tem a ver com o Senhor Jesus. A palavra de Cristo, sendo a mais elevada verdade, traz a libertação completa da alma (Jo 8.32). Em sua obra redentora, o único sangue que teve de ser derramado foi o dele, não o de seus discípulos. Que contraste com os tiranos que, embalados pelo marxismo, dizimam suas gentes em nome de uma ideologia perversa, demoníaca e já satânica. Definitivamente, a cristologia da Teologia da Libertação jamais libertará o ser humano de sua real miséria: o pecado. Enquanto isto, nós proclamamos que Jesus Cristo salva, batiza com o Espírito Santo, cura os enfermos, opera sinais e maravilhas e, em breve, levar-nos-á para o Céu.

Eu amo o Cristo da Bíblia!

2 comentários

Claudionor de Andrade

Queridos irmãos, muito obrigado por suas palavras de incentivo. Por favor, orem por mim, para que Deus me continue a abençoar.

Misael Lopes

Excelente texto! O Pr. Claudionor de Andrade é um exímio escritor. Admira-me muito a forma como seus textos são redigidos. Além de ter uma variante linguística apreciável, ele é um teólogo comprometido com a verdade das Escrituras. Deus seja louvado!

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Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

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