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Pr. Claudionor

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As armadilhas das utopias

Qui, 05/07/2018 por Claudionor de Andrade

Vinha ouvindo, em meu carro, dia desses, A Utopia de Thomas More.  O locutor interpretava tão bem o texto, que eu tinha a impressão de ter, ali, bem ao meu lado, o próprio autor a narrar a sua estadia no país onde nada podia dar errado. Logo de início, reparei que ele lavrava um protesto velado, e quase sutil, contra as injustiças sociais que degradavam a Inglaterra do século XVI.
 
Sempre atento ao trânsito, continuei a ouvir o filósofo e chanceler inglês. E, de sua impressionante narrativa, vim a sintetizar o óbvio: o que ele não encontrava na Inglaterra, parecia ter achado naquele Estado Ideal. A sua Utopia, segundo ouvi dizer, era uma descrição romântica do então recém-descoberto arquipélago de Fernando de Noronha. Dizem ainda que Thomas More (1478-1535) teria se inspirado na descrição que Américo Vespúcio fizera das admiráveis ilhas nordestinas. E, assim, veio o pensador a concluir que um lugar tão belo e aprazível seria o cenário perfeito para uma sociedade igualitária, justa e harmônica.
  
Fernando de Noronha, porém, não seria ocupado pela sociedade sonhada pelo trágico ministro de Henrique VIII. A partir de 1737, o paradisíaco arquipélago passou a ser usado, pelo governo colonial português, como presídio. E, nessa condição, permaneceria até 1942. Em 1938, o governo Vargas utilizou aquelas ilhas, que hoje pertencem ao Estado de Pernambuco, como prisão, na qual eram encerrados os inimigos do Estado Novo. A Utopia de Thomas More veio a transformar-se numa distopia. Não é exatamente isso o que ocorre nos países comunistas? Hoje, sonho; pesadelo, amanhã.

Além de Thomas More, apareceram outros poetas e prosadores utópicos. Estes ocuparam-se com a política. Aqueles distraíram-se com a ecologia. E, aqueloutros, brincaram com a religião. Quanto a mim, consolo-me com a cidade arquitetada e construída por Deus; não há outra igual. A Jerusalém Celeste é tão real quanto o restante da criação divina.  

Depois de ouvir A Utopia de Thomas More, pus-me a escutar A Cidade do Sol de Tomás Campanella (1568-1639). À semelhança do filósofo inglês, o pensador italiano descreve-me uma sociedade perfeita. Seu país, localizado no misterioso Oriente, é governado por um príncipe-sacerdote chamado Sol. Ele é auxiliado por outros três potentados: Pon, Sin e Mor, respectivamente a Potência, a Sapiência e o Amor. Nesse Estado, todos se guiam pela razão. Ali, não há propriedade privada, pois esta, segundo ele, sempre acaba por gerar desinteligências e guerras. O país de Campanella é uma perfeita república comunista; teoricamente, funciona; na prática, uma tragédia. 
 
Antes de More e de Campanella, o filósofo grego Platão (428-347 a.C) parece ter sido o primeiro escritor a imaginar uma sociedade perfeita. Em A República, o celebrado pensador discorre sobre uma cidade-estado governada de maneira racional e lógica. O seu rei não é um mero político, mas um filósofo singular, cuja missão precípua é guiar, racional e logicamente, seus ignaros e trevosos súditos. Se dirigidos pela razão, todos serão capazes de dominar seus instintos e reprimir o egoísmo. Assim, os interesses individuais subordinar-se-ão ao Leviatã de Thomas Hobbes. Logo, na República de Platão não há lugar à propriedade privada; ninguém é dono de nada, nem do próprio ser é dono.

Inflamado por seu ideal, Platão vai à Sicília, em 388 a.C., onde busca convencer o tirano de Siracusa a adotar-lhe a cartilha política. Mas, conquanto muito se esforçasse, não logrou transformar Dionísio I num rei-filósofo. Irritado, o déspota mandou encarcerar aquele primevo ideólogo comunista. Não fosse a intervenção de um discípulo abnegado, Platão haveria de terminar seus dias numa senzala de Esparta. 

Desalentado, o romântico filósofo conclui que o diálogo de Górgias não passava de um monólogo votado ao fracasso. Mas, neste ponto, a pergunta é quase inevitável: “Qual o perfil de um rei-filósofo?”. Acredito que Joseph Stalin (1878-1953) preencheria todos os requisitos platônicos. O ditador soviético era racional, lógico, culto, falava diversos idiomas, fazia poesias e cantava razoavelmente bem. Todavia, foi o responsável por 20 milhões de assassinatos. Já ouvi falar em cifras bem mais elevadas.     

Alguns visionários e oportunistas, servindo-se dessas utopias, criaram infernos apavorantes. Haja vista o que vem acontecendo na Coreia do Norte. Fundada por Kim Il-Sung (1912-1994), a nação comunista foi estabelecida sob a proteção da ex-União Soviética, para ser uma vitrine comunista, no Oriente, com o objetivo de seduzir os incautos do Ocidente. 

Como encantar-se com um país que, além de condenar milhões de seus filhos à fome, priva o restante das liberdades mais comezinhas? Ali, milhares de crianças perecem de desnutrição crônica, enquanto os dirigentes vermelhos banqueteiam-se e caçoam do povo. E ai de quem ousa fugir daquela terra, que, segundo o seu governo, abriga o povo mais feliz de todos os tempos. 

Ensaiando uma peça cômica, muitos norte-coreanos arriscam-se a cruzar a fronteira com a China, em busca de um pouco de liberdade. Seria como passar do fogo para a fornalha. 

Fundados em bases ideologicamente utópicas, os países comunistas transformaram-se na pior das distopias. Não quero, com isso, sublimar a democracia. Entretanto, sem ela não estaria, agora, a escrever estas linhas. Enquanto organizo este parágrafo, pergunto-me o que fariam Platão, More e Campanella se pudessem ver em que redundaram suas fantasias. Na ex-União Soviética, os que ousavam discordar do regime eram amontoados nos gulags. Basta ler o relato biográfico de Alexander Soljenítsin (1918-2018), para se ter uma ideia do sonho marxista.

Adolescente ainda, procurei ler alguns escritos de Karl Marx (1818-1883). Mas não consegui avançar além de duas ou três páginas. Que livro cansativo e frustrante. Vim a saber, depois, que nem o próprio Lênin (1870-1924), fundador da ex-União Soviética, achava agradável aquela leitura. No entanto, quando abro a minha Bíblia, deparo-me, não com utopias e sonhos; deparo-me com a realidade de um encontro pessoal com o Senhor Jesus Cristo. Através de sua morte e ressurreição, escancarou-nos Ele os portais da vida eterna.

O que é uma utopia? Um não lugar. Mas a Jerusalém Celeste é um lugar real; é a cidade que nos aguarda. O melhor dessa cidade é que o Senhor Jesus Cristo estará para sempre conosco.

5 comentários

JOSE SEBASTIAO ALVES

Excelente reflexão, não estamos na expectativa de viver sonho. Mas sim a realização de uma promessa.

Rikelmy Rodrigues Lima da Silva

Glória a Deus.

Sérgio Luís

A paz do Senhor, amado pastor. Texto como sempre muito bem elaborado, e abençoador. "Eis aqui, o que tão-somente achei: que Deus fez ao homem reto, porém eles buscaram muitas astúcias." Eclesiastes 7:29

Leandro Gomes da Rocha

Amado Pastor Claudionor de Andrade, Paz do Senhor! Texto belíssimo, mostra-nos a suprema incoerência desse sistema satânico que é o comunismo e quão grande é a incompatibilidade com a Razão da nossa existência, Cristo Jesus. Sempre ao lê-lo deleito-me com a sua escrita, que o Altíssimo lhe abençoe cada vez mais! No amor de Cristo, Leandro Gomes da Rocha

Levi Martins

Que maravilha de texto, querido Pastor Claudionor. Tomo a liberdade de compartilhá-lo em minhas mídias sociais. Obrigado por escrever tão brilhante texto.

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Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

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