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Pr. Claudionor

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Star Trek e o ateísmo pós-moderno

Seg, 18/06/2018 por Claudionor de Andrade

Antes mesmo de a Apolo 11 pousar na Lua, a Enterprise de Gene Roddenberry (1921-1991) já havia cruzado a fronteira final. Em 1966, o roteirista e produtor norte-americano inaugurou a franquia de Star Trek, na rede de televisão NBC, com uma série de três temporadas. Apesar dos recursos minguados, a produção decolou; foi além do espaço profundo. De repente, os espectadores viram-se na posição de expectadores. Agora, não se limitavam a assistir as aventuras do capitão James T. Kirk; almejavam, agora, representar a Federação Unida de Planetas, nas galáxias mais distantes e desconhecidas.
O que era ficção já beirava à alucinação.

Neste trecho de nossa jornada nas estrelas, você já deve estar perguntando, querido leitor, por que um teólogo se interessaria por uma série de ficção científica. Afinal, Star Trek não fala de religião nem de credos. Não mostra sinagogas nem mesquitas; nem igrejas chega a mostrar. Ela sequer faz referência ao Cristianismo. Então, por que despender energia e tempo com algo tão disteológico? Não seria mais racional deixar este assunto com os críticos de cinema?
O que mais me chamou a atenção, no referido entretenimento, foi justamente a sua arrogante indiferença aos assuntos espirituais. Na verdade, Star Trek não é tão disteológica quanto aparenta; nas entrelinhas de seus roteiros, é ateológica e nietzschiana.

Se atentarmos à metalinguagem de Star Trek, constataremos algo perturbador; sutilmente, anuncia a morte de Deus. O Sr. Roddenberry precisou apenas de um episódio de cinquenta minutos, para destruir toda a religiosidade humana. Segundo o seu vaticínio, na data estelar 1513.1, já não haverá qualquer manifestação teológica ou mística no Cosmo. O século 23 será irreligioso; enfim, teremos o homem como a medida de todas as coisas espirituais, morais, éticas e físicas.
A data estelar, a propósito, foi criada pelo historiador e filólogo francês Joseph Julius Scaliger (1540/1609).

De forma sutil e mui sagaz, Roddenberry e seus roteiristas lograram mostrar, sem alarmar os apologetas cristãos, que, daqui a duzentos anos, o Cristianismo será apagado da mente e do coração da humanidade. O que Lênin, Stalin, Mao Tse-tung e Fidel Castro não conseguiram, o criador de Jornada nas Estrelas obteve num único episódio. Ele sequer teve de imprimir a dobra máxima, em sua nave, para fugir aos sentimentos religiosos que, desde Adão e Eva, vêm constrangendo o ser humano a olhar para cima, a fim de contemplar a glória de Deus.

Já que estamos nos limites do quadrante Beta, você deve estar indagando, meu querido e paciente leitor, como cheguei a tal conclusão.

A fim de responder a esta pergunta, farei outra: Como tipificar uma nave que sai para uma jornada de cinco anos, para explorar o desconhecido, sem ter, entre os seus tripulantes, um único capelão? Na Enterprise não há pastor nem rabino e nem padre. Isso não é normal numa missão rumo ao ignoto. Quando da descoberta do Brasil, em 22 de abril de 1500, havia vários religiosos a bordo das naus portuguesas, entre os quais, o frei Henrique de Coimbra, que oficiou a primeira missa católica em solo brasileiro (1465-1532).

Se formos às embarcações batizadas de Enterprise, certificaremos que cada uma delas tinha, e jamais deixará de ter, os seus capelães. No porta-aviões, que leva este nome, o primeiro da classe movido a energia nuclear, havia uma capela ecumênica e, pelo menos, quatro ministros religiosos: um protestante, um católico, um judeu e um muçulmano. Mas na Enterprise do capitão Kirk, não há capela nem capelão; em sua jornada, ele faz questão de reafirmar a preposição ímpia e blasfema de Nietzsche: se Deus ainda não morreu, daqui a dois séculos e meio, o seu óbito já estará lavrado.

Agora que já estamos prestes a entrar no quadrante Gama, cabe-nos outra pergunta. Se, na Enterprise de Star Trek, não há representação religiosa, como o imperturbável capitão Kirk lida com as tensões espirituais, morais e psicológicas de seus comandados? Sim, porque tais problemas não podem ser resolvidos pelos avanços tecnológicos. Antes, quanto mais se avança em ciência, mais se avança em tristezas e depressões. Não foi o que ressaltou o Eclesiastes?

Para contornar os conflitos humanos, o Sr. Roddenberry criou vários engenheiros da alma humana. O primeiro deles foi o Sr. Spock, oficial de ciências da primeira Enterprise. Natural do planeta Vulcano, ele fora educado a viver pela lógica pura; a razão para ele é a solução para todos os problemas do Universo. Nesse personagem, observamos uma tentativa de se ressuscitar o Iluminismo do Século XVIII, conhecido como a era da filosofia.

Mas, o que de fato gerou o Iluminismo? A sanguinolenta Revolução Francesa (1789-1799) e o sangrento Maximilien François Marie Isidore de Robespierre (1758-1794). Trazendo sempre à mão o Contrato Social de Rosseau, o cidadão Robespierre comprazia-se em condenar seus compatriotas à guilhotina. É claro que o Sr. Spock, nessa linha ficcional, jamais cometeu qualquer atrocidade; não lhe seria nada lógico. Todavia, sua crença na razão em nada diferia do credo de Robespierre. Fazendo as vezes de capelão da nave, tinha a sua própria teologia; acreditava que somente a razão pode dar-nos “vida longa e próspera”, uma antiga bênção rabínica. Essa era a religião da primeira Enterprise.

Já na série Star Trek, a Nova Geração, lançada em 28 de setembro de 1987, com 27 milhões de espectadores, o personagem que atuava como capelão já não era um vulcano, mas a empata Deanna Troi. Na ficção, a aventura ocorre 100 anos depois da narrativa da série original. Agora, a nova Enterprise já não está na era da razão. Contaminados pelo pós-modernismo, seus tripulantes trocam o objetivismo de Spock pelo subjetivismo da conselheira Troi.

Nessa mesma série, a tecnologia já não aparece como algo distante e dissociado da humanidade. No personagem Data, um oficial cibernético que interage (às vezes, hesitantemente) com os demais a bordo, os roteiristas realçam que, no futuro, a máquina, ao adquirir autoconsciência, experimentará as mesmas questões da existência humana. O comandante Data, porém, está tranquilo; a conselheira Troi tem receitas e simpatias infalíveis até mesmo para o seu cérebro positrônico.

A incongruência dessas séries causa estranheza. Ainda que se mostrem irreligiosas, são tão religiosas como qualquer filme confessional. Em seus enredos, há mensagens da Nova Era, recados do espiritismo, reinserções mitológicas e repaginações de crenças animistas. Na Enterprise, de fato, não há capelão evangélico. Mas, em cada episódio, há sempre um medianeiro de cada uma dessas vertentes místicas e contrárias à Bíblia Sagrada, a inspirada e inerrante Palavra de Deus.

Suponhamos que, daqui a 200 anos, seja construída uma cosmonave semelhante à Enterprise. Os que viverem nessa época verão, entre os seus tripulantes, um capelão temente a Deus que, feliz ao contemplar o espaço, lerá o Salmo 19. Ainda que essa nave imprima a dobra máxima de sua velocidade, jamais alcançará o pioneirismo; nunca chegará ao lugar onde homem algum jamais esteve. Porque nesse lugar de venturas, já se encontram Enoque e Elias. E, muito em breve, lá estará também a Igreja de Cristo. Quanto aos discípulos de Gene Roddenberry, ainda que se avizinhem das últimas raias do espaço, que não se esqueçam desta advertência do Senhor: “Se te remontares como águia e puseres o teu ninho entre as estrelas, de lá te derribarei, diz o SENHOR” (Ob 1.4).
Via de regra, os autores de ficção científica não levam em conta esta proposição básica: o espaço, embora pareça vazio, é preenchido pelo Criador de todas as coisas. E, se algum dia, alguma Enterprise ameaçar os limites do Cosmo, terá de reconhecer que os Céus e a Terra pertencem ao Senhor, pois Ele tudo criou, inclusive a fronteira final.

Enfim, já chegamos ao quadrante Delta; o lugar mais longínquo alcançado por uma nave da série Star Trek. A Voyager, aí aventurando-se, viu-se em grandes dificuldades para achar o caminho de casa. Nesse quadrante, concluímos que tais ficções não passam de alucinações. Daqui a duzentos, ou trezentos anos, se o Senhor Jesus não tiver ainda arrebatado a sua Igreja, o Evangelho estará em cada confim da Terra e a Palavra de Deus em cada quadrante do espaço. E se a Enterprise rumar para o desconhecido, ali haverá um capelão a professar o nome de Jesus Cristo. Entretanto, somente a Igreja chegará onde homem algum jamais esteve: a Jerusalém Celeste. É uma viagem que vai além do Sol e da Galáxia mais longínqua.

Se as naves do Sr. Gene Roddenberry só lograram alcançar o quadrante Delta, o Senhor Jesus vai do quadrante Alfa ao Ômega sem impedimento algum. Sim, querido leitor, somente Ele é o princípio e o fim de todas as coisas.

7 comentários

Adriel David

Prezado Pastor, paz do Senhor. Sou crente da Assembleia de Deus. Confesso que sou fã das séries e filmes de jornada das estrelas. Gosto de ficção científica e admiro em jornada nas estrelas o senso de cooperação e importancia de trabalho em equipe pra solução de problemas. Admiro a elevada moralidade (ironicamente baseada na ética judeo cristã). Porém reconheço que infelizmente a série sofre com a influência do ateísmo de seu criador. Como o sr falou, tendo uma nave espacial, lá haverá cristãos

Claudionor de Andrade

Queridos irmãos: A paz do Senhor, Obrigado pela acolhida aos meus artigos. Devo a minha inspiração ao Senhor Jesus Cristo que, apesar de nunca ter escrito um livro, neste mundo, inspirou, além do Livro dos livros, as grandes obras da literatura universal. Refiro-me a livros como O Peregrino de John Bunyan. Querido Allan, Jesus não esqueceu você. Ele o ama muito. Lembre-se disso. Desde já, estou orando por você. Irmãos, orem por mim. Irmão Claudionor

Rosimaura

Excelente !!!!

Allan de Oliveira

Boa Tarde! Adorei o artigo, fiquei deslumbrado! Sou ex-cristão, mas mesmo não sendo mas crente em um Deus como supremo, e sim tendo a Natureza como Deus, a sabedoria, a razão; como defende os grandes filósofos gregos, como também Sêneca e Espinosa, não posso deixar de ficar triste com pessoas que desejam eliminar a religião e a base de vida das pessoas que é a fé!

aparecido massini

meu amado pastor em cristo jamais viria desta forma mais com a sua visão acho que compreendi um pouco a sua visão na verdade uma ficção eles queirão mostrar o fracasso do evangelho mas e como o senhor disse o nosso Deus ele e o incio meio e o fim muito bom a paz do senhor pastor

sergio luis

Amado pastor, a paz do Senhor. Bela analogia,Especialmente, a referencia a Enoque e Elias. O inimigo usa de sutilezas para propagar seus intentos(Gen.3:1-7)) Porém o Senhor se tem um escape para o seu povo.(vers. 14 e 15) Que Deus nos guarde, e continue usando homens como o amado pastor, para alertar ao seus nestes trabalhosos dias.Amém.

Luciano Lourenço

Pr. Claudionor de Andrade, você é um gênio. Parabéns por esta apresentação.

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Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

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