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Pr. Claudionor

Pr. Claudionor

Um presente inestimável

Qua, 23/05/2018 por Claudionor de Andrade

Se bem me lembro, o episódio de minha vida, que passo a narrar, ocorreu em 1967. Nessa época, eu não era nem criança nem adolescente; era apenas um menino de 12 anos, um tanto sem jeito e acaipirado. Sim, querido leitor, num dia ainda bastante saudoso desse tempo, apareceu, lá em casa, minha querida tia Joanita. Sorridente e despachada, carregava três livros. O primeiro era o Novo Testamento traduzido por Mateus Hoepers. O segundo refletia as ânsias da Guerra Fria: A Luta pela Paz, de Eleanor Roosevelt, primeira dama dos Estados Unidos de 1933 a 1945. Quanto ao terceiro, trar-me-ia alguma resposta acerca da ciência: O Que Faz Um Cientista, de autoria do historiador norte-americano George H. Waltz Jr.

Sem muita cerimônia, ela entregou-me os três volumes, com uma recomendação bastante explícita: “Leia-os. Mas não se esqueça: são emprestados; voltarei a buscá-los. Cuide bem deles”.

Não sei que livro li primeiro. Talvez, haja lido os três ao mesmo tempo. Até hoje, não consigo ler apenas um livro de cada vez. Por isso, separo cinco ou seis, para dar maior dinamismo ao meu programa de leitura. À minha cabeceira, conservo uma teologia sistemática, uma gramática, uma história universal, uma biografia e um bom representante da língua portuguesa.

O certo é que li os três livros. Ao terminar o terceiro, lá estava a tia Joanita para reavê-los; devolvi-os em perfeito estado de conservação.

Já esqueci o conteúdo do segundo e do terceiro livros. Até hoje, não sei por que a Organização das Nações Unidas ainda não aprendeu a lutar pela paz. Também não sei exatamente o que faz um cientista. No entanto, jamais esquecerei o primeiro livro. Desde aquele exemplar finamente ilustrado do Novo Testamento, a Bíblia jamais me saiu das mãos.

Hoje, estudo-a sistematicamente nos originais hebraico e grego, cotejando cada leitura com as versões clássicas das Escrituras em francês, italiano, inglês, alemão, espanhol e russo. Embora eu não seja fluente nesses idiomas, posso garantir que o Espírito Santo supervisionou as traduções da Palavra de Deus de tal forma, que não há diferenças substanciais entre elas. Infelizmente, algumas versões atuais da Bíblia Sagrada são um desserviço ao Reino de Deus. Por esse motivo, mantenhamo-nos alertas e vigilantes, para que Satanás, sempre astuto e oportunista, não utilize a filologia sacra a fim de deturpar a mensagem da cruz. 
Apesar de eu ter acesso à Bíblia em vários idiomas, o meu devocional diário faço-o na bela, doce e inconfundível língua portuguesa. O idioma materno é o nosso referencial mais afetivo; é a nossa pátria; faz com que nos sintamos em casa. Nesse ponto, não ouso discordar de Fernando Pessoa. Sempre que folheio a minha Bíblia, tenho a impressão de ouvir os patriarcas, os profetas, os apóstolos e o próprio Cristo no mais puro e castiço português.

É maravilhoso ouvir o Senhor Jesus pronunciar o Sermão da Montanha em nosso vernáculo. E as cartas de Paulo? Mesmo sabendo que o apóstolo escreveu-as em grego, todas as vezes que as leio, parece-me que ele redigiu-as no idioma de Camões. Que me desculpem os gramáticos e filólogos. Mas, para mim, nossa língua faz-se realmente bela nos lábios de Moisés, nos papiros de Isaías, na dicção suave do Mestre e na pena de Lucas.

Já imaginou, querido leitor, se o povo brasileiro tivesse como fundamento histórico-civilizacional a Bíblia Sagrada? E se, quando de nosso achamento, os bravos e nobres colonizadores lusíadas houvessem estabelecido a Palavra de Deus como o livro de texto de nossa civilização?

Em seu livro Bandeirantes e Pioneiros, o autor gaúcho Viana Moog (1906-1988) traça um paralelo entre as civilizações brasileira e a norte-americana. Enquanto os Estados Unidos foram educados pela Bíblia do Rei Tiago, o Brasil foi amordaçado por uma religião que não dava, aos seus fiéis, qualquer acesso às Sagradas Escrituras.

O catolicismo lusitano, mais folclórico que teológico e mais místico que espiritual, supunha que a celebração da missa e os sacramentos eram suficientes, em si mesmos, para salvar a alma do colono, o espírito do índio e o coração do africano. Por isso, não se preocupava em colocar a Bíblia nas mãos de nossos antepassados. Estes que se conformassem ao latim eclesiástico. Nem mesmo homens esclarecidos, como o padre Antônio Vieira, intentaram traduzir a Palavra de Deus para o português. Quanto à tradução de Almeida, por ser este protestante, era considerada abominação pelo clero romano. Tal postura trouxe-nos atrasos, retrocessos e trevas. 

Pelos motivos já assinalados, pouco ou quase nada avançamos até 1808. Aliás, data desse ano a instalação da primeira gráfica em terras brasileiras; uma das benesses da transferência da corte real de Lisboa ao Rio de Janeiro. Por intermédio de um decreto régio, foi autorizada a implantação de nossa primeira tipografia.

Nos Estados Unidos, a indústria gráfica chegara em 1639, decorridos apenas 18 anos após o ingresso dos pioneiros em Plymouth Rock, no atual estado de Massachusetts. No ano seguinte, foi impresso o primeiro livro em solo americano, cujo título reflete o compromisso dos Pilgrims com a Bíblia Sagrada: The Whole Book of Psalmes Faithfully Translated into English Metre (O Livro Completo de Salmos Fielmente Traduzido para o Inglês).

Hoje, graças a Deus, o Brasil destaca-se como um dos maiores distribuidores da Bíblia Sagrada. Em 2014, o nosso país ficou em primeiro lugar nesse abençoadíssimo ranking.

Ao redigir estas linhas, veio-me uma curiosidade. Quantos exemplares da Bíblia Sagrada já foram impressos? De acordo com a Christian Retailing Magazine, a Bíblia Sagrada continua em primeiro lugar como o livro mais vendido da História, com uma cifra que pode chegar a seis bilhões de exemplares. O Corão, o livro sagrado dos muçulmanos, fica em quarto lugar, com oitocentos milhões de unidades, precedido por Harry Potter e pelo Livro Vermelho de Mao Tse-Tung, com um bilhão de impressões cada um.

Certamente obras como Harry Potter e o Livro Vermelho não demorarão a cair no esquecimento. Ainda que conservem suas admiráveis marcas, não serão procurados como o foram quando de seu lançamento. Em 2017, por exemplo, a saga Harry Potter vendeu apenas 49 mil exemplares em nosso país. No mesmo período, a Sociedade Bíblica do Brasil imprimiu e distribuiu 8 milhões e 600 mil exemplares das Sagradas Escrituras. Quanto ao Livro Vermelho de Mao Tse-Tung, o que posso dizer? Tornou-se um mero souvenir. Se alcançou a fabulosa cifra de um bilhão de exemplares, foi devido à sua impressão e à sua leitura compulsórias na China e noutros países comunistas. O mesmo governo que proibia a leitura da Bíblia Sagrada obrigava a sua população a consumir aqueles “memoráveis” ditos do “Grande Timoneiro”. Hoje, graças a Deus, a China é um dos países que mais imprimem a Bíblia no mundo.

Vejamos o caso do Corão. Apesar de seus 800 milhões de exemplares e de seu 1 bilhão e 200 milhões de adeptos, o livro sagrado dos muçulmanos ainda não foi impresso em número suficiente para que cada um de seus seguidores tenha um exemplar. Segundo a dogmática islâmica, essa obra só é eficaz se lida no original: o árabe do século 7 d.C. – uma língua ininteligível, hoje, até mesmo à comunidade arabofônica. Logo, uma tradução em português não pode ser tida como a palavra genuína de Alá.

Li recentemente o Corão. Trata-se de uma obra repetitiva e contraditória. Definitivamente, o Alá apresentado naquelas páginas não é o mesmo Alá dos cristãos árabes. Trata-se de um deus descrito de acordo com a imagem e semelhança de Maomé. Um deus, aliás, que jamais amaria o mundo de tal maneira, porque nem filho tem esse deus; o islamismo não pode imaginar tal filiação. Portanto, o Jesus corânico nada tem a ver com o Nazareno; é um islâmico modelo; não tem poder nem autoridade para salvar. Um Jesus inferior a Maomé. Definitivamente, não é o Filho do Deus Vivo que se deu na cruz para salvar-nos do pecado e do inferno.

Mas quando, aos 12 anos de idade, peguei o Novo Testamento que me emprestou a tia Joanita, outra foi a minha impressão. Já no primeiro capítulo de Mateus, fui apresentado não a um mero fundador de religião, mas à própria religião, que, segundo Tiago, é pura e imaculada (Tg 1.27). Sim, querido leitor, Jesus Cristo não veio trazer uma nova religião; antes, fez-se carne para revelar-nos a verdadeira e única religião: a união plena entre Deus e o homem, porque somente Ele foi e é Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem. Por isso, não tive dificuldades em aceitar ambos os Testamentos como a inspirada, a inerrante, a completa e a eterna Palavra de Deus.

Tendo em vista a minha experiência com a Palavra de Deus, senti-me tocado a escrever este artigo, com o objetivo de apresentar a Bíblia Sagrada como o único livro genuinamente divino e genuinamente humano. À semelhança de Jesus Cristo, que é a Palavra Viva de Deus, a Bíblia é tão humana quanto o homem e tão divina quanto Deus. Assim como existe somente um Único e Verdadeiro Deus, que subsiste nas pessoas eternas do Pai, do Filho e do Espírito Santo, assim também existe apenas e tão somente um único livro, cuja natureza é verdadeiramente divina e verdadeiramente humana: a Bíblia Sagrada.

4 comentários

José Robert

Muito bom 👏🏼👏🏼Pastor que Deus continue te abençoando sempre para nos ajudar com suas palavras sábias ,sempre faço questão de parar tudo e ler os artigos ........ São edificantes

Israel

Parabens pastor. Um erudito de Deus

Lucas de Andrade Quirino

Glória a Deus por Sua santa e bendita Palavra!

Jessé

A paz do Senhor. Muito me agrada ler um texto do amado Pastor! Sempre nos inspirando. Que Cristo Jesus continue o abençoando!

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Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

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