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Pr. Claudionor

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A Excelência do Método Canônico (IV)

Ter, 19/09/2017 por Claudionor de Andrade

O PRESSUPOSTO HISTÓRICO

Em junho de 2013, achava-me internado num hospital do Rio de Janeiro, quando, certa tarde, recebi a visita de um enfermeiro. Ali estava, explicou-me ele gentilmente, não para administrar-me qualquer medicação, mas para falar-me de seu trauma como estudante de teologia. Sem perder tempo, relatou-me que um de seus professores, depois de alertá-lo de que, naquele seminário, não se perdia tempo com oração, nem com a leitura devocional da Bíblia, aconselhou-o a descartar, como história verídica, os onze primeiros capítulos do Gênesis. Tal postura, aos olhos daquele mestre, segundo pude depreender das palavras do esforçado profissional da saúde, era sinal de maturidade teológica.

Diante de um quadro tão catastrófico, só me cabia uma coisa: aconselhá-lo a deixar aquela instituição de ensino imediatamente e, sozinho, longe de tais professores, mas sempre com a ajuda do Espírito Santo, pôr-se a meditar nas Sagradas Escrituras. Louvo a Deus, todavia, pelas escolas teológicas que ainda primam pela ortodoxia bíblica.

Ao estudar a Bíblia, pelo método canônico, eu jamais deixei de partir deste pressuposto: as Sagradas Escrituras são um livro histórico confiável e digno de toda a aceitação.

1. A linguagem da Bíblia é histórica. Ao contrário do estilo poético do autor da Epopeia de Gilgamesh, lenda suméria do segundo milênio antes de Cristo, o autor do Gênesis inicia a narrativa sagrada, afirmando claramente, que, “no princípio, criou Deus os Céus e a Terra” (Gn 1.1). Decorridos 15 séculos, desde a redação do primeiro livro do Antigo Testamento, o Senhor Jesus, ao inaugurar o Testamento Novo, atesta a veracidade histórica da obra mosaica (Mt 19.4,5). O que disto se conclui? Antes de tudo, que estamos diante de fatos verídicos, não de estorinhas da carocha.

Os profetas e apóstolos, instados por Deus a narrar a História Sagrada, não o fizeram pela poesia quimérica e frívola do paganismo. Mas, guiados pelo Espírito, utilizaram-se eles de uma prosa realista, consciente e verdadeira; um estilo mais afeito à historiografia. Assim, ao longo de 1600 anos, reconstituíram fielmente os atos divinos. Isso não significa que a prosa bíblica esteja destituída de poesia, nem que os hagiógrafos não sejam também poetas. Aliás, é justamente na Bíblia, que encontramos os versos mais altos e sublimes. Homero e Hesíodo já não contaram com tal suporte. Por isso, grotescamente divinizaram o humano, e, bizarramente, humanizaram o divino.

Se os profetas hebreus retrataram os homens como entes meramente humanos, os poetas gregos, para redimensionar a própria gênese, pintaram meros humanos como se fossem deuses. E, dessa forma, sempre em busca de glória, mitologizaram Aquiles e Héracles; até Heitor foi por eles mitologizado. Apesar de todos esses flagrantes exageros, Aristóteles não se pejou em chamá-los de teólogos. Nesse particular, não sei quem é mais inapropriado: o filósofo grego, ou nós, que, de posse do mesmo vocábulo, outorgamos generosamente o título aos que se consagram às ciências divinas.

2. As evidências históricas. Não vejo os acadêmicos pós-modernos questionarem os relatos de Heródoto (485-430 a.C.), as narrativas de Tucídides (460-411 a.C.) e as exposições de Suetônio (69-141 d.C.). Todavia, quando se põem a dialogar com a Bíblia, exaltam-se tanto, que fazem de sua arenga um monólogo insuportável. Monopolizando o discurso, não permitem o mínimo aparte aos que defendem a historicidade da Bíblia Sagrada.

Que as Escrituras são um livro historicamente confiável, não há dúvidas. Na redação do Pentateuco, por exemplo, Moisés, não apenas inspirado, mas igualmente iluminado pelo Espírito Santo, foi buscar informes e rescaldos em documentos como o Livro das Guerras do Senhor (Nm 21.14) e nos poetas que precederam os literatos hebreus (Nm 21.27).

Quanto à vida e ao ministério de Jesus Cristo, o que podemos dizer? Apesar da procura insana pelo Jesus Histórico que a academia moderna, desde Albert Schweitzer (1875-1965), busca desvincular do Cristo da Fé, o Filho de Deus pode ser encontrado em cada página da Bíblia e em todos os eventos da História. Acerca dessa discussão, alertamos desde já: assim como não podemos separar as naturezas divina e humana de Jesus, de igual modo não devemos separar o Jesus da História do Cristo da Fé, pois semelhante dicotomia é abominável ao Novo Testamento. Existe apenas um Cristo: o autor e consumador de nossa fé.

Os quatro evangelistas, ao narrarem a vida e a obra de Jesus, não o deixam perdido no tempo, nem deslocado no espaço. Eles foram de tal modo criteriosos que Lucas, por exemplo, teve o cuidado de informar, com incrível precisão, que o Filho de Deus veio ao mundo durante o reinado de César Augusto (63 a.C-14 d.C). Sobre a geografia messiânica, pode ser averiguada por qualquer crítico acérrimo e irreconciliável. Portanto, não precisamos sair do Novo Testamento para encontrar o Cristo Histórico, pois o Filho de Deus, ao encarnar-se como o Filho do Homem, fez-se Rei dos reis e Senhor dos senhores.

2 comentários

Wellington Barbosa Gomes

Maravilhoso esse comentário. Que Deus continue lhe abençoado pastor.

Reginaldo Filho

Gloria a Deus!

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Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

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