Colunistas

Pr. Claudionor

Pr. Claudionor

A Excelência do Método Canônico (II)

Seg, 17/07/2017 por Claudionor de Andrade

I. O PRESSUPOSTO FIDEÍSTA
 
Sem fé, não podemos dialogar com os autores da Bíblia Sagrada; diante de seus escritos, não há alternativas intermediárias. Ou cremos que Deus os inspirou, ou neles desacreditamos de vez. A experiência mostra-nos que ninguém, ao abrir as Escrituras, queda-se indiferente e apático. Desse encontro, sairemos crentes, amando o Senhor acima de todas as coisas, ou, incrédulos, negando-lhe sistematicamente a existência e a obra.

A Bíblia requer de cada um de seus leitores, intérpretes e expoentes decisões radicais e, às vezes, sacrifícios supremos. Ela tem autoridade, inclusive, para constranger-nos à morte em defesa da santíssima fé (Jd 1.20). Não bastasse tal perspectiva, encoraja-nos ainda a não amarmos a própria vida (Ap 12.11). Ora, só o Altíssimo pode exigir-nos tais oferendas. Por esse motivo, temos de acreditar, sem hesitação, serem o Antigo e o Novo Testamento a Palavra de Deus. Caso contrário, não nos aventuraremos a morrer por seus ensinos.

Do que acima dissemos, logo concluímos: somente homens inspirados por Deus teriam condições de instar-nos a semelhantes despojamentos, pois eles próprios, convictos de sua chamada, imolaram-se no altar do serviço divino (Hb 11.35-40). Portanto, a Bíblia Sagrada tem de ser, necessariamente, a inspirada, a inerrante e a completa Palavra de Deus. Que ela, pois, seja aceita, obedecida e interpretada fideisticamente. Este é o pressuposto fundamental do método canônico de interpretação das Escrituras.

1. O fideísmo hermenêutico. O fideísmo hermenêutico não abomina a razão, nem repele os instrumentos que ela oferece. Ao invés de desprezá-la como lacaia, ou adorá-la como deusa suprema, os exegetas canônicos sabem como pô-la no lugar mais apropriado. Sendo assim, não a olhemos como a lacaia desprezível, nem como a deusa absoluta e voluntariosa. Vejamo-la tão somente como a criada submissa e dócil, cuja missão é auxiliar-nos a sistematizar os oráculos e doutrinas que nos entesouraram os profetas e apóstolos.

Através desse método, adentremos a Bíblia Sagrada, acreditando amorosa e piedosamente que ela é, de fato, a Palavra de Deus. Se para chegarmos ao seu Autor temos de crer que Ele existe, outra atitude não devemos ostentar em relação ao seu Livro (Hb 1.6). Portanto, se não estivermos certos de que os santos profetas hebreus e os apóstolos de Jesus Cristo falaram inspirados pelo Espírito Santo, jamais agradaremos a Deus, pois tanto estes como aqueles transmitiram-nos, fidedignamente, os arcanos divinos (2 Pe 1.20,21).

Dois personagens bíblicos exemplificam de que maneira devemos apresentar-nos perante a Palavra de Deus. Um é positivo. O outro, além de negativo, é irreverente e cruel. Se um é fideísta, o outro é contrário a fé e inimigo declarado de Jeová.

No capítulo 36 de Jeremias, espantamo-nos com a atitude de Jeoaquim diante das Escrituras Sagradas. Ao ouvir a leitura das advertências, denúncias e lamentações do profeta Jeremias, o rei de Judá deixou-se tomar por uma ira que ia além da irracionalidade. E, agora, já tomado pela loucura, arrebata o rolo sagrado às mãos de Jeudi, um de seus cortesãos mais próximos, corta-o com o canivete de escrivão, e lança-o ao braseiro (Jr 36.20-27).

Essa é a atitude dos que, embora próximos à Palavra de Deus, acham-se distanciados do Deus da Palavra. Desprezando-a, arrebatam-na como propriedade sua. E, manipulando o canivete de uma hermenêutica diabolicamente crítica e pretensamente histórica, põem-se a retalhar os oráculos divinos. Aqui, cortam as promessas; ali, recortam as admoestações. Mais adiante, fatiam as advertências quanto à santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor. Não satisfeitos, ainda sulcam os sinais que anunciam a volta de Nosso Senhor.

O canivete do liberalismo teológico nunca esteve tão afiado. Nestes dois mil anos de peregrinação da Igreja, muitos são os hermeneutas e exegetas, que, zombando de Deus, fracionam-lhe a Palavra. E, da cumeeira de suas inquisições e saberes, lançam-na ao fogo de academias ímpias e custodiadas por Satanás.  

Deixemos, porém, o exemplo do rei de Judá, e concentremo-nos na atitude do Rei dos Judeus e de todos os gentios.

Já exposto à tentação no deserto, o Senhor Jesus dá início ao seu ministério com um sermão na sinagoga de Nazaré, cidade onde fora criado. Num gesto litúrgico, põe-se de pé a fim de ler a Escritura Sagrada. Providencialmente, o guardião do culto entregara-lhe o rolo, no qual se achava o profeta Isaías. Mesmo antes de proferir qualquer elocução, todos ali veem, até mesmo os que se recusam a ver, que, naquele instante, o Verbo conjuga-se com a Palavra (Lc 4.16,17).
Pausado e solene, o Senhor lê os versículos iniciais do capítulo 61 de Isaías. Antes mesmo da exegese do texto, todos já sabem estar perante uma profecia messiânica. Mudo, o Filho demonstra, eloquentemente, proceder do Pai. E, assim, declara o que cada um já sabia. Jesus, pela Palavra, revela a Palavra de Deus, porquanto é a própria Palavra de Deus.

Ao ler a Escritura, Jesus sabia que o profeta falara inspirado pelo Espírito Santo. A partir dessa convicção, o método canônico, fluída e docemente, encarrega-se de revelar o real significado do texto. Ele faz uma exegese viva do oráculo que o seu próprio Espírito inspirara (1Pe 1.10,11). Quanto a nós, se de fato somos imitadores de Cristo, aproximemo-nos da Bíblia Sagrada com igual certeza.  

Antes de o Verbo ir à Palavra, em Nazaré, teve de enfrentar o tentador, que, afeito ao deserto e à mentira, manipulou com expressiva magia o método histórico-crítico. Num primeiro momento, o Diabo induz o Filho de Deus a descrer da própria filiação divina. Na instância seguinte, força-o a abdicar-se de seu trono milenário, para adorá-lo como o deus deste século. Mas Jesus, interpretando canonicamente a Escritura, rebateu, com a Escritura, o mau uso que o Diabo fazia da mesma Escritura. Temos, aí, um dos mais memoráveis embates entre o método canônico e o pós-moderno.

Só utilizará com eficácia o método canônico quem acredita ser a Bíblia Sagrada a inspirada, a inerrante e a completa Palavra de Deus. Se este é o seu caso, ouse declarar como o apóstolo Paulo: “Tendo, porém, o mesmo espírito da fé, como está escrito: Eu cri; por isso falei. Também nós cremos; por isso, também falamos” (2 Co 4.13).

3 comentários

Sérgio Luís

Pr. Claudionor, a paz do Senhor. Gostaria de sugerir que cantassemos e meditassemos no hino 259 da HC.

Antenor de lima filho

Isso que chamo de aula.profundo. Admiro o PR Claudionor de Andrade, Deus continue abençoando.

Geraldo Otaviano da Costa filho

A Paz do Senhor, Palavras muito bem colocadas. O que foi expresso no texto é uma grande verdade: Ou cremos de forma integral e sem reservas na inerrância e completude das Sagradas escrituras ou descremos delas de forma plena também, sabendo bem as consequências das nossas escolhas. Que Deus levantes servos e servas para defender a verdade da palavra de Deus.

Deixe seu comentário







Perfil

Claudionor de Andrade Claudionor de Andrade é Consultor Teológico da CPAD, membro da Casa de Letras Emílio Conde, teólogo, conferencista, Comentarista das Revistas Lições Bíblicas da CPAD e autor dos livros “As Verdades Centrais da Fé Cristã”, “Manual do Conselheiro Cristão”, “Teologia da Educação Cristã”, “Manual do Superintendente da Escola Dominical”, “Dicionário Teológico”, “As Disciplinas da Vida Cristã”, “Jeremias – O Profeta da Esperança”, “Geografia Bíblica”, “História de Jerusalém”, “Fundamentos Bíblicos de um Autêntico Avivamento”, “Merecem Confiança as Profecias?”, “Comentário Bíblico de Judas”, “Dicionário Bíblico das Profecias” e “Comentário Bíblico de Jó”, dentre outros títulos da CPAD.

COLUNISTAS