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Ciro Sanches Zibordi

Ciro Sanches Zibordi

Igrejas que mais parecem boates

Seg, 26/08/2019 por Ciro Sanches Zibordi

Uma das marcas da pós-modernidade é o desconstrucionismo, que chegou ao arraial evangélico mediante certas doutrinas filosóficas, como o pragmatismo, derivado do pensamento de Charles Sanders Peirce (1839-1914), William James (1844-1910) e Oliver Wendell Holmes Jr. (1841-1935). Estes e outros filósofos posteriores investigavam as coisas concretas e criticavam as concepções metafísicas tradicionais.

Pragmatistas se baseiam no conceito de que ideias e atos só são verdadeiros quando servem para a solução imediata de problemas. Ensinamentos e condutas são validados pelo seu bom êxito prático, havendo, assim, uma tendência de trilhar-se caminhos mais fáceis para consecução de pretensos bons resultados. Nesse caso, o que funcionar melhor é o certo; não há compromisso com princípios ou valores; o fim justifica os meios (cf. Mt 7.13,14).

No campo da moral, o pragmatismo se relaciona com o hedonismo, centrado na busca do prazer, e o utilitarismo, que visa — segundo Jeremy Bentham (1748-1832) — à maior felicidade possível para o maior número de pessoas. Junta-se a essas filosofias o multiculturalismo, que prioriza a ideia de que todas as culturas são moralmente equivalentes. Como há várias comunidades humanas, necessariamente serão muitas as diferentes “verdades”, que podem existir umas ao lado das outras.

Essas doutrinas filosóficas estão por trás de ensinamentos e práticas da “igreja emergente”, movimento que, no afã de atender ao ser humano de acordo com as suas necessidades pós-modernas, tem procurado desconstruir doutrinas, valores e costumes. Quando aplicado à pregação e à prática evangélicas, o pragmatismo, especialmente, se torna a base para o surgimento de heresias e modismos. Pastores pragmatistas não perguntam: “Isto é bíblico?”, pois querem saber o que funciona, agrada e motiva as pessoas, gerando crescimento numérico.

Um exemplo claro disso é o fato de muitas igrejas não parecerem mais com igrejas! Seus líderes adotam uma abordagem pragmática: priorizam as preferências das pessoas, fazendo com que o culto não seja culto, e sim uma grande festa dançante e cheia de novidades. Eles ignoram que, segundo o Novo Testamento, quando o povo de Deus se reúne, tudo deve ser feito “decentemente e com ordem”, a fim de que — mediante as ministrações do louvor (salmo), da Palavra (doutrina) e do Espírito (revelação, língua e interpretação) — todos sejam edificados (1Co 14.26-40).

Por que dificilmente vemos tais ministrações, especialmente de modo conjunto? E por que os lugares de culto (também conhecidos como igrejas, na atualidade) estão cada vez mais parecidos com boates, bares ou casas de eventos? Por influência da “igreja emergente” — que tem como gurus os famosos líderes Brian McLaren, Dan Kimball e Rick Warren —, muitas igrejas se mostram “inclusivas”, progressistas, relativistas, apresentando ao mundo mensagens que atendem aos anseios do homem pós-moderno.

Consequentemente, o “evangelho” está se tornando tão mundano, e o mundo tão “evangélico”, que já não se sabe mais onde começa um e termina o outro. Aliás, líderes influenciados pelo movimento “igreja emergente” não gostam do termo “igreja”. Preferem “comunidade”, “projeto” ou, mesmo estando no Brasil, “church”. Mas o primeiro a empregar esse termo, que hoje muitos evitam — “igreja” (gr. ekklesía) —, foi ninguém menos que o Senhor Jesus (Mt 16.18)!

Boa parte dos líderes e membros da “igreja emergente” veio de igrejas conservadoras e tradicionais. Eles não suportam sermões expositivos nem Teologia Sistemática. Protestam contra a visível falha do evangelicalismo em interagir com outras tradições e contra o conservadorismo de classe média. Pensam sobre integridade e credibilidade de sua fé numa cultura pós-moderna. No entanto, sua fonte de autoridade não é a Palavra de Deus, infalível e inerrante, e sim os pressupostos do pós-modernismo.

Na essência desse movimento desconstrucionista está a convicção de que mudanças na cultura sinalizam que um novo segmento evangélico está emergindo, o qual tolera diferenças e trata com generosa dignidade pessoas que sustentam visões opostas. Essas “igrejas” da pós-modernidade — que parecem cada vez mais com boates — têm como trunfo o fato de não excluírem pessoas, como sempre fizeram (segundo dizem) as igrejas tradicionais, ao pregar o arrependimento em seus cultos arcaicos.

Alguns dos seus líderes afirmam que não precisam de púlpito, pois, na Igreja primitiva, todos estavam no mesmo nível, sendo desnecessário o uso de qualquer tribuna. Ora, o púlpito não é invenção das igrejas tradicionais! Jesus procurava lugares mais altos para falar ao povo (Lc 5.1-3). E já nos dias de Esdras havia um púlpito de madeira de onde se lia a Palavra de Deus, “declarando e explicando o sentido” (Ne 8.1-8).

Visando a agradar as pessoas, os líderes da “igreja emergente”, quando não eliminam o púlpito, procuram torná-lo o mais atraente possível. Usam tambores, pranchas, parte dianteira de carros etc. Além disso, pintam as paredes de preto e escurecem o ambiente. Quanto ao pregador, assentado em um banquinho, cercado de luzes que brotam do chão e embalado com músicas de fundo melodramáticas, fala como se estivesse em uma apresentação de stand-up.

Louvor congregacional? Corais? Nem pensar! Líderes “emergentes” preferem a “balada gospel”, com muita dança e coreografia, ao som de ritmos eletrizantes e luzes coloridas. Há igrejas que até contratam músicos seculares! “É isso que a galera gosta”, dizem. “Chega de pregação expositiva! Ninguém suporta mais isso”. Nas igrejas que parecem boates, a pregação “boa” não é a exposição das Escrituras, e sim a pregação malabarista, a animação de auditório, o coaching etc.

Quando criticados, os proponentes da “igreja emergente” dizem que tudo é válido para “ganhar almas”. Não por acaso, há blocos de carnaval gospel, festa “jesuína” (imitação da festa junina), Halloween gospel, que chamam, irrefletidamente, de “Elohim”. Entretanto, quando Paulo disse: “Fiz-me tudo para todos, para, por todos os meios, chegar a salvar alguns” (1Co 9.22), não estava falando em salvar almas, de fato, pois a salvação é pela graça de Deus (Tt 2.11). Antes, referiu-se a estratégias de evangelização, não pecaminosas nem prejudiciais à pregação cristocêntrica, evidentemente (cf. 1.18-23; 2.1-5).

O Deus da Assembleia não mudou! E não quer que a Assembleia de Deus se pareça cada vez mais com o mundo! Pregação não é stand-up nem animação de auditório! Culto não é show! Igreja não é boate! Não nos conformemos com as influências filosóficas desses tempos pós-modernos (Rm 12.1,2). Deus continua dizendo: “prega a palavra” (2Tm 4.2, ARA). Preguemos, pois, o que as pessoas precisam escutar, e não o que elas desejam ouvir!

 

Ciro Sanches Zibordi

20 comentários

André

Pr. Ciro, nasci no evangelho em uma igreja genuinamente bíblica. Após 15 anos de conversão começaram bater e adentrar às portas da igreja as inovações e modismos (igreja show, louvor extravagante, luzes coloridas, mensagens com linguajar chulo e cheio de chocarrices, ..... ). Estivemos sujeito a isto por mais 10 anos. Após 26 anos tivemos que sair, já não eramos mais bem quisto, pois nos tornamos antiquados, retrogados, conservadores. Atualmente sirvo a Deus na AD Belém e feliz da vida.

Marcelo Oliveira

Não há dúvida que estamos vivendo um tempo de seitas, heresias, e desvios do Verdadeiro Evangelho (se bem que desde o início foi, e é, assim...), mas o Pr. Ciro generaliza muito, o que o faz cometer o pecado do juízo temerário, pois, por exemplo, uma Igreja com paredes internas pintadas de cor mais escura, e que usa um sistema de iluminação mais sofisticado, e que usa modelos de púlpito mais contemporâneos ou interesantes NÃO PODE SER temerariamente desqualificada como uma Igreja desviada.

Joevan Jorge Vasconcelos De oliveira

Caro Pastor Ciro, Excelente o seu artigo. Congrego em uma igreja batista tradicional e conservadora aqui em Manaus, mas infelizmente muitas igrejas estão indo para o modernismo.

Peregrino

Paz irmão Ciro, O Senhor tem falado uma grande verdade , estão desonrando o nome do Senhor através de cultos estranhos e mundanos. Seria interessante o senhor falar também sobre os salários astronômicos dos Pastores da Assembléia e o sistema Monarca . Para onde está indo o dizimo do pessoal? Nós membros desta instituição tão amada não enxergamos quase nada na obra social , é muito pouco o que se vê , e em certas igrejas não se tem nada. paz

Esmeraldo Domingos

Falar da casa dos outros é mais fácil do que enxergar os próprios erros, seria muito bom os pastores das assembleias de Deus e demais igrejas parecem com esse besteirol de tentar enquadrar o evangelho nós seus achismos e seguissem a ordem de Jesus no sermão do Monte.

Esmeraldo Domingos

Em primeiro lugar Deus não é propriedade de instituição alguma, nem mesmo das que trazem o Nome dele em sua identificação. Segundo o texto fala de pragmatismo e hedonismo, mas o que dizer sobre o que acontece dentro da Assembleia de Deus, como disputa por cargos, jogo político e de poder e também p voto de cabresto que acontece em todas as eleições, onde seus membros são obrigados a votarem nos candidatoss ditos da igreja. E por último seria bom os conservadores fazer o que o evangelho manda.

Alice

Perfeito. O que mais me chamou atenção foi a frase " o "evangelho" está se tornando tão mundano, e o mundo tão "evangélico" , que já não se sabe mais onde começa um e termina o outro." Perfeito. No mundo onde quase "todos" agora São "evangélicos " Eu tive fora do Brasil uma experiência dessas igrejas exatamente como descrito no texto. Fui convidada a ir a uma "igreja" e pasmem! Não poderia levar a bíblia porque não tinha como ler devido a luz de penumbra somente luz sobre o palco.

Jhonatan Augusto

É o que temos combatido nesses últimos dias! As pessoas hoje dizem aceitar a CRISTO mais não querem e nem desejam mudar de vida! Devemos nós, como santos do SENHOR, combater todo tipo de "paganismo" nos nossos cultos. Devemos combater incessantemente esse tipo de heresia criando, gravando e compartilhando mídias que expõe o que Realmente somos! Devemos ser a diferença em meio tanta "novidade" que não vem de DEUS

Maximiano

Eu me converti na adolescência e depois me afastei do Senhor, um momento ruim da minha vida. Depois, quando voltei para a igreja, um fato que me chocou foi verificar que muitos evangélicos de hoje escutam música mundana, ou música "gospel" que imita ritmos mundanos, como o forró. Isso é muito triste...

Maximiano

Pastor Ciro, o senhor considera que as pessoas envolvidas nesses movimentos estão apenas equivocadas, ou elas nem sequer são nascidas de novo de fato? Pergunto isso pois há pessoas que vão ao culto tradicional (sério) na igreja e, paralelamente, participam em outros lugares de eventos como o que o senhor descreveu no artigo (boate "gospel", shows de forró "gospel" agitado etc). Infelizmente, eu estou inclinado a acreditar na segunda opção, mas não tenho conhecimento completo desse assunto.

RANIERI ALMEIDA DO NASCIMENTO

Ótimo artigo... Por falar nele tem um.livro que a CPAD não tem publicado e não consegui localizar para comprar que fala sobre isso... Verdade Absoluta de Nancy Pearcey... Ajuda a cobrar para que publiquem essa preciosidade...

Márcio Costa Pereira

Urge que voltemos ao verdadeiro Evangelho de Cristo Jesus e retiremos o anátema do nosso meio. Do contrário seremos somente mais uma mera organização social,cujo objetivo é se alinhar aos paradigmas do sistema caído atual e não o de influenciá-lo para Cristo.

Reginaldo Conceição do Nascimento

Ho glória!

Rafael

Esplendido, infelizmente essa é a verdade que não tem sido pregadas em muitos púlpitos. Esses dias eu me deparei com uma igreja chamada Assembleia de DEUS "renovada" , e fiquei me perguntando. Que renovação a Assembléia precisa? Se foi fundada na doutrina biblica. Qual renovação Daniel berg e Gunnar vingreen deixaram de executar. Creio que essa renovação que essa igreja menciona é apenas para satisfazer o ego humano, Mais ficamos com a Palavra: Não remover os marcos antigos que fizeram seus pa

MIchel Oliveira

Já compartilhei com os meus amigos e lideres. Que aula que tivemos! Deus abençoe mais e mais a vida do pastor Ciro.

Wagner Santos Paixão

Em muitas Assembleias ditas de Deus acontecem oque é exposto no texto acima e ninguém faz nada pois diferente de outras denominações não temos um colegiado de igrejas mas de pastores, oque abre precedentes para estas discrepâncias em nossa denominação.

Hernando Rocha

Jesus é o mesmo ontem,hoje e eternamente.Hb 13.08.Voltemos ao Evangelho genuíno!

Marcelo Fernandes

A Paz. Pastor, concordo com sua visão e creio que a grande responsável pelo surgimento dessas novas denominações seja a própria Assembléia. Pois há algum tempo, política e corrupção estão infiltradas no meio das lideranças. Desencadeando escândalos e levando ao esfriamento espiritual um enorme rebanho. Além disso, os cuidados com as viúvas e os necessitados ficam em último plano, e o carro do pastor em primeiro. Vivemos momentos difíceis da igreja neste século.

Joao Laurentino

Muito bom o texto...faltou dizer que grande parte destes movimentos pos modernos sao,em parte, frutos da decadencia das lideranças das igrejas tradicionais que se deixaram politizar em extremo,e por consequencia,deixaram de ser pregadores,passando a serem meros gerentes,e suas igrejas redutos eleitorais e trampolins pra cargos eletivos,alem dos sabidos desvios de dinheiro publico;neste ultimo,porem,nao apenas as tradicionais,mas todas estao enterradas ate o umbigo. Nossos aplausos ao texto...

João A. de Souza Filho

Muito bom o artigo do Ciro. Estivemos conversando sobre isso, ele e eu outro dia. Deixei de frequentar uma igreja (ajudava como pastor) porque todo o templo foi pintado de preto e escrevi um artigo sobre isso que está em meu site. Parabéns ao Ciro.

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Perfil

Ciro Sanches Zibordi é pastor, escritor, membro da Casa de Letras Emílio Conde e da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Autor do best-seller “Erros que os pregadores devem evitar” e das obras “Mais erros que os pregadores devem evitar”, “Erros que os adoradores devem evitar”, “Evangelhos que Paulo jamais pregaria”, “Adolescentes S/A” e “Perguntas intrigantes que os jovens costumam fazer”, todos títulos da CPAD. É ainda co-autor da obra “Teologia Sistemática Pentecostal”, também da CPAD.

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