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Ciro Sanches Zibordi

Ciro Sanches Zibordi

Há diferença entre cobrar cachê e receber ‘oferta’?

Seg, 12/03/2018 por Ciro Sanches Zibordi

Na atualidade, está se tornando comum a pergunta: “Qual é o seu cachê?”, quando se convida um mensageiro de Deus para pregar ou ensinar as Escrituras. Quando me fazem essa pergunta, respondo o seguinte: “Não cobro cachê para ministrar a Palavra, porém aceito uma ‘oferta’, a qual, evidentemente, como esse próprio termo sugere, fica a critério da igreja”. Apesar de alguns irmãos — acostumados a tratar com celebridades gospel — estranharem esse meu procedimento, me baseio na Bíblia, a começar pela conduta de Daniel diante do rei Belsazar, na Babilônia.

De acordo com Daniel 5.1-17, esse profeta recusou-se firmemente a aceitar os presentes de Belsazar, a priori, o qual lhe pedira a interpretação da escritura que havia aparecido na parede do palácio real. Entretanto, depois que Daniel lhe disse o que significavam as duras palavras: “Mene, Mene, Tequel e Parsim” (v. 25), o rei mandou que vestissem “Daniel de púrpura, e que lhe pusessem uma cadeia de ouro ao pescoço, e proclamassem a respeito dele que havia de ser o terceiro dominador do reino” (v. 29).

Alguém poderá pensar que estamos diante de uma contradição. Afinal, o mesmo Daniel, que antes dissera ao rei: “As tuas dádivas fiquem contigo, e dá os teus presentes a outro” (Dn 5.17), os recebeu de Belsazar, depois de lhe entregar a mensagem de Deus! Não há contradição alguma nessa conduta, e sim o ensinamento, por meio de exemplo, de que não devemos exigir pagamento para transmitir a Palavra. Se Daniel tivesse aceitado as dádivas do rei antes de entregar-lhe a mensagem do Senhor, teria sido induzido a agradá-lo. Por outro lado, quando cumpriu sua missão de modo isento, teve seu trabalho reconhecido — mesmo depois de transmitir uma mensagem muito dura ao rei (cf. vv. 18-28) — e, por isso, aceitou, sem nenhum constrangimento, os presentes que lhe foram ofertados.

Em outras palavras, seguindo o exemplo de Daniel, não devemos estipular um cachê para entregar a mensagem de Deus, mas aceitar uma “oferta”, em reconhecimento de nosso trabalho em prol do Reino de Deus, o que é uma conduta lícita, à luz do Novo Testamento (cf. 1 Tm 5.17,18). Cobrar cachê e receber “oferta”, por conseguinte, não são nomes diferentes de uma mesma prática, pois a primeira é uma exigência, como se fosse uma condição para a transmissão da mensagem; e a outra, uma prática passiva, sem estabelecimento de valor.

O termo “cachê” provém do francês cachet e, desde o século XVII, tem sido usado para designar a retribuição dada a um artista por representação ou concerto. Segundo Houaiss, alude à “remuneração que ator, músico ou outro artista recebe por apresentação”. Trata-se de uma “quantia paga a quem se apresenta em público (p.ex. conferencista, animador etc.), especialmente a artista que se apresenta num espetáculo (de teatro, música, dança, variedades etc.) ou que participa de uma produção cultural ou publicitária (p.ex. de cinema, televisão, disco etc.)”.

Deve-se exigir dinheiro para ministrar a Palavra de Deus? Não, pois o próprio Senhor Jesus, ao enviar pregadores, ensinou: “de graça recebestes, de graça dai” (Mt 10.8). Entretanto, quem convida um mensageiro de Deus para pregar ou ensinar, deve honrar o seu ministério, ser-lhe grato, cobrindo todas as suas despesas, hospedando-o bem e lhe dando uma “oferta”. Isso é uma forma de reconhecer que ele, ao atender o convite, absteve-se de estar com a família, deixou a sua igreja local, o seu trabalho profissional — em muitos casos —, renunciou atividades importantes e abriu mão de um período que poderia usar em seu benefício e da família.

Quanto à “oferta”, alguém poderá perguntar: “Qual seria um valor justo a ser ofertado a um mensageiro de Deus?” O termo “oferta” é autoexplicativo; o valor a ser ofertado ao mensageiro de Deus fica a critério da igreja, que deve contribuir com liberalidade, valorizando o ministério da Palavra sem que haja a necessidade de estabelecer-se um cachê (1 Co 9.9-14), não se esquecendo de que o obreiro é digno do seu salário (1 Tm 5.18). Lembremo-nos, finalmente, de que o mensageiro de Deus deve ser honrado como um convidado (con-vi-da-do), e não tratado como alguém que se ofereceu para vender seu serviço.

 

Ciro Sanches Zibordi

23 comentários

Paulo Silva

Muito bem explicado o texto pastor é que e que Deus continue te abençoando e usando. Pena que alguns entendem errado pois a igreja que não quer ter custo com pregador de fora que não convide mas tbm não se submetam aos exploradores da fé para agradar a platéia

Ciro Sanches Zibordi

A paz do Senhor, amados irmãos, amigos e leitores! Agradeço-lhes pelos comentários. Creio que a maioria dos que têm lido o texto acima tem percebido quão grande é a diferença entre cobrar cachê, ATIVAMENTE, e receber 'oferta', PASSIVAMENTE. Mas que fique claro: a frase 'Aceito uma oferta' é dita, no meu caso, quando me perguntam sobre cachê. Há igrejas que não perguntam isso, pois honram seus convidados da maneira como podem, enquanto outras não perguntam por outras razões... Toda glória a Deus!

CRISTIANO DA SILVA SERRAO

A paz do Senhor a todos, o tema acima bem abordado pelo pastor Ciro, o que faz esse tema ficar um pouco polêmico é os aproveitadores que estão por ai enganando alguns, pois é justo uma igreja ofertar no ministério daqueles de quem se convida para realizar uma obra. Agora fica claro que existem muitos que cobram e fazem exigências absurdas para a igreja, e isso é inadmissível, pois quando há valor estipulado já não é ministério é profissão. Então meus amados irmãos sejamos sóbrios e vigilantes!

Jessé Menezes Campanharo

A paz do Senhor Jesus Cristo. Sou grato a Deus pela vida do Pastor Ciro Sanches, pois sempre nós exortando. Texto muito esclarecedor!! Que pena que os artigos não são semanais! Mais intendemos a demanda Pastoral! Que Cristo Jesus continue abençoando

Luciano Rodrigues

Ótimo texto, parabéns Pastor por sua dedicação, saiba que há muitas pessoas que oram por sua vida. Eu o respeito muito, pois sei o quanto é importante o Ensino Bíblico em nossos dias ( é claro, sempre foi importante), pois o analfabetismo Bíblico é muito grande. Um grande abraço professor, estaremos aqui sempre orando pelo senhor, e também por toda sua família. Pr. Luciano Rodrigues.

Reylan Teles

Graça e Paz do nosso Senhor! Pastor Ciro sou admirador de algumas literaturas suas que já li, e concordo com o texto acima abordado. Que o Altíssimo Deus continue acrescentando em seu ministério...

Ciro Sanches Zibordi

Caro Claudio Costa, a paz do Senhor. Mostre-nos o absurdo, por favor. O presente texto não é regulamentação de nada, e sim uma abordagem bíblica de alguém que há trinta anos pratica o que está escrito acima. Priorizo o equilíbrio, e não o extremismo, que a nada leva. Explique melhor sua posição, pois me pareceu que o irmão quis criticar o texto, mas não o fez com clareza.

Ciro Sanches Zibordi

Outrossim, caro irmão Juvenilton de Sousa Abreu, quanto aos livros que o irmão compra da CPAD, agradeço-lhe por isso. Mas não se trata de oferta. Ainda que um livro de minha autoria trate de temas bíblicos, se trata de uma OBRA LITERÁRIA, a qual é inclusive protegida pela regulamentação vigente no país quanto aos direitos autorais. Livro é um trabalho literário, registrado na Biblioteca Nacional etc., ainda que, no meu caso, seja também um trabalho ministerial. A paz do Senhor.

Ciro Sanches Zibordi

Caro irmão Juvenilton de Sousa Abreu, discordo do seu posicionamento. O texto está mais do que claro. A diferença entre cobrar ATIVAMENTE cachê e receber PASSIVAMENTE 'oferta' é enorme. Quem convida 'dá banquete' em que sentido? Quem ama a exposição da Palavra faz o MELHOR que pode para HONRAR os expoentes da Palavra. Não se trata de um valor simbólico, só para constar, e sim de um reconhecimento a quem expõe a Palavra, mas de acordo com a capacidade de cada igreja. Abraços. A paz do Senhor!

Juvenilton de Sousa Abreu

Pr. Ciro Sanches, a paz do senhor! Primeiramente sou um admirador do seu trabalho e sempre oferto por eles a CPAD. rsrs. Agora esse texto não me pareceu claro , o Sr. Tentou mostrar uma diferença entre oferta e cache. Mas, ficou elas por elas. Pois o Sr. Diz que a oferta tem de ser dada, mas, com liberalidade. E em outro comentário o Sr. Diz que quem convida tem de dar banquete. Por tanto se depreende que a oferta não deve ser um valor singelo como a principio o senhor tentou demonstrar.

ricleiton

paz do Senhor muito bom a explicação sobre esse assunto Deus lhe abençoe grandemente

Claudio Costa

Que absurdo!! Isto é uma especie de regulamentação para taxar o mercado de ministração/ preleção gospel? Todos os pontos justificados no texto para para pagamento e/ou doação de ofertas estão acima do poderio de Cristo?

samuel

Boa matéria, gostaria de ver uma matéria sobre dirigentes de congregação, se deveria receber um salário ou não? Porque tantos se preocupam com missionários e se esquecem de seus pastores" dirigentes de congregação" que são os missionários locais ganhando almas.

Ciro Sanches Zibordi

Grato, pastor, pregador itinerante e amigo Renato Varges. Que Deus o abençoe em tudo!

Ciro Sanches Zibordi

Outrossim, caro irmão Diego Sena, se uma igreja CONVIDA um pregador ou ensinador, é porque vê nele algo de importante. E, por isso mesmo, deve honrá-lo. Por que o convidou, então? E, se ele é um CON-VI-DA-DO, não há que se falar em alguém que seja oportunista, desocupado, que quer ganhar dinheiro fácil. Isso se aplicaria a quem se oferece para pregar, e não a quem é CON-VI-DA-DO. 'Quem convida dá banquete', diz o pastor e pregador itinerante Elienai Cabral. Que Deus o abençoe, amado irmão.

Ciro Sanches Zibordi

Diego Sena: 1. Pregadores primitivos tinham custos cobertos pelas igrejas em suas viagens, mas estou falando de palestrantes CON-VI-DA-DOS, o que é diferente. 2. Passagem, alimentação etc. é OBRIGAÇÃO; oferta é RECONHECIMENTO. 3. Igreja que não pode dar, pelo menos, uma oferta a convidado não deve convidá-lo. 4. Não se deve tomar parte pelo todo; pregador chamado não deve ficar 'chateado' por não receber 'oferta'. 5. Mas igreja que não 'oferta' ERRA, pois sequer deveria ter convidado o pregador.

Diego Sena

Eu não disse que não pode, eu disse que não tem a obrigação. Certamente, os pregadores primitivos tinham os seus custos cobertos pela igreja em suas viagens, o que diz respeito apenas o necessário - a passagem, a alimentação e afins. Isso tem gerado um monte de gente folgada que pensa que o evangelho é cabide de emprego. Conheço pessoas que são convidados para pregar em igrejas próximas de sua residência e ficam chateados quando os pastores cobrem apenas o dinheiro da gasolina. Algo está errado!

Renato Vargens

Um dos melhores textos que li sobre o assunto. Parabéns meu amigo! Renato Vargens

Robson Ribeiro

É EXATAMENTE ASSIM!

ANTONIO GEAN

PASTOR Ciro Sanches Zibordi CONCORDO EM GRAU, GÊNERO E NÚMERO COM VOCÊ. O PREGADOR MERECE UMA ´´AJUDA´´ FINANCEIRA. POIS MUITOS DEIXAM SEU TRABALHO LOCAL, FAMÍLIA E IGREJA PARA MINISTRAR EM OUTROS LUGARES. PORÉM, É PRECISO O PREGADOR OBSERVAR A SITUAÇÃO DA IGREJA E RECEBER CONFORME AS CONDIÇÕES DA IGREJA LOCAL.

Ciro Sanches Zibordi

Caro Diego Sena, em primeiro lugar, a paz do Senhor! Se uma igreja não pode dar sequer uma 'oferta' ao um CON-VI-DA-DO, além de cobrir alegremente todos as suas despesas, por que convidá-lo? É melhor que ela use os seus próprios obreiros. Pense nisso.

Sérgio Luís

AMÉM !!!

Diego Sena

Não concordo. Pra mim, a igreja não tem a obrigação de dar uma oferta ao pregador, muito menos àqueles que estipulam o valor. Se a igreja, deliberadamente, quiser abençoar o mensageiro, tudo bem, não há problema nisso. Mas não vejo como uma obrigação, mesmo se tratando de "oferta". Diferentemente, por exemplo, caso seja uma viagem longa. Nesse caso, a igreja ou aquele que convidou o pregador deve se responsabilizar pelos custos. Não vejo com bons olhos receber oferta, mesmo não exigindo valores.

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Perfil

Ciro Sanches Zibordi é pastor, escritor, membro da Casa de Letras Emílio Conde e da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Autor do best-seller “Erros que os pregadores devem evitar” e das obras “Mais erros que os pregadores devem evitar”, “Erros que os adoradores devem evitar”, “Evangelhos que Paulo jamais pregaria”, “Adolescentes S/A” e “Perguntas intrigantes que os jovens costumam fazer”, todos títulos da CPAD. É ainda co-autor da obra “Teologia Sistemática Pentecostal”, também da CPAD.

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