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Ciro Sanches Zibordi

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Evangelicalismo brasileiro e jugo desigual

Dom, 13/08/2017 por Ciro Sanches Zibordi

Ainda que seja comum chamar de “jugo desigual” casamentos mistos ou namoros de cristãos com pessoas não salvas, o sentido desse termo neotestamentário é muito mais amplo e abarca todos e quaisquer tipos de comunhão com os incrédulos (2Co 6.14-18). Prender-se a um jugo desigual com infiéis é um ato que decorre de amar o mundo e conformar-se com ele (cf. 1Jo 2.15-17; Tg 4.4; Rm 12.1,2 e Jo 15.19), já que o contrário disso é ser santo, isto é, separar-se de prazeres carnais (Hb 11.24-26 e Jo 15.19), de companheiros mundanos (Hb 7.26 e Is 6.1-8) e também de alianças prejudiciais à comunhão com Deus (2Co 6.16-18 e Ez 22.26).

Neste início de milênio, pelo menos quatro acontecimentos nos têm feito refletir sobre alianças com quem propaga heresias. Primeiro, a realização de cultos em igrejas evangélicas com a presença de conhecidos hereges, como o “reverendo” Moon, que dizia ter nascido para concluir a obra que Jesus não conseguiu consumar! Segundo, a participação de famosos cantores evangélicos em megaeventos da Igreja Católica Apostólica Romana. Terceiro, os constantes convites de programas televisivos mundanos a astros do mundo gospel, os quais, por sua vez, exercem influência sobre cristãos incautos. Quarto, o apoio de líderes, pregadores e cantores pretensamente ortodoxos a grupos unicistas — que negam abertamente a doutrina da Trindade —, bem como a milagreiros, propagadores de heresias e modismos pseudopentecostais.

Podemos chamar de jugo desigual com os infiéis toda e qualquer reunião entre evangélicos e não evangélicos, entre ortodoxos e propagadores de heresias? Qual é a resposta bíblica ao culto ecumênico, que se torna cada vez mais comum, nesses tempos pós-modernos, a ponto de celebridades gospel e padres galãs serem convidados para “louvarem” juntos em programas de televisão? Quem defende o “casamento” entre ortodoxos (até que se prove o contrário) e adeptos de heresias se vale da seguinte desculpa, associada a um motivo aparentemente nobre: “A convivência ecumênica é importante para promover a paz e não deve ser confundida com o sincretismo religioso”.

Um texto bíblico que lança luz sobre essas questões é Atos 17.15-34. Se o apóstolo Paulo pregou o Evangelho no Areópago, em Atenas, diante de religiosos e filósofos, por que um líder, pregador ou cantor deveriam desprezar a oportunidade de anunciar — na “presença dos deuses” — que Jesus Cristo é o Mediador, o Senhor e o Redentor, o único que pode dar à humanidade a verdadeira paz? Abordando o assunto sob essa ótica, não se vê, aparentemente, problema algum no fato de um salvo participar de eventos com quem propaga heresias. Entretanto, faz-se necessário problematizar um pouco mais o assunto em questão, perguntando: Quando participam de eventos ecumênicos ou em programas televisivos, devem os cristãos omitir o objeto de sua fé para não parecer desamorosos?

Jesus não veio ao mundo para pregar a convivência ecumênica entre as religiões, por mais intolerante e “politicamente incorreto” que isso possa parecer. Ele apresentou-se como a única porta para a salvação da humanidade (Jo 10.9 e 1Tm 2.5). Aliás, houve um tempo em que o ecumenismo religioso era considerado um grande perigo para as igrejas. E qualquer comunhão ecumênica entre evangélicos, católicos e espíritas era inimaginável, em razão de os líderes eclesiásticos, à época, estarem atentos às estratégias do Inimigo que visam a enfraquecer a contundente mensagem de arrependimento. Mas há incautos felizes pelo fato de cantores e youtubers gospel aparecerem na TV, ignorando que existe um plano manipulador da grande mídia que visa a enfraquecer a “preconceituosa e fundamentalista” pregação de que Jesus é o único Senhor e Salvador.

Quando participam de tais eventos, os evangélicos não têm a coragem de confrontar o pecado. E apresentam um evangelho light, agradável, apaziguador, simpático, suave, aberto ao ecumenismo, além de criticarem o padrão ortodoxo, pelo qual se defende o Evangelho, os valores morais deixados por Jesus e a cosmovisão judaico-cristã. Dizem os incautos: “O que nos une é muito maior do que o que nos divide”. Para eles, o sincretismo religioso é aceitável, pois o importante é “o evangélico ocupar espaços que outrora eram exclusivamente dos ímpios”. Que engano! Paulo, no Areópago, em Atenas, fez o quê, em meio a tantos propagadores de heresias? Adotou ele uma conduta “politicamente correta”? Apresentou aos atenienses a mensagem que queriam ouvir? Ele disse o que todos precisavam ouvir, visto que “o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria” (At 17.16).

Embora o Senhor tenha afirmado: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6), está crescendo no evangelicalismo mundial a simpatia pelo movimento ecumênico. Pastores renomados deixaram de falar de Jesus com clareza, a fim de pregar sobre Deus de maneira geral, sem ofender católicos, muçulmanos etc. O ecumenismo, com sua pregação “politicamente correta”, vem sendo apontado como um importante recurso para promover a paz. Apesar disso, o terrorismo islâmico se fortalece cada vez mais, já que muçulmanos jamais abrirão mão de sua “verdade”. Ademais, como se sabe, o catolicismo romano se vale do ecumenismo principalmente para frear o progresso da comunidade evangélica, sobretudo a pentecostal. Por que, então, os cristãos, que verdadeiramente pregam a paz, teriam de renunciar à Verdade?

Por outro lado, defensores do Evangelho que se prezam não devem apoiar “apóstolos” que pregam heresias e modismos pseudopentecostais, mesmo com a desculpa de que o Evangelho precisa ser pregado inclusive “com fingimento” (Fp 1.18). Ora, nesta passagem, o apóstolo Paulo, preso na cidade de Filipos, se referiu a opositores judeus que o acusavam perante tribunais de Roma. Ao verberarem contra ele, tais inimigos do Evangelho eram obrigados a dizer que Paulo estava pregando sobre a morte e a ressurreição do Senhor Jesus. Eles tinham de afirmar que, para esse apóstolo, Jesus estava acima de César, visto que o título de Senhor, à época, não implicava apenas senhorio. O imperador romano, como senhor de Roma, recebia adoração. E, nesse caso, Jesus, como Senhor, era adorado pelos cristãos, tomando, por assim dizer, o lugar de César.

Com isso, os judeus que acusavam Paulo estavam — indiretamente — pregando o Evangelho! E o apóstolo se regozijava com esse resultado, a despeito de sofrer por amor a Cristo. A frase “Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira” (Fp 1.18) não deve ser empregada de modo generalizante, a fim de afirmar que os crentes, hoje, podem usar todos e quaisquer meios para propagar o Evangelho. A Palavra de Deus diz que devemos fugir da aparência do mal (1 Ts 5.22). Lembremo-nos, finalmente, de que o Senhor Jesus asseverou que não existe unidade motivada pelo amor divorciada da verdade da Palavra: “Se me amardes, guardareis os meus mandamentos. [...] Se alguém me ama, guardará a minha palavra” (Jo 14.15-24).

Ciro Sanches Zibordi
Artigo publicado no Mensageiro da Paz de julho de 2017

11 comentários

IVAN DE ASSIS FIGUEIREDO

FALANDO COM SINCERIDADE, MAS JUGO DESIGUAL TAMBÉM NÃO É EM ÉPOCA DE CAMPANHA POLITICA PASTORES SE APRESENTAREM COM POLÍTICOS NAS IGREJAS E NOTADAMENTE FAZENDO CAMPANHA SEBE-LA PRA QUE......

Levi Martins

Que texto maravilhoso.. Com certeza entra na minha pasta de estudos sobre louvor e adoração. O comparativo do julgo desigual (casamento entre cristãos e não-cristãos) com a mistura ecumênica dos louvores atuais foi de uma precisão cirúrgica. Que Deus abençoe sua vida sempre amado pastor! Quisera receber textos seus todos os dias. Se houver algum outro canal, por favor me avise. Forte abraço, Levi Martins.

ricardo costa

artigo cheio de sabedoria e de discernimento... Ciro Sanches verdadeiramente homem de Deus. Deixou bem destacado o plano da mídia maligna que está tentando "enfraquecer" o Evangelho , e é bem verdade que muitos evangélicos já estão "fracos e esfriados"...

Sérgio Luís

Pr.Ciro, a paz do Senhor. Texto muito apropriado. Dias desses comentava na classe de jovens, da qual sou professor, sobre letras de “louvores" da moda; essas canções falam de um evangelho que não existe. antropocentrismo,motivacionismo e outras coisas do gênero. Ou seja jugo desigual, pois, fica exposto a má intenção ou,no mínimo, despreparo ou desconhecimento bíblico.resultado:heresias.

Rubem Castro

Interessante seu texto Pastor Ciro. É plausível para os dias atuais.

Ciro Sanches Zibordi

Cleverton Nepomuceno: primeiro, Jesus não era cristão? Mas o cristão que se preza deve andar como Ele andou (1 Jo 2.6). Segundo: o cristianismo NÃO é sincrético em sua essência. Ademais, antes dos gregos e sua mitologia já havia o mundo hebreu, no qual os gregos se fundamentaram para fazerem invencionices. Outrossim, em que parte do texto "muito questionável e contraditório" este articulista "apresenta o ecumenismo como importante para um não a violência"? Leia com mais atenção, por favor...

Antonio Donizeti Romualdo

Excelente artigo querido Pr. Ciro Sanchez Zibordi!

Cleverton Nepomuceno

Texto muito questionável e contraditório pois apresenta o ecumenismo como importante para um não a violência porém ao mesmo tempo reprova o mesmo alertando para os perigos do sincretismo etc. 1° Jesus não era cristão e não veio para abolir a lei e sim para acrescentar uma nova interpretação da lei religiosa que já estava escrito. 2° De certa forma o cristianismo é sincrético em sua essência, pois o cristianismo é mais grego do que cristão, por isto o mesmo é carregado de conceitos mitológicos..

Silvio Douglas Siqueira Barros

Muito bom pastor! Gosto de seus artigos, são sempre bem colocados e com sólida base bíblica! Que o Senhor Jesus continue lhe inspirando cada vez mais! Abraço fraternal.

Ciro Sanches Zibordi

Caro Josinaldo, a paz do Senhor. Grato por seu comentário. Leia meu livro 'Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria' (CPAD, 2006) e também a obra 'Uma Nova Reforma' (Mundo Cristão, 2017), na qual escrevi um capítulo sobre o trabalho que calvinistas e arminianos, bem como pentecostais e cessacionistas podem fazer juntos para Deus. Quanto ao suicídio, pretendo escrever um artigo sobre o assunto, em breve.

Josinaldo

Concordo com o texto, apenas queria comentar que o que foi dito deveria ser ampliado para todos os que pregam/ensinam heresias. Partindo do ponto de que, heresia seria toda doutrina antibíblica! Como posso pregar o Evangelho com pessoas que crêm e pregam que Deus não ama a todos, que Deus não deseja salvar a todos e que não importa o que se faça, se for "eleito" será salvo no final, até suicida! Podemos pregar o evangelho com tais pessoas? Não seria um julgo desigual???

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Perfil

Ciro Sanches Zibordi é pastor, escritor, membro da Casa de Letras Emílio Conde e da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Autor do best-seller “Erros que os pregadores devem evitar” e das obras “Mais erros que os pregadores devem evitar”, “Erros que os adoradores devem evitar”, “Evangelhos que Paulo jamais pregaria”, “Adolescentes S/A” e “Perguntas intrigantes que os jovens costumam fazer”, todos títulos da CPAD. É ainda co-autor da obra “Teologia Sistemática Pentecostal”, também da CPAD.

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