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Ciro Sanches Zibordi

Ciro Sanches Zibordi

Guerra entre pregadores: quando isso vai parar?

Sex, 05/05/2017 por Ciro Sanches Zibordi

Dois episódios recentes envolvendo pregadores famosos me fizeram refletir profundamente sobre o que Paulo, próximo da morte, escreveu a Timóteo: “Conjuro-te, pois, diante de Deus e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu Reino, que pregues a palavra” (2 Tm 4.1,2). O que é pregar a Palavra? Evidentemente, a resposta a essa pergunta passa pela menção da conduta ética (gr. ethos, “modo de ser”, “caráter”, “procedimento”), que está se tornando rara nos púlpitos dos grandes eventos evangélicos.

Há pouco tempo, um pregador não pentecostal e calvinista — não tido, até então, como antipentecostal —, em um grande congresso interdenominacional, criticava, e bem, as heresias e modismos pseudopentecostais da atualidade, quando resolveu fazer um gracejo sem graça com o dom de línguas. Foi uma provocação desnecessária e infeliz. Primeiro, porque ele também ministra a Palavra na Assembleia de Deus, igreja que sempre o respeitou. Segundo, porque não fez distinção alguma entre os pentecostais sérios (que têm a Bíblia como sua regra de fé, prática e viver), muitos deles participantes do evento, e os adeptos de movimentos pseudopentecostais, místicos, que não têm a Bíblia como a sua fonte primacial de autoridade.

Todo pentecostal que se preza — embora reconheça que há muitas falsificações dos dons do Espírito Santo — se sente ofendido quando vê um pregador zombando das línguas sobrenaturais mencionadas no Novo Testamento, já que tem a convicção de que elas são ministradas pelo Paracleto (At 2; 1 Co 12-14). Ninguém é obrigado a abraçar o pentecostalimo. E eu, como pentecostal, respeito os cessacionistas. Mas não convém zombar da fé pentecostal e dos pentecostais.

Como se esperava, a conduta antipentecostal do tal pregador acabou gerando uma reação por parte dos pentecostais mais exaltados, que passaram a criticá-lo ferrenhamente nas redes sociais, reacendendo os debates inglórios entre calvinistas e arminianos, entre cessacionistas e pentecostais. Para piorar a situação, encontrou-se um vídeo em que o pregador não pentecostal verbera contra um famoso conferencista pentecostal, que resolveu responder às críticas. A partir daí o que se viu, na grande rede, foi um verdadeiro tiroteio, uma disputa recheada de zombaria, generalizações etc.

Recentemente, outro episódio de guerra entre pregadores fomentou discórdia nas redes sociais. Um pregador e uma pregadora, em um mesmo congresso considerado pentecostal, resolveram se alfinetar ao som de “glórias a Deus” e “aleluias” — mais uma faceta da disputa igualmente inglória entre pregadores performáticos, que se julgam intocáveis e se portam como celebridades. A pregadora, usando de ironia e tom desafiador, verberou contra a conduta de alguns pastores e pregadores itinerantes, animadores de auditório, grupo do qual ela faz parte, para ser justo em minha abordagem.

No quesito performance, ela agradou o povo, que vibrava com as suas alfinetadas e “coreografia”. Mas o conteúdo da sua mensagem gerou um grande mal-estar entre os preletores convidados. E, diante das provocações, um famoso pregador, quando teve oportunidade, reagiu, falando em nome daqueles que se sentiram “atingidos”. Ele, então, atacou a pregadora, também de modo indireto, fazendo uma comparação entre a águia e a formiga.

A partir daí, começou nas redes sociais uma vergonhosa disputa entre os gêneros masculino e feminino. E as fãs da pregadora passaram a usar frases feministas, como “Mexeu com uma, mexeu com todas”, e também “Sou formiga e não temo águia”, além de chamarem o pregador de racista. Isso porque ele, ironicamente, comparara o “pregador águia” com a “pregadora formiga”, dando destaque para a “tanajura”, o que gerou também a hashtag #SomosTodosFormigas! Bom seria que todos levassem a sério as metáforas da Bíblia, fossem ter com a formiga (Pv 6.6) e se renovassem como a águia (Is 40.28-31), não é mesmo?

Observa-se que o maquiavelismo e a chamada ética consequencialista estão prevalecendo. E não é de hoje que pregadores — e pregadoras — itinerantes usam o púlpito para verberar contra desafetos e ameaçá-los. Portando-se com arrogância e ar de superioridade, alfinetam e desafiam inclusive os pastores sentados à sua retaguarda, pedindo que o povo glorifique, corra, pule, rode etc. Entretanto, ao discorrer sobre a pregação, o apóstolo Paulo asseverou que a conduta ética é que dá força à exposição da Palavra: “o nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra [gr. logos], mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena convicção [gr. pathos], assim como sabeis ter sido o nosso procedimento [gr. ethos] entre vós e por amor de vós” (1 Ts 1.5, ARA).

Na passagem citada, o termo ethos — de onde se originou a palavra “ética” e que diz respeito ao caráter percebido do orador — está associado a logos (o conteúdo verbal da mensagem, incluindo-se arte e lógica na sua exposição) e a pathos (o fervor, a paixão, o sentimento e a eloquência do pregador). Em outras palavras, a pregação bem-sucedida está centrada na ética cristã, a qual, segundo as cartas paulinas, abrange a conduta do crente (Ef 4.17-24), o cultivo dos bons costumes (Rm 12; 1 Co 15.33) e o relacionamento com o próximo (Rm 15.2-5).

O que é, pois, pregar a Palavra? Se a pregação antipentecostal é zombeteira, agressiva e teologicocêntrica, a pregação pseudopentecostal é performática, igualmente agressiva e antropocêntrica. Ainda que ambos os modelos enlouqueçam fãs, o modelo de pregação está na Bíblia, especialmente em 1 Coríntios 2.1-5: “E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder; para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus”.

Pregadores e pregadoras, preguemos — de fato — a Palavra de Deus! Julguemos o que está errado (não me oponho a isto), pois não é pecado julgar, mas façamos isso segundo a reta justiça (Jo 7.24), e não de maneira caluniosa ou difamatória (Mt 7.1,2). E sejamos humildes, lembrando sempre do alerta de Provérbios 16.18: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda”.

Ciro Sanches Zibordi

18 comentários

Ciro Sanches Zibordi

Quando meditamos em 1 Coríntios 2.1-5 e 1 Tessalonicenses 1.5, aprendemos que somente os pregadores sem a verdadeira unção e conhecimento bíblico precisam recorrer à pregação performática e malabarista, à animação de auditório, bem como a bordões antropocêntricos e a ataques a pastores presentes à mesma reunião. Quem tem conteúdo e graça de Deus prega com humildade a Palavra de Deus e vê o Espírito Santo aplicando-a aos corações. Cresçamos, pois, na graça e no conhecimento (2 Pe 3.18)!

LUIZ CARLOS DA SILVA

O que fica explicito nesta questão é; para ambos os lados o que importa é usar o momento para externar, opiniões e conceito próprio ou mesmo denominacional.Quanto ao escandá-lo nas reses sociais, fica patente o descaso, porém é licito que venha o escanda lo porém ai por quem ele vem.

wellington Barbosa Gomes

É justamente por esta pregadora ter o cargo que tem, que precisa ter prudência ao falar em público.

José Graciano

Bom dia. A paz do senhor. Verdade pregadores disputando quem pegar melhor e criticando o outro para mostrar que é mais santos Devemos pregar sobre Jesus Cristo

gilberto lara da silva

Excelente Pr Ciro Sanches, texto abordado de acordo com a reta justiça (Jo 7.24), oremos para Deus dar Sabedoria para que erros sejam corrigidos e volte-se a olhar Fixamente para Cristo autor e consumador da nossa Fé.

Aragão

Precisamos ter muito cuidado com determinados comentários. A pregadora comentada é membro da AD em Salvador/BA e possui cargo na convenção assembleiana daquele estado (CEADEB). Isso pode gerar certo desconforto,

Carlos Flávio

Feliz comentário Pr. Ciro. Qual é o limite entre gracejo de dom de línguas e pecado contra o Espírito Santo. Lamentável o que está ocorrendo. Resta orar.

Mutirua

Paz pastor! Depois De seculos tentando destruir a igreja, satanas percebeu que quanto Mai's matava cristaos, o triplo surgia? Entao ele adoptou um metodo Mai's astuto, colocar inveja, soberba, altivez, orgulho e um pouco De fermento na doutrina. Nao precisaria fechar ou destruir a igreja, semear discordia sria a arma perfeita! Foi isso que ele fez! Esta ai o resultado.

Alessandro Migi

Infelismente a guerra está travada no nosso meio, pregadores contra pregadores, cada um disputando seu espaço, o que nnão dizer da CGADB com essa luta interminavel na justiça para saber quem vai sentar na cadeira "Suplema do poder", que Deus tenha misericordia.

Leones Pereira de Jesus

Parabéns meu professor teológico.. Temos que rever nossos conceitos.. Sábias palavras...

Walter Filho

Olá Pr. Ciro! Excelente colocação. Certamente não esperaria menos de sua parte. Saudade de ouví-lo ministrar em minha igreja, sede - AD Cordovil... precisamos renovar o espírito com mensagens inspiradas e vindas do Trono do Altíssimo!

Reginaldo Torres

A coisa está feia!! De fato Jesus esta as portas para levar sua igreja. Eu mesmo tenho procurado vigiar muito nesta area pois na Noruega pais onde moro também existe uma disputa muito grande entre os pastores brasileiros e espanos. Fica uma disputa para se mostrar quem é o melhor pastor, o mais ungido, a igreja mais perfeita e ungida, e assim ficam se gladeando, nao visitam uns aos outros, nao permitem seus membros irem visitar uns aos outros. Enquanto isso os nao cristaos ficam so observando.

Denise

Tristes e lamentáveis episódios. E o senhor foi perfeito na análise dos mesmos.

anderson rauchback

Parabenizo o pastor Ciro pelas sabias palavras por q o q vem acontecendo e lamentável e macula o evangelho e abre brecha para o inimigo zombar e blasfemar o evangelho usando pessoas impias para difamar o santo evangelho

Sérgio Luís

Seria cômico, senão fosse trágico! Parabéns,pr.Ciro.

Patrícia

Comentário MARAVILHOSO Pastor!!! Como sempre dá gosto ler o que o senhor escreve. Que Deus lhe conserve. Fica na Paz

Carlos souza

Caro pastor ciro que texto forte e conflitante. A medida que eu ia lendo os meus olhos se encheram de lágrimas com tristeza no coração. Visto que isso é lamentável, vergonhoso para nós cristão em ver que o objetivo do evangelho que é resgatar almas está sendo desvirtuado por esses pseudo-pregadores que tem mercadejado a palavra de Deus. Mais ainda acredito que tem homens e mulheres de Deus que tem sido sérios naquilo que foram chamados que foi exatamente pregar a palavra. Paz do Senhor!

Maria das Dores Sva das C.Borges

Aplaudo as palavras do Pr.Ciro.Muito lamentável tudo o que vem acontecendo.Enquanto isso o inimigo age.Que Deus use de misericórdia para conosco,pentecostais de meados do século XXI.

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Perfil

Ciro Sanches Zibordi é pastor, escritor, membro da Casa de Letras Emílio Conde e da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Autor do best-seller “Erros que os pregadores devem evitar” e das obras “Mais erros que os pregadores devem evitar”, “Erros que os adoradores devem evitar”, “Evangelhos que Paulo jamais pregaria”, “Adolescentes S/A” e “Perguntas intrigantes que os jovens costumam fazer”, todos títulos da CPAD. É ainda co-autor da obra “Teologia Sistemática Pentecostal”, também da CPAD.

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