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Ciro Sanches Zibordi

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O que a Bíblia diz sobre o Milênio? (parte 1)

Seg, 29/02/2016 por Ciro Sanches Zibordi

Quando estudamos sobre o Milênio em Teologia Sistemática, precisamos confrontar as diversas escolas filosóficas do Milênio com o que a Bíblia realmente diz sobre o assunto. Num próximo artigo, pretendo discorrer sobre o Reino Milenar do Senhor à luz da Bíblia. Neste, meu objetivo é apresentar uma definição sucinta das três principais interpretações a respeito desse glorioso evento escatológico.

O QUE É O AMILENARISMO?

Também conhecido como amilenismo, é uma escola de interpretação que espiritualiza boa parte das passagens bíblicas futuríveis. O amilenarismo interpreta, a qualquer custo, as profecias sobre o Reino de Deus na Terra à luz da obra redentora de Cristo. Na cruz, ao dar o último brado, o Senhor teria — simbolicamente — aprisionado Satanás. Isso significa que o Senhor limitou o poder do Inimigo de enganar as nações (cf. Ap 20.1-3). De acordo com esse sistema, a Segunda Vinda não terá duas etapas. Tudo acontecerá de uma vez só, “naquele Dia”. Quanto aos “mil anos” —mencionados clara e textualmente em Apocalipse 20.1-7 por seis vezes —, trata-se apenas de um número simbólico, que indica um período de tempo iniciado na primeira vinda de Cristo, o qual nunca terminará! Não haverá, por conseguinte, um Reino Milenar, físico, pois o Reino Eterno, espiritual, já está em plena atividade.

Os próprios amilenaristas, entretanto, têm reconhecido que é impossível ser dogmático quanto ao que significa o termo “mil anos” em Apocalipse 20. Em outras palavras, eles têm preferido negar o que está clara e literalmente escrito, a fim defender uma interpretação baseada numa mera hipótese! Afinal, até que ponto esse sistema amilenarista seria verossímil e biblicamente fundamentado, para, por meio dele, negarmos o que está escrito no versículo 4: “reinaram com Cristo durante mil anos”? Entre uma hipótese e o que está escrito, é melhor abraçar o que está escrito.

O QUE É O PÓS-MILENARISMO?

Também chamado de pós-milenismo, esse sistema de interpretação tem semelhanças com o anterior, haja vista afirmar que não haverá um período de mil anos em que Cristo reinará literalmente na Terra, e que o Diabo já foi aprisionado quando o Senhor morreu, no Gólgota. No primeiro advento do Senhor teria acontecido o esmagamento pactual do Inimigo. Nesse caso, o anjo que o prendeu (cf. Ap 20.1) seria o próprio Senhor Jesus. E os resultados disso estariam ocorrendo progressivamente ao longo da História. Entretanto, não há como interpretar, à luz das Escrituras, o texto de Apocalipse 20.1-3 como uma alusão ao suposto aprisionamento de Satanás ocorrido na cruz. Afinal, a própria Palavra de Deus assevera que ele é “o príncipe das potestades do ar” (Ef 2.2); e pode, inclusive, opor-se hoje aos servos do Senhor (1 Ts 2.18; 1 Pe 5.8,9; Ef 6.11,12).

Se o Inimigo tivesse mesmo sido aprisionado quando Jesus foi crucificado, de que maneira teria conseguido encher o coração de Ananias, para que este mentisse ao Espírito Santo (At 5.3)? Por que Paulo afirmou que “o deus deste século [o Diabo] cegou os entendimentos dos incrédulos” (2 Co 4.4)? E por que o doutor dos gentios, ainda, afirmou que não ignorava os ardis de Satanás (2 Co 2.11)? O pós-milenarismo — e também o amilenarismo — afirma que Cristo está reinando, mas em espírito. Ele foi entronizado como Rei logo após as suas ressurreição e ascensão. E o fato de Ele estar hoje assentado à mão direita de Deus, nas regiões celestiais, denota que o “Reino Milenar” está em plena atividade. Pouco a pouco, o Rei conquistará o mundo pela vitória do Evangelho.

Para essa escola de interpretação, o Milênio é uma extensão do período da Igreja que ocasionará uma grande disseminação do evangelho. Os “mil anos”, pois, seriam simbólicos e corresponderiam ao período entre a morte de Cristo e a evangelização total do mundo. O que isso significa? Que os “mil anos” de Apocalipse 20.1-7 já seriam, hoje, mais de dois mil anos! Mais uma vez estamos diante de uma hipótese, contra a qual pesa a afirmação clara contida na revelação dada a João: “reinaram com Cristo durante mil anos” (v. 4).

O QUE É O PRÉ-MILENARISMO?

Chamado também de pré-milenismo, trata-se de uma escola de interpretação que, em geral, honra as Escrituras, afirmando que Cristo voltará antes do Milênio. Por outro lado, dependendo de seu subsistema de interpretar o período tribulacionista, pode se mostrar contraditória. Haja vista o pós-tribulacionismo e o mesotribulacionismo, correntes pré-milenaristas que defendem a ideia — já refutada em artigos anteriores, neste blog — de que a Igreja passará pela Grande Tribulação ou pela primeira parte dela. O sistema de interpretação que se ajusta melhor ao que as Escrituras dizem, em dúvida, é o pré-milenarismo pré-tribulacionista. No entanto, a Palavra de Deus não apoia este ou aquele sistema. O processo é inverso. Ela simplesmente é a verdade; cabe a nós aceitá-la, despojando-nos de todo preconceito. O que está escrito nas Escrituras é a verdade, concordem ou não os teólogos, com as suas escolas. Nesse caso, não é a Bíblia que é pré-milenarista pré-tribulacionista; é esta escola que é bíblica.

Por que o pré-milenarismo pré-tribulacionista rejeita a hermenêutica preterista? Tanto o amilenarismo como o pós-milenarismo fazem uso da hermenêutica preterista para interpretar o livro de Apocalipse. Nesse caso, a Grande Tribulação — segundo boa parte dos exegetas dessas escolas — já teria acontecido, e o Anticristo, se manifestado, na geração contemporânea de Cristo. Como apoio à sua interpretação, empregam passagens do próprio livro de Apocalipse que tratam da iminência das “últimas coisas”, afirmando que estas já se cumpriram ainda no século I (cf. Ap 1.1,3; 22.7,10,12).

Não obstante, se acreditarmos que já estamos no Milênio — sendo este supostamente um período indefinido entre a morte de Cristo e a evangelização mundial, ou um Reino Eterno inaugurado na primeira vinda do Senhor—, o Arrebatamento da Igreja não será o primeiro evento escatológico, e sim o fim de todas as coisas. E isso implicaria adaptar toda a mensagem da Bíblia a esse sistema preterista de interpretação, além de ignorar a clara sequência cronológica contida em Apocalipse 19 a 22:

1) A Igreja glorificada no Céu antes da Grande Tribulação (19.1-10; cf. caps. 4-6).
2) A Manifestação de Cristo em poder e grande glória com a Igreja (19.11-16).
3) A batalha do Armagedom (19.17-19).
4) A vitória de Cristo sobre o Império Anticristão (19.20,21).
5) A prisão de Satanás (20.1-3).
6) A ressurreição dos mártires da Grande Tribulação (20.4,5).
7) O Milênio (20.4-6).
8) A liberação de Satanás após o Milênio (20.7-9).
9) A condenação eterna do Diabo (20.10).
10) O Juízo Final (20.11-15).
11) Novo Céu e Nova Terra (caps. 21-22).

Como explicar o fato de que haverá duas ressurreições e vários julgamentos? Todos os eventos mencionados após o Arrebatamento se darão num só instante? Tentemos imaginar como seria isso. O Arrebatamento da Igreja, as ressurreições de justos e injustos, o Tribunal de Cristo, o Julgamento das Nações, o Juízo Final. Enfim, tudo ocorreria num só momento?! Para Deus tudo é possível, mas a Bíblia distingue claramente os julgamentos por meio de aspectos como lugar, participantes, critério do julgamento, momento e resultado, como já vimos em artigos anteriores, neste blog.

Por que os pré-milenaristas pré-tribulacionistas não creem que Jesus só voltará depois que o Evangelho for pregado em todo o mundo? Pós-milenaristas apegam-se ao texto de Mateus 24.14 para afirmar que Jesus só voltará depois de toda a Terra ter sido evangelizada. Mas isso, além de refletir má exegese, retardaria a Segunda Vinda por mais alguns milhares de anos, submetendo a vontade soberana de Deus à vontade dos homens. Na verdade, em Mateus 24.3, os discípulos de Jesus lhe fizeram uma pergunta tríplice, tripartida, e quem lê atentamente todo o sermão escatológico de Jesus (Mateus caps. 24-25), percebe que a resposta do Senhor também foi tríplice, mas não necessariamente em ordem cronológica. Jesus falou de eventos que ocorreriam num futuro próximo — a destruição de Jerusalém, no ano 70 — e de outros dois tipos de acontecimentos que se dariam num futuro mais remoto.

Em Mateus 24.14, Ele disse: “E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim”. O termo “fim”, aqui, tendo em vista a tríplice pergunta dos discípulos, não diz respeito à Segunda Vinda, e sim ao “fim do mundo” (cf. v. 3). Quando, pois, o Evangelho do Reino será pregado em todo o mundo? Somente no Milênio, quando a Terra então se encherá do conhecimento do Senhor (Is 2.3), e o próprio Cristo estará reinando. Daí a ênfase “evangelho do Reino”, ainda que esta expressão também seja empregada em referência ao Evangelho pregado nos dias hoje (cf. Mc 1.14). O texto de 1 Coríntios 15.24,25 corrobora esta explicação: “Depois, virá o fim, quando tiver entregado o Reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo império e toda potestade e força. Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés”. Observe que o fim só virá depois que Cristo reinar (cf. Dn 2.36-44)! Aqui temos uma clara alusão ao Milênio.

Por que os pré-milenaristas pré-tribulacionistas rejeitam a explicação amilenarista e pós-milenarista para os “mil anos”? Pós-milenaristas e amilenaristas apresentam inúmeros argumentos contra o Milênio, baseados em passagens extraídas do contexto. Apesar disso, reconhecem que é difícil negar a literalidade da expressão “mil anos”, mencionada seis vezes em Apocalipse 20.1-7. Numa tentativa de justificarem o seu sistema, os pós-milenaristas têm afirmado que a palavra “mil”, em Apocalipse 20, é simbólica. Como mil é o cubo de dez (10 x 10 x 10), dizem, e este é um número de perfeição quantitativa, os “mil anos” serviriam como descrição simbólica da glória permanente do Reino que Cristo estabeleceu quando veio ao mundo.

O pós-milenarismo, aliás, afirma que o livro de Apocalipse deve ser interpretado, em geral, de maneira simbólica, e isso lhe oferece base para defender a infundada argumentação acima, que espiritualiza várias passagens bíblicas literais. Curiosamente, os defensores dessa escola se valem das parábolas de Jesus e das profecias do Antigo Testamento, e as interpretam simbolicamente para fundamentarem as suas hipóteses! Na verdade, por mais que os teólogos tentem negar a literalidade do Milênio, eles só conseguiriam fazer isso se, de fato, a Palavra de Deus não dissesse, com todas as letras, que ele não é literal. Entretanto, não há como negar um evento escatológico apresentado nas Escrituras com tantas riquezas de detalhes em toda a literatura bíblico-apocalíptica, como veremos no próximo artigo sobre o Milênio.

Maranata!

Ciro Sanches Zibordi

12 comentários

Charles Alexandre Amaral

Sempre tive essa mesma linha de raciocinio e cada vez mais fico convencido que é a mais lúcida!

Washington

Assim que se explica a verdade. Muito bom, Deus continue abençoando Pr Ciro.

edson paes barreto

Pastor. venho por meio dessa lhe falar meus sinceros agradecimentos pelos seus comentarios esta sendo muito construtivo para mim na comprienção das lições biblicas. obrigado!

otavio

Excelente texto, isso é o que eu chamo de dom da palavra!

Ciro Sanches Zibordi

Caro irmão Josué Kessler, se o Milênio (com inicial maiúscula), como disse o irmão, é o cumprimento das profecias alusivas ao Reino eterno, "por que durará mil anos e não eternamente"? Primeiro: o Reino de Deus, a rigor, é um só. Ele nunca deixou de reinar. Nesse caso, o seu reinado hoje, pois já estamos reinando com Ele (Rm 5.17; 1 Co 4.8), e o Reino Milenar fazem parte do seu Reino eterno. Segundo: Cristo reinará mil anos porque está escrito na Bíblia que Ele reinará por mil anos (Ap 20). Paz!

Ciro Sanches Zibordi

Irmão Luciano, a paz do Senhor. Grato por suas palavras sobre o Milênio. No próximo artigo devo discorrer sobre a estátua do sonho de Nabucodonosor. Abraços.

LUCIANO SILVA

Muito bom o texto. Porque o Reino de Cristo é literal? Porque a estátua que o profeta Daniel viu foram reinos literais. Babilônia, o Medo-Pérsa, Grécia e Roma; e porque a pedra que esmiuçará todos os reinos (Dn 2.44) não será!? é contraditório, se o reino de Cristo não for literal. O vs 44 diz: " O Deus do céu suscitará um REINO (o reino de cristo) que não será jamais destruído[...] mas esmiuçará e consumirá todos ESSES REINOS,(representados pela estátua) e subsistirá para sempre".

Josué

Prezado pastor Ciro, as profecias referente ao reinado de Davi, apontam como sendo um reino eterno. Se o milênio é o cumprimento dessas profecias, por que durará mil anos e não eternamente ?

LUCIANO SILVA

Pr. Ciro, qual o significado 666 ( o numero da besta), eu sei que agora o senhor postou sobre (Amilenarismo, pós-milenarismo ou pré-milenarismo). Ficarei grato se responder.

Sidnei

Pastor, obrigado por nos ensinar essas coisas. Deus o abençoe em nome de Jesus.

Carlos Eduardo

Concordo plenamente com o senhor Pastor. Estamos todos os domingos debatendo sobre a Escatologia Bíblica e é incrível como existem até obreiros que defendem essas interpretações espiritualizando as passagens literais das sagradas escrituras. Muito obrigado por nos esclarecer sobre esse assunto. Como gostaria que o senhor me enviasse um exemplar do seu livro "Escatologia, a doutrina das últimas coisas" ficaria muito feliz e me ajudaria a lecionar na nossa ED com mais precisão nesses assuntos.

ROLLINEI LOPES

exelente explicaçao biblica , depois que começei estudar a biblia e dedicar a ela vivendo constantemente na palavra , DEUS me abriu os olhos e pude entender muitas coisas das escrituras como por exemplo que DEUS nunca esqueceu seu povo de israel e que ainda tem planos para eles principalmente no milenio , queiram os amilenista ou nao isso é fato e me considero menos q qualquer judeu em saber q eles sao povo de DEUS e pela sua queda o evangelho chegou a nós os gentios..

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Perfil

Ciro Sanches Zibordi é pastor, escritor, membro da Casa de Letras Emílio Conde e da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Autor do best-seller “Erros que os pregadores devem evitar” e das obras “Mais erros que os pregadores devem evitar”, “Erros que os adoradores devem evitar”, “Evangelhos que Paulo jamais pregaria”, “Adolescentes S/A” e “Perguntas intrigantes que os jovens costumam fazer”, todos títulos da CPAD. É ainda co-autor da obra “Teologia Sistemática Pentecostal”, também da CPAD.

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