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Ciro Sanches Zibordi

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Quais são os eventos escatológicos mencionados em Mateus 24 e 25?

Seg, 22/02/2016 por Ciro Sanches Zibordi

Em minhas palestras de Escatologia Bíblica, tenho notado que uma das passagens das Escrituras que mais tem gerado questionamentos é Mateus 24 e 25. Isso, em grande parte, porque os eventos escatológicos mencionados nesses dois capítulos não foram apresentados por Jesus em ordem cronológica.

Muitos perguntam, por exemplo: “Se em Mateus 24.37-39 Jesus trata do Arrebatamento, como dizem os dispensacionalistas, por que esse evento é mencionado depois da Grande Tribulação? Isso não seria uma indicação clara de que a Igreja passará por esse período?” Em primeiro lugar, não se deve ignorar que a Bíblia é análoga: as Escrituras interpretam as Escrituras. Segundo: Jesus apresentou as verdades contidas em Mateus 24 e 25 a seus discípulos, que ali representavam a Igreja e também Israel, haja vista serem, ao mesmo tempo, os primeiros membros da Igreja e israelitas. Terceiro: Ele respondeu a uma pergunta tripartida, e a sua resposta, conquanto igualmente tripartida, não está, necessariamente, em ordem cronológica.

Mateus 24.1,2 — a invasão de Jerusalém. Ao sair do Templo, o Senhor Jesus foi abordado por seus discípulos, que começaram a lhe mostrar a estrutura daquele edifício. No versículo 2 temos, então, o início do seu sermão profético, com a predição da invasão de Jerusalém pelos romanos no ano 70: “não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada”. As profecias do Senhor sobre o futuro terminam em Mateus 25.46.

Mateus 24.3 — a pergunta tripartida dos discípulos. Ao fazer menção da invasão de Jerusalém e da destruição do Templo, o Senhor ouviu dos discípulos uma pergunta tripartida, abarcando questões alusivas a sinais para “estas coisas”, “tua vinda” e “fim do mundo”. Aqui está uma importante chave para se entender as profecias do Senhor. Ele, como veremos, responde aos discípulos de modo tripartido e faz menção de profecias veterotestamentárias, direta ou indiretamente, reforçando a necessidade de se considerar a analogia bíblica.

Mateus 24.4-14 — sinais escatológicos gerais e a pregação do Evangelho do Reino até o fim. Diante da pergunta tripartida dos discípulos, o Senhor faz inicialmente uma abordagem panorâmica dos sinais sobre o futuro, desde aqueles dias até o fim do mundo. Ele, por enquanto, não menciona nenhum evento específico, mas chama a atenção dos discípulos — que também eram israelitas — para sinais escatológicos gerais, como surgimento de enganadores (vv. 4,5,11), guerras e rumores de guerras, fomes, pestes, terremotos (vv. 6-8), perseguições aos cristãos (v. 9), escândalos, traições, aumento da iniquidade e esfriamento do amor etc. (vv. 10-12).

Jesus termina essa primeira seção discorrendo sobre a pregação do Evangelho do Reino até “o fim” (v. 14). Os termos “Evangelho do Reino” e “fim” indicam, à luz de Apocalipse, que o Senhor se referiu ao Evangelho que será pregado durante a Grande Tribulação, especialmente pelas duas testemunhas e os 144 mil judeus selados por Deus (cf. Ap 7-14), e por ocasião do Milênio, quando toda a terra se encherá do conhecimento do Senhor, de modo intuitivo e também por meio da pregação (cf. Hc 2.4; Jr 31.33,34; Is 2.3; 54.13). Tudo isso que Ele disse teve como objetivo incentivar os salvos a serem perseverantes em qualquer época ou circunstância (Mt 24.13).

Mateus 24.15-28 — predições e advertências para Israel sobre a Grande Tribulação. A partir do versículo 15, com a menção da “abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel” (no Templo), fica claro que o Senhor Jesus passa a tratar especificamente de predições relativas ao que acontecerá em/com Israel — haja vista estar falando também a israelitas — na Grande Tribulação, antes da Manifestação do Senhor. Até o versículo 28 não há dúvida de que Ele está tratando do que acontecerá em/com Israel durante a Grande Tribulação. Jesus faz predições e advertências específicas para Israel, como o alerta de que surgirão falsos cristos (vv. 23-26). E sabemos que os israelitas tementes a Deus também creem na vinda do Messias; mas estão esperando ainda a sua primeira vinda, enquanto nós já esperamos a sua volta ou Segunda Vinda (Jo 14.1-3; Hb 9.28).

Quem pensa que nessa seção Jesus se refere à invasão de Jerusalém, no ano 70, precisa ler com atenção o versículo 21: “nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais” (ARA). A Segunda Guerra Mundial (1939-1945), por exemplo, foi muitíssimo pior para os israelitas que a invasão de Jerusalém do primeiro século. O Mestre conclui essa seção afirmando que, “assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do Homem” (v. 27), numa alusão clara à sua Manifestação em poder e grande glória, com a sua Igreja, no fim da Grande Tribulação (cf. Zc 14.1-11; Jd vv. 14,15; Ap 19.11-21).

Mateus 24.29-35 — a Manifestação do Senhor em poder e grande glória. A partir do versículo 29 o Senhor Jesus passa a fazer menção da sua aludida Manifestação, “logo depois da aflição daqueles dias”, quando “o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas”. Observe que todas as tribos da terra se lamentarão (v. 30), pois Ele então se manifestará para julgar os adoradores da Besta — reunidos na “grande Babilônia”, cidade de Jerusalém tomada pelos inimigos de Israel —, pondo fim ao império do Anticristo (cf. Ap 18.9-24). Segundo Apocalipse 19, a Igreja já estará com o Senhor, por ocasião de sua Manifestação em poder e grande glória.

Nesse caso, quem são os escolhidos, ajuntados por anjos “desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus” (Mt 24.31)? Não há dúvida, com base na analogia geral da Bíblia e no que o Senhor dissera anteriormente, no sermão profético em apreço, que se trata de uma referência ao remanescente dos israelitas tementes a Deus. Estes serão reunidos para o Julgamento das Nações, mencionado pelos profetas do Antigo Testamento, como em Joel 2.30-32; 3.1,2:

“E mostrarei prodígios no céu e na terra, sangue e fogo, e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR. E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como o SENHOR tem dito, e nos restantes que o SENHOR chamar. Porquanto eis que, naqueles dias e naquele tempo, em que removerei o cativeiro de Judá e de Jerusalém, congregarei todas as nações, e as farei descer ao vale de Josafá; e ali entrarei em juízo, por causa do meu povo e da minha herança, Israel, a quem eles espalharam entre as nações, repartindo a minha terra”.

O Senhor Jesus faz menção desse grande acontecimento em Mateus 25.31,32: “quando o Filho do Homem vier em sua glória, [...] se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas diante dele”. O remanescente israelita (cf. Rm 9.27; 11.26) não participará do aludido julgamento na qualidade de réu, pois, “naqueles dias e naquele tempo”, Deus removerá “o cativeiro de Judá e de Jerusalém” (Jl 3.1). Em seguida, será instaurado o Milênio, e “o SENHOR será rei sobre toda a terra; naquele dia, um será o SENHOR, e um será o seu nome” (Zc 14.9).

Mateus 24.36-51; 25.1-13 — o Arrebatamento da Igreja e outros eventos. Jesus conclui a seção pela qual trata do futuro de Israel e começa outra. A transição está clara em 24.34-36 (leia com atenção). De 24.36 até 25.13 o Mestre fala especificamente à sua Igreja, representada, ali, pelos seus discípulos, e discorre sobre o Arrebatamento, fazendo menção, também, do Tribunal de Cristo (24.45-51), das Bodas do Cordeiro (25.10) e do Inferno (24.51). Quem diz que a parábola das dez virgens alude a Israel precisa observar que ela começa com o conectivo “Então”, que liga o início do capítulo 25 ao que o Senhor já vinha abordando anteriormente: sua iminente vinda e a importância de estarmos prontos para ela (24.36-51).

Mateus 25.14-30 — o Tribunal de Cristo. Após concluir a parábola das dez virgens dando ênfase à iminência do Arrebatamento da Igreja: “Vigiai, pois, porque não sabeis o Dia nem a hora em que o Filho do Homem há de vir” (v. 13), o Senhor Jesus passa a discorrer sobre o Tribunal de Cristo, que é melhor compreendido à luz das explicações do apóstolo Paulo (Rm 14; 1 Co 3; 2 Co 5 etc.). Mas observe que, ao tratar do julgamento dos salvos para efeito de galardão, o Senhor também faz menção do Inferno (Mt 25.30), deixando claro que muitos que estão entre nós sequer comparecerão ante o Tribunal de Cristo (cf. Mt 7.21-23), visto que este será destinado apenas aos santos arrebatados (1 Ts 4.16,17; Ap 22.12).

Mateus 25.31-46 — o Julgamento das Nações. O último assunto apresentado pelo Senhor Jesus em seu sermão profético é o Julgamento das Nações, o qual se dará durante toda a Grande Tribulação (Zc 12-14; Jr 50.20), tendo a sua consumação com a Manifestação do Senhor. Quem não considera a analogia geral da Bíblia terá grande dificuldade de entender essa parte da revelação apresentada por Jesus. Ele compara as nações reunidas a bodes e ovelhas, postas à esquerda e à direita do Justo Juiz. Fica claro, à luz de Joel 3, que as nações-bodes e nações-ovelhas são as que, respectivamente, fizeram mal e bem a Israel.

Jesus conclui a presente seção — e também o seu sermão profético — dizendo: “E irão estes para o tormento eterno, mas os justos, para a vida eterna” (Mt 25.46). Isoladamente, os termos “tormento eterno” e “vida eterna” poderiam ser grosso modo chamados de Inferno e Céu, mas, como a Bíblia é análoga, não podemos deixar de conferir outras passagens escatológicas e o próprio contexto imediato do versículo em apreço. À luz de Mateus 10.28 e Apocalipse 20.15, o primeiro termo, “fogo eterno”, equivale a “tormento eterno” (gr. kolasin aiõnion), Geena e Lago de Fogo (gr. limnem ton purós).

Quanto ao segundo termo, “vida eterna”, está claramente associado ao que o Senhor havia dito a respeito do Reino, isto é, o Milênio: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34). Ou seja, os representantes de países absolvidos no Julgamento das Nações, sobreviventes da batalha do Armagedom, irão para a vida eterna no sentido de que, ao ingressarem como povos naturais no Reino de mil anos previamente preparado por Deus, terão a oportunidade de receber a salvação eterna por meio de Jesus Cristo e permanecer nEle, assim como ocorre hoje, antes do Arrebatamento da Igreja (cf. Jo 3.16; Mt 24.13). Maranata!

Ciro Sanches Zibordi

10 comentários

Dieney Kessili Gomes dos Reis Araújo

Pastor, a paz do Senhor? Muito interessante as suas colocações; parabéns! Gostei muito do estudo, não só desse mais como os demais artigos postados! Vale a pena ler os mesmos, que Deus continue te usando, como é bom ouvi-lo!

carlos cesar gomes mendes

Pr.como vc explica 2Ts2.1-3, q Paulo diz q o.anticristo vem antes do arrebatamento?

Vania

Pr Ciro, duas perguntas:Os espíritos que estão no seio de Abraão, descerão no Juízo final para receberem corpos glorificados e depois subirão com cristo nas nuvens? outra dúvida: A alma é onde armazenamos o que vivemos no corpo , as escolhas que fazemos e quando morremos o nosso espírito vai para o seio de Abraão com as informações do que fizemos no corpo , pois a alma também faz parte do espírito? Conforme a parábola do rico e o mendigo.

Jocélio

Pastor Ciro, já estamos há 1946 anos na Nova Aliança Eterna que Jesus nos trouxe através da sua paz, amor, misericórdia, unidade de fé e reta justiça. O apocalipse aconteceu no ano 70 d.C (Mateus 24). Leia Apoc 1 19 Não existe condenação eterna (Rom 8 1) àqueles que erram por não examinarem as escrituras porque aqueles que sabem que devem fazer o bem não fazem (Tiago 4 17). Odiar alguém é desobedecer, é ser mentiroso e ser homicida. 1 João 4 20, 1 João 3 15 e Apoc 22 15

Jocélio

O apocalipse aconteceu no ano 70 d.C. Jesus não está voltando; ele é o santíssimo ungido em toda a humanidade. (Daniel 9 24 e 1 Pedro 2 9 10) http://www.cpadnews.com.br/blog/cirozibordi/apologetica-crista/187/quais-sao-os-eventos-escatologicos-mencionados-em-mateus-24-e-25.html

luis claudio

a paz do Senhor. Só queria saber se o povo de Israel vai receber a marca da besta no período da grande tribulação. por quem receber, sera condenado.

Sérgio Luís

Pr. Ciro, parabéns pelo texto,que Deus continue abençoando ao amado irmão. Ao ler artigos como este, fica claro para mim, a necessidade de conhecer melhor a palavra do Senhor. "Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade." 2 Timóteo 2:15

Sidnei

Pastor Ciro, Tive acesso ao "Blog do Ciro" hoje, não sei se o senhor ainda administra o blog, enfim, gostaria de parabeniza-lo pelo artigo: "Expiação ilimitada - Porque Deus amou o mundo de tal maneira" texto de J.3.16. Não sei há quanto tempo o senhor postou o referido artigo, confesso que talvez eu esteja muito desatualizado, porém mesmo que seja um post antigo, esta mais atual que nunca! obrigado pelo texto muito me edificou (em tempos de calvino, calvino, calvino . . .)

LUCIANO SILVA

Nossa! Que abordagem sobre Mt 24, maravilhosa! Precisamos de verdadeiros ensinadores assim, que o Espírito Santo continue lhe usando Pr. Ciro, parabéns.! 1Tm 4.6 Expondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido. Que possamos seguir a boa doutrina, e ter cuidado, porque, nem toda doutrina é boa!

osmar de paula

Porque os Adventista em ensina um outro Evangelho. diz que os crista reinaram por mil anos com cristo no céu, ensina quando Jesus morreu nem foi para o céu e. e nem pro inferno, negando quando o ser humano quando morre não vai nem pro céu e nem pro inferno.

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Perfil

Ciro Sanches Zibordi é pastor, escritor, membro da Casa de Letras Emílio Conde e da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Autor do best-seller “Erros que os pregadores devem evitar” e das obras “Mais erros que os pregadores devem evitar”, “Erros que os adoradores devem evitar”, “Evangelhos que Paulo jamais pregaria”, “Adolescentes S/A” e “Perguntas intrigantes que os jovens costumam fazer”, todos títulos da CPAD. É ainda co-autor da obra “Teologia Sistemática Pentecostal”, também da CPAD.

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