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Ciro Sanches Zibordi

Ciro Sanches Zibordi

São vasos da ira as crianças supostamente não eleitas antes da fundação do mundo?

Qui, 03/09/2015 por Ciro Sanches Zibordi

No artigo anterior discorri brevemente sobre os “vasos da ira”, mencionados em Romanos 9.22, os quais — para alguns pensadores cristãos — seriam pessoas que Deus previamente, antes da fundação do mundo, destinou ao Inferno. Com base nesse pensamento, consideremos o seguinte caso: uma criança nasce, vive alguns minutos e morre. Segundo a tese da eleição incondicional, se ela fizer parte do seleto grupo de eleitos, terá a garantia da salvação eterna. Entretanto, o que acontecerá com essa criança caso ela não faça parte desse grupo?

A maioria dos cristãos acredita na salvação das crianças que ainda não amadureceram o suficiente para crer no Evangelho. Afinal, o Senhor Jesus afirmou que delas é o Reino de Deus (Mc 10.13-16). Crê-se que esses infantes, caso venham a morrer, estarão protegidos pela graça de Deus e automaticamente salvos da condenação, haja vista não terem a capacidade de atender à condição exigida para o recebimento da salvação: crer no Senhor Jesus (cf. Mc 16.16; Jo 3.16). Entretanto, alguns defensores da eleição incondicional — afirmando que Deus já elegeu de antemão uns para a salvação e, consequentemente, outros para a perdição — têm dito que existem pessoas salvas e perdidas, mesmo antes de nascerem, haja vista salvação e condenação decorrerem da eleição soberana de Deus.

Ninguém menos que Calvino defendia a tese da condenação de crianças que não façam parte do grupo seleto de eleitos! “Os pequeninos que recebem o sinal da regeneração e da renovação, se passam deste mundo antes de chegarem à idade da razão, caso tenham sido escolhidos pelo Senhor, são regenerados e renovados pelo seu Espírito, como lhe apraz, segundo o seu poder, para nós oculto e incompreensível” (As Institutas [2006], III.11). Segundo esse pensamento, seria totalmente equivocada a ideia de que as crianças imaturas herdarão o Reino de Deus automaticamente só por serem incapazes de crer no Evangelho.

Os defensores da tese da salvação ou condenação de crianças imaturas mentalmente mediante eleição soberana argumentam — acertadamente — que o termo grego toiouton, em Mateus 19.14, não se refere à salvação de crianças, e sim às pessoas que se assemelham a elas. Mas, na passagem correlata de Marcos 10.14-15, está escrito: “Deixai vir os pequeninos a mim e não os impeçais, porque dos tais é o Reino de Deus. Em verdade vos digo que qualquer que não receber o Reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele”.

Em outras palavras, as crianças são tão puras, simples, humildes, que foram tomadas para exemplificar como devem ser os adultos verdadeiramente convertidos (Mt 18.1-4). E, se os infantes são o padrão para os que hão de herdar o Reino de Deus, por que a alguns deles seria negada a entrada no Céu? O que as Escrituras estão dizendo, em última análise, é que, assim como o Reino de Deus é recebido pelas crianças, também o será por aqueles que se fizerem semelhantes a elas.

Há outra passagem usada em defesa da suposta condenação prévia de crianças mentalmente imaturas: Marcos 9.21-22. Esta mostra que um rapaz estava possuído — antes de ter sido liberto por Jesus Cristo — por um espírito mudo desde a sua infância. Entretanto, o fato de o Senhor ter expulsado o demônio daquele rapaz não o transformou em uma pessoa salva, visto que a salvação da alma depende de arrependimento e fé (At 3.19; Rm 10.9,10). O Senhor apenas deu àquele jovem a oportunidade de, a partir daquele momento, tomar a decisão de segui-lo (cf. Lc 9.23).

E, se a expulsão de demônios da vida de uma pessoa não lhe garante a salvação de imediato, sendo necessários, ainda, o arrependimento e a fé, não se pode, também, afirmar que uma criança mentalmente imatura esteja sentenciada ao Inferno pelo fato de não ter, por si mesma, como se defender do ataque de espíritos malignos. Afinal, muitas crianças que sequer conseguem falar e andar direito já são atormentadas e apresentam comportamento estranho, resultante de possessão ou influência demoníaca.

Alguns pensadores cristãos têm afirmado — também de modo errôneo — que todas as crianças, pelo simples fato de serem consideradas imaturas mentalmente, estão salvas, exatamente por causa disso. Esse conceito é antibíblico e extremado, visto que a salvação sempre se dá pela graça de Deus, e não por nossos méritos (Tt 2.11; Rm 3.20). Por outro lado, podemos crer que Deus oferece a expiação — já realizada na cruz por Jesus Cristo — às crianças que não têm idade para prestação de contas, considerando que elas não têm maturidade para crer (Jo 3:36; Mc 16.16). Mas que fique claro o seguinte: a salvação delas se dá exclusivamente pela graça de Deus, e não simplesmente por serem crianças.

No Trono Branco, todos os mortos condenados comparecerão diante do Juiz para receberem a sentença. E o julgamento de cada um desses ímpios se dará “segundo as suas obras” (Ap 20.12,13). Ora, no caso das crianças mentalmente imaturas, como o Senhor condenaria ao Lago de Fogo pessoas que sequer tiveram a oportunidade de entender o que são as más obras? Essa suposta condenação seria mesmo baseada no fato de a criança não ter sido eleita para a vida eterna?

A Palavra de Deus enumera, em Apocalipse 21.8 e 22:15 as más obras que condenarão os ímpios ao Inferno: “quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicários, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre, o que é a segunda morte. Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira”. De quais más obras o Justo Juiz acusaria os infantes que sequer alcançaram a maturidade necessária para entender o que é pecado?

Embora seja difícil estabelecer-se precisamente a fase da imaturidade para se crer no Evangelho, se a morte de uma pessoa ocorrer nesse período da vida, ela seria — sem dúvida — alcançada pela graça de Deus, uma vez que “dos tais é o Reino de Deus” (Lc 18.16,17). Conquanto essa argumentação seja bastante lógica para a maioria dos cristãos, sabemos que, seja qual for o critério usado pelo Justo Juiz, Ele jamais condenará pessoas de modo arbitrário (Gn 18.23-33). Poria Deus uma pessoa no mundo por alguns minutos tão-somente para, de modo sádico e sem misericórdia, condená-la ao Inferno e considerá-la um “vaso da ira”, criada exclusivamente para ser conderada? Portanto, é falaciosa a ideia de que o amoroso e justo Deus lançará no Inferno “segundo as suas obras” as pessoas que viveram poucos minutos no mundo considerando que estas não fazem parte do grupo seleto de eleitos.

Ciro Sanches Zibordi

18 comentários

Ciro Sanches Zibordi

Caro pastor Marcelo Medeiros, a paz do Senhor. Nesse caso, um arminiano poderá fazer um gracejo: "Se uma criança, em sua condição de imaturidade, está salva, caso morra nessa fase, mesmo que ela sobreviva, pode-se dizer, continuará salva, visto que... uma vez salvo, salvo para sempre". Risos. Que Deus Deus o abençoe, meu prezado amigo. Abraços.

Marcelo Medeiros

O teólogo Jonh Piper esclarece esta questão em um vídeo no qual afirma que as crianças, como todos nós, serão julgadas por suas obras, e em função do que conhecem (Rm 2. 14, 15), Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam (At 17. 30 ACF). Se uma criança não pode responder de tal forma e morre, é lógico para Piper que ela será salva.

amiel nascimento da rocha

Certamente Deus jamais condenaria uma criança que acaba de nascer e logo depois morre,pois Deus não é determinismo fatalista,mas sei que Deus quando criou todas as coisas já determinou um fim para cada uma delas pois Ele sonda e conhece o interior de cada ser humano.Quanto as escolas teológicas e suas interpretações fico com as palavras de Deus que está acima de qualquer homem da terra.

samuel lopes

Pr. Ciro, acho incrível que os nossos irmãos evangélicos estejam frequentando assiduamente o portal (pre)destinado (risos) aos assembleianos! Continue com este ministério abençoado! Paz,

Yésio Alexandre Leão Soares

A condenação não vem por ser uma "pessoa ou humano", e sim por causa do pecado. Que pecado cometeu um bebê que ficou somente alguns segundos vivos? Nenhum, então não pode ser condenado. A estes só podemos (nós os humanos adultos) enxergar vida eterna sem procurar condená-los, tanto por consciência, quanto por escola teológica; Rm 6. 22-23. Vejo que discussões como esta coloca Jesus Cristo em segundo plano, primeiro é a minha vaidade, meu egoísmo... procurar condenar alguém me faz sentir bem!!!

andré ferreira

Assim também entendo que toda a criança (sem discernimento) é salva pela graça de Cristo, quanto aos adultos ou os com discernimento é necessário nascer de novo no espírito, no entanto aos que eram da velha aliança receberam em o ensinamento de Cristo no local em que estão aprisionados " No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão; Os quais noutro tempo foram rebeldes..." aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca

George RIbeiro

Pr Ciro, a paz do Senhor. Sobre esse assunto complexo concordo com o senhor, que todas as crianças que morrem antes da idade da razão são salvas pela graça de Deus. Me posiciono biblicamente com C. H. Spurgeon, de que todas as crianças que morrem na infância são eleitas pelo Senhor para a salvação.

andré ferreira

"Necessário vos é nascer de novo" "Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram." "Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida." Assim entendo que antes de Cristo, toda a carne era condenada pelo pecado original de Adão;

osmario de souza santos

A PAZ ROMANOS 3/ 23 " PORQUE TODOS PECARAM E DESTITUIDOS DA GLÓRIA DE DEUS. QUIANDO NASCEMOS NÃO JA SAMOS PECADORES, HEBREUS 12/14 "SEGUI A PAZ COM TODOS, E A SANTIFICAÇÃO, SEM A QUAL NINGUÉM VERA O SENHOR.. NÃO EXISTE NÃO PECADORES,

Sérgio Luís

Pr.Ciro,a paz do Senhor. Assunto intrigante. Texto muito claro e didático. O debate é saudável.

Sidnei

Pastor Ciro, parabéns pelo texto. Eu também creio assim. Deus o abençoe em nome de Jesus!

Pr. Damasceno

Paz do Senhor a todos. O assunto é importante e a discussão, também. Contudo, partindo do entendimento que a crença (ou a descrença) em Cristo é o divisor de águas em relação à salvação e, levando em conta o fato de que a fé deve ser uma atitude "racional" (deve haver entendimento) do que crer, o Pr. Ciro Zibordi foi extremamente didático e feliz na exposição do raciocínio sobre tão discutível tema. Sempre combati, com amor, posicionamentos onde a ideia da condenação de crianças encontra apoio.

Ciro Sanches Zibordi

Mauro Oliveira, eu me posiciono à luz da Bíblia. Ela é a Palavra de Deus. Calvino e Armínio foram teólogos, e não deuses; calvinismo e arminianismo são escolas de interpretação, e não o Evangelho. Portanto, tenho liberdade para examinar tudo e me posicionar exegeticamente. O que escrevi, penso, tem fundamentação nas Escrituras. Que Deus o abençoe.

Ciro Sanches Zibordi

Caro pastor Giovani Varela, veja o que o irmão disse: "Não precisamos cometer pecado, para sermos considerados pecadores diante de Deus". Isso é verdade. Mas é preciso considerar outros pormenores da Palavra de Deus. Se uma criança nasce e morre em seguida e, depois, no dia do juízo, ouve a sentença de que está sendo condenada segunda as suas obras, estamos diante de uma tremenda injustiça, à luz da própria Bíblia. O nosso Deus é amor e é o Justo Juiz. Medite melhor sobre o assunto.

Ciro Sanches Zibordi

Maxwel, a salvação é sempre pela graça de Deus. Mas no texto explico um caso excepcional em que crianças mentalmente imaturas são alcançadas por essa graça sem precisarem crer e se arrepender, que são duas condições necessárias, em geral, para o recebimento da salvação em Cristo.

Mauro Oliveira

Graça e Paz! Achei muito pertinente o artigo, mas o irmão precisa se posicionar de maneira mais clara. O pastor disse que não concorda com Calvino que diz que as crianças não eleitas não são alcançadas pela graça de Deus. Não concorda com uma parcela dos arminianos de que todas as crianças na idade da ''inocência'' são salvas. Mas concorda que todas as crianças sem a idade da maturidade serão salvas pela graça de Deus, isto é, salvas pela inocência. Ai já não é graça.

Pr. giovani varela

Amado Ciro, sei de sua preocupação com relação a este assunto. Mas o que você falou com relação as crianças está fora de contexto, aja vista que todos nascemos em Adão, e como consequência somos herdeiros de uma corrupção por conta do pecado. Não precisamos cometer pecado, para sermos considerados pecadores diante de Deus. Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram. Rm.5.12.;

Maxwel

As crianças são puras porque são imaturas, ou seja, não possuem ainda discernimento e por isso sem pecado? Podemos afirmar que as crianças são salvas por essa ''pureza''?

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Perfil

Ciro Sanches Zibordi é pastor, escritor, membro da Casa de Letras Emílio Conde e da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Autor do best-seller “Erros que os pregadores devem evitar” e das obras “Mais erros que os pregadores devem evitar”, “Erros que os adoradores devem evitar”, “Evangelhos que Paulo jamais pregaria”, “Adolescentes S/A” e “Perguntas intrigantes que os jovens costumam fazer”, todos títulos da CPAD. É ainda co-autor da obra “Teologia Sistemática Pentecostal”, também da CPAD.

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